A Rainha dos Funerais
Oito
Quando eles saíram do campo de dezoito buracos, Lambert estava vermelho
como um pimentão, suando, a frustração estampada no rosto. Fleur havia
monopolizado as atenções durante todo o percurso do jogo, andando ao lado
de Richard com seu rebolado, como se estivesse em uma festa,
interrompendo a conversa para fazer perguntas e mais perguntas,
comportando-se como se tivesse tanto direito de estar ali quanto o próprio
Lambert. Maldita vaca impertinente.
Um comentário feito pelo coordenador da sua época no colégio interno
surgiu de repente na mente de Lambert. Sou muito a favor da igualdade
para as mulheres... todas são igualmente inferiores aos homens! Uma
risadinha foi compartilhada por todos no seleto grupo de alunos de ensino
médio com quem o velho Smithers conversava e bebia xerez. Lambert havia
rido bem alto, o que comprovava que ele e o velho Smithers tinham o
mesmo senso de humor. Agora, sua carranca foi ligeiramente suavizada;
uma expressão saudosista perpassou seu rosto. Por alguns instantes, ele se
pegou desejando ser de novo um aluno de ensino médio.
O fato que Lambert raramente admita a si mesmo é que os anos mais
felizes e bem-sucedidos de sua vida, até aquele momento, tinham sido os
escolares. Ele havia estudado na Creighton — uma escola pequena nas
Midlands — e logo percebeu que era um dos alunos mais inteligentes,
fortes e poderosos da escola. Um valentão nato, ele logo criou em torno de
si uma comitiva de bajuladores, aterrorizando de leve os meninos mais
novos e zombando em grupo dos rapazes que moravam na cidade. Os
garotos da Creighton eram, na maioria, uns molengões de quinta categoria
que nunca mais na vida alcançariam o status superior emprestado a eles
naquela cidadezinha; por esse motivo, eles tiravam o máximo proveito
disso, andando pelas ruas com seus inconfundíveis sobretudos e gravatas chamativas, fazendo barulho e arrumando brigas com os rapazes da cidade
que não eram do colégio interno. Lambert raramente participava das brigas,
mas havia se tornado conhecido como autor de uma grande quantidade de
comentários afrontosos sobre os “plebeus”, o que acabou dando a ele a
fama de sagaz. Os professores — eles mesmos seres isolados, entediados e
desanimados com a vida — não só não o reprimiam, como também o
incentivavam tacitamente nesse papel; haviam encorajado seu
comportamento pretensioso e superior com piscadelas, gargalhadas e
apartes esnobes. A mãe tímida de Lambert adorava o filho confiante e alto,
de voz estrondosa e opiniões sinceras, que, ao chegar ao ensino médio, já
tinha feito pouco caso de quase todo mundo dentro e fora de Creighton.
A exceção era seu pai. Lambert sempre idolatrara o pai — um homem
alto e arrogante com uma atitude autoritária e que Lambert
inconscientemente ainda imitava. O mau humor do pai fazia com que fosse
violento e imprevisível, e Lambert havia crescido desesperado pela
aprovação dele. Quando o pai zombava da sua cara borrachenta, ou acertava
sua cabeça com uma força deveras excessiva, Lambert se forçava a sorrir ou
gargalhar; quando ele passava noites inteiras gritando com sua mãe,
Lambert ia de fininho para seu quarto no andar de cima, dizendo a si
mesmo, furiosamente, que o pai tinha razão; seu pai tinha sempre razão.
Havia sido o pai de Lambert que insistira para que ele estudasse na
Creighton School, como de fato aconteceu. Que o ensinara a rir dos outros
garotos da cidade; que o levara a Cambridge por um dia e mostrara,
orgulhoso, sua antiga faculdade. Era seu pai, na opinião de Lambert, que
sabia tudo sobre o mundo; que se importava com seu futuro; que o guiaria
na vida.
