A Rainha dos Funerais
Quatro
Duas semanas depois, Antony Favour estava na casa da família — batizada
como Maples —, observando enquanto sua tia Gillian batia claras em neve
na cozinha. Ela batia à mão, com uma expressão séria, e parecia contrair
mais os lábios a cada movimento do batedor manual. Antony tinha certeza
de que dentro de um dos armários da cozinha havia um batedor elétrico; ele
já o havia usado para fazer panquecas. Mas Gillian sempre batia as claras
em neve à mão. Fazia a maioria das coisas manualmente. Gillian morava na
casa deles desde antes do nascimento de Antony, e, desde quando ele
conseguia se lembrar, ela preparava todas as refeições, dizia à faxineira o
que fazer, e andava pela casa depois de a faxineira ir embora, com a testa
franzida, limpando de novo as superfícies que já pareciam perfeitamente
limpas. A mãe dele nunca havia feito nada disso. Por algum tempo, esteve
doente demais para cozinhar, e, no restante do tempo, ocupada demais
jogando golfe.
Antony pensou na mãe. Pequena e magra, o cabelo loiro-acinzentado e a
calça xadrez. Ele se lembrava dos olhos azul-acinzentados dela; dos óculos
sem armação e de marca; de seu leve perfume floral. Sua mãe vivia toda
arrumada; sempre de cinza e azul. Antony olhou sorrateiramente para
Gillian. Seus cabelos grisalhos e sem viço tinham sido divididos em duas
partes volumosas; suas faces eram bastante coradas; os ombros jaziam
curvados dentro do cardigã cor de malva. Gillian tinha os mesmos olhos
azul-acinzentados da mãe dele, mas, tirando isso, pensou Antony, era difícil
acreditar que as duas eram irmãs.
Ele olhou de novo para a expressão tensa de Gillian. Desde que seu pai
havia ligado para dizer que levaria aquela mulher para passar uns dias com
eles, Gillian andava mais séria que o normal. Não dissera nada; mas ela
nunca dizia muita coisa mesmo. Gillian nunca emitia opinião; nunca dizia quando estava irritada. Era preciso adivinhar. E, agora, Antony achava que
ela estava muito irritada.
Antony mesmo não sabia como se sentia em relação àquela mulher. Ele
havia ido dormir na noite anterior pensando na mãe, no pai e naquela nova
mulher, esperando que seus instintos se manifestassem; que o fizessem
sentir alguma emoção que o direcionasse para o rumo certo. Mas nada. Ele
não sentiu emoção negativa nenhuma, nem positiva, só uma espécie de
tomada de consciência meio perplexa de que aquilo estava acontecendo;
que seu pai estava saindo com outra mulher. Às vezes, ele se lembrava disso
durante alguma atividade, e sentia um choque tão grande a ponto de
precisar olhar para a frente, respirar fundo e piscar diversas vezes para que
seus olhos não ficassem marejados de lágrimas, pelo amor de Deus. Mas,
em outros momentos, aquilo parecia totalmente natural; quase algo que ele
esperava que acontecesse.
Ele já havia se acostumado a dizer às pessoas que sua mãe havia
falecido; talvez dizer que seu pai estava namorando fosse apenas o próximo
passo. Às vezes, ele sentia até vontade de rir disso.
Gillian havia terminado de bater as claras. Ela sacudiu o batedor manual
e o jogou dentro da pia, sem lambê-lo. Em seguida, suspirou profundamente
e esfregou a mão na testa.
— Vai ter pavlova hoje? — perguntou Antony.
— Vai — disse Gillian. — Com kiwi. — Ela deu de ombros. — Não sei
se é o que seu pai quer. Mas vai ter que servir.
— Vai ficar ótimo, tenho certeza — disse Antony. — Todo mundo adora
pavlova.
— Bem, vai ter que servir — repetiu Gillian.
Seus olhos cansados percorreram a cozinha, e Antony seguiu seu olhar.
Ele adorava a cozinha; era seu cômodo preferido. Cerca de cinco anos
antes, seus pais a haviam reformado para que se parecesse com uma
cozinha enorme de fazenda, com azulejos de terracota por todos os lados e
um fogão a lenha, além de uma mesa de madeira enorme com cadeiras bem
confortáveis. Eles tinham comprado cinco milhões de panelas, vasilhas e
coisas do gênero, tudo de catálogos de lojas caras, penduraram réstias de
alho nas paredes e chamaram uma mulher para colocar arranjos de flores
desidratadas por todos os lados.
