A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 11 de 19

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A Rainha dos Funerais

Onze

 

Alguns dias depois, um pacote chegou para Fleur pelo correio. Dentro havia

um cartão dourado da American Express.

— Legal! — disse Antony, quando ela o abriu no café da manhã. — Um

cartão Gold. Pai, por que eu não posso ter um desses? Alguns caras na

escola têm.

— Então os pais deles são muito burros, além de muito ricos — disse

Richard, sorrindo. — Agora, onde tem uma caneta? Você deve assiná-lo

agora mesmo, Fleur. Seria um desastre se caísse nas mãos erradas.

— Vou tomar muito cuidado — disse Fleur, sorrindo para Richard. Ela

apertou a mão dele. — Foi muito gentil de sua parte, Richard. Agora vou

poder comprar algo muito bacana para a Zara.

— Zara? — Antony ergueu a cabeça.

— É aniversário da Zara essa semana — disse Richard.

— Aniversário dela? — repetiu Antony.

— Na quarta. Não é, Fleur?

— Sim — disse ela, assinando o cartão Gold com um floreio. — Vou a

Guildford agora de manhã.

— Se eu fizer um bolo, acha que ela vai gostar? — perguntou Gillian.

— Tenho certeza de que vai — disse Fleur, sorrindo calorosamente para

Gillian.

— Quantos anos ela vai fazer? — perguntou Antony.

— Catorze — disse Fleur, depois de hesitar por um instante.

— Ah, tá. — Antony franziu o cenho de leve. — Porque pensei que

demoraria ainda até ela fazer catorze anos.

— Já está mentindo a idade! — disse Fleur, rindo. — Atenção, você

deveria se sentir lisonjeado!

O rosto de Antony enrubesceu, e ele olhou para o prato.

— O que acha de... — Gillian hesitou, virou para Richard e continuou.

— E o pai da Zara? Ele vai querer... visitá-la? — Ela corou. — Eu não

devia ter dito nada. É que pensei que, como é o aniversário dela...

— Gillian, você é muito gentil — disse Fleur e tomou um gole de café.

— Infelizmente, o pai da Zara morreu.

— Morreu? — Antony ergueu a cabeça bruscamente. — Mas eu

pensei... pensei que o pai da Zara morasse nos Estados Unidos. Ela me

disse...

Fleur balançou a cabeça com tristeza.

— Zara teve muita dificuldade em aceitar a morte do pai — disse ela,

bebericando o café de novo. — Para ela, o pai continua vivo. Ela tem

muitas fantasias em relação a ele. A atual é que ele está morando em algum

lugar dos Estados Unidos. — Ela suspirou. — Me disseram que o melhor a

fazer é concordar com o que ela diz.

— Mas...

— Eu me culpo — disse Fleur. — Eu deveria ter falado mais com ela

sobre isso. Mas foi um período doloroso para mim também.

Ela parou de falar e olhou para Antony com olhos grandes e pesarosos.

Richard segurou a mão dela e a apertou.

— Eu não sabia — disse Antony, debilmente. — Pensei...

— Ela está vindo — interrompeu Gillian, depressa. — Oi, Zara —

exclamou ela, animada, quando Zara entrou no solário. — Estávamos

falando sobre o seu aniversário.

— Meu aniversário — repetiu Zara, parando na porta. Seu olhar atento

observou a cena e parou no cartão Gold, brilhando em meio ao embrulho de

papel na mesa. Ela olhou para Fleur, e de novo para o cartão Gold. — Claro

— disse ela. — Meu aniversário.

— Queremos que a quarta-feira seja um dia muito especial para você,

querida — disse Fleur. — Com um bolo, com velas e... — Ela abriu as

mãos vagamente.

— Party-poppers— disse Zara sem ânimo.

— Party-poppers! Que boa ideia!

— É — disse Zara.

— Bem, está combinado — disse Richard. — Agora, preciso dar alguns

telefonemas. — Ele se levantou.

— Se quiser uma carona para a Guildford... — disse Gillian para Fleur.

— Eu poderia dar um pulinho lá também.

— Ótimo — disse Fleur.

— E o que vocês dois jovenzinhos vão fazer? — disse Richard para

Antony.

— Sei lá — disse Antony.

Zara deu de ombros e desviou o olhar.

