A Origem das Espécies

Charles Darwin · Capítulo 13 de 17 · parte 1/3

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A Origem das Espécies

Seção 23

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

4.000m

Cam adas

terciárias

710m

– form ando um total de 22.000 m etros, isto é, cerca de 22 km . Certas form ações, que são representadas em Inglaterra por cam adas delgadas, atingem no continente um a espessura de m uitos m ilhares de pés. Além disso, a acreditar na m aior parte dos geólogos, devem ter decorrido, entre as form ações sucessivas, períodos extrem am ente longos durante os quais se não haj a form ado depósito algum . A m assa inteira de cam adas sobrepostas das rochas sedim entares da Inglaterra não dá, portanto, m ais que um a idéia incom pleta do tem po gasto na sua acum ulação. O estudo dos fatos desta natureza parece produzir no espírito um a im pressão análoga à que resulta das nossas vãs tentativas para conceber a idéia da eternidade. Esta im pressão não é portanto absolutam ente j usta. M. Croll fez notar, num a m em ória interessante, que não nos enganam os por « um a concepção m ais elevada do com prim ento dos períodos geológicos» , m as avaliando-os em anos. Quando os geólogos vêem fenôm enos consideráveis e com plicados, e que consideram em seguida os núm eros que representam m ilhões de anos, as duas im pressões produzidas no espírito são m uito diversas, e os núm eros são im ediatam ente considerados insuficientes. M. Croll dem onstra, relativam ente à desnudação produzida pelos agentes atm osféricos, calculando a relação da quantidade conhecida de m ateriais sedim entares que transportam anualm ente certos ribeiros, relativam ente à extensão das superfícies drenadas, que seriam necessários seis m ilhões de anos para desagregar e para elevar ao nível m édio da área total, que se considera, um a espessura de 1000 pés de rochas. Um tal resultado pode parecer surpreendente, e sê-lo-ia ainda se, após algum as considerações que podem fazer supor que é exagerado, fosse reduzido a m etade ou a um quarto. Muito pou- 355

ca gente avalia exatam ente o que significa na realidade um m ilhão. M. Croll procura fazê-lo com preender pelo seguinte exem plo: estenda-se, no m uro de um a grande sala, um a faixa estreita de papel, do com prim ento de 25,70 m etros; faça-se depois na extrem idade desta faixa um a divisão de 2,5 m ilím etros; esta divisão representa um século, e a faixa inteira representa um m ilhão de anos. Ora, para o assunto que nos ocupa, o que será um século figurado por um a m edida tão insignificante relativam ente às vastas dim ensões da sala? Num erosos tratadores distintos têm , durante a vida, m odificado m uitíssim o alguns anim ais superiores e criaram verdadeiras sub-raças novas; ora, estas espécies superiores produzem -se m uito m ais lentam ente do que as espécies inferiores. Poucos hom ens se têm ocupado com cuidado de um a raça por m ais de cinqüenta anos, de m odo que um século representa o trabalho de dois tratadores sucessivos. Não seria necessário supor, todavia, que as espécies no estado natural possam m odificar-se tão prontam ente com o o podem fazer os anim ais dom ésticos sob a ação da seleção m etódica. A com paração seria m ais j usta entre as espécies naturais e os resultados que dá a seleção inconsciente, isto é, a conservação, sem intenção preconcebida de m odificar a raça, dos anim ais m ais úteis ou m ais belos. Ora, sob a influência da sim ples seleção inconsciente, m uitas raças são sensivelm ente m odificadas no decurso de dois ou três séculos. As m odificações são, todavia, provavelm ente m uito m ais lentas ainda nas espécies de que um pequeno núm ero som ente se m odifica ao m esm o tem po no m esm o país. Esta lentidão provém de que estando todos os habitantes de um a região j á perfeitam ente adaptados uns aos outros, novos lugares na econom ia da natureza se apresentam apenas com longos intervalos, quando as condições físicas sofreram algum as m odificações de qualquer natureza, ou se produziu um a im igração de novas form as. Além disso, as diferenças individuais ou as variações na direção querida, de natureza a m elhor adaptar alguns dos habitantes às condições novas, podem não surgir im ediatam ente. Não tem os, infelizm ente, m eio algum para determ inar em anos o período necessário para m odificar um a espécie. Terem os, além disso, de voltar a este assunto.

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POBREZA DAS NOSSAS COLEÇÕES PALEONTOLÓG ICAS

Que triste espetáculo o dos nossos m ais ricos m useus geológicos! Cada um concorda em reconhecer quão incom pletas são as nossas coleções. É necessário não esquecer a nota do célebre paleontólogo E. Forbes, isto é, que um grande núm ero das nossas espécies fósseis não são conhecidas e denom inadas senão com o fuzis isolados, m uitas vezes partidos, ou com o alguns raros especím enes recolhidos num só ponto. Um a m uito pequena parte som ente da superfície do Globo foi geologicam ente explorada, e nenhum a com bastante cuidado, com o o provam as im portantes descobertas que todos os anos se fazem na Europa. Nenhum organism o com pletam ente m ole se pode conservar. As conchas e as ossadas, j azendo no fundo das águas, onde não se depositam sedim entos, destroem se e desaparecem logo. Partim os infelizm ente sem pre deste princípio errôneo que um im enso depósito de sedim ento está em via de form ação em quase toda a extensão do leito do m ar, com um a rapidez suficiente para sepultar e conservar detritos fósseis. A bela cor azul e a lim pidez do oceano na sua m aior extensão testem unham a pureza das suas águas. Os num erosos exem plos conhecidos de form ações geológicas regularm ente cobertas, após um im enso intervalo de tem po, por outras form ações m ais recentes, sem que a cam ada subj acente tivesse sofrido neste intervalo a m enor desnudação ou a m enor deslocação, só podem explicarse se se adm itir que o fundo do m ar perm anece quase sem pre intacto durante séculos. As águas fluviais carregadas de ácido carbônico devem m uitas vezes dissolver os fósseis escondidos nas areias, infiltrando-se nessas cam adas quando da sua em ersão. As num erosas espécies de anim ais que vivem nas costas, entre os lim ites das altas e baixas m arés, parecem ser raram ente conservadas. Assim , as diversas espécies de Chthamalíneas (subfam ília de cirrípedes sésseis) atapetam as rochas às m iríades no m undo inteiro; todas são rigorosam ente litorais; ora - à

exceção de um a só espécie do m editerrâneo que vive nas águas profundas, e que se encontra no estado fóssil na Sicília - não se tem encontrado um a só espécie fóssil em qualquer form ação terciária; está averiguado, contudo, que o gênero