Antony seria capaz de passar o dia todo na cozinha, na verdade, e, agora
que eles tinham instalado uma televisão na parede, era o que fazia com frequência. Mas Gillian parecia detestar a nova cozinha. Ela costumava
detestar como era antes — “toda branca e asséptica”, segundo ela — e
continuava detestando agora, apesar de ter sido a pessoa que escolheu os
azulejos e que disse ao decorador onde cada coisa deveria ser colocada.
Antony não entendia.
— Posso ajudar? — perguntou ele. — Posso descascar as batatas ou
algo do tipo?
— Não vamos comer batatas — disse Gillian, impaciente, como se ele
tivesse a obrigação de saber. — Vamos comer arroz selvagem. — Ela
franziu o cenho. — Espero que não seja muito difícil de preparar.
— Sei que vai ficar uma delícia — disse Antony. — Por que não usa a
panela de arroz?
Seus pais tinham dado uma panela de arroz elétrica para Gillian de
presente de Natal três anos antes. No ano anterior, deram uma centrífuga de
sucos; desde então, deram um picador de temperos elétrico, um fatiador de
pães e uma máquina de fazer sorvete. Até onde Antony sabia, ela nunca
havia usado nenhum desses aparelhos.
— Vou me virar — disse Gillian. — Por que não dá um pulinho lá fora?
Ou por que não vai estudar?
— Sinceramente, eu não me incomodo em ajudar — comentou Antony.
— É mais rápido se eu fizer sozinha. — Gillian suspirou forte de novo e
pegou um livro de receitas.
Antony olhou para ela em silêncio por alguns instantes, deu de ombros e
saiu. O dia estava bonito e ele gostou de se expor ao sol. Andou pelo acesso
de veículos da Maples e seguiu em direção ao clube. Todas as ruas no
terreno de Greyworth eram privativas, e era preciso ter um cartão de acesso
para entrar; sendo assim, na maior parte do tempo, quase não havia carros;
só as pessoas que eram proprietárias de casas no terreno ou que eram sócias
do Clube de Golfe.
Talvez, pensou Antony enquanto andava, houvesse tempo para uma
partidinha de golfe antes de seu pai chegar. Deveria estar estudando para as
provas essa semana; era por isso que estava ali. Uma semana de estudos em
casa o esperava. Mas Antony não precisava estudar — ele sabia todas as
coisas que iam perguntar. Sua ideia era passar os dias descansando, jogando
golfe, talvez um pouco de tênis. Dependeria de quem estivesse na área. Seu
melhor amigo, Will, estava num colégio interno, assim como ele, mas a
escola de Will não previa períodos de estudo em casa. “Seu sortudo desgraçado”, Will tinha escrito. “Não me culpe se você for mal em todas as
provas.” Antony era obrigado a concordar. Aquilo era muita sorte. Seu pai
não ficou muito impressionado. “Para que pagamos a escola se eles sempre
te mandam para casa?”, exclamara ele. Antony não sabia. Não se
importava. Não era problema dele.
A rua que levava ao clube era uma ladeira, ladeada por grama, árvores e
pelos portões das casas das outras pessoas. Antony olhava para as entradas
das casas ao passar, avaliando, pela presença de carros, quem estava e quem
não estava. Os Forrester tinham um novo jipe branco, ele percebeu, ao parar
em frente ao portão deles. Bem bonito.
— Oi, Antony! Gostou do meu jipe?
Antony se sobressaltou e ergueu o olhar. Sentados na grama a cerca de
cinquenta metros adiante na ladeira estavam Xanthe Forrester e Mex Taylor.
Vestindo calças Levis 501, os dois estavam sentados com as pernas
entrelaçadas, e fumavam. Antony lutou contra a vontade de dar meia-volta e
fingir que não tinha ouvido. Xanthe tinha mais ou menos a idade dele; ele a
conhecia há muito tempo. Ela sempre tinha sido uma criancinha
desagradável; agora, era uma adolescente desagradável. Sempre dava um
jeito de fazer com que ele se sentisse burro, esquisito e feio. Mex Taylor era
novo em Greyworth. Antony só sabia que ele estava no último ano do
ensino médio na Eton, jogava golfe, e todas as meninas achavam que ele era
demais. O que já era suficiente.