E, então, quando Lambert completou quinze anos, seu pai anunciou que
tinha uma amante, que a amava e que sairia de casa. Disse que voltaria para
visitar o filho; o que nunca fez. Mais tarde, eles souberam que o
relacionamento com a amante só havia durado seis meses; que ele havia
viajado para fora do país; que ninguém sabia onde estava.
Tomado por um pesar adolescente desesperado, Lambert descontara a
raiva na mãe. Ela era a culpada por seu pai ter ido embora. Era culpada por
agora não terem dinheiro para viajar nas férias; por terem que escrever
cartas ao diretor de Creighton, implorando por um desconto na anuidade.
Conforme a situação deles foi ficando cada vez mais difícil, a arrogância de Lambert se tornou mais pronunciada; seu desprezo pelos plebeus da cidade
ficou mais feroz — e a idolatria pelo pai ausente ganhou força.
Contrariando o conselho de seus professores, ele se inscreveu para o
processo seletivo de Cambridge — a antiga faculdade do pai. Marcaram
uma entrevista para ele, mas, influenciados pelo resultado dela, decidiram
não lhe oferecer uma vaga. A sensação de fracasso foi quase mais do que o
que ele poderia suportar. De um jeito abrupto, ele anunciou que não
perderia seu tempo indo para a faculdade. Os professores protestaram, mas
não muito; Lambert estava prestes a sair da vida deles e, consequentemente,
o interesse por ele diminuía. O foco de atenção deles havia sido transferido
para os garotos de séries inferiores; os garotos que Lambert costumava
agredir por irritá-lo. Eles não ligavam para o que Lambert faria com a vida.
A mãe dele, que ligava, era totalmente ignorada.
E, assim, Lambert tinha ido direto para Londres, trabalhar em
computação. O comportamento prepotente que poderia ter sido curado por
Cambridge persistiu, assim como a sensação de superioridade inata.
Quando pessoas de escolaridade inferior eram promovidas para postos
superiores aos dele, Lambert retaliava usando sua gravata da OC no
trabalho. Quando os caras com quem dividia apartamento faziam programas
no fim de semana sem ele, ele retaliava dirigindo até Creighton e exibindo
seu mais novo carro para quem quisesse ver. Era impensável para Lambert
que as pessoas ao redor dele não o admirassem nem o tratassem com
deferência. Aqueles que não o faziam, ele descartava como sendo muito
ignorantes para que perdesse tempo com eles. Aqueles que o faziam, ele
desprezava em segredo. Era incapaz de fazer amigos; incapaz até de
entender qualquer relacionamento baseado em igualdade. Eram poucas as
pessoas que toleravam sua companhia, ainda que fosse por algumas horas, e
estas se tornaram cada vez mais escassas depois que ele mudou para a
empresa de Richard. E, àquela altura, sua vida tinha sido transformada. Ele
havia se casado com a filha do chefe, passado para um novo patamar, e seu
status, em sua avaliação, estava garantido para sempre.
Richard, ele tinha certeza, apreciava seus atributos superiores — seu
intelecto, sua educação, sua capacidade de tomar decisões — ainda que não
da mesma forma como Emily havia apreciado. Philippa era uma tolinha que
achava que flores ficavam mais bonitas em uma gravata do que as listras da
Old Creightonian. Mas Fleur... Lambert fechou a cara e secou uma gota de
suor da testa. Fleur não obedecia às regras. Ela parecia indiferente à posição dele como genro de Richard e era quase alheia às convenções sociais. Era
muito escorregadia; ele não conseguia classificá-la. Quantos anos tinha,
exatamente? Seu sotaque era de onde? Onde ela se encaixava no esquema
dele?
— Lambert! — A voz de Philippa interrompeu seus pensamentos. Ela
andava em direção ao campo de dezoito buracos, balançando a bolsa para
ele, toda feliz.
— Philippa! — Ele ergueu a cabeça; em seu estado de frustração, quase
ficou contente ao ver o rosto familiar da esposa, levemente corado. Estava
na cara que o chá com Tricia havia se transformado em gin e tônica com
Tricia.
