A Origem das Espécies
Capitulo XIV · Afinidades mútuas dos seres organizados; morfologia; embriologia; órgãos rudimentares
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CAPITULO XIV
Afinidades mútuas dos seres organizados; morfologia; embriologia; órgãos rudimentares
-Classificação: grupos subordinados a outros grupos.
-Sistema natural.
-As leis e as dificuldades da classificação explicadas pela teoria da descendência com modificações.
-Classificação das variedades.
-Emprego da genealogia na classificação.
-Caracteres analógicos ou de adaptação.
-Afinidades gerais, complexas e divergentes.
-A extinção separa e define os grupos.
-Morfologia, entre os membros de uma mesma classe e entre as partes de um mesmo indivíduo.
-Embriologia; suas leis explicadas por variações que não surgem numa idade precoce e que são hereditárias na idade correspondente.
-órgãos rudimentares; explicação da sua origem.
-Resumo.
CLASSIFICAÇÃO
Desde o período m ais rem oto da história do Globo nota-se entre os seres organizados um a sem elhança contínua hereditária, de m odo que se podem classificar em grupos subordinados a outros grupos. Esta classificação não é arbitrária, com o é, por exem plo, o grupo de estrelas em constelações. A existência dos grupos teria um a significação m uito sim ples se um tivesse sido exclusivam ente adaptado a viver na terra, outro na água; este a nutrir-se de carne, aquele de vegetais, e assim sucessivam ente; m as é tudo ao contrário; pois se sabe que, m uitíssim as vezes, os m em bros de um m esm o grupo têm hábitos diferentes. Nos segundo e quarto capítulos, sobre a Variação e sobre a Seleção Natural, ensaiei dem onstrar que, em cada região, são as espécies m ais espalhadas e m ais com uns, isto é, as espécies dom inantes pertencendo aos m aiores gêneros de cada classe, que variam m ais. As variedades ou espécies nascentes produzidas por estas variações convertem -se ulteriorm ente em espécies novas e distintas; estas últim as tendem ,
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em virtude do princípio da hereditariedade, a produzir por seu turno outras espécies novas e dom inantes. Por conseguinte, os grupos j á consideráveis que com preendem ordinariam ente num erosas espécies dom inantes, tendem a aum entar sem pre cada vez m ais. Ensaiei, além disso, dem onstrar que os descendentes variáveis de cada espécie procurando sem pre ocupar o m aior núm ero de espaços diferentes que lhes é possível na econom ia da natureza, esta concorrência incessante determ ina um a tendência constante à divergência de caracteres. A grande diversidade das form as que entram em tão viva concorrência, num a região m uito restrita, e certos atos de aclim atação, vêm em apoio desta asserção. Procurei tam bém dem onstrar que existe, nas form as que estão em via de aum entar em núm ero e de divergir em caracteres, um a tendência constante em substituir e em exterm inar as form as m ais antigas, m enos divergentes e m enos perfeitas. Peço ao leitor para de novo lançar um olhar sobre o quadro representando a ação com binada destes diversos princípios; verá que têm um a conseqüência inevitável, e que os descendentes m odificados de um antepassado único term inaram por se separar em grupos subordinados a outros grupos. Cada letra da linha superior da figura pode representar um gênero com preendendo m uitas espécies, e o conj unto dos gêneros da m esm a linha form a um a classe; todos derivam , com efeito, de um a m esm a fonte e devem , por isso, possuir alguns caracteres com uns. Mas os três gêneros agrupados à esquerda têm , pelo m esm o princípio, m uitos caracteres com uns e form am um a subfam ília distinta da que com preende os dois gêneros seguintes, à direita, que divergiram de um pai com um desde o quinto genealógico. Estes cinco gêneros têm tam bém m uitos caracteres com uns, m as não tantOs que form em um a subfam ília; form am um a fam ília distinta que encerra os três gêneros colocados m ais à direita, os quais divergiram num período ainda m ais antigo. Todos os gêneros, descendidos de A, form am um a ordem distinta da que com preende os gêneros derivados de I. Tem os, pois, aqui um grande núm ero de espécies, descendendo de um avô único, agrupadas em gêneros; estes em subfam ílias, em fam ílias e em ordens, o todo constituindo um a grande classe. É assim , j ulgo eu, que se explica este grande fato da subordinação natural de todos os seres organizados em grupos subordinados a outros grupos,
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fato a que não ligam os sem pre toda a atenção que m erece, porque nos é m uito fam iliar. Podem , sem dúvida, classificar-se de m uitas m aneiras os seres organizados, com o m uitos outros obj etos, quer artificialm ente segundo os seus caracteres isolados, ou m ais naturalm ente pelo conj unto dos seus caracteres. sabem os, Por exem plo, que podem classificar-se tam bém os m inerais e as substâncias elem entares; neste caso, não existe, bem entendido, relação algum a genealógica; não se poderia, pois, alegar qualquer razão à sua divisão em grupos. Mas, para os seres organizados, o caso é diferente, e a hipótese que acabo de expor explica o arranj o natural em grupos subordinados a outros grupos, fato de que outra explicação não foi ainda tentada.
Os naturalistas, com o tem os visto, procuram dispor as espécies, os gêneros e as fam ílias de cada classe, segundo o que eles cham am o sistem a natural. Que se entende por isto? Alguns autores consideram -no sim plesm ente com o um sistem a im aginário que lhes perm ite agrupar os seres que m ais se assem elham , e separar uns dos outros os que m ais diferem ; ou então ainda com o um m eio artificial de enunciar tão breve quanto possível proposições gerais, isto é, form ular por um a frase os caracteres com uns, por exem plo, a todos os m am íferos; por outra, os que são com uns a todos os carnívoros; por outra os que são com uns ao gênero cão, depois j untando só um a frase, dar a descrição com pleta de cada espécie de cão. Este sistem a é incontestavelm ente engenhoso e útil. Mas m uitos naturalistas j ulgam que o sistem a natural com porta algum a coisa m ais; crêem que contêm a revelação do plano do Criador; m as a m enos que se não precise se esta expressão significa por si m esm a a ordem no tem po ou no espaço, ou am bas, ou enfim o que se entende por plano de criação, parece-m e que isto nada acrescenta aos nossos conhecim entos. Um a enunciação com o a de Lineu, que ficou célebre, e que encontram os m uitas vezes com um a form a m ais ou m enos dissim ulada, isto é, que os caracteres não fazem o gênero, m as que é o gênero que dá os caracteres, parece im plicar que há nas nossas classificações algum a coisa a m ais do que um a sim ples sem elhança. Creio que é assim e que o laço que nos revelam parcialm ente as nossas classificações, laço disfarçado com o o é por diversos graus de m odificações, não é outro além da com unhão de descendência, a única causa
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conhecida da sem elhança dos seres organizados.