Ele desceu a ladeira devagar em direção a eles, tentando não se apressar,
tentando manter a respiração calma, tentando pensar em algo inteligente
para dizer. E, então, quando Antony se aproximou deles, Xanthe apagou o
cigarro de repente e começou a beijar Mex, segurando a cabeça dele e se
contorcendo toda como se estivesse em algum filme idiota. Antony disse a
si mesmo, furioso, que ela só estava se exibindo. Ela provavelmente achava
que ele sentia ciúme. Ela provavelmente achava que ele nunca tinha ficado
com ninguém na vida. Ah, se ela soubesse. No colégio interno, aconteciam
festas quase todo fim de semana, e Antony sempre saía delas com alguns
chupões no pescoço e um número de telefone, fácil, fácil. Mas isso era na
escola, onde suas histórias de infância não eram de conhecimento público;
onde as pessoas o viam como ele era. Mas Xanthe Forrester e Fifi Tilling —
aquela panelinha toda — ainda o viam como o bom e velho Antony Favour,
perfeito para uma partida de golfe, mas nada muito além disso.
De repente, Xanthe se desvencilhou de Mex.
— Meu telefone! Está vibrando! — Ela lançou um olhar provocante a
Mex, olhou para Antony e então tirou o celular da pochete de couro
vermelho que levava na cintura.
Antony olhou para Mex de um jeito esquisito e, mesmo sem perceber,
sentiu a mão indo em direção ao olho, cobrindo a marca de nascença.
— Oi? Fifi! Sim, estou com o Mex! — A voz de Xanthe era triunfante.
— Quer fumar? — perguntou Mex a Antony, de modo casual.
Antony pensou um pouco. Se dissesse sim, teria de ficar conversando
com eles. E talvez alguém o visse e contasse ao seu pai, o que seria bem
ruim. Mas, se dissesse não, achariam que era careta.
— Quero.
Xanthe ainda estava tagarelando ao telefone, mas, quando Antony
acendeu o cigarro, ela parou e disse, rindo:
— Antony! Fumando! Isso é meio ousado para você, não?
Mex olhou para Antony, achando graça, e Antony se sentiu corar.
— Que maneiro! — disse Xanthe, guardando o telefone. — Os pais da
Fifi vão ficar fora de casa até sexta. Vamos nos reunir na casa dela hoje à
noite — disse ela a Mex. — Você, eu, a Fifi e a Tania. A Tania tem uns
lances aí.
— Beleza — disse Mex. — Mas e... — Ele meneou a cabeça em
direção a Antony. Xanthe fez uma leve careta a Mex, e então se virou para
Antony.
— Quer se juntar com a gente, Antony? Vamos assistir a Betty Blue no
laser disc da Fifi.
— Não posso, infelizmente — disse Antony. — Meu pai... — Ele fez
uma pausa. Não diria a Xanthe que o pai estava namorando. — Meu pai
vem para casa — disse ele, baixinho.
— Seu pai vem para casa? — perguntou Xanthe, sem acreditar. — Não
pode sair porque seu pai vem para casa?
— Eu acho isso muito legal — disse Mex, sendo gentil. — Eu queria ter
uma ligação forte assim com meu pai. — Mex sorriu para Xanthe. — Já
ajudaria se eu não odiasse ele.
Xanthe começou a rir muito.
— Eu queria ter uma ligação mais forte com meu pai — disse ela. —
Assim, talvez, ele me desse um Jaguar em vez de um Jeep. — Ela acendeu
outro cigarro.
— Por que você tem um Jeep? — perguntou Antony. — Ainda não tem
idade para dirigir. Só tem quinze anos.
— Posso dirigir em ruas privativas — respondeu Xanthe. — O Mex está
me ensinando. Não é, Mex? — Ela se deitou na grama e passou os dedos
pelos cachos loiros. — E não é só isso que ele está me ensinando. Sabe? —
Ela soprou um círculo de fumaça no ar. — Acho que você não sabe, não. —
Ela piscou para Mex. — Não quero chocar o Antony. Ele ainda beija de
boca fechada.
Antony olhou para Xanthe, envergonhado e furioso, tentando pensar em
alguma resposta boa para constrangê-la. Mas a coordenação entre seu
cérebro e sua boca parecia ter desaparecido.