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Chthamatus existia na época da greda. Enfim , m uitos dos grandes depósitos que foram necessários para se acum ularem em períodos excessivam ente longos, são inteiram ente desprovidos de todos os detritos orgânicos, sem que possam os explicar porquê. Um dos m ais m arcantes exem plos é a form ação do fly sch, que consiste em grés e xistos, cuj a espessura atinge até 1800 m etros, que se estende entre a Áustria e a Suíça, num com prim ento de cerca de 480 km , e na qual, apesar de todos os estudos, se não têm podido descobrir fósseis que não sej am restos de vegetais. É quase supérfluo j untar, com respeito às espécies terrestres que viveram durante o período secundário e o período paleozóico, que as nossas coleções apresentam num erosas lacunas. Não se conhecia por exem plo, até há bem pouco ainda, qualquer concha terrestre que tivesse pertencido a um ou outro destes dois longos períodos, à exceção de um a só espécie encontrada nas cam adas carboníferas da Am érica do Norte por sir G. Ly ell e o Dr. Dawson; m as, depois, têm -se encontrado conchas terrestres no lias. Quanto aos restos fósseis de m am íferos, um sim ples lance de olhos sobre o quadro histórico do m anual de Ly el basta para provar, m elhor que páginas de m inúcias, quanto a sua conservação é rara e acidental. Esta raridade nada tem de surpreendente, dem ais a m ais, se se pensar na enorm e proporção de ossadas de m am íferos terciários que têm sido encontradas nas cavernas ou depósitos lacustres, espécie de j azigos de que se não conhece exem plo algum nas nossas form ações secundárias ou paleozóicas. Mas as num erosas lacunas dos nossos arquivos geológicos provêm em grande parte de um a causa bem m ais im portante que as precedentes, isto é, que as diversas form ações têm sido separadas um as das outras por enorm es intervalos de tem po. Esta opinião foi calorosam ente sustentada por m uitos geólogos e paleontólogos que, com o E. Forbes, negam form alm ente a transform ação das espécies. Quando vem os a série das form ações, tal com o a dão as tabelas das obras sobre a geologia, ou estudam os estas form ações na natureza, escapam os dificilm ente à idéia de que têm sido estritam ente consecutivas. Contudo, a grande obra de sir R. Murchison sobre a Rússia ensina-nos que im ensas lacunas há neste país entre as form ações im ediatam ente sobrepostas; e da m esm a form a na Am é- 358

rica do Norte e em m uitas outras partes do m undo. Cada geólogo, por hábil que sej a, cuj a atenção fosse dirigida exclusivam ente para o estudo destes vastos territórios, não teria j am ais suposto que, durante estes m esm os períodos com pletam ente inertes para o seu próprio país, enorm es depósitos de sedim entos, encerrando um conj unto de form as orgânicas novas e todas especiais, se acum ulassem noutra parte. E se, em cada país considerado separadam ente, é quase im possível avaliar o tem po decorrido entre as form ações consecutivas, podem os concluir que não se poderia determ iná-lo em parte algum a. As freqüentes e im portantes alterações que se podem verificar na com posição m ineralógica das form ações consecutivas, im plicam geralm ente tam bém grandes alterações na geografia das regiões circunvizinhas, de onde têm podido provir os m ateriais dos sedim entos, o que confirm a ainda a opinião de que longos períodos decorreram entre cada form ação. Podem os, creio eu, tom ar nota desta interm itência quase constante das form ações geológicas de cada região, isto é, o fato de elas se não terem sucedido sem interrupção. Raram ente um fato m e tem ferido tanto com o a ausência, num com prim ento de m uitas centenas de m ilhas das costas da Am érica do Sul, que foram recentem ente levantadas de algum as centenas de pés, de todo o depósito recente assaz considerável para apresentar m esm o um curto período geológico. Em toda a costa ocidental, em que habita um a form a m arinha particular, as cam adas terciárias são tão pouco desenvolvidas, que algum as faunas m arinhas sucessivas e em tudo especiais não deixarão provavelm ente qualquer vestígio da sua existência em idades geológicas futuras. Um pouco de reflexão fará com preender a razão por que, na costa ocidental da Am érica do Sul em via de levantam ento, se não pode encontrar em parte algum a form ação extensa contendo detritos terciários ou recentes, se bem que devia ter havido abundância de m ateriais de sedim entos, em seguida à enorm e degradação das rochas das costas e da vasa transportada pelos cursos de água que se lançam no m ar. É provável, com efeito, que os depósitos subm arinos do litoral sej am constantem ente desagregados e arrastados, à m edida que o levantam ento lento e gradual do solo os expõe à ação das vagas.

