A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 3 de 19

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A Rainha dos Funerais

Três

 

Lambert botou o fone no gancho e olhou para o aparelho por alguns

segundos. Em seguida, virou-se para Philippa.

— Seu pai é um tolo — exclamou ele. — Um tolo de marca maior!

— O que ele fez? — perguntou Philippa, nervosa.

— Ele se envolveu com uma mulher aí, só isso. Quer dizer, na idade

dele!

— E tão pouco tempo depois da morte da mamãe — acrescentou

Philippa.

— Exatamente — disse Lambert. — Exatamente. — Ele lançou a

Philippa um olhar de aprovação, e ela sentiu uma onda de prazer se espalhar

pelo pescoço. Não era sempre que Lambert olhava para ela daquele jeito. —

Era seu pai ao telefone, avisando que vai levar uma mulher ao almoço de

hoje. Ele parecia estar... — Lambert fez uma careta enquanto pensava, e

Philippa desviou o olhar depressa, para não correr o risco de acabar

elaborando a conclusão de que era casada com um homem extremamente

feio. — Ele parecia estar inebriado — Lambert concluiu.

— A essa hora da manhã?

— Não inebriado de álcool — disse Lambert, impaciente. — Inebriado

de... — Parou de falar, e, por alguns segundos, ele e Philippa se

entreolharam.

— De felicidade — disse Philippa, por fim.

— Bem, sim — disse Lambert, contrariado. — Imagino que deva ser

isso.

Philippa se inclinou para o espelho e começou a aplicar o delineador

líquido com a mão trêmula.

— Quem é ela? — perguntou Philippa. — Qual é o nome dela?

— Fleur.

— Fleur? Aquela da missa? Aquela do chapéu bonito?

— Pelo amor de Deus, Philippa! Você acha que eu perguntei a ele sobre

o chapéu dela? Agora se arrume depressa. — E, sem esperar resposta,

Lambert saiu do quarto.

Philippa analisou o próprio reflexo em silêncio; os olhos azuis, o cabelo

castanho-claro, as bochechas levemente coradas. Por sua mente, corria uma

torrente de palavras imaginárias; palavras que Lambert poderia ter dito se

fosse outro homem. Ele poderia ter dito: “Sim, querida, creio que seja

aquela mesma”... ou então: “Philippa, meu amor, eu só tinha olhos para

você durante a missa”... ou poderia, ainda, ter dito: “Aquela do chapéu

bonito? Seu chapéu era o mais lindo de todos.” Em seguida, ela teria dito

com o tom confiante e provocante que nunca conseguia recriar na vida real:

“Ora, querido, até mesmo você deve ter notado aquele chapéu!” Ao que ele

teria dito: “Ah, aquele chapéu!” E os dois teriam dado risada. E depois...

depois ele a teria beijado na testa, e depois...

— Philippa! — A voz de Lambert atravessou o apartamento, alta e

incisiva. — Você está pronta?

Philippa deu um pulo.

— Estarei pronta em cinco minutos! — respondeu ela, ouvindo o tremor

em sua voz e odiando aquilo.

— Bem, ande logo!

Philippa começou a procurar na nécessaire de maquiagem, atordoada, o

batom da cor certa. Se Lambert fosse outra pessoa, talvez tivesse

respondido “não se apresse” ou “vá com calma, meu amor”, ou talvez

tivesse voltado para o quarto, sorrido para ela e mexido em seus cabelos. E

ela teria dado risada e dito “você está fazendo com que eu me atrase”, e ele

teria falado “é mais forte que eu, porque você é linda”, e então ele teria

beijado seus dedos... e depois…

No canto do quarto, o telefone começou a tocar um som eletrônico

abafado. Perdida no mundo dos sonhos, Philippa nem ouviu.

 

No escritório, Lambert atendeu o telefone.

— Aqui é Lambert Chester.

— Bom dia, Sr. Chester. Aqui é Erica Fortescue, do First Bank. Eu

poderia dar uma palavrinha com o senhor?

— Estou de saída. É importante?

— É sobre o saldo negativo na sua conta, Sr. Chester.

— Ah. — Lambert olhou hesitante para a porta do escritório. E, então,

só por precaução, empurrou-a com o pé para fechá-la. — Qual é o

problema?

— O senhor ultrapassou seu limite. É uma quantia substancial.

— Que bobagem. — Lambert se inclinou para trás, levou a mão à boca

e começou a cutucar os dentes.