— Seu pai — disse Xanthe, pensativa. — Seu pai. O que me disseram
sobre ele um dia desses? — Ela se sentou, de repente. — Ah, sim! Que ele
está andando com uma vadia, né?
— Não está, não!
— Está, sim! Meus pais estavam falando sobre isso. Uma mulher de
Londres. Parece que é bem bonita. Minha mãe viu os dois almoçando.
— É só uma amiga — disse Antony, desesperado.
Toda a serenidade dele havia desaparecido. De repente, passou a odiar o
pai; odiou até a mãe, por ter morrido. Por que as coisas não podiam ter
continuado como eram?
— Fiquei sabendo da sua mãe — disse Mex. — Foda.
Você não sabe nada de nada!, Antony queria gritar. Mas só amassou o
cigarro com o pé desajeitadamente, e disse:
— Tenho que ir.
— Que pena — disse Xanthe. — Você estava me excitando, aí com essa
calça sexy. Onde comprou? Num brechó?
— Até mais — disse Mex. — Boa diversão com o seu pai.
Quando Antony começou a se afastar, ouviu uma risadinha abafada,
mas só olhou para trás quando chegou à esquina. Ele se permitiu dar uma
olhada rápida. Xanthe e Mex estavam se beijando de novo.
Depressa, ele dobrou a esquina e se sentou numa mureta. Em sua mente,
passavam todas as frases que ele ouvira dos adultos ao longo dos anos. As
pessoas que riem de você são imaturas... Não dê atenção, assim elas
param... Se eles dão mais valor a sua aparência do que a sua
personalidade, não vale a pena tê-los como amigos.
Então, o que ele tinha de fazer? Ignorar todo mundo, menos Will?
Acabar sem amigos? Pelo modo como via as coisas, ele tinha duas opções.
Podia ser solitário ou ser igual a todo mundo. Antony suspirou. Para os
adultos, era tudo muito fácil. Eles não sabiam como eram as coisas. Quando
foi a última vez que alguém tinha sido desagradável com seu pai?
Provavelmente nunca. Os adultos não eram desagradáveis uns com os
outros. Eles apenas não eram. Na verdade, pensou Antony
melancolicamente, os adultos deveriam parar de reclamar. Era tudo muito
fácil para eles.
Gillian se sentou à enorme mesa de madeira na cozinha de sua falecida
irmã, olhando inexpressivamente para uma pilha de vagem. Ela se sentia
cansada, quase cansada demais para conseguir levantar a faca. Desde a
morte de Emily, ela vinha sentindo uma apatia que a deixava assustada e
confusa. Ela não sabia como lidar com isso de outra forma que não se
dedicando integralmente às tarefas domésticas que ocupavam seu dia. Mas,
quanto mais trabalhava, menos energia parecia ter. Quando se sentou para
uma pausa, teve vontade de parar para sempre.
Ela se inclinou para a frente, apoiada nos cotovelos, sentindo-se
letárgica e pesada. Conseguia sentir o próprio peso pressionando a cadeira,
a massa de seu corpo sólido e nada bonito. Seios grandes sustentados por
um sutiã fino, pernas grossas escondidas sob uma saia. Seu cardigã era
grosso e pesado; até seus cabelos pareciam pesados naquele dia.
Por alguns minutos, ela olhou fixamente para a mesa, passando o dedo
pelas fibras da madeira, tentando se distrair com as voltas e os redemoinhos
na superfície, tentando fingir que se sentia normal. Mas, quando seu dedo
chegou a um nó escurecido, ela parou. Não havia motivo para fingir para si
mesma. Não se sentia apenas pesada. Não se sentia só apática. Sentia medo.
O telefonema de Richard tinha sido breve. Nenhuma explicação além do
fato de ele estar levando uma mulher chamada Fleur para ficar com eles.
Gillian olhou para a ponta do dedo grosso e áspero e mordeu o lábio.
Deveria ter se dado conta de que aquilo aconteceria; que, mais cedo ou mais
tarde, Richard encontraria uma... companhia feminina. Mas, de algum
modo, ela havia achado que as coisas continuariam normais: Richard,
Antony e ela. Não tão diferente de quando Emily estava viva — como todas
as vezes que os três tinham jantado juntos, com Emily no andar de cima, na
cama.