— Bem — disse Richard, à vontade. — Tenho certeza de que vocês vão

pensar em algo bacana.

 

Enquanto Zara tomava o café da manhã, mantinha o olhar baixo e evitava

os olhos de Antony. Uma decepção raivosa ardia em seu peito; tinha medo

de acabar chorando. Fleur tinha conseguido um cartão Gold. O que

significava que elas partiriam. Assim que Fleur tivesse feito a limpa, elas

iriam embora.

Era como uma bola quicando, Fleur explicara a ela alguns anos antes,

enquanto as duas estavam sentadas no restaurante de algum aeroporto, à

espera de um avião.

“Você pega o cartão Gold, tira algum dinheiro, e, no dia seguinte, você

devolve. Depois, tira mais um pouco e devolve de novo. E continua assim,

quicando cada vez mais alto até chegar ao máximo que pode chegar; então

pega todo o dinheiro e desaparece!” Ela rira e Zara também.

“Por que simplesmente não pega tudo de uma vez logo no início?”, Zara

havia perguntado.

“Levanta muita suspeita, querida”, respondera Fleur. “É preciso ir aos

poucos para ninguém notar.”

“E como se sabe quando se chegou à quantia mais alta a que se pode

chegar?”

“Não se sabe. O segredo é tentar descobrir o máximo que se puder antes

de começar. Ele é rico? É pobre? Quanto pode se dar ao luxo de perder?

Mas, depois, é preciso chutar. E faz parte do jogo. Dois mil? Dez mil?

Cinquenta mil? Quem sabe qual é o limite?”

Fleur rira de novo, e Zara também. Na época, parecera divertido. Um

bom jogo. Agora, essa ideia toda fazia Zara se sentir enjoada.

— Você quer nadar? — A voz de Antony interrompeu seus

pensamentos.

— Ah. — Com um esforço enorme, Zara levantou a cabeça para olhar

nos olhos de Antony.

Ele a estava encarando com uma expressão peculiar, quase como se

conseguisse ler seus pensamentos. Quase como se soubesse o que estava

acontecendo.

Zara foi tomada por uma onda de pânico; adotou uma expressão neutra.

Em todos aqueles anos de fingimento, nunca tinha cometido um deslize.

Não podia se descuidar. Se deixasse transparecer a verdade para Antony,

Fleur nunca a perdoaria. Fleur nunca a perdoaria, e ela nunca conseguiria

conhecer seu pai.

— Claro — disse ela, forçando um tom casual na voz e dando de

ombros. — Por que não?

— Ok. — Ele ainda olhava para ela de um jeito esquisito. — Vou pegar

minhas coisas.

— Está bem — disse ela. E olhou para baixo, para a tigela de Honey

Nut Loops, e só voltou a erguer o olhar de novo quando ele já tinha saído.

 

Oliver Sterndale estava no escritório, sua secretária informou a Richard ao

telefone, mas estava prestes a sair de férias.

— Não vai demorar muito — disse Richard, animado.

Enquanto esperava pela voz de Oliver, ele passou os olhos pelo

escritório todo organizado e sem graça e se perguntou por que nunca havia

pensado em redecorá-lo. As paredes eram brancas e lisas, não havia

quadros, e o carpete era de um tom funcional de cinza ardósia. Não havia

um objeto no ambiente que pudesse ser descrito como bonito.

Coisas como a cor das paredes nunca tinham importado para ele antes.

Mas agora ele via o mundo pelos olhos de Fleur. Agora, ele via

possibilidade onde antes só via fato. Ele se recusaria a continuar usando

aquele cômodo sem graça. Ele pediria a Fleur que redecorasse o escritório

para ele.

— Richard! — A voz de Oliver o sobressaltou. — Estou de saída.

— Eu sei. De férias. Não vai demorar muito. Só queria dizer a você que

tomei uma decisão a respeito do fundo fiduciário.

— Ah, é?

— Vou seguir com o plano.

— Entendi. E posso perguntar por quê?

— Percebi que quero mesmo tornar a Philippa e o Antony

financeiramente independentes — disse Richard. — Em dívida com

ninguém, nem mesmo... — Ele fez uma pausa e mordeu o lábio. — Nem mesmo com um integrante da própria família. Acima de tudo, quero que

eles sintam que têm controle sobre a própria vida. — Ele franziu a testa. —

Também quero... fechar um capítulo da minha vida. Começar do zero.