— O saldo atual da conta está negativo em mais de trezentas mil libras.

Quando, na verdade, o limite estabelecido foi de duzentos e cinquenta.

— Você poderá constatar que o limite foi aumentado novamente no mês

passado. Para trezentos e cinquenta mil — afirmou Lambert.

— Isso foi confirmado por escrito?

— Larry Collins fez essa alteração para mim.

— Larry Collins não trabalha mais no banco. — A voz de Erica

Fortescue soou suave do outro lado da linha.

Merda, pensou Lambert. Larry foi demitido. Que imbecil imprestável.

— Bem, ele confirmou por escrito antes de sair — disse ele, depressa.

Lambert poderia facilmente forjar uma carta.

— Não há nada em nossos arquivos.

— Bem, imagino que ele tenha se esquecido de arquivar. — Lambert

parou e seu rosto se contorceu em um sorriso de escárnio. — Talvez ele

também tenha se esquecido de contar que, daqui a dois anos, eu vou ganhar

mais dinheiro do que vocês dois já viram na vida.

Isso vai calar a sua boca, pensou ele, sua vaca idiota e enxerida.

— O fundo fiduciário de sua esposa? Sim, ele mencionou isso para

mim. Foi confirmado?

— Claro que sim. Está tudo certo.

— Entendo.

— E você ainda está preocupada com o meu pequeno e patético saldo

negativo?

— Sim, Sr. Chester, estou. Não costumamos aceitar bens de cônjuges

como garantia em contas individuais. — Lambert olhou para o telefone com

raiva. Quem aquela imbecil achava que era? — Outra coisa...

— O quê? — Ele estava começando a se irritar.

— Fiquei intrigada por não ver nada relacionado ao fundo fiduciário no

arquivo de sua esposa aqui. Só em seu arquivo. Algum motivo para isso?

— Tem, sim — disse Lambert, baixando a guarda. — Não está

registrado no arquivo da minha esposa porque ela não sabe nada sobre ele.

As pastas estavam vazias. Totalmente vazias. Fleur olhou para elas sem

acreditar, abrindo algumas delas, procurando documentos soltos, extratos

bancários, qualquer coisa. E, então, quando ouviu um barulho, rapidamente

fechou as gavetas do arquivo de metal e correu para a janela. Quando

Richard entrou no cômodo, ela estava inclinada para fora, respirando,

extasiada, o ar londrino.

— Que linda vista! — exclamou ela. — Eu amo o Regent’s Park. Você

costuma ir ao zoológico?

— Nunca — disse Richard, rindo. — Nunca mais fui, desde que Antony

era pequeno.

— Precisamos ir — falou Fleur. — Enquanto você ainda está em

Londres.

— Talvez hoje à tarde?

— Hoje à tarde, iremos ao Hyde Park — disse Fleur, convicta. — Já

está tudo organizado.

— Você é quem sabe... — Richard abriu um sorriso largo. — Mas agora

é melhor irmos se não quisermos nos atrasar para o almoço com Philippa e

Lambert.

— Tudo bem. — Fleur sorriu com charme para Richard e permitiu-se

ser conduzida para fora do cômodo.

Na porta, ela olhou rapidamente ao redor, perguntando-se se teria

deixado de procurar em algum lugar. Mas o único móvel que parecia ter a

ver com o armazenamento de documentos era o arquivo-armário. Não havia

mesa. Não havia escrivaninha. A papelada dele devia estar em algum outro

lugar. No trabalho dele. Ou na casa em Surrey.

A caminho do restaurante, Fleur deixou a mão escorregar suavemente

para a de Richard, e, quando seus dedos se entrelaçaram, ela viu um

pequeno rubor se espalhar pelo pescoço dele. Richard era o típico

cavalheiro inglês, todo certinho, pensou ela, tentando não rir. Depois de

quatro semanas, ele não havia feito nada além de beijá-la com “selinhos”, e

ainda por cima com lábios secos, tímidos, inexperientes. Nada parecido

com o bruto do Sakis, que a havia arrastado para um quarto de hotel depois

do primeiro almoço juntos. Fleur se retraiu ao se lembrar das coxas grossas

e peludas de Sakis; de suas ordens dadas aos berros. As coisas estavam bem

melhores agora. E, para sua surpresa, ela descobriu que gostava de ser

tratada como uma adolescente virgem. Andou ao lado de Richard com um

sorriso no rosto, sentindo-se envolvida, protegida e toda cheia de si, como se realmente tivesse uma virtude para proteger; como se estivesse se

guardando para aquele momento especial.