Ela era uma boba. Claro que as coisas não poderiam ter continuado
daquele modo para sempre. Primeiro, Antony já era quase adulto. Em pouco
tempo, ele terminaria o ensino médio e iria para a faculdade. E ela esperava
continuar morando na Maples quando isso acontecesse? Só ela e Richard?
Não fazia ideia do que Richard achava dela. Será que ele a via como
alguma coisa a mais, além de a irmã da Emily? Ele a considerava uma
amiga? Parte da família? Ou será que esperava que ela fosse embora agora
que Emily havia morrido? Ela não fazia a menor ideia. Em todos os anos
que vivera na casa, raramente conversava com Richard. A comunicação
entre eles sempre tinha sido realizada através de Emily. E, agora que Emily
havia partido, eles simplesmente não se comunicavam. Nos meses desde a
morte dela, eles não tinham conversado sobre nada mais importante do que
preparativos para refeições. Gillian não havia questionado sua posição; nem
Richard.
Mas, agora, a coisa mudara de figura. Agora, havia uma mulher
chamada Fleur. Uma mulher sobre quem ela não sabia nada.
“Você vai amar a Fleur”, acrescentara Richard antes de desligar o
telefone. Disso, Gillian duvidava. Claro que ele havia dito “amar” no
sentido casual e moderno da palavra. Ela já havia ouvido esse uso feito
pelas mulheres no bar do clube: “Amei o seu vestido... Amou esse
perfume?” Amar, amar, amar. Como se não significasse nada; como se não
fosse uma palavra sagrada, preciosa, para ser usada com moderação. Gillian
amava seres humanos, não bolsas. Sabia, com grande certeza, a quem
amava, a quem tinha amado, a quem sempre amaria. Mas, na vida adulta,
nunca dissera a palavra em voz alta.
Do lado de fora, uma nuvem se movia, e um raio de luz do sol pousou
na mesa.
— O dia está lindo — disse Gillian, ouvindo sua voz ecoar no silêncio
total da cozinha.
Ela vinha falando sozinha cada vez mais, ultimamente. Às vezes, com
Richard em Londres e Antony na escola, ela ficava sozinha na casa por
vários dias seguidos. Dias vazios, solitários. Ela não tinha amigos em
Greyworth; quando o restante da família saía, o telefone logo parava de
tocar. Muitos dos amigos de Emily passaram a ter a impressão, ao longo dos
anos, de que Gillian era mais uma governanta da casa do que integrante da
família — uma impressão que Emily nunca se deu ao trabalho de desfazer.
Emily. Os pensamentos de Gillian foram interrompidos. Sua irmãzinha
Emily estava morta. Ela fechou os olhos e levou as mãos à cabeça. Que
mundo era esse no qual uma irmã mais nova morria antes da mais velha?
Um mundo no qual o corpo frágil de uma irmã casada podia ser quase
destruído por abortos consecutivos, enquanto o corpo forte da irmã
solteirona nunca era posto à prova? Gillian havia ajudado Emily depois de
cada aborto, havia cuidado dela quando Philippa nasceu e — muito depois,
Antony. Ela observara o corpo de Emily desistir aos poucos; observara tudo
se esvair. E, agora, estava sozinha, vivendo em uma família que não era
dela de verdade, esperando pela chegada da substituta de sua irmã.
Talvez estivesse na hora de partir e dar início a uma vida nova. Depois
da generosa herança de Emily, ela estava agora financeiramente
independente. Podia ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa. Uma série de
visões passou por sua mente, como as imagens de um folheto de plano de
aposentadoria. Ela poderia comprar uma casa à beira da praia. Poderia
aprender jardinagem. Poderia viajar.
Na mente de Gillian, surgiu a lembrança de uma oferta de muitos anos
antes, uma oferta que a havia empolgado a ponto de ir correndo contar a
Emily, na mesma hora. Uma viagem ao redor do mundo com Verity
Standish.
“Você se lembra da Verity”, tinha dito Gillian, empolgada, à Emily, que
estava perto da lareira, mexendo em uma peça de porcelana. “Ela vai viajar!
Está indo para o Cairo em outubro e para outros lugares depois de lá. Ela
quer que eu vá também! Não é o máximo?”
E ela havia esperado que Emily sorrisse, fizesse perguntas, acolhesse a
alegria de Gillian de modo sincero, como a irmã havia acolhido as muitas
alegrias de Emily ao longo dos anos. Mas Emily havia se virado, e, sem
titubear, dito: “Estou grávida. Quatro meses.”