Exam inem os agora as regras seguidas em m atéria de classificação, e as dificuldades que se encontram em aplicá-las segundo se supõe que a classificação indica algum plano desconhecido de criação, ou que não é m ais que um m eio de enunciar proposições gerais e de agrupar as form as m ais parecidas. Ter-se-ia podido crer, e acreditou-se outrora, que as partes da organização que determ inam os hábitos vitais e fixam o lugar geral de cada ser na econom ia da natureza, deviam ter um a alta im portância com respeito à classificação. Nada m ais inexato. Ninguém considera com o im portantes as sem elhanças exteriores que existem entre o rato e o m usaranho, o dugongo e a baleia, ou a baleia e um peixe. Estas sem elhanças, posto que em relação íntim a com a vida dos indivíduos, são consideradas apenas com o sim ples caracteres « analógicos» ou de « adaptação» ; m as terem os de voltar a este ponto. Pode m esm o por-se com o regra geral que, quanto m enos um a parte da organização está em relação com os hábitos especiais, tanto m ais im portante se torna no ponto de vista da classificação. Owen diz, por exem plo, falando do dugongo: « sendo os órgãos da geração os que oferecem as relações m ais afastadas com os hábitos e a nutrição do anim al, tenho-os sem pre considerado com o os que m ais nitidam ente indicam as suas afinidades reais. Estam os m enos expostos, nas m odificações destes órgãos, a tom ar um sim ples caráter de adaptação por um caráter essencial» . Não é curioso notar nas plantas a fraca significação dos órgãos da vegetação de que dependem a sua nutrição e a sua vida, enquanto que os órgãos reprodutores, com os seus produtos, a sem ente e o em brião, têm um a im portância capital? Tivem os j á ocasião de ver a utilidade que oferecem m uitas vezes, para a classificação, certos caracteres m orfológicos, desprovidos, além disso, de toda a im portância no ponto de vista da função. Isto depende da sua constância em m uitos grupos aliados, constância que resulta principalm ente de que a seleção natural, exercendo-se apenas sobre caracteres úteis, não tem conservado nem acum ulado os ligeiros desvios de conform ação que se têm podido apresentar. Um m esm o órgão, possuindo em tudo, com o nos é lícito supor, quase o m esm o valor fisiológico nos grupos aliados, pode ter um valor de todo diferente no
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ponto de vista da classificação, e este fato parece provar que a im portância fisiológica, só por si, não determ ina o valor que um órgão pode ter a este respeito. Não se poderia estudar com rigor qualquer grupo sem se estar certo deste fato que a m aior parte dos sábios, além disso, tem reconhecido. Bastará citar as palavras de um a alta autoridade, Roberto Brown, que, falando de certos órgãos das proteáceas, diz, referindo-se à sua im portância genérica, « que é, com o a de todos os pontos da sua conform ação, não som ente nesta fam ília, m as em todas as fam ílias naturais, m uito desigual e m esm o, em alguns casos, absolutam ente nula» . Disse, num a outra obra, que os gêneros das coranáceas « diferem entre si pela presença de um ou m uitos ovários, pela presença ou ausência de album e e pela sua prefloração im bricada ou valvular. Cada um destes caracteres tom ados isoladam ente tem m uitas vezes um a im portância m ais que genérica, posto que, tom ados em conj unto, parecem insuficientes para separar os Cnestis dos Connarus» . Para tom ar um outro exem plo nos insetos, Westwood notou que, num a das principais divisões dos him enópteros, as antenas têm um a conform ação constante, enquanto que num a outra variam bastante e apresentam diferenças de um valor m uito inferior para a classificação. Não se saberia, contudo, sustentar que, nestas duas divisões da m esm a ordem , as antenas têm um a im portância fisiológica desigual. Poderia citar-se um grande núm ero de exem plos provando que um m esm o órgão im portante pode, no m esm o grupo de seres vivos, variar quanto ao seu valor em m atéria de classificação. Da m esm a form a, ninguém sustenta que os órgãos rudim entares ou atrofiados têm um a im portância vital ou fisiológica considerável; contudo, estes órgãos têm , m uitas vezes, um alto valor no ponto de vista da classificação. Assim não é
duvidoso que os dentes rudim entares que se encontram na m axila superior dos rum inantes novos, e certos ossos rudim entares da perna, sej am m uito úteis para dem onstrar a estreita afinidade que existe entre os rum inantes e os paquiderm es. Roberto Brown tem insistido poderosam ente sobre a im portância que na classificação das gram íneas, tem a posição das floritas rudim entares. Poderiam citar-se num erosos exem plos de caracteres tirados de partes que não têm m ais que um a im portância fisiológica insignificante, m as de que cada um
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reconhece a im ensa utilidade para a definição de grupos inteiros. Assim , a presença ou ausência de um a abertura entre as fossas nasais e a boca, é o único caráter, segundo Owen, que distingue absolutam ente os peixes dos répteis - a inflexão do ângulo da m axila nos m arsupiais - a m aneira com o as asas estão dobradas nos insetos - a cor em certas algas - a sim ples pubescência em certas partes da flor nas plantas herbáceas - a natureza do revestim ento epidérm ico, tais com o os pêlos ou as penas, nos vertebrados. Se o ornitorrinco fosse coberto de penas em vez de pêlos, este caráter externo e insignificante teria sido considerado pelos naturalistas com o um grande recurso para a determ inação do grau de afinidade que este estranho anim al apresenta com as aves. A im portância que têm , para a classificação, os caracteres insignificantes, depende principalm ente da sua correlação com m uitos outros caracteres que têm um a im portância m aior ou m enor. É evidente, com efeito, que o conj unto de m uitos caracteres deve m uitas vezes, em história natural, ter um grande valor. Assim com o tantas vezes se tem feito notar, um a espécie pode afastar-se dos seus aliados por m uitos caracteres que tenham um a alta im portância fisiológica ou notáveis pelo seu prevalecim ento universal, sem que, contudo, tenham os a m enor dúvida sobre o lugar em que ela deve ser classificada. É ainda a razão pela qual todos os ensaios de classificação baseados sobre um caráter único, sej a qual for a sua im portância, têm falhado sem pre, não apresentando parte algum a do organism o um a constância invariável. A im portância de um agrupam ento de caracteres, m esm o quando cada um tem fraco valor, explica, só por si, este aforism o de Lineu, que os caracteres não dão o gênero, m as que é o gênero que dá os caracteres; porque este axiom a parece fundado sobre a apreciação de um grande núm ero de pontos de sem elhança m uito leves para serem definidos. Certas plantas das m alpighiáceas têm flores perfeitas e outras flores degeneradas; nestas últim as, com o o fez notar A. de Jussicu, « a m aior parte dos caracteres próprios à espécie, ao gênero, à fam ília e à classe desaparecem , e gozam assim da nossa classificação» . Quando, porém , a Aspicarpa, após m uitos anos de habitação em França, produziu apenas flores degeneradas, afastando-se tão desm esuradam ente, em m uitos pontos essenciais da sua conform ação, do tipo próprio da ordem , M. Richard reconheceu,
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contudo, com grande sagacidade, com o o fez observar Jussieu, que este gênero devia, m esm o assim , ser m antido entre as m alpighiáceas. Este exem plo pareceum e m uito próprio para fazer com preender o espírito das nossas classificações. Na prática, os naturalistas inquietam -se pouco com o valor fisiológico dos caracteres que em pregam para a definição de um grupo ou para a distinção de um a espécie particular. Se encontram um caráter quase sem elhante, com um a um grande núm ero de form as e que não exista noutras, atribuem -lhe um grande valor; se é com um som ente a um pequeno núm ero de form as, atribuem -lhe apenas um a im portância secundária. Alguns naturalistas têm francam ente adm itido que este princípio é o único verdadeiro, e nenhum o tem m ais claram ente confessado do que o excelente botânico Augusto Saint-Hilaire. Se m uitos caracteres insignificantes se com binam sem pre, atribui-se-lhes um valor todo particular, posto que se não possa descobrir entre eles qualquer laço aparente de conexão. Os órgãos im portantes, tais com o os que põem o sangue em m ovim ento, os que o trazem ao contato com o ar, ou os que servem à propagação, sendo quase uniform es na m aior parte dos grupos de anim ais, consideram -se com o m uito úteis para a classificação; m as há grupos de seres nos quais os m ais im portantes órgãos vitais apenas fornecem caracteres de um valor secundário. Assim , segundo as notas recentes de Fritz Mül er, num m esm o grupo de crustáceos, os Cy pridina são providos de coração, enquanto que nos dois gêneros aliados, Cy pris e Cy therca falta este órgão; um a espécie de Cy pridina tem guelras bem desenvolvidas, ao passo que outra é delas desprovida. Concebe-se facilm ente por que caracteres derivados do em brião devem ter um a im portância igual aos tirados do adulto, porque um a classificação natural deve, diga-se de passagem , com preender todas as idades. Mas, no ponto de vista da teoria com um , não é de form a algum a evidente porque a conform ação do em brião deve ser m ais im portante para este fim que a do adulto, que só desem penha um papel com pleto na econom ia da natureza. Contudo, dois grandes naturalistas, Agassiz e Miffie Edwards, têm insistido fortem ente sobre este ponto, que os caracteres em briológicos são de todos os m ais im portantes, e esta doutrina é m uito geralm ente adm itida com o verdadeira. Não obstante, a im portância destes caracte- 479
res tem sido algum as vezes exagerada, porque se não têm excluído os caracteres de adaptação da larva; Fritz Müller, para o dem onstrar, classificou, por estes caracteres som ente, a grande classe dos crustáceos, e chegou a um arranj o pouco natural. Mas não é m enos certo que os caracteres fornecidos pelo em brião têm um certo valor, se se excluírem os caracteres da larva tanto nos anim ais com o nas plantas. É assim que as divisões fundam entais das plantas fanerogâm icas são baseadas sobre diferenças do em brião, isto é, sobre o núm ero e posição dos cotilédones, e sobre o m odo de desenvolvim ento da radícula e do caulículo. Vam os ver j á que estes caracteres não têm um tão grande valor na classificação a não ser porque o sistem a natural não é m ais que um arranj o genealógico. Muitas vezes, as nossas classificações seguem sim plesm ente a cadeia das afinidades. Nada é m ais fácil do que enunciar um certo núm ero de caracteres com uns a todas as aves; m as um a tal definição tem sido até hoj e reconhecida im possível para os crustáceos. Encontram -se nas extrem idades opostas da série, crustáceos que têm apenas um caráter com um , e, contudo, reconhece-se que as espécies m ais extrem as, sendo evidentem ente ligadas às que lhes são vizinhas, estas a outras, e assim seguidam ente, todas pertencem a esta classe de articulados e não às outras. Tem -se algum as vezes em pregado na classificação, talvez pouco logicam ente, a distribuição geográfica, sobretudo para os grupos consideráveis encerrando form as estreitam ente ligadas. Tem m inck insiste sobre a utilidade e m esm o necessidade de ter em conta este elem ento para certos grupos de aves, e m uitos entom ólogos e botânicos têm seguido o seu exem plo. Quanto ao valor com parativo dos diversos grupos de espécies, tais com o as ordens, as subordens, as fam ílias, as subfam ílias e os gêneros, parece ter sido, pelo m enos até agora, quase com pletam ente arbitrário. Muitos botânicos excelentes, com o M. Bentham e outros, têm particularm ente insistido sobre este valor arbitrário. Poderiam citar-se, nos insetos e nas plantas, exem plos de grupos de form as consideradas a principio por naturalistas experim entados com o sim ples gêneros, em seguida elevados a subfam ília ou fam ília, não porque novos estudos vieram revelar diferenças im portantes de conform ação que tinham escapado à prim eira vista, m as porque depois se descobriram num erosas espécies aliadas, a- 480
presentando ligeiras diferenças.