Se ela conseguiria esperar por muito tempo eram outros quinhentos.

Quatro semanas de almoços, jantares, filmes e galerias de arte — e ela

ainda não tinha provas concretas de que Richard Favour possuía muito

dinheiro. Ele tinha alguns ternos chiques; um apartamento em Londres; uma

mansão em Surrey; uma fama de rico. Essas coisas não significavam nada.

As casas podiam estar hipotecadas. Ele podia estar em vias de decretar

falência. Talvez estivesse prestes a pedir dinheiro emprestado para ela. Já

tinha acontecido com ela antes e, desde então, Fleur ficava muito atenta.

Sem conseguir encontrar evidências claras de muito dinheiro, estava

perdendo tempo. Sério, já era para ela ter partido para outra. Para o próximo

funeral; a próxima vítima. Mas...

Fleur deu uma pausa em seus pensamentos, e prendeu o braço de

Richard com mais firmeza embaixo do seu. Para ser sincera, tinha de

admitir que havia perdido um pouco de sua autoconfiança desde que

deixara Sakis. Nas últimas semanas, ela tinha ido a três funerais e cinco

missas fúnebres — mas, até aquele momento, Richard Favour parecia ser

sua única aposta promissora. Enquanto isso, Johnny e Felix, por mais

amáveis que fossem, começavam a se incomodar ao ver a bagagem dela

amontoada no quarto de hóspedes deles. Fleur não costumava passar muito

tempo entre um homem e outro (“descansando”, como Felix dizia);

normalmente, era questão de sair de uma cama e entrar em outra.

Se, ao menos, pensou Fleur, ela pudesse acelerar as coisas com Richard

um pouco: garantir um lugar em sua cama; morar em sua casa. Desse jeito,

poderia avaliar direito a questão das finanças dele e, ao mesmo tempo,

resolver o problema de um lugar para ficar. Caso contrário — se as coisas

não se resolvessem logo —, ela seria forçada a tomar medidas às quais

prometera nunca se submeter. Teria que procurar um apartamento para si.

Talvez até procurar um emprego. Fleur sentiu um calafrio e, em seguida,

contraiu a mandíbula, determinada. Teria que levar Richard para a cama.

Quando isso acontecesse, tudo ficaria mais fácil.

 

Quando viraram na Great Portland Street, Richard sentiu Fleur cutucá-lo.

— Veja! — disse ela, baixinho. — Veja aquilo!

Richard virou a cabeça. Do outro lado da rua, havia duas freiras na

calçada, aparentemente tendo uma discussão feia.

— Nunca vi freiras discutindo — disse Fleur, rindo.

— Acho que eu também não.

— Vou falar com elas — disse Fleur, de repente. — Fique aqui.

Richard observou atônito enquanto Fleur atravessava a rua. Durante

alguns minutos, ela ficou parada na outra calçada, uma figura chamativa de

casaco vermelho, conversando com freiras de hábitos pretos. Elas pareciam

estar assentindo e sorrindo. Então, de repente, ela atravessou a rua de novo

na direção dele, e as freiras se afastaram num clima aparentemente

harmonioso.

— O que aconteceu? — perguntou Richard. — O que você disse, minha

nossa?

— Disse a elas que a Virgem Maria Santíssima não gosta de discórdia.

— Fleur sorriu ao ver a expressão incrédula de Richard. — Na verdade,

expliquei a elas como chegar ao metrô.

Richard riu, de repente.

— Você é uma mulher formidável! — disse ele.

— Eu sei — disse Fleur, satisfeita.

Ela entrelaçou o braço no dele de novo, e os dois começaram a andar.

Richard olhou para a luz pálida do sol de primavera iluminando a

calçada, e sentiu uma alegria radiante invadir seu corpo. Ele conhecia

aquela mulher havia apenas quatro semanas, e já não conseguia imaginar a

vida sem sua presença. Quando estava com ela, acontecimentos corriqueiros

e comuns pareciam se transformar numa série de momentos incríveis;

quando não estava com ela, desejava estar. Fleur parecia transformar a vida

numa brincadeira — não no labirinto de regras e convenções ao qual Emily

se apegava incansavelmente —, mas uma brincadeira do acaso; de quem se

arrisca a vencer. Ele se via esperando com uma animação infantil para saber

o que ela diria em seguida; o que ela faria para surpreendê-lo. Ele conhecera

mais de Londres nas últimas quatro semanas do que na vida toda; rira mais

do que nunca; gastara dinheiro como havia muito não fazia.