Gillian prendera a respiração e olhara para Emily, os olhos marejados de
lágrimas de alegria. Ela achava — todo mundo achava — que Emily nunca
teria outro filho. Cada uma de suas gestações desde Philippa havia
terminado em aborto antes de doze semanas; parecia improvável que ela
fosse conseguir levar outra gestação a termo.
Ela havia corrido até Emily e segurado suas mãos com muita alegria.
“Quatro meses? Ah, Emily!”
Mas os olhos azuis de Emily se prolongaram nos de Gillian de modo
repreensivo.
“O que quer dizer que o bebê nasce em dezembro.”
De repente, Gillian percebeu o que ela queria dizer. E, pela primeira vez
na vida, tentou resistir ao domínio de Emily.
“Você não se importa se eu viajar mesmo assim?” Ela adotou uma voz
feliz e tranquila. “Richard vai te dar muito apoio, tenho certeza. E eu volto
em janeiro. Poderei assumir as rédeas assim que chegar.” Ela havia
começado a hesitar. “É só que vai ser tão incrível…”
“Ah, você tem que ir!”, Emily havia exclamado com a voz fina. “Posso
muito bem contratar alguém que me ajude com o recém-nascido. E uma
babá para Philippa. Vai ficar tudo bem.” Ela abrira um sorrisinho para
Gillian, e Gillian olhara para ela com um certo desânimo. Conhecia aquele
joguinho de Emily; sabia que era lenta demais para prever o próximo passo.
“E provavelmente ficarei com a babá quando você voltar.” A voz fria de
Emily tinha atravessado a sala e se alojado como um doloroso estilhaço no
peito de Gillian. “Ela pode ficar no seu quarto. Você não vai se importar,
não é? Até lá, é provável que você já esteja morando em outro lugar.”
Ela deveria ter ido embora. Deveria ter desafiado Emily e partido com
Verity. Poderia ter viajado por alguns meses, voltado e se unido à família de
novo. Emily não teria rejeitado a ajuda. Ela tinha certeza disso agora.
Deveria ter ido, sim. As palavras ecoavam de modo amargo em sua mente e
ela sentiu o corpo todo ficar tenso conforme os arrependimentos de quinze
anos o percorriam como sangue envenenado.
Mas ela não tinha ido. Havia cedido, como sempre cedia a Emily, e
ficara para o nascimento de Antony. E foi depois do nascimento dele que
ela percebeu que nunca conseguiria partir; nunca poderia sair da casa por
vontade própria. Porque Emily não amava o pequeno Antony. Mas Gillian o
amava mais do que qualquer coisa no mundo.
— E, então, fale-me sobre Gillian — disse Fleur, recostando-se
confortavelmente no assento.
— Gillian? — perguntou Richard, distraído. Levantou o dedo indicador.
— Vamos, me deixe passar, idiota.
— Isso, Gillian — disse Fleur, quando o carro mudou de pista. — Há
quanto tempo ela mora com vocês?
— Ah, faz muitos anos. Desde... não sei, desde que a Philippa nasceu,
talvez.
— E você se dá bem com ela?
— Sim, claro.
Fleur olhou para Richard. O rosto dele estava inexpressivo e
desinteressado. Não estava nem aí para Gillian.
— E Antony — disse ela. — Eu ainda não o conheci também.
— Ah, você vai gostar do Antony — disse Richard. Um entusiasmo
repentino se fez notar em seu rosto. — Ele é um bom menino. Joga golfe
em campos de doze buracos, o que é impressionante para a idade dele.
— Maravilha — disse Fleur, polidamente.
Quanto mais tempo passava com Richard, mais claro ficava que teria de
aprender aquele jogo pavoroso. Ela tentou se imaginar com sapatos de
golfe, com franjas de couro e spikes na sola, e sentiu um arrepio.
— Os campos aqui são lindos — disse ela, olhando pela janela. — Eu
não sabia que havia ovelhas em Surrey.
— Uma ou outra ovelha — disse Richard. — Uma ou outra vaca
também. — Ele fez uma pausa e seus lábios se contraíram esboçando um
sorriso. Fleur esperou. Contrair os lábios era sinal de que ele faria uma
piada. — Você vai conhecer algumas das melhores vacas de Surrey no
Clube de Golfe — disse Richard, por fim, e deu uma risada.
