A Rainha dos Funerais
Nove
Duas semanas depois, Richard levantou os olhos do exemplar do The Times
em suas mãos e deu uma gargalhada.
— Veja isso! — disse ele, apontando para uma nota nas páginas de
negócios cujo título era “Contador Suspenso”.
Fleur passou os olhos pelas poucas linhas de texto e abriu um sorriso.
— Eu te disse! — falou ela. — Eu sabia que aquelas pessoas eram
vigaristas.
— O que aconteceu? — perguntou Gillian, adentrando o ambiente.
Richard ergueu o olhar para ela, satisfeito da vida.
— As pessoas com quem jogamos golfe na outra semana. Da Briggs &
Co. Uma delas foi flagrada fraudando os registros financeiros de outra
empresa. Saiu no jornal.
— Minha nossa — disse Gillian, confusa. — E isso é uma coisa boa?
— Não. O bom é que decidimos não os contratar. O bom é que Fleur
percebeu qual era a deles. — Richard esticou a mão para pegar a de Fleur e
deu um aperto carinhoso nela. — Fleur é a coisa boa que temos aqui —
disse ele. — Como acho que todos concordamos. — Ele olhou para Gillian.
— Você está bonita.
— Vou para a minha aula de bridge — disse Gillian. Ela olhou para
Fleur. — Tem certeza de que não vai?
— Querida, eu fiquei bem perdida na semana passada. Ainda não
consigo me lembrar quantas vazas há em um naipe. Ou é o contrário? —
Fleur franziu o nariz para Gillian, que riu. — E a Tricia não via a hora de
arrumar uma parceira. Então, vá você. Divirta-se.
— Bem... — Gillian fez uma pausa, alisando o paletó sobre o quadril.
Era um blazer novo, de linho azul-claro, adquirido durante uma ida às
compras com Fleur na semana anterior. Ela o usava com uma saia creme comprida, também nova, e com a echarpe azul que Fleur tinha lhe dado. —
Se você tem certeza de que não quer ir.
— Tenho certeza — disse Fleur. — E não se esqueça de que sou eu
quem vai preparar o jantar hoje. Então, nada de voltar para casa correndo.
— Tudo bem, então. — Gillian abriu um sorrisinho. — Estou gostando
dessas aulas, sabe? Nunca pensei que um jogo de cartas pudesse ser tão
revigorante!
— Eu gostava de jogar bridge — disse Richard —, mas Emily nunca se
interessou.
— É preciso ter muita concentração, mas é disso que eu mais gosto —
disse Gillian.
— Fico contente — disse Richard, sorrindo para ela. — É bom ver que
você arranjou um hobby.
Gillian corou de leve.
— É só um momento de diversão — disse ela. Olhou para Fleur. —
Provavelmente vou chegar a tempo de fazer o jantar. Não precisa se
preocupar com isso.
— Eu quero fazer! — disse Fleur. — Agora vá, senão vai chegar
atrasada!
— Certo — disse Gillian.
Ela permaneceu ali por mais um instante, e então pegou a bolsa e
caminhou até a porta. Ali, parou e olhou para trás.
— Deve ter tudo na geladeira, acho — começou ela.
Richard começou a rir.
— Gillian, vá logo!
Quando ela finalmente saiu, eles recaíram num silêncio amigável.
— Estou surpreso por Lambert não ter telefonado — disse Richard, de
repente. — Ele deve ter lido o jornal hoje cedo.
— Suponho que esteja com vergonha — disse Fleur.
— Pode ser que sim, mas ele deve um pedido de desculpas a você. —
Richard suspirou e soltou o jornal. — Fico triste em confessar isso, mas,
quanto mais conheço o Lambert, menos gosto dele. Acho que a Philippa
deve amá-lo, mas... — Ele parou de falar e deu de ombros.
— Você se surpreendeu quando eles se casaram? — perguntou Fleur.