Com frequência, ele se lembrava de Emily e sentia uma pontada de

culpa — culpa por estar passando muito tempo com Fleur, por estar se

divertindo tanto, por tê-la beijado. E culpa porque seu motivo original para

procurar Fleur — descobrir o máximo que pudesse a respeito da

personalidade contida de Emily — parecia ter ficado em segundo plano;

quando o primeiro plano era simplesmente estar com Fleur. Às vezes, em

seus sonhos, ele via o rosto de Emily, pálido e reprovador; acordava no meio da noite, encolhido de tristeza e suando de vergonha. Mas, pela

manhã, a imagem de Emily sempre desaparecia, e ele só conseguia pensar

em Fleur.

 

— Ela é deslumbrante! — disse Lambert, a voz alterada.

— Eu te disse! — falou Philippa. — Você não reparou nela durante a

missa fúnebre?

Lambert deu de ombros.

— Lembro que a achei atraente. Mas... olhe para ela!

“Olhe para ela ao lado do seu pai” era o que ele queria dizer.

Eles assistiram em silêncio a Fleur tirar o casaco vermelho. Por baixo,

ela exibia um vestido preto justo; ela se ajeitou, alisando o vestido na altura

do quadril. Lambert sentiu uma repentina pontada de desejo e revolta. O

que raios uma mulher como aquela fazia com Richard, enquanto ele estava

preso a Philippa?

— Eles estão vindo — disse Philippa. — Oi, papai!

— Oi, querida — respondeu Richard, beijando-a. — Lambert.

— Richard.

— E essa é a Fleur. — Richard não conseguiu conter o sorriso

orgulhoso, que tomou conta de seu rosto.

— É um prazer conhecê-la — disse Fleur, sorrindo de modo caloroso

para Philippa, estendendo a mão para ela. Depois de uma breve hesitação,

Philippa a apertou. — E Lambert, claro, já conheci.

— Muito rapidamente — disse Lambert, de um jeito desanimado.

Fleur lançou a ele um olhar curioso, e então sorriu de novo para

Philippa. Levemente incomodada, Philippa retribuiu o sorriso.

— Sinto muito por estarmos um pouco atrasados — disse Richard,

balançando o guardanapo. — Nós... hum... tivemos um contratempo com

duas freiras. Freiras malucas. — Ele olhou para Fleur e, de repente, os dois

começaram a rir.

Philippa olhou para Lambert sem saber como agir, e o marido arqueou

as sobrancelhas.

— Perdão — disse Richard, ainda rindo. — É uma história comprida

demais para explicar. Mas foi muito engraçado.

— Imagino que sim — disse Lambert. — Vocês pediram bebidas?

— Vou querer um Manhattan — disse Richard.

— Um o quê? — perguntou Philippa, sem entender.

— Um Manhattan — repetiu ele. — Você sabe o que é o drinque

Manhattan, não sabe?

— Richard nunca tinha experimentado um Manhattan, até semana

passada — disse Fleur. — Eu amo coquetéis. Vocês não?

— Não sei — disse Philippa. — Acho que sim. — Ela tomou um gole

da água com gás e tentou se lembrar da última vez em que havia tomado um

coquetel. E, então, para seu espanto, viu o pai esconder a mão sob a mesa

para segurar a de Fleur. Ela virou para Lambert; ele estava assistindo,

vidrado, à mesma cena.

— Vou querer um também — disse Fleur, toda animada.

— Acho melhor eu tomar um gin — disse Philippa.

Sentia-se levemente atordoada. Aquele era seu pai mesmo? De mãos

dadas com outra mulher? Ela não conseguia acreditar. Nunca nem sequer o

vira de mãos dadas com sua própria mãe. Mas ali estava ele, sorrindo à

vontade como se sua mãe nunca tivesse existido. Ele não estava se

comportando como seu pai, pensou ela. Estava se comportando como se

fosse... como se fosse um homem normal.