Podem os, pois, concluir que os depósitos de sedim ento devem ser acum u- 359

lados em m assas m uito espessas, m uito extensas e m uito sólidas, para poder resistir, quer à ação incessante das vagas, quando dos prim eiros levantam entos do solo, e durante as oscilações sucessivas de nível, quer à desagregação atm osférica. Massas de sedim entos tão espessas e tão extensas podem form ar-se de duas m aneiras: quer nas grandes profundezas do m ar, e neste caso o fundo é habitado por form as m enos num erosas e m enos variadas do que os m ares pouco profundos, e por conseguinte, quando a m assa vem a levantar-se, som ente pode oferecer um a coleção m uito incom pleta das form as orgânicas que têm existido na vizinhança durante o período da sua acum ulação; ou então, um a cam ada de sedim ento de qualquer espessura e de qualquer extensão que sej a, pode depositar-se no pavim ento em via de deprim ir-se lentam ente; neste caso, contanto que o abatim ento do solo e o depósito dos sedim entos se equilibrem sensivelm ente, o m ar fica pouco profundo e oferece um m eio favorável à existência de um grande núm ero de form as variadas; de m odo que, um depósito rico em fósseis, e bastante espesso para resistir, após um levantam ento ulterior, a um a grande desnudação, pode assim form ar-se facilm ente.

Estou convencido que quase todas as nossas antigas form ações ricas em fósseis na m aior parte da sua espessura são assim form adas durante um a depressão. Tenho, desde 1845, época em que publiquei a m inha opinião a este respeito, seguido com cuidado os progressos da geologia, e fiquei adm irado por ver com o os autores, tratando desta ou daquela form ação, chegaram , uns após outros, a concluir que essa form ação devia ter-se acum ulado durante um abatim ento do solo. Acrescentarei que a única form ação terciária antiga que, na costa ocidental da Am érica do Sul, teve solidez bastante para resistir às degradações sofridas, m as que não durará até um a nova época geológica bem distante, se acum ulou durante um período de abaixam ento, e pôde assim atingir um a espessura considerável. Todos os fatos geológicos nos dem onstram claram ente que cada parte da superfície terrestre devia ter experim entado num erosas e lentas oscilações de nível, que têm evidentem ente afetado espaços consideráveis. Form ações ricas em fósseis, bastante espessas e bastante extensas para resistir às erosões subse- 360

qüentes, puderam , por conseqüência, form ar-se em vastas regiões durante os períodos de depressão, onde o depósito dos sedim entos fosse bastante considerável para m anter o fundo a um a fraca profundidade e para encobrir e conservar os detritos orgânicos antes que tivessem tido tem po de se desagregar. Por outra parte, enquanto que o fundo do m ar fica estacionário, depósitos espessos não podem acum ular-se nas partes pouco profundas m ais favoráveis à vida. Estes depósitos são ainda m enos possíveis durante os períodos interm ediários de levantam ento, ou, para m elhor dizer, as cam adas j á acum uladas são geralm ente destruídas à

m edida que o seu levantam ento, levando-as ao nível da água, as põe em contato com a ação destrutiva das vagas costeiras. Estas notas aplicam -se principalm ente às form ações litorâneas, ou sublitorâneas. No caso de um m ar extenso e pouco profundo, com o num a grande parte do arquipélago m alaio, em que a profundidade varia entre 50 e 100 m , um a vasta form ação poderia acum ular-se durante um período de levantam ento, e, contudo, não sofrer um a grande degradação na época da sua lenta em ersão. Todavia, a sua espessura não poderia ser m uito grande, porque, em razão do m ovim ento ascensional, seria m enor que a profundidade da água onde se form ou. O depósito não seria nem m ais sólido, nem coberto de form ações subseqüentes, o que aum entaria as probabilidades de ser desagregado pelos agentes atm osféricos e pela ação do m ar durante as oscilações ulteriores do nível. M. Hopkins fez notar, todavia, que se um a parte da superfície vinha, depois de um levantam ento, a dim inuir de novo antes de ter sido desnudada, o depósito form ado durante o m ovim ento ascencional poderia ser em seguida coberto por novas acum ulações, e ser assim , ainda que delgado, conservado durante longos períodos.

M. Hopkins j ulga tam bém que os depósitos sedim entares de grande extensão horizontal foram apenas raram ente destruídos por com pleto. Mas todos os geólogos, à exceção do pequeno núm ero dos que j ulgam que os nossos xistos m etam órficos atuais e as nossas rochas plutônicas form avam o núcleo prim itivo do Globo, adm itirão que estas últim as rochas foram subm etidas a um a desnudação considerável. Não é possível, com efeito, que tais rochas se solidificassem e cristalizassem ao ar livre; m as se a ação m etam órfica se efetuou nas grandes profun- 361

dezas do oceano, o revestim ento protetor prim itivo das rochas pode não ter sido m uito espesso. Se, pois, se adm ite que os gnaisses, os m icaxistos, os granitos, os diorites, etc., foram outrora necessariam ente recobertos, com o explicar que im ensas superfícies destas rochas sej am atualm ente desnudadas em tantos pontos do Globo, de outra m aneira diversa da desagregação subseqüente e com pleta de todas as cam adas que as cobriam ? Não se pode duvidar que existem sem elhantes extensões m uito consideráveis; segundo Hum boldt, a região granítica de Parim a é pelo m enos dezenove vezes m aior que a Suíça. Ao sul do Am azonas, Boué