Fleur riu junto, mais por causa da risada dele do que pela piada. Aquele
era o mesmo homem tenso e enfadonho que ela havia conhecido seis
semanas antes? Fleur quase não conseguia acreditar. Richard parecia ter
mergulhado numa vida de alegria, com uma determinação quase fervorosa.
Agora, era ele quem telefonava para ela com sugestões peculiares, que fazia
piadas, que planejava passeios e diversões.
Em parte, ele estava tentando compensar, assim ela imaginava, a falta
de intimidade física no relacionamento; uma falta que ele claramente
acreditava afligir a ela tanto quanto a ele. Fleur havia dito a ele uma ou duas
vezes que aquilo não importava — mas de um modo não muito
convincente; de um modo lisonjeiro. E, assim, para aliviar a frustração dos
dois, ele havia começado a preencher as noites deles com “substitutos”. Se
não podia entretê-la na cama, podia entretê-la em teatros, bares e casas
noturnas. Toda manhã, ele telefonava para ela às dez com uma ideia para a
noite. Para sua surpresa, Fleur havia começado a esperar ansiosamente pelas
ligações.
— Sheringham Saint Martin! — exclamou ela, de repente, observando
uma placa ao olhar pela janela.
— Sim, é um vilarejo bonito — disse Richard.
— É onde Xavier Formby abriu seu novo restaurante. Eu estava lendo
sobre ele. The Pumpkin House. Parece que é maravilhoso. Precisamos ir um
dia.
— Vamos agora mesmo — disse Richard, sem pensar. — Vamos jantar
lá. Perfeito! Vou ligar para eles e ver se têm mesa.
Sem parar, ele pegou o celular e digitou o número do serviço de
consulta à lista telefônica. Fleur olhou para ele atentamente. Havia algum
motivo para ela dizer que aquela tal de Gillian provavelmente já havia
preparado o jantar para eles? Richard não parecia se importar — na
verdade, ele parecia quase alheio à existência de Gillian. Em algumas
famílias, valia muito a pena conquistar a simpatia do mulherio — mas será
que isso fazia sentido aqui? Seria melhor fazer o que Richard queria. Afinal,
era ele o dono do dinheiro. E se ele quisesse sair para jantar, quem era ela
para convencê-lo do contrário?
— Vocês tem? — dizia ele. — Bem, estaremos aí logo, logo.
Fleur sorriu para ele.
— Você é tão esperto.
— Carpe diem — disse Richard. — Aproveite o dia. — Ele sorriu para
Fleur. — Quando eu era pequeno, não entendia essa frase. Pensei que fosse
“aprovei teu dia”, não “aproveite o dia”. Nunca fez sentido para mim.
— Mas faz sentido agora? — perguntou Fleur.
— Ah, sim — disse Richard. — Faz cada vez mais sentido.
O telefone tocou às sete horas, quando Antony havia acabado de arrumar a
mesa. Enquanto Gillian atendia, ele deu um passo atrás e admirou a mesa.
Havia um vaso de lírios, guardanapos brancos de seda, velas esperando que
as acendessem e, da cozinha, vinha um cheiro delicioso de carneiro assado.
Hora de um gin, pensou Antony. Ele olhou no relógio. Certamente o pai
chegaria logo.
De repente, Gillian apareceu na porta da sala de jantar com o vestido
azul que ela sempre usava em ocasiões especiais. Seu rosto estava sério,
mas isso não necessariamente significava alguma coisa.
— Era o seu pai — disse ela. — Ele só vem mais tarde.
— Ah. A que horas ele vai chegar? — Antony endireitou uma faca.
— Umas dez, segundo ele. Ele e aquela mulher vão comer fora.
Antony levantou a cabeça, de supetão.
— Comer fora? Mas eles não podem!
— Eles estão no restaurante agora.
— Mas você fez o jantar. Disse isso para ele? Disse que tinha um
carneiro assado no forno?
Gillian deu de ombros. Ela exibia a expressão resignada e cansada que
Antony detestava.
— Seu pai pode comer fora, se quiser — disse ela.
— Você deveria ter dito alguma coisa! — gritou Antony.
— Não cabe a mim dizer ao seu pai o que fazer.