 

Lambert era o mais complicado de todos, Fleur pensou. Era ele quem não

parava de olhar para ela com desconfiança; que não parava de fazer

perguntas sobre seu passado e a testava para saber até que ponto havia

conhecido Emily. Ela quase conseguia ver as palavras “golpe do baú” se

formando na cabeça dele. Isso era bom se significasse que havia de fato

algum dinheiro a embolsar, mas não se significasse que Lambert iria

desmascará-la. Ela teria que amaciá-lo.

Então, quando as sobremesas chegaram, ela se virou para Lambert e

adotou uma expressão atenciosa, quase admirada.

— Richard me contou que você é o especialista em computadores da

empresa dele.

— Isso mesmo — disse Lambert, parecendo entediado.

— Que incrível! Não sei nada sobre computadores.

— A maioria das pessoas não sabe.

— Lambert desenvolve softwares para a empresa — disse Richard —, e

os vende para outras empresas. É uma atividade paralela bem lucrativa.

— Então, você será o novo Bill Gates?

— Na verdade, minha abordagem é totalmente diferente da de Gates —

respondeu Lambert, com frieza.

Fleur olhou para Lambert para ver se estava brincando, mas os olhos

dele estavam sérios, frios. Minha nossa, pensou ela, tentando não rir. Nunca

subestime a vaidade de um homem.

— Mas você ainda poderá ganhar bilhões?

Lambert deu de ombros.

— Dinheiro não me interessa.

— Lambert não se importa muito com dinheiro — interrompeu

Philippa, dando uma risadinha hesitante. — Sou eu que cuido das nossas

finanças.

— Uma tarefa adequada para a mente feminina — disse Lambert.

— Espere um pouco, Lambert — protestou Richard. — Acho que isso

não é muito justo.

— Pode não ser justo — disse Lambert, enfiando uma colher na mousse

de chocolate —, mas é verdade. Os homens criam, as mulheres

administram.

— As mulheres criam bebês — disse Fleur.

— As mulheres produzem bebês — disse Lambert. — Os homens os

criam. A mulher é a parceira passiva. E quem determina o sexo do bebê? O

homem ou a mulher?

— A clínica — disse Fleur.

Lambert pareceu não gostar.

— Você parece não estar entendendo o cerne da questão — começou

ele. — É bem simples... — Mas, antes de prosseguir, foi interrompido por

uma voz feminina e estridente.

— Nossa, que surpresa! A família Favour en masse!

Fleur ergueu o olhar. Uma mulher loira com um casaco verde-esmeralda

se aproximava deles. Seu olhar passou de Richard a Fleur, depois a

Lambert, Philippa e de volta a Fleur, que a encarou. Por que essas mulheres

têm de usar tanta maquiagem?, pensou Fleur. As pálpebras da mulher

estavam cobertas por uma camada azul brilhante; os cílios esticados

pareciam espinhos; em um de seus dentes havia uma manchinha de batom.

— Eleanor! — disse Richard. — Como é bom revê-la! Você veio com o

Geoffrey?

— Não — disse Eleanor. — Vim almoçar com uma amiga; depois,

vamos à Scotch House. — Ela passou a alça dourada da bolsa de um ombro

ao outro. — Na verdade, dia desses Geoffrey comentou que não tem visto você no clube. — Na voz dela havia um tom de questionamento; mais uma

vez, olhou para Fleur.

— Deixe-me fazer as devidas apresentações — disse Richard. — Essa é

uma amiga minha, Fleur Daxeny. Fleur, essa é Eleanor Forrester. O marido

dela é capitão do Clube de Golfe em Greyworth.

— Muito prazer em conhecê-la — murmurou Fleur, levantando-se um

pouquinho da cadeira para cumprimentá-la.

A mão de Eleanor Forrester era firme e áspera; quase masculina, não

fossem as unhas pintadas de vermelho. Outra jogadora de golfe.

— Você é uma velha amiga de Richard? — perguntou Eleanor.

— Na verdade, não — disse Fleur. — Conheci Richard há quatro

semanas.

— Entendi — disse Eleanor. Seus cílios pontudos desceram e subiram

algumas vezes. — Entendi — repetiu. — Bem, acho melhor eu ir. Algum de

vocês vai jogar no Encontro de Primavera?

— Eu vou, com certeza — disse Lambert.

— Ah, eu espero jogar também — disse Richard. — Mas, quem sabe?

— Quem sabe — repetiu Eleanor. Ela olhou de novo para Fleur,

contraindo os lábios. — Muito prazer em conhecê-la, Fleur. Muito

interessante, mesmo.

