A Rainha dos Funerais
Três
Lambert botou o fone no gancho e olhou para o aparelho por alguns
segundos. Em seguida, virou-se para Philippa.
— Seu pai é um tolo — exclamou ele. — Um tolo de marca maior!
— O que ele fez? — perguntou Philippa, nervosa.
— Ele se envolveu com uma mulher aí, só isso. Quer dizer, na idade
dele!
— E tão pouco tempo depois da morte da mamãe — acrescentou
Philippa.
— Exatamente — disse Lambert. — Exatamente. — Ele lançou a
Philippa um olhar de aprovação, e ela sentiu uma onda de prazer se espalhar
pelo pescoço. Não era sempre que Lambert olhava para ela daquele jeito. —
Era seu pai ao telefone, avisando que vai levar uma mulher ao almoço de
hoje. Ele parecia estar... — Lambert fez uma careta enquanto pensava, e
Philippa desviou o olhar depressa, para não correr o risco de acabar
elaborando a conclusão de que era casada com um homem extremamente
feio. — Ele parecia estar inebriado — Lambert concluiu.
— A essa hora da manhã?
— Não inebriado de álcool — disse Lambert, impaciente. — Inebriado
de... — Parou de falar, e, por alguns segundos, ele e Philippa se
entreolharam.
— De felicidade — disse Philippa, por fim.
— Bem, sim — disse Lambert, contrariado. — Imagino que deva ser
isso.
Philippa se inclinou para o espelho e começou a aplicar o delineador
líquido com a mão trêmula.
— Quem é ela? — perguntou Philippa. — Qual é o nome dela?
— Fleur.
— Fleur? Aquela da missa? Aquela do chapéu bonito?
— Pelo amor de Deus, Philippa! Você acha que eu perguntei a ele sobre
o chapéu dela? Agora se arrume depressa. — E, sem esperar resposta,
Lambert saiu do quarto.
Philippa analisou o próprio reflexo em silêncio; os olhos azuis, o cabelo
castanho-claro, as bochechas levemente coradas. Por sua mente, corria uma
torrente de palavras imaginárias; palavras que Lambert poderia ter dito se
fosse outro homem. Ele poderia ter dito: “Sim, querida, creio que seja
aquela mesma”... ou então: “Philippa, meu amor, eu só tinha olhos para
você durante a missa”... ou poderia, ainda, ter dito: “Aquela do chapéu
bonito? Seu chapéu era o mais lindo de todos.” Em seguida, ela teria dito
com o tom confiante e provocante que nunca conseguia recriar na vida real:
“Ora, querido, até mesmo você deve ter notado aquele chapéu!” Ao que ele
teria dito: “Ah, aquele chapéu!” E os dois teriam dado risada. E depois...
depois ele a teria beijado na testa, e depois...
— Philippa! — A voz de Lambert atravessou o apartamento, alta e
incisiva. — Você está pronta?
Philippa deu um pulo.
— Estarei pronta em cinco minutos! — respondeu ela, ouvindo o tremor
em sua voz e odiando aquilo.
— Bem, ande logo!
Philippa começou a procurar na nécessaire de maquiagem, atordoada, o
batom da cor certa. Se Lambert fosse outra pessoa, talvez tivesse
respondido “não se apresse” ou “vá com calma, meu amor”, ou talvez
tivesse voltado para o quarto, sorrido para ela e mexido em seus cabelos. E
ela teria dado risada e dito “você está fazendo com que eu me atrase”, e ele
teria falado “é mais forte que eu, porque você é linda”, e então ele teria
beijado seus dedos... e depois…
No canto do quarto, o telefone começou a tocar um som eletrônico
abafado. Perdida no mundo dos sonhos, Philippa nem ouviu.
No escritório, Lambert atendeu o telefone.
— Aqui é Lambert Chester.
— Bom dia, Sr. Chester. Aqui é Erica Fortescue, do First Bank. Eu
poderia dar uma palavrinha com o senhor?
— Estou de saída. É importante?
— É sobre o saldo negativo na sua conta, Sr. Chester.
— Ah. — Lambert olhou hesitante para a porta do escritório. E, então,
só por precaução, empurrou-a com o pé para fechá-la. — Qual é o
problema?
— O senhor ultrapassou seu limite. É uma quantia substancial.
— Que bobagem. — Lambert se inclinou para trás, levou a mão à boca
e começou a cutucar os dentes.