— Achei que encontraria vocês jogando! Mas já terminaram! Que
rápidos!
Lambert não disse nada. Quando Philippa entrava em modo falante,
dizia tudo o que havia para ser dito sobre um assunto, sem deixar chance
para respostas.
— O jogo foi bom?
Lambert olhou para trás. Richard e os dois homens da Briggs & Co.
estavam um pouco atrás, andando devagar, ouvindo algo que Fleur dizia.
— Um jogo de merda. — Ele saiu do campo e, sem esperar pelos
outros, começou a ir em direção ao galpão onde ficavam os carrinhos, as
travas do sapato fazendo barulho pelo caminho.
— O que aconteceu?
— Aquela mulher maldita. Tudo que fez foi ficar fazendo perguntas. De
cinco em cinco minutos. “Richard, pode explicar isso de novo para uma
leiga muito burra?”, “Richard, quando você diz fluxo de caixa, o que quer
dizer, exatamente?”. E eu estou tentando impressionar esses caras. Jesus,
que tarde horrível!
— Talvez ela só esteja interessada — disse Philippa.
— Claro que ela não está interessada. Por que estaria? Ela não passa de
uma vadia burra que gosta monopolizar a atenção de todo mundo.
— Bem, ela está mesmo linda com essa roupa — disse Philippa, de
modo melancólico, virando-se para observar Fleur.
— Essa roupa é um desastre — disse Lambert. — Sensual demais para
um campo de golfe.
Philippa riu.
— Lambert! Você é terrível! — Ela fez uma pausa e acrescentou,
sussurrando sem necessidade. — Falamos dela hoje, na verdade. Tricia e eu.
— Sua voz ficou mais baixa ainda. — Parece que ela é bem rica! Tricia me
contou. Tem motorista e tudo! Tricia disse que achou a Fleur demais. — Ela
lançou um olhar animado para Lambert. — A Tricia acha...
— A Tricia é uma idiota. — Lambert secou o suor da testa de novo e se
perguntou por que diabos estava falando sobre Fleur com sua mulher.
Ele se virou e olhou para Fleur caminhando com seu vestido branco,
olhando para ele com os olhos verdes sarcásticos. A excitação contra a qual
havia lutado a tarde toda começava a mexer com ele mais uma vez.
— Jesus, que fiasco — disse ele, a voz rouca, virando-se de novo,
passando a mão com frustração na bunda de Philippa. — Preciso da porra
de um drinque.
Infelizmente, os homens da Briggs & Co. não tinham tempo para um
drinque. Com pesar, eles procederam aos apertos de mãos de despedida e,
lançando um último olhar de admiração para Fleur, entraram no Saab e
partiram. Os outros permaneceram educadamente no estacionamento,
observando-os manobrar o carro e passar por fileiras de BMWs reluzentes,
um ou outro Rolls-Royce, alguns Range Rovers perfeitos.
Philippa sentiu uma pontada de decepção quando o carro deles
desapareceu através dos portões. Ela estivera ansiosa para conhecê-los,
conversar com eles, talvez jogar um pouco de charme, quem sabe até
organizar um jantar para eles e suas esposas. Desde que se casara com
Lambert dois anos antes, ela havia organizado apenas um jantar, para seus
pais e para Antony. E olha que em casa ela tinha uma sala de jantar
requintada com uma mesa grande o suficiente para acomodar dez pessoas,
uma cozinha cheia de panelas caras e um caderno de receitas para “Jantares
Especiais” cheios de dicas para economizar tempo, laboriosamente copiadas
de revistas.
Ela sempre achara que ser casada com Lambert significaria passar as
noites entretendo os amigos dele: preparando pratos elaborados para eles,
talvez fazendo amizade com suas esposas. Mas agora parecia que Lambert
não tinha amigos. E, para ser sincera, nem ela — só as pessoas de
Greyworth que tinham sido amigas de sua mãe, e as pessoas do trabalho,
que estavam sempre trocando de emprego, e que nunca pareciam ter as noites livres. Seus contemporâneos de faculdade tinham se espalhado pelo
país muito tempo atrás; nenhum deles morava em Londres.