Todas as regras, todas as dificuldades, todos os m eios de classificação que precedem , se explicam , a m enos que eu estej a com pletam ente enganado, adm itindo que o sistem a natural tenha por base a descendência com m odificações, e que os caracteres olhados pelos naturalistas com o indicando afinidades reais entre duas ou m uitas espécies são os que devem por hereditariedade a um pai com um . Toda a classificação verdadeira é, pois, genealógica; a congregação de descendência é o lugar oculto que os naturalistas têm , sem disso ter consciência, procurado sem pre, com o pretexto de desCobrir, quer qualquer plano desconhecido de criação, quer enunciar proposições gerais, ou reunir coisas sem elhantes e separar coisas diferentes.
Mas devo explicar-m e m ais com pletam ente. Creio que o arranj o dos grupos em cada classe, segundo as suas relações e o seu grau de subordinação m útuo, deva, para ser natural, ser rigorosam ente genealógico; m as que a som a das diferenças nos diversos ram os ou grupos, ligados além disso no m esm o grau de consangüinidade com o antepassado com um , pode diferir m uito, porque depende dos diversos graus de m odificação que sofreram ; ora é isto o que exprim e a disposição das form as em gêneros, em fam ílias, em seções ou em ordens. O leitor com preenderá m elhor o que eu entendo consultando a figura da pág. XVII. Suponham os que as letras A a L representam gêneros ligados que viveram durante a época siluriana e que derivam de um a form a ainda m ais antiga. Certas espécies pertencendo a três destes gêneros (A, F e I) transm itiram , até nossos dias, descendentes m odificados representados Pelos quinze gêneros (a14 a z14) que ocupam a linha horizontal superior. Todos estes descendentes m odificados de um a só espécie são parentes entre si no m esm o grau; Poderiam , m etaforicam ente, cham ar-se prim os no m esm o m ilionésim o grau; contudo, diferem m uito uns dos outros e em pontos de vista diversos. As form as derivadas de A, agora divididas em duas ou três fam ílias, constituem um a ordem distinta da que com preende as form as derivadas de I, tam bém dividida em duas fam ílias. Não m ais se poderiam classificar no gênero A as form as atuais que dela derivaram , nem no gênero I as que derivaram deste. Mas pode supor-se que o gênero existente F14 não foi senão pouco
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m odificado, e poderá agrupar-se no gênero prim itivo F de onde saiu; é assim que alguns organism os ainda vivos pertencem a gêneros silúricos. De m odo que o valor com parativo das diferenças entre estes seres organizados, todos parentes uns dos outros no m esm o grau de consangüinidade, pode ter sido m uito diferente. O
seu arranj o genealógico não ficou m enos rigorosam ente exato, não som ente hoj e, m as tam bém em cada período genealógico sucessivo. Todos os descendentes m odificados de A terão herdado algum a coisa de com um com o pai com um , terá
sido o m esm o para todos os descendentes de I, e ainda o m esm o se terá dado para cada ram o subordinado dos descendentes em cada período sucessivo. Se, todavia, supuserm os que cada descendente de A ou de I sej a bastante m odificado para não m ais conservar vestígios do seu parentesco, o seu lugar no sistem a natural será perdido, com o parece dever ser o caso para alguns organism os existentes. Todos os descendentes do gênero F, em toda a série genealógica, form arão apenas um só gênero, visto que supom os que são pouco m odificados; m as este gênero, ainda que m uito isolado, não ocupará m enos a posição interm édia que lhe é própria. A representação dos grupos indicada na figura sobre um a superfície plana é m uito m ais sim ples. Os ram os deveriam divergir em todas as direções. Se nos lim itássem os a colocar em série linear os nom es dos grupos, teríam os m enos ainda podido figurar um arranj o natural, porque é evidentem ente im possível representar por um a série sobre um a superfície plana, as afinidades que se observam na natureza entre os seres do m esm o grupo. Assim , pois, o sistem a natural ram ificado assem elha-se a um a árvore genealógica; m as a som a das m odificações sofridas pelos diferentes grupos deve exprim ir o seu arranj o pelo que se cham am gêneros, subfam ílias, fam ílias, seções, ordens e classes. Para m elhor fazer com preender esta exposição da classificação, tom em os um exem plo tirado das diversas línguas hum anas. Se possuíssem os a árvore genealógica com pleta da hum anidade, um arranj o genealógico das raças hum anas apresentaria a m elhor classificação das diversas línguas faladas atualm ente em todo o m undo; se todas as línguas m ortas e todos os dialetos interm ediários e gradualm ente m odificados aí fossem introduzidos, um tal agrupam ento seria o único possível. Contudo, poderia suceder que algum as das línguas antigas, sendo
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m uito pouco alteradas, não tivessem produzido m ais que um pequeno núm ero de línguas novas; enquanto que outras, pela extensão, pelo isolam ento, ou pelo estado de civilização das diferentes raças condescendentes, tivessem podido m odificar-se consideravelm ente e produzir assim um grande núm ero de novos dialetos e novas línguas. Os diversos graus de diferenças entre as línguas derivando de um a m esm a origem deveriam , pois, exprim ir-se por grupos subordinados a outros grupos; m as o único arranj o conveniente ou m esm o possível seria ainda a ordem genealógica. Seria, ao m esm o tem po, a ordem estritam ente natural, porque aproxim aria todas as línguas m ortas e vivas, segundo as suas afinidades m ais estreitas, indicando a filiação e origem de cada um a.