Eles observaram em silêncio enquanto ela se afastava depressa, os

cabelos loiros açoitando a gola do paletó.

— Bem — disse Lambert assim que ela ficou fora do alcance auditivo.

— Todo mundo no clube vai ficar sabendo disso amanhã.

— Eleanor era uma grande amiga da mamãe — disse Philippa a Fleur,

justificando o ocorrido. — Ela provavelmente pensou... — Philippa parou

de falar, de um jeito estranho.

— Sabe, você vai ter que ficar atento — disse Lambert a Richard. —

Vai voltar a Greyworth e descobrir que todo mundo tem falado de você.

— Que bom — disse Richard, sorrindo para Fleur — ser o centro das

atenções.

— Pode parecer engraçado agora — disse Lambert. — Mas se eu fosse

você...

— Sim, Lambert? O que você faria?

O tom de voz de Richard ficou sério, e Philippa lançou a Lambert um

olhar de advertência. Mas Lambert continuou.

— Eu tomaria um certo cuidado, Richard. Sinceramente, é melhor que

as pessoas não pensem a coisa errada. Você não vai querer que fiquem

fofocando pelas suas costas.

— E por que elas ficariam fofocando pelas minhas costas?

— Bem, é óbvio, não é? Olhe, Fleur, eu não quero ofendê-la, mas você

entende, não? Todo mundo gostava muito da Emily. E quando as pessoas

souberem de você...

— Não só elas ficarão sabendo de Fleur — disse Richard, em alto e

bom tom —, como também irão conhecê-la, já que ela vai se hospedar em

Greyworth muito em breve. E se você tiver algum problema com isso,

Lambert, sugiro que mantenha distância.

— Eu só quis dizer... — começou Lambert.

— Sei o que você quis dizer — disse Richard. — Sei muito bem o que

você quis dizer. E, com isso, caiu muito no meu conceito. Venha, Fleur,

vamos embora daqui.

 

Na calçada, Richard segurou o braço de Fleur.

— Sinto muito por isso — disse ele. — Lambert sabe ser desagradável.

— Está tudo bem — disse Fleur, baixinho.

Meu Deus, pensou Fleur, já vi gente muito mais desagradável que ele.

Teve uma filha que tentou arrancar meu cabelo, uma vizinha que me

chamou de vadia...

— E você passaria uns dias em Greyworth? Perdão, eu deveria ter

perguntado antes. — Richard olhou para ela, ansioso. — Mas prometo que

você vai gostar de lá. Podemos fazer longas caminhadas, e você vai poder

conhecer o restante da família...

— E aprender a jogar golfe?

— Se você quiser. — Ele sorriu. — Não é obrigatório. — Ele fez uma

pausa, sem jeito. — E, claro, você... você teria seu próprio quarto. Não iria

querer que... que...

— Você não? — perguntou Fleur, baixinho. — Eu sim.

Ela ficou na ponta dos pés e encostou os lábios nos de Richard. Depois

de um segundo, deslizou a língua para dentro da boca dele. Imediatamente,

o corpo dele se retesou. De choque? De desejo? Como quem não quer nada,

ela desceu a mão pela nuca dele e esperou para descobrir.

Richard ficou completamente imóvel, a boca de Fleur aberta na dele, as

palavras dela ecoando em sua cabeça, tentando controlar os pensamentos, mas sem sucesso. Ele se sentiu repentinamente rígido, quase paralisado de

excitação. Depois de alguns instantes, Fleur moveu os lábios lentamente

para o canto da boca de Richard, e ele sentiu a pele explodir com uma

sensação deliciosa. Era como deveria ter sido com Emily, pensou, meio

atordoado, tentando não cair duro de tão inebriado. Era para ter sido desta

forma com sua amada esposa. Mas Emily nunca o havia excitado como

aquela mulher — aquela mulher sedutora que ele conhecia havia apenas

quatro semanas. Ele nunca tinha sentido um desejo tão grande como esse.

Nunca havia sentido vontade de... de comer uma mulher antes.

— Vamos pegar um táxi — disse ele, a voz alterada, afastando-se de

Fleur. — Vamos voltar para o apartamento.

Ele mal conseguia falar. Cada palavra parecia macular o momento;

parecia estragar a convicção dentro dele de que estava prestes a viver uma

experiência perfeita. Mas era preciso quebrar o silêncio. Era preciso, de

alguma forma, sair da rua.