— Começar do zero costuma significar gastar dinheiro — disse Oliver.

— Eu tenho dinheiro — disse Richard, impaciente. — Muito dinheiro.

Oliver, já conversamos sobre isso.

— Certo. Bem, a decisão é sua. Mas não posso fazer nada a respeito

disso por uma semana.

— Não tem pressa. Pensei só em te contar. Não vou te prender. Boas

férias. Para onde está indo?

— Provença. Alguns amigos têm casa lá.

— Ótimo — disse Richard, automaticamente. — Belas paisagens nessa

parte do...

— Sim, sim — interrompeu Oliver. — Olha, Richard.

— O quê?

— Ouça. Essa coisa de começar do zero. Isso envolve casar com a sua

amiga Fleur?

— Espero muito que sim — disse Richard, sorrindo para o fone.

Oliver suspirou.

— Richard, por favor, tome cuidado.

— Oliver, de novo, não...

— Pense nas implicações de um casamento, só por um instante. Eu sei,

por exemplo, que Fleur tem uma filha em idade escolar.

— Zara.

— Zara. Isso. Agora, a mãe dela tem dinheiro para sustentá-la? Ou esse

vai ser um papel que você vai assumir?

— Fleur tem o suficiente para mandar a filha para a Escola Heathland

para Garotas — disse Richard, secamente. — Não acha que é prova

suficiente de sua capacidade de sustentar a filha?

— Tudo bem, mas você tem certeza de que é ela mesma quem paga a

escola? Tem certeza de que o dinheiro não vem de alguma fonte de renda

que secará se ela se casar novamente?

— Não, não tenho certeza — respondeu Richard, irritado. — Não

cometi a impertinência de perguntar.

— Bem, se eu fosse você, perguntaria. Só para ter uma ideia.

— Oliver, você está sendo ridículo! Por que isso importa? Você sabe

perfeitamente bem que eu teria condições de mandar um orfanato inteiro para uma escola particular se quisesse. Com fundo fiduciário ou sem.

— É o princípio da coisa — disse Oliver, de mau humor. — Primeiro, o

dinheiro da escola, depois, empreendimentos fracassados, e, quando menos

você esperar...

— Oliver!

— Só estou tentando proteger seus interesses, Richard. Casamento é

assunto sério.

— Você fez todas essas perguntas para a Helen antes de pedir a mão

dela em casamento? — rebateu Richard. — Que sortuda.

Oliver riu.

— Touché. Olha, Richard, eu preciso mesmo ir. A gente conversa de

novo quando eu voltar.

— Divirta-se.

— Au revoir, mon ami. E pense bem no que eu disse.

 

***

 

Zara e Antony andavam lado a lado, em silêncio, as coisas da natação

jogadas nos ombros. Zara olhava fixamente para a frente; Antony estava

ligeiramente carrancudo. Por fim, ele não se conteve.

— Por que você não me contou que vai fazer aniversário essa semana?

— perguntou ele.

— Não tenho que te contar tudo.

— Você não queria que eu soubesse a sua idade? — Ele arriscou um

sorrisinho.

— Tenho treze anos — disse ela num tom de voz monótono. — No

próximo aniversário, vou fazer catorze.

— Na próxima quarta, você vai fazer catorze — corrigiu ele.

— Tanto faz.

— Então, o que você quer ganhar de presente?

— Nada.

— Ah, fala sério. Você deve querer alguma coisa.

— Não.

Antony suspirou.

— Zara, a maioria das pessoas espera ansiosamente pelo aniversário.

— Bem, eu não.

Eles ficaram em silêncio por um tempo. Antony observou o rosto de

Zara, tentando identificar alguma reação. Nada. Ele se sentia como se

tivesse sido catapultado de volta ao início de novo: sentia que não conhecia

Zara direito.

Então lhe ocorreu que aquele silêncio todo poderia estar ligado ao pai

dela e... a todo aquele lance. Ele engoliu em seco, sentindo-se

repentinamente maduro e compreensivo.

— Se em algum momento você quiser conversar — começou ele —

sobre o seu pai. Estou aqui. — Ele parou e se sentiu um tolo. Claro que

estava ali. Onde mais poderia estar? — Estou aqui para te apoiar —

acrescentou.