Para verificar esta hipótese, lancem os um volver de olhos sobre a classificação das variedades que se supõem ou que se sabem derivadas de um a espécie única. As variedades são agrupadas em espécies, as subvariedades em variedades, e, em alguns casos m esm o com o para os pom bos dom ésticos, distinguem -se ainda m uitas outras cam biantes de diferenças. Seguem -se, num a palavra, quase as m esm as regras que para a classificação das espécies. Os autores têm insistido na necessidade de classificar as variedades segundo um sistem a natural e não por um sistem a artificial; advertem -nos, por exem plo, para não classificar j untam ente duas variedades de ananás, posto que os seus frutos, i parte m ais im portante da planta, sej am quase idênticos, ninguém coloca reunidos o nabo com um e o nabo da Suécia, se bem que os caules espessos e carnudos sej am m uito sem elhantes. Classificam -se as variedades pelas partes que se reconhecem ser m ais constantes; assim , o grande agrônom o Marshall diz que, para a classificação do gado, devem os ter em conta os chifres, porque estes órgãos variam m enos que a form a ou a cor do corpo, etc., enquanto que, nos carneiros, os chifres são m enos úteis a este respeito, porque são m enos constantes. Para as variedades, estou convencido que seria preferida certam ente um a classificação genealógica, se houvesse todos os docum entos necessários para a estabelecer; tem -se, além disso, ensaiado em alguns casos. Pode estar-se certo, com efeito, sej a qual for de resto a im portância das m odificações sofridas, que o princípio de hereditariedade deve tender a agrupar as form as aliadas pelo m aior núm ero de pontos de sem e- 483
lhança. Posto que algum as subvariedades de pom bos cam balhotas difiram das outras pelo seu longo bico, o que é um caráter im portante, são todas ligadas um as às outras pelo hábito de dar cam balhotas, que lhes é com um ; a raça de face-curta teve, verdade é, quase totalm ente perdida esta aptidão, o que não im pede, contudo, de que se m antenha neste m esm o grupo, por causa de certos pontos de sem elhança e da sua com unhão de origem com as outras. Com respeito às espécies no estado livre, cada naturalista tem sem pre feito intervir o elem ento genealógico nas suas classificações, porque com preende os dois sexos na últim a destas divisões, a espécie; sabe-se, contudo, quanto os dois sexos diferem por vezes um do outro pelos caracteres m ais im portantes. É com dificuldade que se pode atribuir um só caráter com um aos m achos adultos e aos herm afroditas de certos cirrípedes, que, contudo, ninguém pensa em separar. Logo que se reconheceu que as três form as de orquídeas, anteriorm ente agrupadas nos três gêneros Monocanthus, My anthus e Catusetum , se encontram por vezes na m esm a planta, consideraram -se com o variedades; pude até dem onstrar que não eram outra coisa m ais que as form as m asculina, fem inina e herm afrodita da m esm a espécie. Os naturalistas com preendem na m esm a espécie as diversas fases da larva de um m esm o indivíduo, quaisquer que sej am as diferenças que possa haver entre um a e outra e a form a adulta; com preendem , aí igualm ente as gerações cham adas alternantes de Steenstrup, que som ente tecnicam ente se podem considerar com o form ando um m esm o indivíduo. Com preendem ainda na espécie as form as m onstruosas e as variedades, não porque se pareçam parcialm ente na sua form a origem , m as porque dela derivam . Desde que, universalm ente, se tem invocado a genealogia para classificar em conj unto os indivíduos da m esm a espécie, apesar das grandes diferenças que existem por vezes entre os m achos, as fêm eas e as larvas; desde que se têm fundado nela para agrupar as variedades que sofreram alterações, algum as vezes m uito consideráveis, não se poderia utilizar com o se tem utilizado, de um a m aneira inconsciente, este m esm o elem ento genealógico para o agrupam ento das espécies nos gêneros, e estes nos grupos m ais elevados, com o nom e de sistem a natural? Creio que tal tem sido a guia que inconscientem ente se tem seguido e eu
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não saberia explicar de outra m aneira a razão das diversas regras com as quais se têm conform ado os nossos m elhores sistem atistas. Não possuindo genealogias escritas, é necessário deduzirm os a união de origem pelas sem elhanças de todos os gêneros. Escolhem os para isso os caracteres que, tanto com o o podem os j ulgar, nos parecem provavelm ente ter sido os m enos m odificados pela ação das condições exteriores às quais cada espécie tem sido exposta num período recente. A este respeito, as conform ações rudim entares são tam bém boas, m uitas vezes m elhores, que outras partes do organism o. A insignificância de um caráter pouco nos im porta; quer sej a um a sim ples inflexão do ângulo da m axila, a m aneira com o a asa de um inseto está pregueada, quer a pele sej a guarnecida de penas ou de pêlos, pouco im porta; logo que este caráter se encontre em espécies num erosas e diversas e sobretudo naquelas que têm hábitos m uito diferentes, adquire logo um grande valor; não podem os, com efeito, explicar a sua existência entre tantas form as, com hábitos tão diversos, a não ser pela influência hereditária de um ancestral com um . Podem os, a este respeito, enganar-nos sobre certos pontos isolados de conform ação; quando, porém , m uitos caracteres, por insignificantes que sej am , se encontram num vasto grupo de seres dotados de hábitos diferentes, pode estar-se quase certo, segundo a teoria da descendência, que estes caracteres provêm , por hereditariedade, de um antecessor com um ; ora, nós sabem os que estas sem elhanças de caracteres têm um valor m uito particular em m atéria de classificação.
Torna-se fácil de com preender a razão por que um a espécie ou um grupo de espécies, posto que afastando-se das form as aliadas por alguns traços característicos im portantes, deve, contudo, ser classificada com elas; o que pode fazerse e se faz m uitas vezes, quando um núm ero suficiente de caracteres, por insignificantes que sej am , subsiste para revelar o laço oculto devido à união de origem . Quando duas form as extrem as não oferecem um só caráter com um , basta a existência de um a série contínua de grupos interm ediários, ligando-os uns aos outros, para nos autorizar a concluir da sua unidade de origem e reuni-los num a só classe. Com o os órgãos que têm um a grande im portância fisiológica, por exem plo os que servem para sustentar a vida nas condições de existência m ais diversas, são
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geralm ente os m ais constantes, ligam os-lhe um valor especial; m as se, num outro grupo ou num a secção do grupo, vem os estes órgãos diferir m uito, atribuím os-lhes im ediatam ente m enos im portância para a classificação. Verem os em breve porque, com relação a este ponto de vista, os caracteres em briológicos têm um tão elevado valor. A distribuição geográfica pode por vezes ser em pregada utilm ente na regularização dos grandes gêneros, porque todas as espécies de um m esm o gênero, habitando num a região isolada e distinta, descendem , segundo todas as probabilidades, dos m esm os pais.
SEMELHANÇAS ANÁLOG AS
Perm item -nos as notas precedentes com preender a distinção m uito essencial que im porta estabelecer entre as afinidades reais e as sem elhanças de adaptação ou sem elhanças análogas. Foi Lam arck o prim eiro que prestou atenção a esta diferença, adm itida a seguir por Macleay e outros. A sem elhança geral do corpo e a dos m em bros anteriores em form a de barbatanas que se nota no dugongo, anim al paquiderm e, e a baleia, assim com o a sem elhança entre estes dois m am íferos e os peixes, são sem elhanças análogas. Da m esm a form a a sem elhança entre o rato e o m usaranho (Sorex), pertencendo a ordens diferentes, e a sem elhança ainda bem m aior, segundo as observações de M. Mivart, que existe entre o rato e o pequeno m arsupial (Antechinus) da Austrália. Podem , pelo que m e parece, explicar-se estas últim as sem elhanças por um a adaptação a m ovim entos igualm ente ativos no m eio de sarças e ervas perm itindo ao anim al escapar aos inim igos m ais facilm ente.
Contam -se inúm eros casos de sem elhança nos insetos; assim Lineu, enganado pela aparência exterior, classificou um inseto hom óptero entre as falenas. Notam os fatos análogos m esm o nas nossas variedades dom ésticas, a sem elhança m arcante, por exem plo, das form as das raças m elhoradas do porco com um e do porco chinês, originados de espécies diferentes; tudo se passa com o nos caules sem elhantem ente espessos do nabo com um e do nabo da Suécia. A sem elhança entre o galgo e o cavalo de corrida é com dificuldade m ais im aginária que
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certas analogias que m uitos sábios têm indicado entre anim ais m uito diferentes. Partindo deste princípio, que os caracteres não têm im portância real para a classificação a não ser tanto quanto revelam as afinidades genealógicas, facilm ente se com preenderá porque caracteres análogos ou de adaptação, posto que de um a alta im portância para a prosperidade do indivíduo, podem não ter quase valor algum para os sistem atistas. Anim ais pertencendo a duas linhas de ascendentes m uito distintos podem , com efeito, estar adaptados a condições análogas e ter assim adquirido um a grande sem elhança exterior; m as estas sem elhanças, longe de revelar as suas relações de parentesco, tendem depressa a dissim ulá-las. Assim se explica ainda este princípio, paradoxal na aparência, que os m esm os caracteres são análogos quando se com para um grupo com outro grupo, m as que revelam verdadeiras afinidades entre os m em bros do m esm o grupo, com parados uns com os outros. Assim , a form a do corpo e os m em bros em form a de barbatanas são caracteres puram ente análogos quando se com parar a baleia com os peixes, porque constituem , nas duas classes, um a adaptação especial em vista do m odo de locom oção aquática; m as a form a do corpo e os m em bros em form a de barbatanas provêm de verdadeiras afinidades entre os diversos m em bros da fam ília das baleias, porque estes diversos caracteres são tão exatam ente sem elhantes em toda a fam ília, que não poderia duvidar-se de que provieram por hereditariedade de um ancestral com um . O m esm o se dá com respeito aos peixes. Poderiam citar-se, entre seres absolutam ente distintos, num erosos casos de sem elhança extraordinária entre órgãos isolados, adaptados às m esm as funções. A estreita sem elhança da m axila do cão com a do lobo tasinânico (Thy lacinus), anim ais m uito afastados um do outro no sistem a natural, oferece um excelente exem plo. Esta sem elhança, todavia, lim ita-se a um aspecto geral, tal com o a saliência dos caninos e a form a incisiva dos m olares. Mas os dentes diferem realm ente m uito; assim o cão tem , de cada lado da m axila superior, quatro prem olares e som ente dois m olares, enquanto que o tilacino tem três prem olares e quatro m olares. A conform ação e a grandeza relativa dos m olares diferem tam bém m uito nos dois anim ais. A dentição do adulto é precedida de um a dentição de leite por com pleto diferente. Pode, pois, negar-se que, nos dois casos, sej a a seleção natu- 487
ral de variações sucessivas que adaptou os dentes a dilacerar a carne; m as é-m e im possível com preender que se possa adm iti-la num caso e negá-la noutro. Felicito-m e por ver que o professor Flower, cuj a opinião é tão autorizada, chegou à
m esm a conclusão.