— O saldo atual da conta está negativo em mais de trezentas mil libras.
Quando, na verdade, o limite estabelecido foi de duzentos e cinquenta.
— Você poderá constatar que o limite foi aumentado novamente no mês
passado. Para trezentos e cinquenta mil — afirmou Lambert.
— Isso foi confirmado por escrito?
— Larry Collins fez essa alteração para mim.
— Larry Collins não trabalha mais no banco. — A voz de Erica
Fortescue soou suave do outro lado da linha.
Merda, pensou Lambert. Larry foi demitido. Que imbecil imprestável.
— Bem, ele confirmou por escrito antes de sair — disse ele, depressa.
Lambert poderia facilmente forjar uma carta.
— Não há nada em nossos arquivos.
— Bem, imagino que ele tenha se esquecido de arquivar. — Lambert
parou e seu rosto se contorceu em um sorriso de escárnio. — Talvez ele
também tenha se esquecido de contar que, daqui a dois anos, eu vou ganhar
mais dinheiro do que vocês dois já viram na vida.
Isso vai calar a sua boca, pensou ele, sua vaca idiota e enxerida.
— O fundo fiduciário de sua esposa? Sim, ele mencionou isso para
mim. Foi confirmado?
— Claro que sim. Está tudo certo.
— Entendo.
— E você ainda está preocupada com o meu pequeno e patético saldo
negativo?
— Sim, Sr. Chester, estou. Não costumamos aceitar bens de cônjuges
como garantia em contas individuais. — Lambert olhou para o telefone com
raiva. Quem aquela imbecil achava que era? — Outra coisa...
— O quê? — Ele estava começando a se irritar.
— Fiquei intrigada por não ver nada relacionado ao fundo fiduciário no
arquivo de sua esposa aqui. Só em seu arquivo. Algum motivo para isso?
— Tem, sim — disse Lambert, baixando a guarda. — Não está
registrado no arquivo da minha esposa porque ela não sabe nada sobre ele.
As pastas estavam vazias. Totalmente vazias. Fleur olhou para elas sem
acreditar, abrindo algumas delas, procurando documentos soltos, extratos
bancários, qualquer coisa. E, então, quando ouviu um barulho, rapidamente
fechou as gavetas do arquivo de metal e correu para a janela. Quando
Richard entrou no cômodo, ela estava inclinada para fora, respirando,
extasiada, o ar londrino.
— Que linda vista! — exclamou ela. — Eu amo o Regent’s Park. Você
costuma ir ao zoológico?
— Nunca — disse Richard, rindo. — Nunca mais fui, desde que Antony
era pequeno.
— Precisamos ir — falou Fleur. — Enquanto você ainda está em
Londres.
— Talvez hoje à tarde?
— Hoje à tarde, iremos ao Hyde Park — disse Fleur, convicta. — Já
está tudo organizado.
— Você é quem sabe... — Richard abriu um sorriso largo. — Mas agora
é melhor irmos se não quisermos nos atrasar para o almoço com Philippa e
Lambert.
— Tudo bem. — Fleur sorriu com charme para Richard e permitiu-se
ser conduzida para fora do cômodo.
Na porta, ela olhou rapidamente ao redor, perguntando-se se teria
deixado de procurar em algum lugar. Mas o único móvel que parecia ter a
ver com o armazenamento de documentos era o arquivo-armário. Não havia
mesa. Não havia escrivaninha. A papelada dele devia estar em algum outro
lugar. No trabalho dele. Ou na casa em Surrey.
A caminho do restaurante, Fleur deixou a mão escorregar suavemente
para a de Richard, e, quando seus dedos se entrelaçaram, ela viu um
pequeno rubor se espalhar pelo pescoço dele. Richard era o típico
cavalheiro inglês, todo certinho, pensou ela, tentando não rir. Depois de
quatro semanas, ele não havia feito nada além de beijá-la com “selinhos”, e
ainda por cima com lábios secos, tímidos, inexperientes. Nada parecido
com o bruto do Sakis, que a havia arrastado para um quarto de hotel depois
do primeiro almoço juntos. Fleur se retraiu ao se lembrar das coxas grossas
e peludas de Sakis; de suas ordens dadas aos berros. As coisas estavam bem
melhores agora. E, para sua surpresa, ela descobriu que gostava de ser
tratada como uma adolescente virgem. Andou ao lado de Richard com um
sorriso no rosto, sentindo-se envolvida, protegida e toda cheia de si, como se realmente tivesse uma virtude para proteger; como se estivesse se
guardando para aquele momento especial.