descreveu um a outra com posta de rochas desta natureza tendo um a superfície equivalente à que ocupam Portugal, a Espanha, a França, a Itália, um a parte da Alem anha e as ilhas britânicas reunidas. Esta região não tem sido explorada com o cuidado preciso, m as todos os viaj antes afirm am a im ensa extensão da superfície granítica; assim , Von Eschwege dá um corte m inucioso destas rochas que se estendem em linha reta para o interior até 400 km do Rio de Janeiro; eu m esm o andei 240 km noutro sentido sem ver outra coisa além de rochas graníticas. Exam inei num erosos especím enes recolhidos em toda a costa desde o Rio de Janeiro até à em bocadura do Prata, distância de 1750 km , e todos estes especím enes pertenciam a esta m esm a classe de rochas. No interior, em toda a m argem setentrional do Prata, não se m e deparou, além de depósitos terciários m odernos, m ais que um pequeno aglom erado de um a rocha ligeiram ente m etam órfica, que apenas pôde constituir um fragm ento da cobertura prim itiva da série granítica. Na região m elhor conhecida dos Estados Unidos e do Canadá, segundo a bela carta do professor H. D. Rogers, avaliei as superfícies cortando a própria carta e pesando o papel, e encontrei que as rochas graníticas e m etam órficas (com exclusão das sem im etam órficas) excedem , num a relação de 19 a 12,5, o conj unto das form ações paleozóicas m ais novas. Em m uitas regiões, a extensão das rochas m etam órficas e graníticas seria m uito m aior, se as cam adas sedim entares que repousam sobre elas (cam adas que não têm podido fazer parte do m anto prim itivo debaixo da qual cristalizavam ), fossem levantadas. É, pois, provável que, em algum as partes do m undo, form ações inteiras fossem desagregadas de um a m aneira com pleta, sem que tenha ficado vestígio algum do estado anterior.

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Há ainda um a nota digna de atenção. Durante os períodos de levantam ento, a extensão das superfícies terrestres, assim com o das partes pouco profundas do m ar que as cercam , aum enta e form a deste m odo novas estações - tudo circunstâncias favoráveis, com o o tem os explicado, à form ação das variedades e das espécies novas; m as há geralm ente tam bém , durante estes períodos, um a lacuna nos arquivos geológicos. Por outra parte, durante os períodos de abaixam ento, a superfície habitada dim inui, assim com o o núm ero dos habitantes (exceto nas costas de um continente no m om ento em que se fraciona em arquipélago), e, por conseguinte, posto que há num erosas extinções, form am -se poucas variedades ou espécies novas; ora, é precisam ente durante estes períodos de abatim ento que são acum ulados os depósitos m ais ricos em fósseis.

DA AUSÊNCIA DE NUMEROSAS VARIEDADES INTERMEDIÁRIAS NUMA FORMA-ÇÃO Q UALQ UER

As considerações que precedem provam não ser lícito duvidar-se da extrem a im perfeição dos docum entos que, no seu conj unto, a geologia nos pode fornecer; m as, se concentrarm os o nosso exam e num a form ação qualquer, torna-se m uito m ais difícil com preender a razão por que não encontram os aí um a série estreitam ente graduada de variedades que devem ter ligado as espécies vizinhas que viviam no com eço e no fim desta form ação. Conhecem -se alguns exem plos de variedades da m esm a espécie, existindo nas partes superiores e nas partes inferiores da m esm a form ação: assim Trautschold cita alguns exem plos de Am onitas; Hilgendorf descreve um caso m uito curioso, isto é, dez form as graduadas do Planorbis multiformis encontradas nas cam adas sucessivas de um a form ação calcária de água doce na Suíça. Posto que cada form ação tenha necessitado incontestavelm ente para o seu depósito um núm ero considerável de anos, podem darse m uitas razões para explicar com o sucede que cada um a delas não apresenta ordinariam ente um a série graduada de fuzis ligando as espécies que viveram no com eço e no fim ; m as não saberia determ inar o valor relativo das considerações que seguem .

Toda a form ação geológica im plica certam ente um núm ero considerável de

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anos; é, contudo, provável que cada um destes períodos sej a curto, se se com parar ao período necessário para transform ar um a espécie noutra. Dois paleontólogos cuj as opiniões têm grande valor, Bronn e Woodward, concluíram , verdade é, que a duração m édia de cada form ação é duas ou três vezes tão longa com o a duração m édia das form as específicas. Mas parece-m e que dificuldades insuperáveis se opõem a que nós possam os chegar sobre este ponto a qualquer conclusão exata. Quando vem os um a espécie aparecer pela vez prim eira no m eio de um a form ação, seria tem erário em extrem o concluir que não tenha existido precedentem ente noutra parte; da m esm a form a que vendo um a espécie desaparecer ante o depósito das últim as cam adas, seria igualm ente tem erário afirm ar a sua extinção. Nós esquecem os que, com parada ao resto do Globo, a superfície da Europa é m uito pouca coisa, e que se não tem além disso estabelecido com um a certeza com pleta a correlação, em toda a Europa, entre os diversos andares da m esm a form ação.

Relativam ente aos anim ais m arinhos de todas as espécies, podem os presum ir, com toda a segurança, que houvesse m igrações devidas a alterações clim atéricas ou outras; e, quando vem os aparecer um a espécie pela prim eira vez num a form ação, há toda a probabilidade para que isto sej a um a im igração nova na localidade. Sabe-se, por exem plo, que m uitas espécies apareceram nas cam adas paleozóicas da Am érica do Norte um pouco m ais cedo do que na da Europa, tendo sido necessário provavelm ente um certo tem po a esta m igração dos m ares da Am érica para os da Europa. Exam inando os depósitos m ais recentes em diferentes partes do Globo, tem -se notado por toda a parte que algum as espécies ainda existentes são m uito com uns num depósito, m as desapareceram do m ar im ediatam ente vizinho; ou inversam ente, que espécies abundantes nos m ares da vizinhança são raras num depósito ou faltam aí absolutam ente. É bom refletir nas num erosas m igrações bem provadas dos habitantes da Europa durante a época glaciária, que não constitui senão um a parte de um período geológico inteiro. É

bom tam bém refletir nas oscilações do solo, nas alterações extraordinárias de clim a, e no im enso lapso de tem po com preendido neste m esm o período glaciário. Pode, contudo, duvidar-se que haj a um só ponto do Globo em que, durante todo