Os casos extraordinários, citados num capítulo anterior, relativos aos peixes m uito diferentes providos de aparelhos elétricos, aos insetos m uito diversos possuindo órgãos lum inosos, e às orquídeas e às asclepídeas tendo m assas de pólen com discos viscosos, devem entrar tam bém sobre a rubrica de sem elhanças análogas. Mas estes casos são tão extraordinários, que se têm apresentado com o dificuldades ou obj eções contra a m inha teoria. Em todos os casos, pode observar-se qualquer diferença fundam ental no crescim ento ou desenvolvim ento dos órgãos, e geralm ente na conform ação adulta. O fim obtido é o m esm o, m as os m eios são essencialm ente diferentes, posto que pareçam superficialm ente os m esm os. O princípio ao qual tem os feito alusão precedentem ente com o nom e de variação análoga tem , provavelm ente, desem penhado m uitas vezes bom papel nos casos deste gênero. Os m em bros da m esm a classe, ainda que de m uito longe aliados, herdaram tantos caracteres constitucionais com uns, que estão aptos a variar de um a m aneira parecida com a influência de causas da m esm a natureza, o que auxiliaria evidentem ente a aquisição, pela seleção natural, de órgãos ou de partes assem elhando-se extraordinariam ente, fora do que pudesse produzir a hereditariedade direta de um ancestral com um . Com o espécies pertencendo a classes distintas são m uitas vezes adaptadas em seguida a ligeiras m odificações sucessivas para viver em condições quase sem elhantes - por exem plo, para habitar a terra, o ar ou a água - não é talvez possível explicar com o sucede que se tenha observado algum as vezes um paralelism o num érico entre os subgrupos de classes distintas. Im pressionando com um paralelism o deste gênero, um naturalista, elevando ou baixando arbitrariam ente o valor dos grupos de m uitas classes, valor até aqui com pletam ente arbitrário, com o tem sido provado pela experiência, poderia facilm ente dar a este paralelism o um a grande extensão; é assim que, m uito provavelm ente, se têm im aginado as classificações setenárias, quinárias, quaternárias e ternárias.
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Há um a outra classe de fatos curiosos nos quais a sem elhança exterior não resulta de um a adaptação a condições de existência sem elhantes, m as provém de um a necessidade de proteção. Faço alusão aos fatos observados pela prim eira vez por M. Bates, relativam ente a certas borboletas que copiam da m aneira m ais m arcante outras espécies com pletam ente distintas. Este excelente observador dem onstrou que, em certas regiões da Am érica do Sul, onde, por exem plo, pululam as nuvens brilhantes de Itóm ia, um a outra borboleta, a Leptalis, se m istura m uitas vezes com a itóm ia, à qual se sem elha tão estranham ente pela form a, cam biantes e m anchas das asas, que M. Bates, ainda que exercitado por onze anos de estudos, e sem pre com atenção, foi, contudo, enganado constantem ente. Quando se exam ina o m odelo e a cópia, e se com param os dois, encontra-se que a sua conform ação essencial difere inteiram ente, e que pertencem não som ente a gêneros diferentes, m as m uitas vezes a fam ílias distintas. Um a tal sem elhança poderia ter sido considerada com o um a coincidência bizarra, se fosse encontrada apenas um a ou duas vezes. Mas, nas regiões em que as Leptalis copiam as Itóm ia, encontram -se outras espécies pertencendo aos m esm os gêneros, im itandose um as às outras com o m esm o grau de sem elhança. Enum eram -se até dez gêneros contendo espécies que copiam outras borboletas. As espécies copiadas e as espécies copistas habitam sem pre as m esm as localidades, e não se encontram as plagiárias nunca em pontos afastados dos que ocupam as espécies im itadas. As plagiárias contam habitualm ente poucos indivíduos, as espécies copiadas aparecem às nuvens quase sem pre. Nas regiões em que um a espécie de Leptalis copia a Itóm ia, há algum as vezes outros lepidópteros que im itam tam bém a m esm a itóm ia; de m odo que, num m esm o lugar, podem encontrar-se espécies pertencendo a três gêneros de borboletas, e m esm o um a falena, assem elhando-se todas a um a borboleta pertencente a um quarto gênero. É necessário, notar especialm ente, com o o dem onstram as séries graduadas, que se podem estabelecer entre m uitas form as de leptalis copistas e form as copiadas, que existe um grande núm ero que são, sim ples variedades da m esm a espécie, enquanto que outras pertencem , sem dúvida algum a, a espécies distintas. Mas porque razão, pode perguntarse, é que certas form as são sem pre copiadas, enquanto que outras gozam sem - 489
pre o papel de im itadoras? M. Bates responde de um a m aneira satisfatória a esta questão dem onstrando que a form a im itada conserva os seus caracteres habituais do grupo a que pertence, e são as im itadoras que m udam a aparência exterior e deixam de sem elhar-se às suas m ais próxim as aliadas.
Som os levados em seguida a procurar a razão de certas borboletas ou certas falenas revestirem tão freqüentem ente a aparência exterior de um a outra form a com pletam ente distinta, e porque, com grande perplexidade dos naturalistas, se entrega a natureza a sem elhantes disfarces. M. Bates, a m eu pedido, forneceu a verdadeira explicação. As form as copiadas, que são sem pre abundantes em indivíduos, devem habitualm ente escapar em grande escala à destruição, pois que de outra m aneira não existiriam em quantidades tão consideráveis; ora, possui-se hoj e a prova de que não servem de presa às aves nem aos outros anim ais que se nutrem de insetos, por causa, sem dúvida, do gosto desagradável que têm . As im itadoras, por um a parte, que habitam a m esm a localidade, são com parativam ente m uito raras, e pertencem a grupos que o são igualm ente; estas espécies devem , por isso, estar expostas a qualquer perigo habitual, porque de outra m aneira, atendendo ao núm ero de ovos que põem todas as borboletas, abundariam em todo o país no fim de três ou quatro gerações. Ora, se o núm ero de um destes grupos raros e perseguidos vem fingir um a espécie m elhor protegida, e isto de m odo assaz perfeito para enganar a vista de um entom ólogo exercitado, é provável que possa enganar igualm ente as aves de presa e os insetos carnívoros, e por isso escapar à destruição. Poderia quase dizer-se que M. Bates assistiu às diversas fases por que certas form as im itadoras vieram a sem elhar-se tão de perto às form as im itadas; notou, com efeito, que algum as das form as de leptalis que copiam tanto outras borboletas, são variáveis no m ais alto grau. Encontram -se num distrito m uitas variedades, de que um a só se assem elha até certo ponto à itóm ia com um da localidade. Noutro ponto encontram -se duas outras variedades, das quais um a, m ais com um que as outras, se confundia com outra form a de itóm ia. M. Bates, baseando-se em fatos deste gênero, concluiu que a leptalis varia a princípio; depois, quando um a variedade chega a assem elhar-se, ainda que pouco, a um a borboleta abundante na m esm a localidade, esta variedade, graças à sem e- 490
lhança com um a form a próspera e pouco perseguida, estando m enos exposta a ser presa das aves e dos insetos, é, por conseguinte, m uito m ais vezes conservada;- sendo os graus de sem elhança m enos perfeitam ente elim inados sucessivam ente em cada geração, os outros acabam por ficar sós para perpetuar o tipo» . Tem os assim um excelente exem plo de seleção natural.