— Sim — respondeu Richard. — Achei que estivessem se precipitando,
talvez. Mas pareciam muito decididos. E Emily ficou muito satisfeita. Não parecia nem um pouco surpresa. — Ele fez uma pausa. — Intuição de mãe,
imagino.
— E quanto à intuição de pai?
— Temporariamente com defeito, eu diria. — Ele sorriu. — Bem, eles
parecem muito felizes agora. Você não acha?
— Ah, sim — disse Fleur. — Muito felizes. — Ela fez uma pausa e
acrescentou: — Mas concordo com você em relação ao Lambert. Fiquei
bem surpresa com o jeito como ele foi hostil comigo. Quase... desconfiado.
— Ela olhou para Richard com cara de magoada. — Eu só estava dando a
minha opinião.
— É claro que estava! — disse Richard, enfático. — E sua opinião foi
totalmente certeira! Esse Lambert tem muita coisa a explicar. Se não tivesse
sido você... — Ele parou de falar e olhou para Fleur, do outro lado da mesa,
com mais amor em seu semblante do que ela já tinha visto até agora.
Fleur encarou-o por um instante, pensando depressa. De repente, ela
exclamou:
— Ah, não! — E levou a mão à boca.
— O que foi?
— Nada — disse Fleur. — Deixa para lá. — Ela suspirou. — É só a
minha carteira. Lembra que eu a perdi na semana passada?
— Perdeu?
— Não te contei? Pois é. Eu a perdi enquanto fazia compras. Eu relatei
o ocorrido a um policial qualquer, mas você sabe como eles são...
— Eu não fazia a menor ideia! — disse Richard. — Você cancelou seus
cartões?
— Ah, sim — disse Fleur. — Na verdade, esse é o problema. Não
recebi os cartões novos ainda.
— Você precisa de algum dinheiro? — Richard começou a enfiar a mão
no bolso. — Querida, você deveria ter dito alguma coisa!
— O problema é que vai demorar um pouco para os outros cartões
chegarem — disse Fleur. E franziu o cenho. — É tudo meio complicado.
Você sabe que tenho conta nas Ilhas Cayman. E na Suíça, claro.
— Eu não sabia — disse Richard —, mas nada mais nessa vida me
surpreende a seu respeito.
— De modo geral, eles são muito eficientes — disse Fleur —, mas são
um fracasso na hora de emitir novos cartões.
— Você deveria usar um banco normal, como todo mundo — disse
Richard.
— Eu sei — disse ela —, mas meus contadores me recomendaram abrir
as contas fora do país, por algum motivo... — Ela estendeu as mãos de
modo vago.
— Tome, cem libras — disse Richard, entregando algumas notas para
ela.
— Eu tenho dinheiro em espécie — disse ela, meio blasé. — É só que...
eu acabei de me lembrar que é aniversário da Zara na semana que vem. Eu
tinha me esquecido totalmente!
— Aniversário da Zara! — disse Richard. — Eu não sabia.
— Quero muito comprar algo especial para ela. — Fleur tamborilou as
unhas freneticamente no braço da poltrona. — O que realmente preciso é do
meu novo cartão Gold. Só que rápido.
— Deixe-me ligar para eles — sugeriu Richard.
— Estou dizendo — falou Fleur. — Eles são um fracasso nisso.
Ela tamborilou as unhas na poltrona mais algumas vezes. E então, de
repente, ergueu o olhar.
— Richard, você tem um cartão Gold, não tem? Poderia me colocar
como dependente, depressa? Nos próximos dias? Assim, eu poderia ir até
Guildford e comprar um bom presente para a Zara, e, até lá, pode ser que os
meus novos cartões já tenham chegado. Se eu tiver sorte. — Ela olhou para
ele, séria. — Sei que é pedir muito...
— Bem — disse Richard. — Não, não é. Fico muito feliz em ajudar.
Mas não acho que seja preciso passar por todo esse transtorno de pedir um
cartão Gold de dependente. Por que eu simplesmente não te empresto algum
dinheiro?
— Dinheiro vivo? — Fleur estremeceu. — Eu nunca levo dinheiro vivo
quando vou às compras. Nunca! Faz com que eu me sinta como se estivesse
pedindo para ser atacada.