Se ela conseguiria esperar por muito tempo eram outros quinhentos.
Quatro semanas de almoços, jantares, filmes e galerias de arte — e ela
ainda não tinha provas concretas de que Richard Favour possuía muito
dinheiro. Ele tinha alguns ternos chiques; um apartamento em Londres; uma
mansão em Surrey; uma fama de rico. Essas coisas não significavam nada.
As casas podiam estar hipotecadas. Ele podia estar em vias de decretar
falência. Talvez estivesse prestes a pedir dinheiro emprestado para ela. Já
tinha acontecido com ela antes e, desde então, Fleur ficava muito atenta.
Sem conseguir encontrar evidências claras de muito dinheiro, estava
perdendo tempo. Sério, já era para ela ter partido para outra. Para o próximo
funeral; a próxima vítima. Mas...
Fleur deu uma pausa em seus pensamentos, e prendeu o braço de
Richard com mais firmeza embaixo do seu. Para ser sincera, tinha de
admitir que havia perdido um pouco de sua autoconfiança desde que
deixara Sakis. Nas últimas semanas, ela tinha ido a três funerais e cinco
missas fúnebres — mas, até aquele momento, Richard Favour parecia ser
sua única aposta promissora. Enquanto isso, Johnny e Felix, por mais
amáveis que fossem, começavam a se incomodar ao ver a bagagem dela
amontoada no quarto de hóspedes deles. Fleur não costumava passar muito
tempo entre um homem e outro (“descansando”, como Felix dizia);
normalmente, era questão de sair de uma cama e entrar em outra.
Se, ao menos, pensou Fleur, ela pudesse acelerar as coisas com Richard
um pouco: garantir um lugar em sua cama; morar em sua casa. Desse jeito,
poderia avaliar direito a questão das finanças dele e, ao mesmo tempo,
resolver o problema de um lugar para ficar. Caso contrário — se as coisas
não se resolvessem logo —, ela seria forçada a tomar medidas às quais
prometera nunca se submeter. Teria que procurar um apartamento para si.
Talvez até procurar um emprego. Fleur sentiu um calafrio e, em seguida,
contraiu a mandíbula, determinada. Teria que levar Richard para a cama.
Quando isso acontecesse, tudo ficaria mais fácil.
Quando viraram na Great Portland Street, Richard sentiu Fleur cutucá-lo.
— Veja! — disse ela, baixinho. — Veja aquilo!
Richard virou a cabeça. Do outro lado da rua, havia duas freiras na
calçada, aparentemente tendo uma discussão feia.
— Nunca vi freiras discutindo — disse Fleur, rindo.
— Acho que eu também não.
— Vou falar com elas — disse Fleur, de repente. — Fique aqui.
Richard observou atônito enquanto Fleur atravessava a rua. Durante
alguns minutos, ela ficou parada na outra calçada, uma figura chamativa de
casaco vermelho, conversando com freiras de hábitos pretos. Elas pareciam
estar assentindo e sorrindo. Então, de repente, ela atravessou a rua de novo
na direção dele, e as freiras se afastaram num clima aparentemente
harmonioso.
— O que aconteceu? — perguntou Richard. — O que você disse, minha
nossa?
— Disse a elas que a Virgem Maria Santíssima não gosta de discórdia.
— Fleur sorriu ao ver a expressão incrédula de Richard. — Na verdade,
expliquei a elas como chegar ao metrô.
Richard riu, de repente.
— Você é uma mulher formidável! — disse ele.
— Eu sei — disse Fleur, satisfeita.
Ela entrelaçou o braço no dele de novo, e os dois começaram a andar.
Richard olhou para a luz pálida do sol de primavera iluminando a
calçada, e sentiu uma alegria radiante invadir seu corpo. Ele conhecia
aquela mulher havia apenas quatro semanas, e já não conseguia imaginar a
vida sem sua presença. Quando estava com ela, acontecimentos corriqueiros
e comuns pareciam se transformar numa série de momentos incríveis;
quando não estava com ela, desejava estar. Fleur parecia transformar a vida
numa brincadeira — não no labirinto de regras e convenções ao qual Emily
se apegava incansavelmente —, mas uma brincadeira do acaso; de quem se
arrisca a vencer. Ele se via esperando com uma animação infantil para saber
o que ela diria em seguida; o que ela faria para surpreendê-lo. Ele conhecera
mais de Londres nas últimas quatro semanas do que na vida toda; rira mais
do que nunca; gastara dinheiro como havia muito não fazia.