M. Wallace e Teim em descreveram tam bém m uitos casos de im itação igualm ente m arcantes, observados entre os lepidópteros. no arquipélago m alaio; e, em África, entre insetos pertencendo a outras ordens, M. Wallace observou tam bém um caso deste gênero nas aves, m as nós não conhecem os nenhum nos m am íferos. A m aior freqüência destas im itações nos insetos que nos outros anim ais é provavelm ente um a conseqüência do seu pequeno tam anho; os insetos não podem defender-se, salvo, todavia, os que são arm ados de um aguilhão, e não creio que estes últim os copiem j am ais outros insetos, posto que m uitas vezes sej am im itados por outros. Os insetos não podem pelo vôo escapar aos anim ais m aiores que os perseguem ; encontram -se portanto reduzidos, com o todos os seres fracos, a recorrer à fraude e à dissim ulação. Cum pre observar que estas im itações não deviam j am ais ter com eçado entre as form as com pletam ente dessem elhantes no ponto de vista da cor. Se supuserm os que duas espécies se assem elham j á um pouco, as razões que acabam os de indicar explicam facilm ente um a sem elhança absoluta entre estas duas espécies com a condição de que esta sem elhança sej a vantaj osa para um a delas. Se, por um a causa qualquer, a form a im itada é em seguida gradualm ente m odificada, a form a im itadora deve ter entrado no m esm o cam inho e m odificar-se tam bém em proporções tais, que deve revestir um aspecto e um colorido absolutam ente diferente dos outros m em bros da fam ília a que pertence. Há, contudo, sobre este ponto um a certa dificuldade, porque é necessário supor, em alguns casos, que indivíduos pertencendo a m uitos grupos distintos se assem elhavam , antes de ser m odificados tanto quanto o são hoj e, a indivíduos de um outro grupo m elhor protegido; tendo esta sem elhança acidental servido de base à aquisição ulterior de um a sem elhança perfeita.
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A RESPEITO DA NATUREZA DAS AFINIDADES LIG ANDO SERES ORG ANIZADOS
Com o os descendentes m odificados de espécies dom inantes pertencendo aos m aiores gêneros tendem a herdar vantagens às quais os grupos de que fazem parte devem a sua extensão e preponderância, são m ais aptos a espalhar-se ao longe e a ocupar lugares novos da econom ia da natureza. Os grupos m aiores e m ais dom inantes em cada classe tendem tam bém a crescer cada vez m ais, e, por isso, a suplantar m uitos outros grupos m ais pequenos e m ais fracos. Explica-se assim a razão de todos os organism os, extintos e vivos, estarem com preendidos num pequeno núm ero de ordens e num núm ero de classes m ais restrito ainda. Um fato assaz m arcante prova o pequeno núm ero dos grupos superiores e a sua vasta extensão no globo, e vem a ser que a descoberta da Austrália não j untou um só
inseto pertencendo a um a classe nova; do m esm o m odo, no reino vegetal, esta descoberta não j untou, segundo o Dr. Hooker, m ais que duas outras fam ílias às que conhecíam os j á.
Procurei estabelecer, no capítulo sobre a sucessão geológica, em virtude do princípio que cada grupo tem geralm ente divergido m uito em caracteres durante a m archa longa e contínua das suas m odificações, a causa de as form as m ais antigas apresentarem m uitas vezes caracteres até certo ponto interm ediários entre os grupos existentes. Um pequeno núm ero destas form as antigas e interm ediárias tem transm itido até hoj e descendentes pouco m odificados, que constituem o que se cham a espécies aberrantes. Quanto m ais um a form a for aberrante, tanto m ais considerável deve ser o núm ero de form as exterm inadas, e totalm ente desaparecidas que a ligavam a outras form as. Tem os a prova em que os grupos aberrantes devem ter sofrido num erosas extinções, porque não são ordinariam ente representados senão por um pequeníssim o núm ero de espécies; estas espécies, além disso, são o m ais das vezes m uito distintas um as das outras, o que im plica ainda num erosas extinções. Os gêneros ornitorrinco e Lepidossereia, por exem plo, não seriam m enos aberrantes se tivessem sido representados cada um por um a dúzia de espécies em lugar de o serem hoj e por um a só, duas ou três. Podem os, creio eu, explicar estes fatos apenas considerando os grupos aberrantes com o form as
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vencidas por concorrentes m ais felizes, e que são representados hoj e por um pequeno núm ero de m em bros que se conservaram em alguns pontos, devido a condições particularm ente favoráveis. M. Waterhouse notou que, quando um anim al pertencendo a um grupo apresenta algum a afinidade com outro grupo com pletam ente distinto, esta afinidade é, na m aior parte dos casos, geral e não especial. Assim , segundo M. Waterhouse, a lebre brasílica é, de todos os roedores, a que m ais se aproxim a dos m arsupiais; m as as suas relações com esta ordem versam sobre pontos gerais, isto é, não se aproxim a m ais de um a espécie particular de m arsupial que de outra. Ora, com o se adm ite que estas afinidades são reais, e não sim plesm ente o resultado de adaptações, devem , pela m inha teoria, provir por hereditariedade de um ascendente com um . Devem os, pois, supor, ou que todos os roedores, com preendendo a lebre brasílica, derivam de qualquer espécie m ais antiga dos m arsupiais que teria naturalm ente apresentado caracteres m ais ou m enos interm ediários entre as form as existentes desta ordem ; ou que os roedores e m arsupiais derivam de um ascendente com um e que os dois grupos sofreram , desde então, profundas m odificações em direções divergentes. Nos dois casos, devem os adm itir que a lebre brasílica conservou, por hereditariedade, o m aior núm ero de caracteres do antepassado prim itivo, o que não fizeram os outros roedores; por conseguinte, ela não deve ligar-se especialm ente a qualquer m arsupial existente, m as indiretam ente a todos, ou a quase todos, porque têm conservado em parte o caráter de origem ou de algum m em bro m ais antigo do grupo. Por outra parte, assim com o o faz notar M. Waterhouse, de todos os m arsupiais, é o Phascolom y s que m ais se parece, não a um a espécie particular de roedores, m as em geral a todos os m em bros desta ordem . Pode-se, todavia, neste caso, presum ir que a sem elhança é
puram ente análoga, tendo podido o fascólom o adaptar-se a hábitos sem elhantes aos dos roedores. A. P. de Candolle fez observações um pouco análogas sobre a natureza geral das afinidades de fam ílias distintas de plantas. Partindo do princípio que as espécies derivadas de um a origem com um se m ultiplicam divergindo gradualm ente em caracteres, conservando alguns com uns por hereditariedade, podem explicar-se as afinidades com plexas e divergentes
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que ligam entre si todos os m em bros de um a fam ília, ou m esm o de um grupo m ais elevado. Com efeito, o ascendente prim itivo de um a fam ília com pleta, atualm ente fracionada por extinção em grupos e subgrupos distintos, devia transm itir a todas as espécies quaisquer estes caracteres m odificados de diversos m odos e em diversos graus; estas diversas espécies devem , portanto, estar aliadas entre si por linhas de afinidade tortuosas e de com prim ento desiguais, subindo no passado por um grande núm ero de ascendentes, com o pode ver-se na figura para a qual tenho j á por vezes enviado o leitor. Da m esm a form a que é m uito difícil apanhar as relações de parentesco entre os num erosos descendentes de um a nobre e antiga fam ília, o que é m esm o quase im possível sem o recurso de um a árvore genealógica, pode com preender-se com o deve ter sido grande, para o naturalista, a dificuldade de descrever, sem auxílio de um a figura, as diversas afinidades que nota entre os num erosos m em bros vivos e extintos de um a m esm a grande classe natural. A extinção, com o vim os no quarto capítulo, desem penhou um papel im portante, determ inando e aum entando sem pre os intervalos existentes entre os diversos grupos de cada classe. Podem os assim explicar porque as diversas classes são tão distintas um as das outras, a classe das aves, por exem plo, com parada aos outros vertebrados. Basta adm itir que um grande núm ero de form as antigas que ligavam outrora os longínquos avós das aves aos das outras classes de vertebrados, então m enos diferenciados estão desde aí com pletam ente perdidas. A extinção das form as que ligavam outrora os peixes aos batráquios foi m enos com pleta; m enor tem sido ainda a extinção nas outras classes, a dos crustáceos, por exem plo, porque as form as m ais adm iravelm ente diversas estão ainda ligadas por um a longa cadeia de afinidades que foi apenas parcialm ente interrom pida. A extinção apenas separou os grupos; em nada contribuiu para os form ar; porque, se todas as form as que têm vivido na terra voltassem a reaparecer, seria, sem dúvida, im possível encontrar definições de m olde a distinguir cada grupo, m as a sua classificação natural, ou m elhor, o seu arranj o natural seria possível. Isto é fácil de perceber tom ando a nossa figura. As letras A a L podem representar onze gêneros da época siluriana, de que algum as produziram grupos im portantes de descenden- 494