— Bem, então, por que eu não vou com você para comprar os presentes
de Zara? Eu adoraria fazer isso. Sabe, gostei muito da sua filha. — Sua
expressão era de ternura. — Ainda que eu ache que ela deveria comer mais.
— O quê? — Fleur o encarou, sua atenção sendo temporariamente
desviada.
— Todas aquelas saladas e copos de água! Sempre que a vejo
beliscando a comida como um passarinho, sinto muita vontade de preparar um belo prato de bacon com ovos e forçá-la a comer tudo! — Richard deu
de ombros. — Tenho certeza de que você está fazendo a coisa certa, não
chamando atenção para os hábitos alimentares dela. E tenho certeza de que
ela não tem nenhum problema por causa disso. Mas é tão magra, mas tão
magra. — Ele sorriu. — Conhecendo a Zara, acho que ela não reagiria bem
se alguém dissesse o que ela deve comer!
— Pois é — disse Fleur. — Acho que não, mesmo.
— Mas ela vai ganhar um bolo de aniversário, de qualquer jeito! — Os
olhos de Richard começaram a brilhar. — Vamos planejar uma festa para
ela. Talvez pudesse ser uma festa surpresa!
— Quando você consegue me colocar de dependente no seu cartão
Gold? Até sábado?
— Fleur, não estou bem certo sobre esse esquema do cartão Gold.
— Ah. — Fleur o encarou. — Por que não?
— É só… uma coisa que eu nunca fiz. Colocar alguém como
dependente no meu cartão. Não parece necessário.
— Ah, entendo. — Fleur pensou por um instante. — A Emily não era
sua dependente?
— Não, ela tinha o dela. Sempre mantivemos as questões financeiras
separadas. Parecia o mais sensato a fazer.
— Separadas? — Fleur encarou Richard com uma expressão que ela
esperava que demonstrasse surpresa, e não a irritação que começava a
crescer dentro dela. Como Richard podia se recusar a colocá-la como
dependente no cartão Gold dele?, pensou Fleur, furiosa. O que estava
acontecendo com ela? Estaria perdendo o jeito? — Mas isso não é normal!
— disse Fleur, elevando a voz. — Vocês eram casados! Vocês não
queriam... compartilhar tudo?
Richard coçou o nariz.
— Eu queria — disse ele —, no começo. Gostava da ideia de termos
uma conta conjunta. Eu queria concentrar tudo num lugar só. Mas Emily,
não. Ela queria que tudo fosse mais simples. Então, ela tinha a própria conta
e os próprios cartões de crédito e... — Ele parou e sorriu timidamente. —
Não sei bem como entramos nesse assunto. É muito entediante.
— Por causa do aniversário da Zara — disse Fleur.
— Ah, sim — disse Richard. — Não se preocupe. Faremos um
aniversário incrível para a Zara.
— E você não acha que seria mais sensato eu ter um cartão como
dependente? Só para poder ir às compras com ele.
— Acho que não — disse Richard. — Mas, se quiser, podemos pedir
um novo para você como titular.
— Tá — disse ela, baixinho. Suas mandíbulas tencionaram de modo
imperceptível e ela ficou olhando fixamente para as unhas. Richard abriu o
caderno de esportes do Times. Por alguns minutos, o silêncio imperou.
Então, do nada, sem erguer o olhar, Fleur disse: — Pode ser que eu tenha de
ir a um funeral em breve.
— Minha nossa! — Richard levantou a cabeça.
— Um amigo de Londres pediu que eu ligasse para ele. Estamos à
espera de más notícias há algum tempo. Tenho a impressão de que pode ser
isso.
— Sei como é — disse Richard com seriedade. — Essas coisas podem
se arrastar durante muito tempo. Sabe, às vezes acho que é melhor...
— Sim — disse Fleur, pegando o Times e abrindo no obituário. — Sim,
eu também.
— Quanto tempo você vai ficar com a gente? — perguntou Antony.