Com frequência, ele se lembrava de Emily e sentia uma pontada de
culpa — culpa por estar passando muito tempo com Fleur, por estar se
divertindo tanto, por tê-la beijado. E culpa porque seu motivo original para
procurar Fleur — descobrir o máximo que pudesse a respeito da
personalidade contida de Emily — parecia ter ficado em segundo plano;
quando o primeiro plano era simplesmente estar com Fleur. Às vezes, em
seus sonhos, ele via o rosto de Emily, pálido e reprovador; acordava no meio da noite, encolhido de tristeza e suando de vergonha. Mas, pela
manhã, a imagem de Emily sempre desaparecia, e ele só conseguia pensar
em Fleur.
— Ela é deslumbrante! — disse Lambert, a voz alterada.
— Eu te disse! — falou Philippa. — Você não reparou nela durante a
missa fúnebre?
Lambert deu de ombros.
— Lembro que a achei atraente. Mas... olhe para ela!
“Olhe para ela ao lado do seu pai” era o que ele queria dizer.
Eles assistiram em silêncio a Fleur tirar o casaco vermelho. Por baixo,
ela exibia um vestido preto justo; ela se ajeitou, alisando o vestido na altura
do quadril. Lambert sentiu uma repentina pontada de desejo e revolta. O
que raios uma mulher como aquela fazia com Richard, enquanto ele estava
preso a Philippa?
— Eles estão vindo — disse Philippa. — Oi, papai!
— Oi, querida — respondeu Richard, beijando-a. — Lambert.
— Richard.
— E essa é a Fleur. — Richard não conseguiu conter o sorriso
orgulhoso, que tomou conta de seu rosto.
— É um prazer conhecê-la — disse Fleur, sorrindo de modo caloroso
para Philippa, estendendo a mão para ela. Depois de uma breve hesitação,
Philippa a apertou. — E Lambert, claro, já conheci.
— Muito rapidamente — disse Lambert, de um jeito desanimado.
Fleur lançou a ele um olhar curioso, e então sorriu de novo para
Philippa. Levemente incomodada, Philippa retribuiu o sorriso.
— Sinto muito por estarmos um pouco atrasados — disse Richard,
balançando o guardanapo. — Nós... hum... tivemos um contratempo com
duas freiras. Freiras malucas. — Ele olhou para Fleur e, de repente, os dois
começaram a rir.
Philippa olhou para Lambert sem saber como agir, e o marido arqueou
as sobrancelhas.
— Perdão — disse Richard, ainda rindo. — É uma história comprida
demais para explicar. Mas foi muito engraçado.
— Imagino que sim — disse Lambert. — Vocês pediram bebidas?
— Vou querer um Manhattan — disse Richard.
— Um o quê? — perguntou Philippa, sem entender.
— Um Manhattan — repetiu ele. — Você sabe o que é o drinque
Manhattan, não sabe?
— Richard nunca tinha experimentado um Manhattan, até semana
passada — disse Fleur. — Eu amo coquetéis. Vocês não?
— Não sei — disse Philippa. — Acho que sim. — Ela tomou um gole
da água com gás e tentou se lembrar da última vez em que havia tomado um
coquetel. E, então, para seu espanto, viu o pai esconder a mão sob a mesa
para segurar a de Fleur. Ela virou para Lambert; ele estava assistindo,
vidrado, à mesma cena.
— Vou querer um também — disse Fleur, toda animada.
— Acho melhor eu tomar um gin — disse Philippa.
Sentia-se levemente atordoada. Aquele era seu pai mesmo? De mãos
dadas com outra mulher? Ela não conseguia acreditar. Nunca nem sequer o
vira de mãos dadas com sua própria mãe. Mas ali estava ele, sorrindo à
vontade como se sua mãe nunca tivesse existido. Ele não estava se
comportando como seu pai, pensou ela. Estava se comportando como se
fosse... como se fosse um homem normal.