— E o Hyde Park?

Richard teve a sensação de que Fleur o estava torturando.

— Outro dia — disse ele. — Vamos. Vamos!

Ele fez sinal para um táxi, acomodou-a dentro dele, resmungou um

endereço ao taxista e virou-se para Fleur. Diante daquela visão, seu coração

quase parou. Fleur havia se recostado no banco de couro preto do táxi, e seu

vestido havia misteriosamente subido, até que a parte de cima de uma de

suas meias-calças pretas ficou visível.

— Ai, meu Deus — disse ele, indistintamente, olhando para a renda

preta e transparente. Emily nunca havia usado meias de seda com renda

preta.

E, então, de repente, uma onda fria de medo tomou conta de seu corpo.

O que estava prestes a fazer? O que havia acontecido com ele? Imagens de

Emily espoucavam como flashes em sua mente. O sorriso meigo dela; a

sensação de seus cabelos entre os dedos dele. As pernas esguias; as nádegas

pequenas. Momentos confortáveis, calmos; noites de ternura.

— Richard — disse Fleur, a voz rouca, passando um dedo com

delicadeza pela coxa dele.

Richard se retraiu em pânico. Sentiu pavor. O que havia parecido tão

certo na calçada agora parecia manchado pelas lembranças que não saíam

de sua mente; por uma culpa que se elevava, comprimindo sua garganta até

ele quase não conseguir respirar. De repente, ele se viu à beira das lágrimas. Não podia fazer aquilo. Não faria aquilo. Mas, ainda assim, o desejo por

Fleur percorria seu corpo como uma tormenta.

— Richard? — repetiu Fleur.

— Eu ainda sou casado — disse ele. — Não posso fazer isso. Ainda sou

casado com Emily. — Richard olhou para Fleur, esperando obter algum

alívio para seu sofrimento; alguma confirmação de que estava fazendo a

coisa certa. Mas não obteve nada. Ele foi tomado por emoções conflituosas,

por necessidades físicas, por angústia mental. Nenhuma direção parecia ser

a certa.

— Você não é mais casado, de verdade, com a Emily — disse Fleur,

lenta e delicadamente. — Não é mesmo? — Ela levantou uma das mãos e

começou a acariciar o rosto dele, mas ele se afastou.

— Eu não posso! — O rosto de Richard estava pálido. Ele se inclinou

para a frente com o rosto tenso e os olhos marejados de lágrimas. — Você

não entende. Emily era minha esposa. Emily é a única... — A voz dele

falhou e ele desviou o olhar.

Fleur pensou por um segundo e rapidamente ajeitou o vestido. Quando

Richard recuperou o autocontrole e olhou para ela, as meias de renda

tinham desaparecido sob um monte de lã preta decente. Ele olhou para ela

sem nada dizer.

— Devo ser uma grande decepção para você — disse ele, por fim. —

Eu entenderia se você decidisse... — Ele deu de ombros.

— Decidisse o quê?

— Que não quer mais me ver.

— Richard, não seja bobo! — A voz de Fleur soou baixa, compassiva,

com um toque de bom humor. — Você não acha que estou com você apenas

com essa intenção, acha? — Ela abriu um sorrisinho, e, depois de alguns

segundos, Richard sorriu também. — Nós estamos nos divertindo tanto

juntos — continuou ela. — Detestaria que um de nós se sentisse

pressionado...

Enquanto falava, Fleur olhou de relance o rosto do taxista pelo espelho

retrovisor. Ele olhava para os dois evidentemente atônito, e Fleur sentiu

vontade de rir. Mas, em vez disso, virou-se para Richard com a voz mais

contida e disse:

— Eu adoraria passar uns dias em Greyworth e ficaria muito feliz se

tivesse um quarto só para mim. E se as coisas progredirem... progrediram.

Richard olhou para ela por alguns instantes e, de repente, pegou sua

mão.

— Você é uma mulher maravilhosa — disse ele, a voz rouca. — Eu me

sinto... — Ele apertou a mão dela ainda mais. — De repente, estou me

sentindo muito conectado a você. — Fleur olhou para ele em silêncio por

um momento, e de modo recatado, olhou para baixo.

Maldita Emily, pensou Fleur. Sempre atrapalhando. Mas não disse nada

e deixou a mão de Richard segurar a sua durante todo o trajeto de volta ao

Regent’s Park.