De repente, Fleur riu de algo que Richard dissera, e Philippa levantou a
cabeça. Se ao menos Fleur pudesse ser sua amiga, ela pensou,
melancolicamente. Sua melhor amiga. Elas poderiam sair para almoçar e
fazer piadinhas que só as duas entenderiam, e Fleur a apresentaria a todos
os amigos dela, e então Philippa se ofereceria para dar um jantar para ela
em Londres... Em sua mente, sua sala de jantar se transformou em um
ambiente cheio de pessoas divertidas e adoráveis. Velas acesas, flores por
todos os lados, as peças do aparelho de jantar do casamento sendo retiradas
das embalagens. Ela daria um pulinho na cozinha para verificar as brochetes
de frutos do mar com risadas civilizadas em seus ouvidos. Lambert entraria
logo depois dela com a desculpa de que completaria as taças, mas, na
verdade, seria apenas para dizer que estava muito orgulhoso dela. Ele
pousaria as taças no balcão e a puxaria para si em um abraço lento...
— Aquela é a Gillian? — A voz de Fleur, num tom elevado de surpresa,
tirou Philippa de seus devaneios. — O que ela está fazendo aqui?
Todo mundo ergueu o olhar, e Philippa tentou fazer contato visual com
Fleur, para plantar as sementes de amizade entre elas. Mas Fleur não a
notou. Fleur olhava para Richard como se não existisse mais ninguém no
mundo.
Observando Gillian se aproximar, cruzando o estacionamento, Richard foi
puxando Fleur cada vez mais para perto de si, até os dois quase encostarem
o quadril de um no do outro.
— Estou tão feliz por você ter vindo conosco — murmurou ele no
ouvido dela. — Eu tinha me esquecido de como esses jogos podem ser
intermináveis. Principalmente quando Lambert está participando.
— Eu gostei — disse Fleur, sorrindo para ele com acanhamento. — E
com certeza aprendi muito.
— Quer fazer umas aulas de golfe? — perguntou Richard, de pronto. —
Eu deveria ter sugerido isso antes. Podemos facilmente marcar algumas
para você.
— Talvez — disse Fleur. — Ou talvez você mesmo possa me ensinar.
— Ela ergueu o olhar para o rosto de Richard, ainda corado por causa do
sol, ainda animado com a vitória. Ela nunca o tinha visto assim, tão
relaxado e feliz.
— Oi, Gillian — disse Richard, quando ela entrou no campo auditivo
deles. — Chegou em boa hora. Estamos indo tomar um drinque.
— Entendi — disse Gillian distraidamente. — As pessoas da Briggs &
Co. ainda estão por aqui?
— Não, eles tiveram que ir embora — disse Richard. — Mas vamos
tomar um drinque nós mesmos, para comemorar.
— Comemorar? — perguntou Lambert — O que há para comemorar?
— A taxa preferencial que a Briggs & Co. nos ofereceu — disse
Richard, esboçando um sorriso. — Que a Fleur os convenceu a nos
oferecer.
— Uma taxa preferencial? — perguntou Philippa, ignorando a carranca
incrédula de Lambert. — Que maravilhoso! — Ela sorriu calorosamente
para Fleur.
— Seria maravilhoso se eles não fossem uma dupla de vigaristas —
disse Fleur.
— O quê? — Todos se voltaram para ela.
— Vocês não acharam? — perguntou ela.
— Bem... — disse Richard, em dúvida.
— Claro que não achei! — disse Lambert. — Aqueles caras são meus
chapas.
— Ah — disse Fleur, e deu de ombros. — Bem, não quero ofender
ninguém. Mas, na minha opinião, eles são vigaristas, e, se eu fosse vocês,
não faria negócios com eles.
Philippa olhou para Lambert. A respiração dele estava pesada e o rosto,
ainda mais vermelho que antes.