tes m odificados; pode supor-se que cada form a interm ediária, em cada ram o, é
ainda viva e que essas form as interm ediárias não são m ais afastadas um as das outras do que o são as variedades atuais. Em tal caso, seria absolutam ente im possível dar definições que perm itissem distinguir os m em bros dos diversos grupos de seus pais e dos seus descendentes im ediatos. Não obstante, o arranj o natural que representa a figura não seria m enos exato; porque em virtude do princípio de hereditariedade, todas as form as derivando de A, por exem plo, possuiriam alguns caracteres com uns. Podem os, num a árvore, distinguir este ou aquele ram o, posto que no ponto de bifurcação se unam e se confundam . Não poderíam os, com o j á disse, definir os diversos grupos; m as poderíam os escolher tipos de form as portadoras da m aior parte dos caracteres de cada grupo pequeno ou grande, e dar assim um a idéia geral do valor das diferenças que os separam . É o que seríam os obrigados a fazer, se chegássem os a obter todas as form as de um a classe que tenha vivido no tem po e no espaço. É certo que não chegaríam os j am ais a fazer um a coleção com pleta; não obstante, para certas classes, obteríam os este resultado; e Milne Edwards insistiu recentem ente, num a excelente m em ória, sobre a im portância que há a ligar aos tipos, quando pudéssem os ou não separar e definir os grupos a que esses tipos pertencem . Em resum o, tem os visto que a seleção natural, que resulta da luta pela existência e que im plica quase inevitavelm ente a extinção das espécies e a divergência dos caracteres entre os descendentes de um a m esm a espécie-m ãe, explica os grandes traços gerais das afinidades de todos os seres organizados, isto é, a sua distribuição em grupos subordinados a outros grupos. É, em razão das relações genealógicas, que classificam os os indivíduos dos dois sexos e de todas as idades num a m esm a espécie, posto que possam ter som ente poucos dos caracteres com uns; a classificação das variedades reconhecidas, por diferentes que sej am de seus pais, repousa sobre o m esm o princípio, e eu creio que este elem ento genealógico é o laço oculto que os naturalistas procuraram com o nom e de sistem a natural. Na hipótese que o sistem a natural, no ponto a que se está chegando, é genealógico no seu arranj o, os term os gêneros, fam ílias, ordens, etc, exprim em apenas graus de diferença e podem os com preender as regras às quais som os
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forçados a conform arm o-nos nas nossas classificações. Podem os com preender porque dam os m ais valor a certas sem elhanças do que a outras; porque utilizam os órgãos rudim entares e inúteis, ou tendo m uito pouca im portância fisiológica; porque, com parando um grupo com outro grupo distinto, pom os de lado sum ariam ente os caracteres análogos ou de adaptação, em pregando-os, porém , nos lim ites do m esm o grupo. Vem os claram ente com o se faz que todas as form as vivas e extintas possam ser agrupadas em algum as grandes classes, e com o sucede que os diversos m em bros de cada um a delas estej am reunidos entre si pelas m ais com plexas e m ais divergentes linhas de afinidade. Jam ais chegaríam os provavelm ente a destrinçar a inextricável rede de afinidades que ligam uns aos outros os m em bros de cada classe; m as, se nos propom os um fim distinto, sem procurar qualquer plano de criação desconhecido, podem os esperar progredir a passos lentos, m as seguros.
O professor Haeckel, na sua Morfologia Geral e noutras obras recentes, ocupou-se com a sua ciência e talento habituais do que se cham a a filogenia, ou linhas genealógicas de todos os seres organizados. É sobretudo nos caracteres em briológicos que se apóia para restabelecer as suas diversas séries, m as auxiliase tam bém dos órgãos rudim entares e hom ólogos, bem com o dos períodos sucessivos em que as diversas form as da vida têm , supõe-se, aparecido pela prim eira vez nas nossas form ações geológicas. Assim com eçou um árduo trabalho e m ostrou-nos com o deve ser tratada a classificação no futuro.
MORFOLOG IA
Vim os que os m em bros da m esm a classe, independentem ente dos seus hábitos de existência, se assem elham pelo plano geral da sua organização. Esta sem elhança é m uitas vezes expressa pelo term o unidade de tipo, isto é, que entre as diferentes espécies da m esm a classe as diversas partes e os diversos órgãos são hom ólogos. O conj unto destas questões tom a o nom e geral de m orfologia e constitui um a das partes m ais interessantes da história natural, de que pode ser considerada com o a alm a. Não é m uito notável que a m ão do hom em feita para
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prender, a garra da toupeira destinada a escavar a terra, a perna do cavalo, a barbatana do golfinho e a asa do m orcego, sej am todos construídos pelo m esm o m olde e encerrem ossos sem elhantes, situados nas m esm as posições relativas?
Não é extrem am ente curioso, para dar um exem plo de um a ordem m enos im portante, m as m uito m arcante, que os pés posteriores do canguru, tão bem apropriados aos saltos enorm es que dá este anim al nas planícies abertas; os do coala, trepador e com edor de folhas, igualm ente bem conform ados para segurar os ram os; os dos param elas que vivem nas galerias subterrâneas e que se nutrem de insetos ou raízes e os de outros m arsupiais australianos sej am todos constituídos pelo m esm o tipo extraordinário, isto é, que os ossos do segundo e do terceiro dedo sej am m uito delgados e envoltos na m esm a pele, de tal m aneira que parecem um dedo único provido de duas garras? Apesar desta sem elhança de tipo, é evidente que os pés posteriores destes diversos anim ais servem para os usos m ais diferentes que podem im aginar-se. O caso é tanto m ais m arcante quanto os opossuns am ericanos, cuj os hábitos de existência são quase os m esm os que alguns dos seus parentes australianos, têm os pés dispostos em plano ordinário. O professor Flower, a quem devo estes ensinam entos, conclui assim : « Pode aplicar-se aos fatos deste gênero a expressão de conform idade no tipo, sem se aproxim ar m uito da explicação do fenôm eno» ; em seguida acrescenta: « Mas estes fatos não despertam sobrem aneira a idéia de um verdadeiro parentesco e da descendência de um a origem com um ?»
Geoffroy Saint-Hilaire tem insistido m uito sobre a alta im portância da posição relativa ou da conexão das partes hom ólogas, que podem diferir quase indefinidam ente com respeito à form a e à grandeza, m as que ficam , contudo, unidas entre si segundo um a ordem invariável. Jam ais, por exem plo, se tem observado um a transposição dos ossos do braço e do antebraço, ou da coxa e da perna. Podem , pois, dar-se os m esm os nom es aos ossos hom ólogos dos diversíssim os anim ais. A m esm a lei se encontra na construção da boca dos insetos; o que há de m ais diferente do que a grande trom ba enrolada em espiral da borboleta-esfinge, do que a tão singularm ente pregueada da abelha ou do percevej o; e do que as grandes m axilas de um coleóptero? Todos estes órgãos, contudo, servindo para
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usos tão diversos, são form ados por m odificações infinitam ente num erosas de um lábio superior, de m andíbulas e dois pares de m axilas. A m esm a lei regula a construção da boca e dos m em bros dos crustáceos. O m esm o se passa nas flores dos vegetais.