Ele estava sentado com Zara em um canto reservado do jardim,
colhendo alguns morangos do canteiro e comendo-os, enquanto ela
examinava atentamente uma revista grossa e de páginas brilhantes. Zara
levantou a cabeça. Usava óculos escuros opacos e ele não conseguia ver o
olhar dela.
— Não sei — disse ela, e voltou a folhear a revista.
— Seria ótimo se você ainda estivesse quando Will voltar — disse
Antony.
Ele esperou que Zara perguntasse quem era Will ou onde ele estava.
Mas ela só mascou o chiclete algumas vezes e virou a página. Antony
comeu mais um morango e se perguntou por que simplesmente não saía dali
para jogar golfe ou coisa assim. Zara não precisava de ninguém cuidando
dela; quase não dizia nada; não sorria nem ria. Não era como se eles
estivessem se divertindo muito juntos. Mas, ainda assim, alguma coisa nela
o fascinava. Admitiu para si mesmo que ficaria muito feliz em
simplesmente passar o dia todo só olhando para a Zara, e nada mais. Mas,
ao mesmo tempo, parecia errado estar a sós com alguém e sequer tentar
puxar assunto.
— Onde você mora, normalmente? — perguntou ele.
— Nós nos mudamos muito — disse ela.
— Mas você deve ter um lar.
Zara deu de ombros. Antony pensou por um segundo.
— Tipo... Onde você passou as últimas férias?
— Com um amigo — disse Zara. — No iate dele.
— Ah, tá.
Antony se ajeitou na grama. Não sabia nada de iates. Só sabia, por seus
colegas de escola, que era preciso ser muito rico para ter um. Ele olhou para
Zara com um respeito renovado, se perguntando se ela daria mais detalhes.
Mas permaneceu concentrada na revista. Antony olhou por cima do ombro
dela para as imagens. Eram fotos de garotas como Zara, magras e jovens,
com ombros ossudos e peito liso, olhando diretamente para a câmera com
olhos enormes e tristes. Nenhuma delas parecia um dia sequer mais velha
que Zara. Ele ficou se perguntando se ela se reconhecia nas fotos ou se
estava apenas observando as roupas. Na opinião dele, cada roupa era mais
assustadora que a outra.
— Você gosta de roupas de grife? — perguntou ele. Olhou para a
camisa de malha que ela estava usando. Será que era de alguma marca
famosa? Ele não sabia. — Sua mãe usa roupas lindas — acrescentou,
educadamente.
Em sua mente surgiu uma imagem de Fleur com um vestido vermelho,
cheia de curvas, cabelos sedosos e riso contagiante. Zara não conseguiria
ser mais diferente que a mãe, nem se tentasse. E, então, ocorreu a ele que
talvez ela tentasse.
— Qual é o seu signo? — A voz rouca dela interrompeu seus
pensamentos.
— Ah. Áries. — Sem levantar a cabeça, ela começou a ler em voz alta.
— “A atividade planetária em Plutão está alterando o rumo da sua vida.
Depois do dia 18, você entrará em uma fase mais importante”. — Ela virou
a página.
— Você acredita mesmo nessas coisas? — perguntou Antony, antes que
ela pudesse continuar.
— Depende do que estiver dizendo. Quando é bom, eu acredito. — Ela
olhou para ele e esboçou um sorrisinho de canto de boca.
— Qual é a previsão para o seu? Qual é seu signo?
— Sagitário. — Ela largou a revista. — No meu está dizendo para eu
procurar o que fazer e parar de ler horóscopos fajutos. — Ela jogou a
cabeça para trás e respirou fundo.
Antony pensou depressa. Agora era a hora de dar continuidade à
conversa.
— Você vai a boates? — perguntou ele.
— Claro — respondeu ela. — Quando estamos em Londres. Quando
tem alguém para ir comigo.
— Ah, tá. — Antony pensou de novo. — Londres é onde o seu pai
mora?
— Não. Ele mora nos Estados Unidos.