— Talvez eles trapaceiem um pouco no campo de golfe — disse
Richard, desconfortável. — Mas...
— Não é só no campo de golfe — disse Fleur. — Pode acreditar em
mim.
— Acreditar em você? — exclamou Lambert, não conseguindo mais
manter a boca fechada. — O que diabos você entende de qualquer coisa?
— Lambert! — disse Richard, rispidamente. Ele olhou para Fleur com
carinho. — Façamos o seguinte, querida. Vou pensar no assunto. Ainda não
assinamos nada.
— Ótimo — disse Fleur.
— Fleur — disse Gillian, baixinho. — Tem uma...
— Como assim, vai pensar no assunto? — A voz escandalizada de
Lambert se sobrepôs à dela. — Richard, você não pode estar levando essa
bobagem da Fleur a sério.
— Tudo o que eu disse, Lambert, é que vou pensar no assunto — falou
Richard, secamente.
— Pelo amor de Deus, Richard! O negócio está todo encaminhado!
— Pode ser desencaminhado.
— Não acredito que estou ouvindo isso!
— Fleur — disse Gillian, de forma mais urgente. — Tem uma visita
para você em casa.
— Desde quando a Fleur é consultada a respeito das decisões da
empresa? — O rosto de Lambert estava quase roxo. — Para quem mais
você vai pedir conselho agora? Para o leiteiro?
— Só estou externando uma opinião — disse Fleur, dando de ombros.
— Pode ignorá-la, se quiser.
— Fleur! — Gillian falou mais alto dessa vez. Todos se viraram para
ela. — Sua filha está aqui.
O silêncio tomou conta do ambiente.
— Ah, está? — perguntou Fleur, de modo casual. — Suponho que o
semestre na escola tenha terminado, então. Como ela chegou aqui?
— Sua filha? — perguntou Richard, dando uma risadinha hesitante.
— Eu te contei sobre a minha filha — disse Fleur. — Não contei?
— Contou?
— Talvez não tenha contado. — Fleur soou despreocupada.
— Essa mulher é maluca! — Lambert sussurrou para Philippa.
— Ela chegou assim do nada — disse Gillian, estupefata. — O nome
dela é Sarah? Não consegui entender direito.
— Zara — disse Fleur. — Zara Rose. Onde ela está agora? —
perguntou ela, quase como se caísse em si.
— Ela saiu para caminhar com o Antony — disse Gillian, como se isso
fosse o mais surpreendente para ela.
Antony olhou de novo para Zara e tentou pensar em algo para dizer. Eles
vinham caminhando em silêncio pelos últimos dez minutos. As mãos de
Zara estavam enfiadas nos bolsos e os ombros, encurvados. Ela olhava para
a frente como se não quisesse encarar ninguém. Eram ombros muito magros
aqueles, pensou Antony, olhando para ela de novo. Na verdade, Zara era uma das pessoas mais magras que ele já tinha visto. Os braços eram
compridos e ossudos; dava quase para ver as costelas através da camisa de
malha. Não havia sinal de peitos, apesar de ela ter... quantos anos Zara
tinha?
— Quantos anos você tem? — perguntou ele.
— Treze. — O sotaque dela era americano e a voz rouca, não muito
amigável.
Ela jogou para trás os cabelos loiros muito claros e compridos e
encurvou os ombros de novo. Os cabelos dela eram descoloridos, pensou
Antony, satisfeito consigo mesmo por ter notado.
— E... onde você estuda?
Agora, sim. Amenidades.
— Escola Heathland para Garotas.
— É legal?
— É um colégio interno. — Ela falou como se aquilo já dissesse tudo.
— Você... Quando você se mudou dos Estados Unidos para cá?
— Eu não me mudei.
Ah, ha ha, pensou Antony.
— Canadá, então — disse ele.
— Morei na Inglaterra a vida toda — disse ela.
Parecia entediada. Antony encarou-a, perplexo.