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este período, se tenham acum ulado na m esm a superfície, e de um a m aneira contínua, depósitos sedim entares encerrando detritos fósseis. Não é provável, por exem plo, que, durante todo o período glaciário, se tenham depositado sedim entos na em bocadura do Mississipi, nos lim ites das profundezas que m elhor convêm aos anim ais m arinhos; porque sabem os que, durante este m esm o período de tem po, grandes alterações geográficas se realizaram noutras partes da Am érica. Quando as cam adas de sedim entos depositadas em águas pouco profundas na em bocadura do Mississipi, durante um a parte do período glaciário, forem levantadas, os restos orgânicos que contêm aparecerão e desaparecerão provavelm ente a diferentes níveis, em razão das m igrações das espécies e alterações geográficas. Num futuro afastado, um geólogo, exam inando estas cam adas, poderá ser tentado a concluir que a duração m édia da persistência das espécies fósseis desaparecidas fosse inferior à do período glaciário, posto que tenha sido realm ente m uito grande, pois que se estende desde m uito antes da época glaciária até nossos dias. Para que se possa encontrar um a série de form as perfeitam ente graduadas entre duas espécies desaparecidas na parte superior ou na parte inferior da m esm a form ação, seria necessário que esta tivesse continuado a acum ular-se durante um Período bastante longo para que as m odificações sem pre lentas das espécies tivessem tido tem po de operar-se. O depósito devia, pois, ser extrem am ente espesso; teria sido, além disso, necessário que a espécie em via de se m odificar, tivesse habitado todo o tem po na m esm a região. Mas nós tem os visto que um a form ação considerável, igualm ente rica em fósseis em toda a sua espessura, não pode acum ular-se a não ser durante um período de abaixam ento; e, para que a profundidade fique sensivelm ente a m esm a, condição necessária para que ‘um a espécie m arinha qualquer possa continuar a habitar o m esm o ponto, é necessário que o conj unto de sedim entos com pense sensivelm ente o abaixam ento. Ora, o m esm o m ovim ento de depressão tendendo tam bém a subm ergir os terrenos que fornecem os m ateriais do próprio sedim ento, resulta que a quantidade deste últim o tende a dim inuir tanto quanto o m ovim ento de abatim ento continue. Um equilíbrio aproxim ativo entre a rapidez de produção dos sedim entos e a velocidade do aba- 365

tim ento é, pois, provavelm ente um fato raro; m uitos paleontólogos têm , com efeito, notado que os depósitos m uito espessos são ordinariam ente desprovidos de fósseis, exceto nos lim ites superior ou inferior. Parece m esm o que cada form ação distinta, da m esm a form a que toda a série das form ações de um país, é em geral acum ulada de m odo interm itente. Quando vem os, com o sucede m uitas vezes, um a form ação constituída por cam adas de com posição m ineralógica diferente, há toda a razão em pensar que a m archa do depósito foi m ais ou m enos interrom pida. Mas o exam e m ais m inucioso de um depósito não pode fornecer qualquer elem ento de natureza a perm itir-nos avaliar o tem po que foi necessário para o form ar. Poderiam citar-se m uitos casos de cam adas não tendo m ais que alguns pés de espessura, representando form ações que, dem ais a m ais, têm atingido espessuras de m uitos m ilhares de pés, e de que a acum ulação só pôde fazer-se num período de um a duração enorm e; ora, quem ignorasse este fato, não poderia m esm o supor a im ensa série de séculos representada pelo andar m ais delgado. Poderiam citar-se casos num erosos de cam adas inferiores de um a form ação que foram levantadas, desnudadas, subm ersas, em seguida cobertas por cam adas superiores da m esm a form ação - fatos que dem onstram que podia haver intervalos consideráveis e fáceis de desconhecer na acum ulação total. Noutros casos, grandes árvores fósseis, ainda de pé no solo em que viveram , provam nitidam ente que longos intervalos de tem po decorreram e que alterações de nível se realizaram durante a form ação dos depósitos; o que não se poderia supor se as árvores não tivessem sido conservadas. Assim sir C. Ly ell e o Dr. Dawson encontraram na Nova Escócia depósitos carboníferos tendo 1400 pés de espessura, form ados de cam adas sobrepostas contendo raízes, e isto a sessenta e oito níveis diferentes. Assim , quando a m esm a espécie se encontra na base, no m eio e no vértice de um a form ação, há toda a probabilidade de não ter vivido no m esm o ponto durante todo o período do depósito, m as que apareceu e desapareceu, m uitas vezes talvez, durante o m esm o período geológico. Por conseguinte, se sem elhantes espécies tivessem sofrido, durante o curso de um período geológico, m odificações consideráveis, um ponto dado da form ação não encerraria todos os graus interm ediários de organização que, pela m inha teo- 366

ria, deviam ter existido, m as apresentaria alterações de form as súbitas, ainda que talvez pouco consideráveis.