— Ah, sim! Ele é americano?
— É.
— Legal! Onde ele mora?
Que ótimo, pensou Antony. Eles poderiam começar a falar sobre quais
lugares dos Estados Unidos já tinham visitado. Ele poderia contar a ela
sobre a excursão da escola para a Califórnia. Talvez até pudesse mostrar
suas fotos.
— Não sei. — Zara desviou o olhar. — Nunca vi o meu pai. Nem sei o
nome dele.
— O quê? — Antony, que vinha se preparando para expor seu
conhecimento a respeito de São Francisco, se pegou exalando
ruidosamente, em vez disso. Será que ele tinha ouvido certo? — Você não
sabe o nome do seu pai? — Ele tentou parecer interessado, e não abalado.
— Não.
— Sua... — Qualquer coisa que dissesse soaria idiota. — Sua mãe não
te contou?
— Ela diz que o nome dele não importa.
— Você sabe alguma coisa sobre ele?
— Não.
— Então, como você sabe que ele mora nos Estados Unidos?
— Foi a única coisa que ela me contou. Há muito tempo, quando eu era
pequena. — Ela dobrou os joelhos e os levou até o peito. — Eu sempre
pensei... — Ela ergueu a cabeça e o sol se refletiu em seus óculos. — Eu
sempre pensei que ele fosse caubói.
— Talvez ele seja — disse Antony.
Ele encarou Zara, toda encolhida e magra, e a imaginou relaxada e
rindo, em cima de um cavalo, diante de um caubói heroico e queimado de
sol. Parecia algo normal.
— Por que sua mãe não te conta? — perguntou ele, sendo direto. —
Isso não é contra a lei ou algo do tipo?
— Talvez — disse Zara. — Mas não faria diferença para a Fleur. — Ela
suspirou. — Ela não me conta porque não quer que eu procure o meu pai.
Porque é... é o passado dela, não o meu.
— Mas ele é o seu pai!
— Eu sei — disse Zara. — Ele é o meu pai. — Ela subiu os óculos até a
cabeça, tirando-os do rosto, e olhou para Antony diretamente. — Não se
preocupe. Vou encontrá-lo.
— Como?
— Quando eu fizer dezesseis anos — respondeu Zara. — Ela vai me
contar quem ele é. Ela prometeu. — Antony se virou para ela. Os olhos de
Zara brilhavam de leve. — Dois anos e meio pela frente. Depois disso, vou
para os Estados Unidos. Ela não pode me impedir.
— Já vou ter saído da escola até lá — disse Antony, animado. —
Poderia ir com você!
— Tá — disse Zara. Ela o encarou e, pela primeira vez, abriu um
sorriso para ele. — Nós dois vamos.
Mais tarde, os dois entraram em casa, com calor e queimados de sol, e
encontraram Richard sentado sozinho na cozinha, um copo de cerveja à sua
frente. Tudo estava silencioso e tranquilo, e a claridade do fim de tarde
entrava pela janela e iluminava seu rosto. Antony abriu a geladeira e pegou
algumas latas.
— Você jogou golfe hoje? — perguntou ao pai.
— Não. E você?
— Não.
— Pensei que vocês fossem viciados em golfe — disse Zara.
Richard sorriu.
— Foi o que sua mãe lhe disse?
— Está na cara — disse Zara. — Vocês moram em um campo de golfe,
pelo amor de Deus.
— Bem, eu gosto muito de jogar golfe — disse Richard. — Mas não é a
única coisa do mundo.
— Onde está a Fleur? — perguntou Zara.
— Não sei — disse Richard. — Deve ter ido a algum lugar.
Richard não estranhava mais quando ouvia Zara chamar a mãe de
“Fleur”. Às vezes, achava até cativante. Ele observou Antony e Zara se
sentando no banco encostado à janela com suas bebidas; bem à vontade,
como dois gatos. A bebida de Zara era de baixa caloria, ele notou — e se
perguntou de novo quanto ela pesava. E então, ele se repreendeu. Ela não
era sua filha; ele não deveria começar a se comportar como se fosse.