Lambert era o mais complicado de todos, Fleur pensou. Era ele quem não
parava de olhar para ela com desconfiança; que não parava de fazer
perguntas sobre seu passado e a testava para saber até que ponto havia
conhecido Emily. Ela quase conseguia ver as palavras “golpe do baú” se
formando na cabeça dele. Isso era bom se significasse que havia de fato
algum dinheiro a embolsar, mas não se significasse que Lambert iria
desmascará-la. Ela teria que amaciá-lo.
Então, quando as sobremesas chegaram, ela se virou para Lambert e
adotou uma expressão atenciosa, quase admirada.
— Richard me contou que você é o especialista em computadores da
empresa dele.
— Isso mesmo — disse Lambert, parecendo entediado.
— Que incrível! Não sei nada sobre computadores.
— A maioria das pessoas não sabe.
— Lambert desenvolve softwares para a empresa — disse Richard —, e
os vende para outras empresas. É uma atividade paralela bem lucrativa.
— Então, você será o novo Bill Gates?
— Na verdade, minha abordagem é totalmente diferente da de Gates —
respondeu Lambert, com frieza.
Fleur olhou para Lambert para ver se estava brincando, mas os olhos
dele estavam sérios, frios. Minha nossa, pensou ela, tentando não rir. Nunca
subestime a vaidade de um homem.
— Mas você ainda poderá ganhar bilhões?
Lambert deu de ombros.
— Dinheiro não me interessa.
— Lambert não se importa muito com dinheiro — interrompeu
Philippa, dando uma risadinha hesitante. — Sou eu que cuido das nossas
finanças.
— Uma tarefa adequada para a mente feminina — disse Lambert.
— Espere um pouco, Lambert — protestou Richard. — Acho que isso
não é muito justo.
— Pode não ser justo — disse Lambert, enfiando uma colher na mousse
de chocolate —, mas é verdade. Os homens criam, as mulheres
administram.
— As mulheres criam bebês — disse Fleur.
— As mulheres produzem bebês — disse Lambert. — Os homens os
criam. A mulher é a parceira passiva. E quem determina o sexo do bebê? O
homem ou a mulher?
— A clínica — disse Fleur.
Lambert pareceu não gostar.
— Você parece não estar entendendo o cerne da questão — começou
ele. — É bem simples... — Mas, antes de prosseguir, foi interrompido por
uma voz feminina e estridente.
— Nossa, que surpresa! A família Favour en masse!
Fleur ergueu o olhar. Uma mulher loira com um casaco verde-esmeralda
se aproximava deles. Seu olhar passou de Richard a Fleur, depois a
Lambert, Philippa e de volta a Fleur, que a encarou. Por que essas mulheres
têm de usar tanta maquiagem?, pensou Fleur. As pálpebras da mulher
estavam cobertas por uma camada azul brilhante; os cílios esticados
pareciam espinhos; em um de seus dentes havia uma manchinha de batom.
— Eleanor! — disse Richard. — Como é bom revê-la! Você veio com o
Geoffrey?
— Não — disse Eleanor. — Vim almoçar com uma amiga; depois,
vamos à Scotch House. — Ela passou a alça dourada da bolsa de um ombro
ao outro. — Na verdade, dia desses Geoffrey comentou que não tem visto você no clube. — Na voz dela havia um tom de questionamento; mais uma
vez, olhou para Fleur.
— Deixe-me fazer as devidas apresentações — disse Richard. — Essa é
uma amiga minha, Fleur Daxeny. Fleur, essa é Eleanor Forrester. O marido
dela é capitão do Clube de Golfe em Greyworth.
— Muito prazer em conhecê-la — murmurou Fleur, levantando-se um
pouquinho da cadeira para cumprimentá-la.
A mão de Eleanor Forrester era firme e áspera; quase masculina, não
fossem as unhas pintadas de vermelho. Outra jogadora de golfe.
— Você é uma velha amiga de Richard? — perguntou Eleanor.
— Na verdade, não — disse Fleur. — Conheci Richard há quatro
semanas.
— Entendi — disse Eleanor. Seus cílios pontudos desceram e subiram
algumas vezes. — Entendi — repetiu. — Bem, acho melhor eu ir. Algum de
vocês vai jogar no Encontro de Primavera?
— Eu vou, com certeza — disse Lambert.
— Ah, eu espero jogar também — disse Richard. — Mas, quem sabe?
— Quem sabe — repetiu Eleanor. Ela olhou de novo para Fleur,
contraindo os lábios. — Muito prazer em conhecê-la, Fleur. Muito
interessante, mesmo.