— O que tem para ser dito?

— Bem, você sabe...

— Não sei. É esse o problema. Não sei nada sobre ele.

Antony suspirou.

— Zara, você precisa encarar a verdade.

— Que verdade? Você acha que não vou encontrar meu pai?

— Zara...

Ela virou a cabeça, por fim, e olhou para ele.

— O que foi? Por que está me olhando desse jeito?

— Sua mãe nos contou.

— Contou o quê?

— Que seu pai morreu.

— O quê?! — Seu grito ressoou na mata; um corvo voou fazendo

barulho acima das árvores. Antony olhou para ela, assustado. O rosto dela

estava pálido, as narinas alargadas, a mandíbula travada de incredulidade.

— A Fleur disse isso?

— Ela acabou de nos contar sobre o seu pai, Zara. Sinto muito. Sei

como é quando...

— Ele não morreu!

— Ai, Deus. Olha, eu não deveria ter dito nada.

— Ele não morreu, está bem?

Para surpresa de Antony, uma lágrima escorreu pelo rosto de Zara.

— Zara! Eu não queria...

— Sei que você não queria. — Ela olhou para o chão. — Olha, não é

culpa sua. Isso é só uma coisa que... uma coisa com que eu tenho que lidar.

— Ok — disse Antony, incerto.

Ele já não se sentia tão maduro e compreensivo. Pelo contrário, tinha a

impressão de que havia estragado tudo.

 

Fleur voltou de Guildford cheia de presentes, não só para Zara, mas também

para Richard, Antony e Gillian.

— Zara tem que esperar até quarta-feira — disse ela, alegremente, para

Richard, tirando da sacola uma gravata de seda extravagante. — Mas você

não tem. Experimente! Veja como fica. Gastei bastante — acrescentou ela,

enquanto Richard passava a gravata ao redor do pescoço. — Espero que seu

cartão tenha limite. Algumas administradoras de cartões ficam em alerta

quando se gastam mais de cinquenta libras.

— Eu não me preocuparia com isso — disse Richard, dando um nó na

gravata. — É linda, Fleur! Obrigado. — Ele deu uma olhada nas sacolas de

plástico que ocupavam o hall de entrada. — Então, foi um passeio bem-

sucedido, pelo visto?

— Perfeito. — Fleur sorriu. — Comprei um presente para a família toda

também. — Ela apontou para uma caixa que tinha sido levada para dentro

pelo taxista. — É uma filmadora.

— Fleur! Quanta generosidade!

— Foi por isso que perguntei sobre o cartão de crédito — disse Fleur,

sorrindo para ele. — Custou bem caro.

— Aposto que sim — disse Richard. — Minha nossa...

— Mas não se preocupe. Já pedi ao meu banco nas Ilhas Cayman que

transferisse alguns fundos para a sua conta. Aparentemente, eles conseguem

fazer isso de um dia para o outro, mas me enviar um talão de cheques

parece estar além de suas capacidades. — Fleur revirou os olhos e depois

sorriu. — Não vamos nos divertir muito com isso? Nunca usei uma

filmadora antes. — Ela começou a abrir a embalagem.

— Nem eu — respondeu Richard, observando-a. — Não faço a menor

ideia de como usar isso.

— O Antony vai saber. Ou a Zara.

— Imagino que sim. — Richard franziu o cenho de leve. — Fleur, nós

nunca conversamos sobre dinheiro, não é mesmo?

— Não — respondeu ela. — Nunca. Mas isso me lembra uma coisa. —

Ela ergueu o olhar para ele. — Você se incomodaria se eu fizesse um

pagamento em crédito na sua conta do cartão Gold? Tenho um dinheiro a

receber e, acredite ou não, para mim, no momento, esse seria o lugar mais conveniente para depositá-lo. — Ela revirou os olhos e puxou um pouco

mais o papel de embrulho da filmadora.

— Ah — disse Richard. — Não. Claro que eu não me incomodaria.

Quanto?

— Não é muito — disse Fleur, bem blasé. — Cerca de vinte mil libras.

Não sei se o seu cartão está acostumado a transações como essa.