Mas, ainda assim. As palavras de Oliver Sterndale invadiram de novo a
sua mente. O que aconteceria se você, digamos... decidisse se casar de
novo?
— Pois é. O quê? — disse Richard em voz alta. Antony e Zara
levantaram a cabeça. — Não liguem para mim — acrescentou.
— Ah, tá — disse Antony, com educação. — Você se incomodaria se a
gente ligasse a televisão?
— De jeito nenhum — disse Richard. — Vão em frente.
Enquanto a cozinha era tomada pelo som de vozes televisivas, ele bebeu
um gole de cerveja. O dinheiro ainda estava em sua conta bancária,
esperando que se decidisse. Uma pequena fortuna a ser dividida entre os
dois filhos. Isso havia parecido um passo tão óbvio quando Emily e ele
conversaram sobre o assunto. O cenário estava completo; o elenco era
limitado.
Mas, agora, havia mais duas pessoas em cena. Fleur e a pequena Zara.
Richard se recostou e fechou os olhos. Será que Emily havia pensado que
ele poderia se casar de novo depois que ela morresse? Ou será que ela,
assim como ele, acreditava que o amor entre eles nunca seria suplantado? A
possibilidade de se casar de novo não havia, em nenhum momento, passado
pela cabeça dele. Seu luto tinha parecido grande demais, e o amor, muito
forte. Até ele conhecer Fleur, e tudo começar a mudar.
Ele queria se casar com Fleur? Não sabia. Naquele momento, ainda
estava aproveitando a natureza fluida e rotineira de sua existência conjunta.
Nada estava definido, não havia pressões externas, os dias passavam de
maneira agradável.
Mas não era do feitio de Richard seguir nesse ritmo indefinidamente;
não era de seu feitio ignorar problemas na esperança de que
desaparecessem. Os problemas tinham de ser enfrentados. Em especial, o
problema do... o problema do... Richard se remexeu desajeitadamente no assento. Como sempre, seus pensamentos queriam fugir do assunto. Mas,
dessa vez, ele os forçou de volta; dessa vez, ele confrontou a própria
palavra em seus pensamentos. Do sexo. O problema do sexo.
Fleur era uma mulher compreensiva, mas não compreenderia para
sempre. Por que deveria, se nem Richard conseguia entender a si mesmo?
Ele adorava Fleur. Ela era linda, desejável e todos os homens o invejavam.
Mas, sempre que ia ao quarto dela e a via deitada na cama, olhando para ele
com aqueles olhos hipnotizantes, convidando-o a entrar, um medo cheio de
culpa o invadia, subjugando seu desejo e deixando-o pálido e trêmulo de
frustração.
Até aquele momento, ele havia pensado que só esse fato seria um
obstáculo para que se casasse com Fleur; ele havia se conformado com o
fato de que, em pouco tempo, ela daria uma desculpa e o deixaria, como um
inseto exótico que procura uma flor mais fecunda. Mas ela não parecia ter
pressa de ir embora. Quase parecia que Fleur sabia algo que ele não sabia.
E, assim, Richard começou a se perguntar se não estava olhando para o
problema do jeito errado. Ele vinha se convencendo de que a falta de sexo
atrapalhava os planos de um casamento. Mas não poderia ser que a falta de
casamento estivesse atrapalhando os planos de sexo? Será que, enquanto
não se comprometesse totalmente com Fleur, ele se sentiria incapaz de
afastar a sombra de Emily? E será que Fleur — uma mulher muito
perceptiva — já não havia se dado conta disso? Será que ela o entendia
melhor do que ele próprio?
Tomando mais um gole da cerveja, Richard decidiu que conversaria
com Fleur sobre isso naquela noite. Não cometeria o mesmo erro cometido
com Emily, de deixar o dito por não dito até ser tarde demais. Com Fleur,
seria diferente. Com Fleur, não haveria pensamentos secretos. Com Fleur,
pensou Richard, nada era segredo.