É indispensável lem brar que os naturalistas não têm form a algum a m atem ática que lhes perm ita distinguir as espécies das variedades; concordam num a pequena variabilidade em cada espécie; m as logo que encontram algum as diferenças um pouco m ais m arcantes entre duas form as, consideram -nas am bas com o espécies, a não ser que não possam ligá-las por um a série de gradações interm ediárias m uito vizinhas; ora, só m uito raram ente, e em virtude das razões que acabam os de expor, devem os esperar encontrar, num a secção geológica qualquer, um a aproxim ação sem elhante. Suponham os duas espécies B e C, e que se encontra, num a cam ada subj acente e m ais antiga, um a terceira espécie A; adm itindo m esm o que sej a rigorosam ente interm ediária entre B e C, seria sim plesm ente considerada com o um a espécie distinta, a não ser que se não encontrem variedades interm ediárias ligando-a com um a ou outra das duas form as ou com outras. É necessário não esquecer que, assim com o j á explicam os, A poderia ser o ascendente de B e de C, sem ser rigorosam ente interm ediário entre os dois em todos os seus caracteres. Poderíam os pois encontrar nas cam adas inferiores e superiores da m esm a form ação a espécie-m ãe e os seus diferentes descendentes m odificados, sem poder reconhecer o parentesco, na ausência das num erosas form as de transição, e, por conseqüência, as consideraríam os com o espécies distintas. Sabe-se em que diferenças excessivam ente ligeiras m uitos paleontólogos fundaram as suas espécies, e fazem -no tanto m ais voluntariam ente quanto os especím enes provêm de várias cam adas de um a m esm a form ação. Alguns conquiliólogos experim entados colocam atualm ente na ordem das variedades um grande núm ero de espécies estabelecidas por de Orbigny e tantos outros, o que nos fornece a prova das alterações que, pela m inha teoria, devem os notar. Nos depósitos terciários recentes, encontram -se tam bém m uitas conchas que a m aioria dos naturalistas consideram com o idênticas às espécies vivas; m as outros excelentes naturalistas, com o Agassiz e Pictet, sustentam que todas estas espécies terciárias são especificam ente distintas, adm itindo que as diferenças que entre elas existem são

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m uito ligeiras. Aqui ainda, a não ser que se suponha que estes em inentes naturalistas se deixassem arrastar pela im aginação, e que as espécies terciárias não apresentam realm ente qualquer diferença dos representantes vivos, ou que pelo m enos se adm ita que não assiste razão à grande m aioria dos naturalistas em não reconhecer que as espécies terciárias são realm ente distintas das espécies atuais, tem os a prova da existência freqüente de leves m odificações tais com o as exige a m inha teoria. Se estudarm os períodos m ais consideráveis e exam inarm os os andares consecutivos e distintos da m esm a grande form ação, encontram os que os fósseis desaparecidos, se bem que universalm ente considerados com o especificam ente diferentes, são, contudo, m uito m ais vizinhos uns dos outros do que as espécies desaparecidas nas form ações cronologicam ente m ais afastadas um as das outras; ora, ainda aqui se vê um a prova evidente de alterações operadas na direção requerida pela m inha teoria. Mas voltarei a este ponto no capítulo seguinte. Para as plantas e anim ais que se propagam rapidam ente e se deslocam pouco, há razão para supor, com o tem os j á visto, que as variedades são a princípio geralm ente locais, e que estas variedades locais se não espalham m uito e não suplantam as form as m ães a não ser quando são consideravelm ente m odificadas e aperfeiçoadas. A probabilidade em encontrar na form ação de um país qualquer todas as form as prim itivas de transição entre duas espécies é, pois, excessivam ente fraca, pois que se supõe que alterações sucessivas têm sido locais e lim itadas a um ponto dado. A m aior parte dos anim ais m arinhos têm um habitat m uito extenso; vim os j á, além disso, que são as plantas que têm um habitat m ais extenso que apresentam variedades m aior núm ero de vezes. É pois provável que os m oluscos e os outros anim ais m arinhos dissem inados em espaços consideráveis, passando m uito os lim ites das form ações geológicas conhecidas na Europa, tenham dado tam bém as m ais das vezes origem a variedades locais a princípio, depois enfim a espécies novas; circunstância que só pode ainda dim inuir a probabilidade que tem os de encontrar todos os estados de transição entre duas form as num a form ação geológica qualquer.

O Dr. Falconer assinalou ainda um a consideração m ais im portante, que

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conduz à m esm a conclusão, isto é, que o período, durante o qual cada espécie sofreu m odificações, posto que m uito longo se se apreciar em anos, devia ter sido provavelm ente m uito curto em com paração com o tem po durante o qual essa m esm a espécie não tenha sofrido qualquer alteração.

Não devem os esquecer que, em nossos dias, se bem que dispúnham os de especím enes perfeitos, só raram ente podem os ligar duas form as entre si por variedades interm ediárias de m aneira a estabelecer a identidade específica, até que tenham os reunido um grande núm ero de especím enes provindo de países diferentes; ora, é raro que possam os atuar assim com respeito aos fósseis. Para nos fazer com preender m elhor a im probabilidade que há em poderm os ligar entre si as espécies por form as fósseis interm ediárias, num erosas e graduadas, não há com o procurarm os, por exem plo, com o conseguirá um geólogo, em qualquer época futura, chegar a dem onstrar que as nossas diferentes raças de anim ais silvestres, de carneiros, de cavalos ou de cães, derivam de um a só fonte originária ou de m uitas; ou ainda, se certas conchas m arinhas habitando as costas da Am érica do Norte, que alguns conquiliólogos consideram com o especificam ente distintas das suas congêneres da Europa e que outros vêem som ente com o variedades, são realm ente variedades ou espécies. O geólogo do futuro não poderia resolver esta dificuldade a não ser que descubra no estado fóssil num erosas form as interm ediárias, coisa im provável no m ais alto grau. Os autores que crêem na im utabilidade das espécies têm repetido à saciedade que a geologia não fornece qualquer form a de transição. Esta asserção, com o o verem os no capítulo seguinte, é com pletam ente errônea. Com o o fez notar sir J. Lubbock, « cada espécie constitui um laço entre outras form as aliadas» . Se tom arm os um gênero que tenha um a vintena de espécies vivas e extintas, e destruirm os quatro quintos, é evidente que as form as que ficarem serão m ais afastadas e m ais distintas um as das outras. Se as form as assim extintas forem as form as extrem as do gênero, será este por si m esm o m ais distinto dos outros gêneros aliados. O que as pesquisas geológicas não reVelaram ainda, é a existência passada de gradações infinitam ente nuMerosas, tão aproxim adas quanto o são as variedades atuais, e ligando entre si quase todas as espécies extintas ou ainda

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vivas. Ora é isto que não podem os esperar, e é contudo a grande obj eção que repetidas vezes tem sido oposta à m inha teoria.