Não há tentativa m ais vã do que querer explicar esta sem elhança do tipo entre os m em bros de um a classe pela utilidade ou pela doutrina das causas finais. Owen adm itiu expressam ente a im possibilidade de chegar a este ponto no seu interessante trabalho sobre a Natureza dos Mem bros. Na hipótese da criação independente de cada ser, podem os apenas notar este fato, j untando que aprouve ao Criador construir todos os anim ais e todas as plantas de cada grande classe sobre um plano uniform e; m as não é explicação científica. A explicação apresenta-se, pelo contrário, por si m esm a, por assim dizer, na teoria da seleção das m odificações ligeiras e sucessivas, sendo cada m odificação de qualquer m aneira vantaj osa à form a m odificada e afetando m uitas vezes por correlação outras partes do organism o. Nas alterações desta natureza, não poderia haver m ais que um a fraca tendência a m odificar o plano prim itivo, e nenhum a em transpor as partes. Os ossos de um m em bro podem , em qualquer proporção, encurtar-se e achatar-se, podem desenvolver-se ao m esm o tem po num a espessa m em brana, de m odo a servir de barbatana; ou então os ossos de um pé
palm ado podem alongar-se m ais ou m enos consideravelm ente ao m esm o tem po que a m em brana interdigital, e tornar-se assim um a asa; contudo, todas estas m odificações em nada tendem a alterar a cadeia dos ossos ou as suas relações relativas. Se supuserm os um antepassado afastado, que se poderia cham ar o arquétipo de todos os m am íferos, de todas as aves e de todos os répteis, de que os m em bros tivessem a form a geral atual, qualquer que pudesse, além disso, ter sido desses m em bros, podem os conceber em seguida a constituição hom óloga dos m em bros em todos os representantes de toda a classe. Da m esm a form a, com respeito à boca dos insetos; tem os apenas que supor um antepassado com um provido de um lábio superior, m andíbulas e dois pares de m axilas, tendo todas estas peças talvez um a form a m uito sim ples; basta a seleção natural para explicar a diversidade indefinida que existe na conform ação e nas funções da boca destes
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anim ais. Não obstante, é lícito conceber-se que o plano geral de um órgão pode alterar-se a ponto de desaparecer com pletam ente pela redução, em seguida pela atrofia com pleta de certas partes, pela fusão, desdobram ento ou m ultiplicação de outras partes, variações que sabem os estarem no lim ite do possível. O plano geral parece ter assim sido alterado em parte nas barbatanas dos gigantescos lagartos m arinhos extintos, e na boca de certos crustáceos sugadores. Há ainda um outro ram o igualm ente curioso do nosso assunto: - é a com paração, não m ais das m esm as partes ou dos m esm os órgãos nos diferentes m em bros da m esm a classe, m as o exam e com parado das diversas partes ou dos diversos órgãos no m esm o indivíduo. A m aior parte dos fisiólogos adm ite que os ossos do crânio são hom ólogos com as partes elem entares de um certo núm ero de vertebrados, isto é, que apresentam o m esm o núm ero destas partes na m esm a posição relativa recíproca. Os m em bros anteriores e posteriores de todas as classes de vertebrados superiores são evidentem ente hom ólogos. O m esm o se dá
com as m axilas tão com plicadas e as patas dos crustáceos. Todos sabem que, num a flor, se explicam as posições relativas das sépalas, das pétalas, dos estam es e dos pistilos, assim com o a sua estrutura íntim a, adm itindo que estas diversas partes são form adas de folhas m etam orfoseadas e dispostas em espiral. As m onstruosidades vegetais fornecem -nos m uitas vezes a prova direta da transform ação possível de um órgão noutro; além disso, podem os facilm ente verificar que, durante as prim eiras fases do desenvolvim ento das flores, assim com o nos em briões dos crustáceos e de m uitos outros anim ais, órgãos m uito diferentes, um a vez chegados à m aturidade, se parecem m uito a princípio.
Com o explicar estes fatos pela teoria das criações? Porque está o cérebro encerrado num a caixa com posta de peças ósseas tão num erosas e tão singularm ente conform adas que parecem representar vértebras? Assim com o o fez notar Owen, a vantagem que apresenta esta disposição, perm itindo aos ossos separados flectir-se durante o ato da parturição nos m am íferos, não explicaria de m odo algum porque a m esm a conform ação se encontra no crânio das aves e dos répteis. Porque têm sido criados ossos sim ilares para form ar a asa e a perna do m orcego, se estes ossos são destinados a usos tão diferentes, o vôo e a m archa?
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Porque é que um crustáceo, provido de um a boca extrem am ente com plicada, form ada de um grande núm ero de peças, tem sem pre, e com o um a conseqüência necessária, um m enor núm ero de patas? e inversam ente, porque têm um a boca m ais sim ples os que possuem um grande núm ero de patas? Porque é que as sépalas, as pétalas, os estam es e os pistilos de cada flor, posto que órgãos adaptados a usos tão diferentes, são construídas pelo m esm o m odelo?
A teoria da seleção natural perm ite-nos, até certo ponto, responder a estas questões. Não tem os que considerar aqui com o foram prim itivam ente divididos os corpos de certos anim ais em séries de segm entos, ou em lados direito e esquerdo, com órgãos correspondentes, porque estas questões passam quase o lim ite de toda a investigação. É, contudo, provável que algum as conform ações em séries sej am o resultado de um a m ultiplicação de células por divisão, arrastando a m ultiplicação de partes que provêm dessas células. Basta-nos, para o fim que nos propom os, lem brar a nota feita por Owen, isto é, que um a repetição indefinida de partes ou de órgãos constitui um traço característico de todas as form as inferiores e pouco especificadas. O antepassado desconhecido dos vertebrados devia, pois, ter m uitas vértebras, o dos articulados m uitos segm entos, e o dos vegetais flores com num erosas folhas dispostas em um a ou m uitas espiras; tem os tam bém visto precedentem ente que os órgãos m uitas vezes repetidos estão essencialm ente aptos a variar, não som ente em núm ero, com o na form a. Por conseguinte, a sua presença em quantidade considerável e a sua grande variabilidade têm naturalm ente fornecido os m ateriais necessários à sua adaptação aos m ais diversos fins, conservando, em geral, devido à força hereditária, traços distintos da sua sem elhança original ou fundam ental. Devem conservar esta sem elhança tanto m ais quanto as variações fornecendo a base da sua m odificação subseqüente por m eio da seleção natural, tendem desde o princípio a ser sem elhantes; parecendo-se as partes no seu estado precoce e sendo subm etidas às m esm as condições. Estas partes m ais ou m enos m odificadas seriam seguidam ente hom ólogas, a m enos que a sua origem com um não fosse inteiram ente obscurecida.
Posto que sej a fácil dem onstrar, na grande classe dos m oluscos, a hom ologia das partes nas espécies distintas, som ente se podem notar poucas hom ologi- 500
as seriais, por exem plo as valvas das conchas; isto é, só podem os raram ente afirm ar a hom ologia de tal parte do corpo com tal outra do m esm o indivíduo. Este fato nada tem de surpreendente; entre os m oluscos, com efeito, m esm o entre os representantes m enos elevados da classe, estam os longe de encontrar esta repetição indefinida de um a parte dada, que notam os nas outras grandes ordens dos reinos anim al e vegetal.
A m orfologia constitui, adem ais, um assunto bem m ais com plicado do que parecia a princípio; é o que recentem ente dem onstrou M. Ray Lankester num a m em ória notável. M. Lankester estabeleceu um a im portante distinção entre certas classes de fatos que todos os naturalistas têm considerado com o hom ólogos. Propõe o nom e de estruturas hom ogêneas às estruturas que se assem elham em anim ais distintos, devido à descendência de um antepassado com um com m odificações subseqüentes, e às sem elhanças que se não podem explicar assim , sem elhanças hom oplásticas. Por exem plo, crê que o coração das aves e dos m am íferos, é hom ogêneo em conj unto, isto é, que provêm de um a origem com um ; m as que as quatro cavidades do coração são, nas duas classes, hom oplásticas, isto é, que se desenvolveram independentem ente. M. Lankester alega ainda a íntim a sem elhança das partes situadas do lado direito e do lado esquerdo do corpo, assim com o os segm entos sucessivos do m esm o indivíduo; são partes ordinariam ente cham adas hom ólogas, e que, contudo, não se ligam à descendência de espécies diversas de um antepassado com um . As conform ações hom oplásticas são as que classifiquei, ainda que de um a m aneira im perfeita, com o m odificações ou sem elhanças análogas. Pode, em parte, atribuir-se a sua form ação a variações que afetaram de um m odo sem elhante organism os distintos ou partes distintas de organism os, e, em parte, a m odificações análogas, conservadas para um fim geral, ou para um a função geral. Poderiam citar-se m uitos exem plos. Os naturalistas dizem , freqüentem ente, que o crânio é form ado de vértebras m etam orfoseadas, que as m axilas dos caranguej os são patas m etam orfoseadas, os estam es e os pistilos das flores folhas m etam orfoseadas; m as, assim com o o professor Huxley o fez notar, seria, na m aior parte dos casos, m ais correto falar do crânio e das vértebras, das m axilas e das patas, etc, com o provindo, não
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da m etam orfose de um órgão noutro órgão, tal com o existem , m as da m etam orfose de algum elem ento com um e m ais sim ples. A m aior parte dos naturalistas, todavia, não em prega a expressão senão num sentido m etafórico, e não entendem que, num curso prolongado de gerações, quaisquer órgãos prim ordiais - vértebras num caso e patas noutro - tenham sido realm ente transform ados em crânios ou m axilas. Contudo, há tantas aparências que sem elhantes m odificações se operassem , que é quase im possível evitar o em prego de um a expressão tendo esta significação direta. Quanto a m im , tais term os podem em pregar-se num sentido literal; e o fato notável de as m axilas do caranguej o, por exem plo, reterem num erosos caracteres, que teriam provavelm ente conservado por hereditariedade se fossem realm ente o produto de um a m etam orfose de patas verdadeiras, ainda que m uito sim ples, encontrava-se em parte explicado.