Eles observaram em silêncio enquanto ela se afastava depressa, os
cabelos loiros açoitando a gola do paletó.
— Bem — disse Lambert assim que ela ficou fora do alcance auditivo.
— Todo mundo no clube vai ficar sabendo disso amanhã.
— Eleanor era uma grande amiga da mamãe — disse Philippa a Fleur,
justificando o ocorrido. — Ela provavelmente pensou... — Philippa parou
de falar, de um jeito estranho.
— Sabe, você vai ter que ficar atento — disse Lambert a Richard. —
Vai voltar a Greyworth e descobrir que todo mundo tem falado de você.
— Que bom — disse Richard, sorrindo para Fleur — ser o centro das
atenções.
— Pode parecer engraçado agora — disse Lambert. — Mas se eu fosse
você...
— Sim, Lambert? O que você faria?
O tom de voz de Richard ficou sério, e Philippa lançou a Lambert um
olhar de advertência. Mas Lambert continuou.
— Eu tomaria um certo cuidado, Richard. Sinceramente, é melhor que
as pessoas não pensem a coisa errada. Você não vai querer que fiquem
fofocando pelas suas costas.
— E por que elas ficariam fofocando pelas minhas costas?
— Bem, é óbvio, não é? Olhe, Fleur, eu não quero ofendê-la, mas você
entende, não? Todo mundo gostava muito da Emily. E quando as pessoas
souberem de você...
— Não só elas ficarão sabendo de Fleur — disse Richard, em alto e
bom tom —, como também irão conhecê-la, já que ela vai se hospedar em
Greyworth muito em breve. E se você tiver algum problema com isso,
Lambert, sugiro que mantenha distância.
— Eu só quis dizer... — começou Lambert.
— Sei o que você quis dizer — disse Richard. — Sei muito bem o que
você quis dizer. E, com isso, caiu muito no meu conceito. Venha, Fleur,
vamos embora daqui.
Na calçada, Richard segurou o braço de Fleur.
— Sinto muito por isso — disse ele. — Lambert sabe ser desagradável.
— Está tudo bem — disse Fleur, baixinho.
Meu Deus, pensou Fleur, já vi gente muito mais desagradável que ele.
Teve uma filha que tentou arrancar meu cabelo, uma vizinha que me
chamou de vadia...
— E você passaria uns dias em Greyworth? Perdão, eu deveria ter
perguntado antes. — Richard olhou para ela, ansioso. — Mas prometo que
você vai gostar de lá. Podemos fazer longas caminhadas, e você vai poder
conhecer o restante da família...
— E aprender a jogar golfe?
— Se você quiser. — Ele sorriu. — Não é obrigatório. — Ele fez uma
pausa, sem jeito. — E, claro, você... você teria seu próprio quarto. Não iria
querer que... que...
— Você não? — perguntou Fleur, baixinho. — Eu sim.
Ela ficou na ponta dos pés e encostou os lábios nos de Richard. Depois
de um segundo, deslizou a língua para dentro da boca dele. Imediatamente,
o corpo dele se retesou. De choque? De desejo? Como quem não quer nada,
ela desceu a mão pela nuca dele e esperou para descobrir.
Richard ficou completamente imóvel, a boca de Fleur aberta na dele, as
palavras dela ecoando em sua cabeça, tentando controlar os pensamentos, mas sem sucesso. Ele se sentiu repentinamente rígido, quase paralisado de
excitação. Depois de alguns instantes, Fleur moveu os lábios lentamente
para o canto da boca de Richard, e ele sentiu a pele explodir com uma
sensação deliciosa. Era como deveria ter sido com Emily, pensou, meio
atordoado, tentando não cair duro de tão inebriado. Era para ter sido desta
forma com sua amada esposa. Mas Emily nunca o havia excitado como
aquela mulher — aquela mulher sedutora que ele conhecia havia apenas
quatro semanas. Ele nunca tinha sentido um desejo tão grande como esse.
Nunca havia sentido vontade de... de comer uma mulher antes.
— Vamos pegar um táxi — disse ele, a voz alterada, afastando-se de
Fleur. — Vamos voltar para o apartamento.
Ele mal conseguia falar. Cada palavra parecia macular o momento;
parecia estragar a convicção dentro dele de que estava prestes a viver uma
experiência perfeita. Mas era preciso quebrar o silêncio. Era preciso, de
alguma forma, sair da rua.