— Mas se ele soubesse, tenho certeza... — Antony parou de falar e
olhou para Gillian, frustrado.
Por que diabos ela não tinha dito nada ao pai dele? Quando ele chegasse
e visse o que tinha feito, se sentiria péssimo.
— Bem, é tarde demais agora. Ele não disse em qual restaurante estava.
Ela parecia quase contente, pensou Antony, como se sentisse alguma
satisfação em ver todos os seus esforços indo por água abaixo.
— Então, vamos comer tudo sozinhos? — Ele falava de modo
agressivo, percebeu, mas não se importava.
— Acho que sim. — Gillian olhou para si mesma. — Vou tirar esse
vestido — disse ela.
— Por que não fica com ele? — perguntou Antony, desesperado para
tentar salvar a ocasião de alguma forma. — Você está bonita.
— Ele vai ficar todo cheio de vincos. Não há por que amassá-lo.
Ela se virou e caminhou em direção à escada.
Bem, que se dane, pensou Antony. Se você não quer se esforçar, eu
também não quero. Ele se lembrou de Xanthe Forrester e de Mex Taylor
naquela manhã. Eles o haviam convidado para um programa, não? Talvez
não fossem tão ruins assim, afinal.
— Acho que vou sair, então — disse ele. — Já que não vamos ter um
grande jantar em família nem nada.
— Tudo bem — disse Gillian, sem olhar para trás.
Antony foi até o telefone e discou o número de Fifi Tilling.
— Alô? — A voz de Fifi estava descontraída; ele ouviu música tocando
ao fundo.
— Oi, é o Antony. Antony Favour.
— Ah, sim. Oi, Antony. Pessoal — disse ela —, é o Antony. — Ao
fundo, ele acreditou ter ouvido risadinhas.
— Eu não ia estar livre hoje — disse ele, sem jeito —, mas agora estou.
Então, posso ir aí, sei lá. Xanthe disse que todo mundo ia se encontrar.
— Ah, sim. — Uma pausa. — Na verdade, estamos quase saindo para ir
a uma boate.
— Ótimo. Bem, estou dentro. — Ele parecia simpático e tranquilo, ou
ansioso e desesperado? Não sabia ao certo.
— O problema é que o carro está cheio.
— Ah, tudo bem. — Antony olhou para o telefone sem entender.
Será que ela estava tentando dizer...
— Desculpa.
Sim, estava.
— Não tem problema. — Ele tentou parecer tranquilo. Descontraído,
até. — Quem sabe outro dia.
— Ah, sim, claro. — Fifi pareceu vaga. Nem estava ouvindo o que ele
dizia.
— Bem, tchau — disse Antony.
— Tchau, Antony, a gente se vê.
Antony desligou o telefone e sentiu uma onda de humilhação tomar
conta de si. Eles teriam arrumado um espaço para ele se quisessem. Antony
olhou para as mãos e percebeu que tremiam. Sentiu o rosto quente de
vergonha, apesar de estar sozinho no quarto.
Era tudo culpa do seu maldito pai — se ele tivesse chegado na hora
certa, aquele telefonema não teria acontecido. Antony se recostou na
cadeira. Achou aquele pensamento muito gratificante. Sim, era culpa do seu
pai. Um ressentimento revigorante começou a tomar conta dele. E era culpa
de Gillian também. Qual era o problema dela? Por que não havia
repreendido seu pai e dito para ele ir para casa?
Durante alguns minutos, permaneceu sentado, mexendo num
guardanapo, pensando na raiva que estava sentindo dos dois, e olhando para
a mesa que havia arrumado. Tanto esforço para nada. Bem, ia ficar tudo ali.
Ele não ia guardar nada.
Então, ele pensou que Gillian poderia aparecer e sugerir que ele fizesse
exatamente aquilo; sendo assim, antes que ela se manifestasse, ele se
levantou e entrou na cozinha. O carneiro ainda estava assando no forno e,
majestosamente sobre a mesa, estava a pavlova, coberta por chantilly e
decorada com fatias de kiwi. Antony olhou para ela. Se não jantariam
juntos, então não haveria problema nenhum se ele comesse um pouco, certo? Ele puxou uma cadeira, pegou o controle remoto e mudou de canal.
Quando a cozinha foi tomada pelo barulho de um game show, ele pegou
uma colher, enfiou-a no merengue brilhante e começou a comer.