Para resum ir as notas que precedem sobre as causas da im perfeição dos docum entos geológicos, suponham os o exem plo seguinte: o arquipélago m alaio é em extensão quase igual à Europa, do cabo Norte ao Mediterrâneo e da Inglaterra à

Rússia; representa, portanto, um a superfície igual àquela de que as form ações geológicas têm sido até hoj e exam inadas com cuidado, excetuando as dos Estados Unidos. Adm ito com pletam ente, com M. Godwin Austen, que o arquipélago m alaio, nas suas condições atuais, com as suas grandes ilhas separadas por m ares largos e pouco profundos representa provavelm ente o antigo estado da Europa, na época em que se acum ulou a m aior parte das nossas form ações. O arquipélago m alaio é um a das regiões do Globo m ais ricas em seres organizados; contudo, se se com parassem todas as espécies que têm vivido, representariam som ente bem im perfeitam ente a história natural do m undo. Tem os, além disso, toda a razão de crer que as produções terrestres do arquipélago seriam apenas conservadas de um a m aneira m uito im perfeita, nas form ações que supom os haver em via de acum ulação. Um pequeno núm ero som ente dos anim ais que habitam o litoral, ou vivem nos rochedos subm arinos desnudados, devem ter desaparecido; m esm o os que apenas fossem sepultados na areia e no cascalho não se conservariam m uito tem po. Dem ais, por toda a parte onde se não fazem depósitos no fundo do m ar e onde se não acum ulam assaz prontam ente para se cobrir em tem po e proteger contra a destruição os corpos orgânicos, os seus restos não podem ser conservados. As form ações ricas em fósseis diversos e bastante espessas para persistir até ao período futuro tão afastado no porvir com o o são os terrenos secundários no passado, não devem , em regra geral, form ar-se no arquipélago a não ser durante os m ovim entos de abaixam ento do solo. Estes períodos de abatim ento são necessariam ente separados uns dos outros por intervalos consideráveis, durante os quais a região fica estacionária ou se levanta. Durante os períodos de levantam ento, as form ações fossilíferas das costas m ais escarpadas devem ser destruídas quase logo que são acum uladas pela ação incessante das vagas costeiras,

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com o se dá atualm ente nas ribeiras da Am érica Meridional. Mas nos m ares extensos e pouco profundos do arquipélago, os depósitos de sedim ento não poderiam , durante os períodos de levantam ento, atingir m aior espessura, nem ser cobertos e protegidos por depósitos subseqüentes que assegurassem a sua conservação até

um futuro afastado. As épocas de abaixam ento devem provavelm ente ser acom panhadas de num erosas extinções de espécies, e as de levantam ento de m uitas variações; m as, neste últim o caso, os docum entos geológicos são m uito m ais incom pletos. Pode duvidar-se de que a duração de um grande período de depressão afetando no todo ou em parte um arquipélago, assim com o a acum ulação contem porânea dos sedim entos, devem exceder a duração m édia das m esm as form as específicas; duas condições indispensáveis para a conservação de todos os estados de transição que têm existido entre duas ou m uitas espécies. Se não fossem conservados todos estes interm ediários, as variedades de transição pareceriam outras tantas espécies novas ainda que m uito próxim as. É provável tam bém que cada grande período de abaixam ento fosse interrom pido por oscilações de nível, e que ligeiras alterações de clim a se produzissem durante tão longos períodos; nestes diversos casos, os habitantes do arquipélago em igrariam . Um grande núm ero de espécies m arinhas do arquipélago estende-se atualm ente a m ilhares de léguas de distância além dos seus lim ites; ora, a analogia conduz-nos certam ente a pensar que são principalm ente estas espécies m uito espalhadas que produzem as m ais das vezes variedades novas. Estas variedades são a princípio locais, ou confinadas num a só região; m as se forem dotadas de qualquer vantagem decisiva sobre outras form as, e continuarem a m odificar-se e a aperfeiçoar-se, m ultiplicam -se pouco a pouco e acabam por suplantar a origem m ãe. Ora, quando estas variedades voltam à sua antiga pátria, com o diferem de um a m aneira uniform e, ainda que talvez m uito ligeira, do seu estado prim itivo, e com o se encontram escondidas nas cam adas um Pouco diferentes da m esm a form ação, m uitos paleontólogos, segundo os princípios em vigor, classificam -nas com o espécies novas ou distintas.

Se as observações que acabam os de fazer têm algum a im portância, não

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devem os esperar encontrar nas nossas form ações geológicas um núm ero infinito destas form as de transição que, pela m inha teoria, têm ligado um as às outras todas as espécies passadas e presentes do m esm o grupo, para fazer um a única longa série contínua e ram ificada. Não podem os esperar encontrar outra coisa m ais que alguns fuzis esparsos, m ais ou m enos vizinhos uns dos outros; e é isto certam ente o que sucede. Mas se estes fuzis, por aproxim ados que possam ser, provêm de andares diferentes de um a m esm a form ação, m uitos paleontólogos Consideram -nos com o espécies distintas. Contudo, não teria eu j am ais Suposto, sem dúvida, a insuficiência e a pobreza dos ensinam entos que podem fornecernos as cam adas geológicas m elhor conservadas, sem a im portância da obj eção que levanta contra a m inha teoria a ausência de fuzis interm ediários entre as espécies que viveram no com eço e no fim de cada form ação.