— Bem, não é todo dia que isso acontece — disse Richard, começando

a gargalhar. — Mas acho que não haveria problema. Tem certeza de que não

tem outro lugar mais ortodoxo?

— Seria por pouco tempo — disse Fleur. — Enquanto resolvo a questão

com o meu banco. Você não se incomoda, não é mesmo? — Ela acabou de

remover o papel da embalagem e tirou a filmadora da caixa. — Ai, meu

Deus, veja todos esses botões! Eles me disseram que era fácil de usar!

— Talvez seja mais fácil do que parece. Onde estão as instruções?

— Devem estar aqui em algum lugar. O problema é que — acrescentou

ela, vasculhando a embalagem — esse dinheiro surgiu de forma inesperada.

De um fundo fiduciário. Você sabe como são esses fundos fiduciários

familiares.

— Estou aprendendo — disse Richard.

— E ainda não decidi como vou usar esse dinheiro. Eu poderia

antecipar o pagamento das anuidades escolares de Zara, e, nesse caso, seria

útil deixá-lo à mão. Ou poderia fazer outra coisa. Investi-lo talvez. Pronto!

Manual do Usuário. — Os dois olharam para o volume grosso e cintilante.

— E esse é o Suplemento de Atualização — acrescentou Fleur, pegando um

outro volume. Ela começou a rir.

— Acho que pensei que encontraria um livreto — disse Richard. — Um

livreto bem fininho. — Ele pegou o manual e o folheou algumas vezes. —

Então, você paga a escola da Zara sozinha?

— Mas claro — disse Fleur. — Quem mais você acha que pagaria?

— Pensei que talvez a família do pai da Zara pudesse ter oferecido...

— Não — disse Fleur. — Nós não nos falamos.

— Ah, minha nossa. Não fazia ideia.

— Mas tenho algum dinheiro meu. Suficiente para Zara e para mim.

Ela olhou para ele com olhos luminosos, e, de repente, Richard teve a

sensação de que estava invadindo um território muito particular. Que direito

ele tinha de interrogá-la sobre questões de dinheiro, sendo que ainda não a

havia pedido em casamento? O que ela poderia pensar dele?

— Perdoe a minha curiosidade — disse ele, apressadamente. — Não é

da minha conta.

— Veja! — Fleur sorriu para ele. — Acho que encontrei o zoom!

 

Antony e Zara voltaram da natação e encontraram Fleur e Richard ainda

sentados no hall de entrada, debruçados sobre as instruções.

— Excelente — disse Antony na mesma hora. — Temos uma dessa na

escola. Posso mexer? — Ele pegou a filmadora, deu alguns passos para trás

e a apontou para os outros. — Agora, sorriam. Sorria, pai! Sorria, Zara!

— Não estou a fim de sorrir — disse ela, e subiu a escada pisando forte

nos degraus.

— Acho que ela está um pouco chateada — disse Antony de modo a se

desculpar com Fleur — por causa do pai dela.

— Entendi — disse Fleur. — Melhor eu subir e ter uma conversinha

com ela.

— Está bem — disse Antony, já espiando pelo visor de novo. — Pai,

você precisa agir com naturalidade.

Zara estava no quarto dela, sentada na cama, os braços envolvendo os

joelhos.

— Então, meu pai morreu, né? — disse ela, quando Fleur entrou no

quarto. — Fleur, você é uma vaca.

— Não fale comigo assim!

— Senão o quê?

Fleur a encarou por um instante. Então, inesperadamente, abriu um

sorriso solidário.

— Sei que as coisas estão difíceis para você no momento, querida. É

perfeitamente normal ficar de mau humor na sua idade.

— Não estou de mau humor! E também não é a porra do meu

aniversário na quarta-feira.

— Certamente, você não vai reclamar disso! Presentes extras, uma

festa... E não é nem como se fosse a primeira vez. — Fleur espiou seu

reflexo no espelho e alisou uma sobrancelha com o polegar. — Você não

reclamou quando fez dez anos duas vezes.

— Porque eu tinha dez anos — disse Zara. — Eu era pequena. E burra.

Eu achava que não tinha importância.

— Não tem.

— Tem! Eu só quero um aniversário normal como todo mundo.

— Sim, bem, todos queremos coisas que não podemos ter, infelizmente.