— E o Hyde Park?
Richard teve a sensação de que Fleur o estava torturando.
— Outro dia — disse ele. — Vamos. Vamos!
Ele fez sinal para um táxi, acomodou-a dentro dele, resmungou um
endereço ao taxista e virou-se para Fleur. Diante daquela visão, seu coração
quase parou. Fleur havia se recostado no banco de couro preto do táxi, e seu
vestido havia misteriosamente subido, até que a parte de cima de uma de
suas meias-calças pretas ficou visível.
— Ai, meu Deus — disse ele, indistintamente, olhando para a renda
preta e transparente. Emily nunca havia usado meias de seda com renda
preta.
E, então, de repente, uma onda fria de medo tomou conta de seu corpo.
O que estava prestes a fazer? O que havia acontecido com ele? Imagens de
Emily espoucavam como flashes em sua mente. O sorriso meigo dela; a
sensação de seus cabelos entre os dedos dele. As pernas esguias; as nádegas
pequenas. Momentos confortáveis, calmos; noites de ternura.
— Richard — disse Fleur, a voz rouca, passando um dedo com
delicadeza pela coxa dele.
Richard se retraiu em pânico. Sentiu pavor. O que havia parecido tão
certo na calçada agora parecia manchado pelas lembranças que não saíam
de sua mente; por uma culpa que se elevava, comprimindo sua garganta até
ele quase não conseguir respirar. De repente, ele se viu à beira das lágrimas. Não podia fazer aquilo. Não faria aquilo. Mas, ainda assim, o desejo por
Fleur percorria seu corpo como uma tormenta.
— Richard? — repetiu Fleur.
— Eu ainda sou casado — disse ele. — Não posso fazer isso. Ainda sou
casado com Emily. — Richard olhou para Fleur, esperando obter algum
alívio para seu sofrimento; alguma confirmação de que estava fazendo a
coisa certa. Mas não obteve nada. Ele foi tomado por emoções conflituosas,
por necessidades físicas, por angústia mental. Nenhuma direção parecia ser
a certa.
— Você não é mais casado, de verdade, com a Emily — disse Fleur,
lenta e delicadamente. — Não é mesmo? — Ela levantou uma das mãos e
começou a acariciar o rosto dele, mas ele se afastou.
— Eu não posso! — O rosto de Richard estava pálido. Ele se inclinou
para a frente com o rosto tenso e os olhos marejados de lágrimas. — Você
não entende. Emily era minha esposa. Emily é a única... — A voz dele
falhou e ele desviou o olhar.
Fleur pensou por um segundo e rapidamente ajeitou o vestido. Quando
Richard recuperou o autocontrole e olhou para ela, as meias de renda
tinham desaparecido sob um monte de lã preta decente. Ele olhou para ela
sem nada dizer.
— Devo ser uma grande decepção para você — disse ele, por fim. —
Eu entenderia se você decidisse... — Ele deu de ombros.
— Decidisse o quê?
— Que não quer mais me ver.
— Richard, não seja bobo! — A voz de Fleur soou baixa, compassiva,
com um toque de bom humor. — Você não acha que estou com você apenas
com essa intenção, acha? — Ela abriu um sorrisinho, e, depois de alguns
segundos, Richard sorriu também. — Nós estamos nos divertindo tanto
juntos — continuou ela. — Detestaria que um de nós se sentisse
pressionado...
Enquanto falava, Fleur olhou de relance o rosto do taxista pelo espelho
retrovisor. Ele olhava para os dois evidentemente atônito, e Fleur sentiu
vontade de rir. Mas, em vez disso, virou-se para Richard com a voz mais
contida e disse:
— Eu adoraria passar uns dias em Greyworth e ficaria muito feliz se
tivesse um quarto só para mim. E se as coisas progredirem... progrediram.
Richard olhou para ela por alguns instantes e, de repente, pegou sua
mão.
— Você é uma mulher maravilhosa — disse ele, a voz rouca. — Eu me
sinto... — Ele apertou a mão dela ainda mais. — De repente, estou me
sentindo muito conectado a você. — Fleur olhou para ele em silêncio por
um momento, e de modo recatado, olhou para baixo.
Maldita Emily, pensou Fleur. Sempre atrapalhando. Mas não disse nada
e deixou a mão de Richard segurar a sua durante todo o trajeto de volta ao
Regent’s Park.