APARIÇÃO SÚBITA DE G RUPOS INTEIROS DE ESPÉCIES ALIADAS

Muitos paleontólogos, Agassiz, Pictet e Sedgwick por exem plo, têm acusado a aparição súbita de grupos inteiros de espécies em certas form ações com o um fato inconciliável com a teoria da transform ação. Se espécies num erosas, pertencendo aos m esm os gêneros ou às m esm as fam ílias, tivessem realm ente aparecido de repente, este fato destruiria a teoria da evolução pela seleção natural. Com efeito, o desenvolvim ento, pela seleção natural, de um conj unto de form as, todas provindo de um ascendente único, deve ter sido m uito longo, e as espécies prim itivas devem ter vivido m uitos séculos antes da sua descendência m odificada. Mas, dispostos com o estam os a exagerar continuam ente a perfeição dos arquivos geológicos, concluím os, m uito falsam ente, que certos gêneros ou certas fam ílias não foram encontradas debaixo de um a cam ada, que não existiram antes do depósito dessa cam ada. Podem os confiar com pletam ente nas provas paleontológicas positivas; m as, com o a experiência no-lo tem dem onstrado m uitas vezes, as provas negativas não têm valor algum . Esquecem os sem pre quão grande é a Terra, com parada à superfície suficientem ente estudada das nossas form ações geológicas; não atendem os a que grupos de espécies podem ter existido, dem ais a

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m ais, durante m uito tem po, e terem -se m ultiplicado lentam ente antes de invadirem os antigos arquipélagos da Europa e dos Estados Unidos. Não reparam os o bastante nos enorm es intervalos que devem ter decorrido entre as’ nossas form ações sucessivas, intervalos que, em m uitos casos, foram talvez m ais longos que os períodos necessários à acum ulação de cada um a destas form ações. Estes intervalos perm itiram a m ultiplicação de espécies derivadas de um a ou de m uitas form asm ães, constituindo grupos que, na form ação seguinte, apareciam com o se fossem criados subitam ente.

É-m e preciso lem brar aqui um ponto a que j á aludi; e é que deve ser necessária um a longa sucessão de séculos para adaptar um organism o a condições inteiram ente novas, tais com o ao vôo, por exem plo. Por isso, as form as de transição devem , m uitas vezes, ter ficado por longo tem po circunscritas nos lim ites da m esm a localidade; m as, desde que esta adaptação se efetuou, e que algum as espécies adquiriram assim um a vantagem notável sobre os outros organism os, não é necessário m ais do que um tem po relativam ente curto para produzir um grande núm ero de form as divergentes, aptas a espalharem -se rapidam ente por toda a Terra. Num a excelente análise da presente obra, o professor Pictet, tratando das prim eiras form as de transição e tom ando as aves para exem plo, não vê

com o as m odificações sucessivas dos m em bros anteriores de um suposto protótipo possam ter oferecido qualquer vantagem . Considerem os, todavia, os pingüins dos m ares do Sul; os m em bros anteriores destas aves não se encontram neste estado exatam ente interm ediário visto que não são nem braços nem asas? Estas aves sustentam , contudo, vitoriosam ente o seu lugar na luta pela existência, visto que existem em grande núm ero e com diversas form as. Não penso que sej am esses os verdadeiros estados de transição por que tenha passado a form ação das asas definitivas das aves; m as haveria algum a dificuldade especial nem adm itir que pudesse tornar-se vantaj osa aos descendentes m odificados do pingüim adquirir, a princípio, a faculdade de circular batendo a água com as asas, com o o pato de asas curtas, para chegar a levantar-se e arroj ar-se aos ares?

Dam os agora alguns exem plos em apoio das notas que precedem , e tam bém para provar com o estam os suj eitos a erro quando supom os que se produzi- 373

ram repentinam ente grupos inteiros de espécies. M. Pictet deve ter m odificado consideravelm ente as suas conclusões relativam ente à aparição e desaparecim ento rápida de m uitos grupos de anim ais no curto intervalo que separa as duas edições da sua grande obra sobre paleontologia, aparecidas, a prim eira em 18441846, a segunda em 1853-1857, e um a terceira reclam aria ainda outras alterações. Posso lem brar o fato bem conhecido de, em todos os tratados de geologia publicados não há m uito tem po, se ensinar que os m am íferos apareceram bruscam ente no com eço da época terciária. Ora, atualm ente, um dos depósitos m ais ricos em fósseis de m am íferos, que se conhece, pertence ao m eado da época secundária, e têm -se descoberto verdadeiros m am íferos nas cam adas do novo grés verm elho, que vão quase ao com eço desta grande época. Cuvier sustentou m uitas vezes que as cam adas terciárias não contêm nenhum m acaco, m as depois disto têm -se encontrado espécies extintas destes anim ais na Índia, na Am érica do Sul e na Europa, até m esm o nas cam adas da época m iocênia. Sem a conservação acidental e m uito rara de im pressões de passos no novo grés verm elho dos Estados Unidos, quem ousaria supor que m ais de trinta espécies de anim ais sem elhantes a aves, algum as delas de tam anho gigantesco, existiriam durante este período?

Não se tem podido descobrir nestas cam adas o m ais pequeno fragm ento de osso. Até m uito recentem ente, os paleontólogos sustentavam que a classe inteira das aves aparecera bruscam ente durante a época eocênia; m as o professor Owen dem onstrou, em seguida, que existia um a ave incontestável fora do depósito de grés verde superior. Mais recentem ente ainda, descobriu-se nas cam adas oolíticas de Solenhofen esta curiosa ave, o arqueoptérix, de que a cauda de lagarto alongada tem em cada articulação um par de penas, e de que as asas são arm adas de garras livres. Há poucas descobertas recentes que provem , tão eloqüentem ente com o esta, quão lim itados são ainda os nossos conhecim entos sobre os antigos habitantes do Globo.

Continuar: parte 2 de 3