— E o que você quer? — O tom de voz de Zara era seco e hostil. Os

olhos dela encontraram os de Fleur no espelho. — O que você quer, Fleur?

Uma mansão? Um carrão?

— Querida...

— Porque o que eu quero é que a gente fique aqui. Com Richard,

Gillian e Antony. Eu quero ficar. — Sua voz ficou um pouco embargada. —

Por que não podemos ficar?

— É tudo muito complexo, lindinha.

Fleur pegou um batom e começou a aplicá-lo cuidadosamente.

— Não é, não! Poderíamos ficar aqui se você quisesse! Richard ama

você. Eu sei que ama. Vocês poderiam se casar.

— Você ainda é tão criança. — Fleur largou o batom e sorriu para Zara

de modo carinhoso. — Sei que você sempre quis ser dama de honra.

Quando foi que compramos aquele lindo vestido rosa para você mesmo?

— Foi quando eu tinha nove anos! Jesus! — Zara pôs-se de pé,

frustrada.

— Querida, fale baixo.

— Você não entende? — De repente, duas grandes lágrimas escorreram

pelo rosto de Zara, e ela as afastou com impaciência. — Agora eu só

quero... eu só quero uma casa onde morar. Sabe, como quando as pessoas

perguntam: “Onde você mora?” E eu sempre tenho que dizer: “Às vezes em

Londres, às vezes em outros lugares”.

— Qual é o problema disso? Me parece muito glamoroso!

— Ninguém mora em “outros lugares”. Todo mundo tem um lar!

— Lindinha, sei que é difícil para você.

— É difícil para mim porque você torna as coisas difíceis! — gritou

Zara. — Se você quisesse, poderíamos ficar num lugar só. Poderíamos ter

um lar.

— Um dia, teremos, querida. Prometo. Quando tivermos dinheiro

suficiente, vamos nos estabelecer em algum canto, só nós duas.

— Não vamos, não — disse Zara, amargurada. — Você me disse que a

gente ia se estabelecer em algum canto quando eu tivesse dez anos. E, olha

só, agora tenho treze. Opa, desculpa, catorze. E ainda moramos na casa do

cara com quem você por acaso esteja trepando.

— Já chega! — sibilou Fleur, irritada. — Agora ouça bem o que vou

dizer! Deixando de lado esse linguajar horroroso, que vou ignorar por enquanto, devo ressaltar que você ainda é uma menininha que não sabe o

que é melhor para si? E que eu sou sua mãe? Que a vida também não tem

sido fácil para mim? E que, no que me diz respeito, você tem levado uma

vida maravilhosa, cheia de oportunidades e emoções que a maioria das

meninas da sua idade faria qualquer coisa para ter?

— Que se fodam suas oportunidades! — gritou Zara. Mais lágrimas

começaram a descer pelo rosto dela. — Eu quero ficar aqui. E não quero

que você fique dizendo para as pessoas que meu pai morreu!

— Isso foi lamentável — disse Fleur, franzindo a testa de leve. — Sinto

muito por isso.

— Mas não pelo restante — disse Zara, estremecendo. — Você não

sente pelo restante.

— Querida. — Fleur se aproximou e secou as lágrimas de Zara com

ternura. — Vamos, pequena! O que acha de nós duas almoçarmos amanhã?

E de irmos à manicure? Só nós duas. Vamos nos divertir.

Zara deu de ombros, em silêncio. As lágrimas agora escorriam por seu

rosto e pescoço, pingando e molhando sua camisa de malha.

— Não acredito que você já seja adolescente — disse Fleur, com

carinho. — Às vezes, você parece ter só dez anos. — Ela puxou Zara para si

e beijou sua cabeça. — Não se preocupe, lindinha. Tudo vai dar certo no

fim. Vamos dar um jeito na nossa vida.

Mais lágrimas rolaram pelo rosto de Zara, que estava tendo dificuldades

para falar.

— Você está cansada — disse Fleur. — Provavelmente está exagerando.

Acho que o melhor é eu deixar você descansar. Tome um bom banho quente

de banheira, e nos veremos lá embaixo depois.

Carinhosamente, ela pegou uma das longas madeixas loiras de Zara

entre os dedos, ergueu-a em direção à luz e a soltou. E então, sem olhar para

Zara de novo, pegou o batom, olhou para seu reflexo e saiu do quarto.