— Mas seu sotaque...
— Tenho sotaque americano... E daí? É por escolha própria.
Pela primeira vez, ela se virou para Antony. Os olhos dela são incríveis,
ele pensou — verdes como os de Fleur, mas profundos e ardentes.
— Você simplesmente decidiu falar com sotaque americano?
— É.
— Por quê?
— Porque sim.
— Quantos anos você tinha?
— Sete.
Eles andaram por um tempo em silêncio. Antony tentou se lembrar de
como era aos sete anos. Poderia ter tomado uma decisão como aquela? E
persistir nela? Achava que não.
— Pelo visto, seu pai é rico, né? — perguntou ela com a voz rouca, e
Antony se sentiu corando.
— Bem rico, acho — disse ele. — Quer dizer, não tão rico. Mas, você
sabe. Bem de vida. Relativamente falando. — Ele sabia que estava soando
estranho e pretensioso, mas não podia fazer nada a respeito. — Por que
você quer saber? — perguntou ele, confrontando-a.
— Por nada.
Ela tirou as mãos dos bolsos e começou a analisá-las. Antony
acompanhou o olhar dela. Eram mãos finas, o tom da pele denunciando uma
exposição prolongada ao sol, com um anel de prata enorme em cada uma.
Por quê?, pensou Antony, repentinamente fascinado. Por que você está
olhando para as suas mãos? Por que está franzindo a testa? O que está
procurando?
De repente, ela pareceu perder o interesse nas mãos e voltou a enfiá-las
nos bolsos. Virou-se para Antony.
— Você se incomoda se eu fumar um beck?
O coração de Antony pulou uma batida. Essa garota só tinha treze anos.
Como podia fumar aquilo?
— Não... não me incomodo. — Ele reparou que sua voz ficava cada vez
mais alta, num registro de leve pânico.
— Aonde você vai para fumar? Ou não faz isso?
— Faço — disse Antony, rápido demais. — Só que mais na escola.
— Tá. — Ela deu de ombros. — Bem, deve ter algum lugar por aí, num
bosque desses.
— Tem um lugar ali. — Ele caminhou na frente, saindo da rua e
entrando na mata. — As pessoas vêm aqui para... — Como essa garota
podia ter só treze anos? Ela era dois anos mais nova que ele. Inacreditável.
— Você sabe... — falou, meio reticente.
— Transar.
— Bem... — Seu rosto ficou quente; a marca de nascença parecia latejar
de vergonha. — Isso. — Eles haviam chegado a uma pequena clareira. —
Chegamos.
— OK. — Ela se agachou, tirou uma caixinha do bolso e começou a
enrolar um cigarro.
Ela o acendeu e tragou. Antony esperou que ela olhasse para cima e
dissesse “Uau, esse é do bom”, como Fifi Tilling sempre fazia. Mas Zara
não disse nada. Ela não demonstrava nenhum sinal de nervosismo pela
consciência de estar fazendo algo errado que permeia os usuários que ele conhecia. Na verdade, ela parecia não estar dando a mínima para a presença
dele. Tragou em silêncio de novo, e passou o cigarro para ele.
Essa tarde, Antony pensou, eu ia ficar em casa assistindo a uns vídeos
idiotas. Mas, em vez disso, aqui estou eu queimando fumo com a garota de
treze anos mais incrível que já conheci.
— Sua família é legal? — perguntou ela, de repente.
— Bem — disse Antony, sentindo-se desconfortável de novo. Ele
pensou nas festas de Natal que seus pais davam. Decorações e vinho
quente; todo mundo bem vestido e se divertindo. — Bem, é — disse ele. —
Acho que somos bem legais. Sabe como é. Temos muitos amigos, e tal.
As palavras dele pairaram na mata silenciosa; Zara não deu qualquer
sinal de que o tinha ouvido. O rosto dela estava coberto pelas sombras das
árvores e era difícil identificar sua expressão. Depois de mais uma pausa,
ela voltou a falar.
— O que vocês acham da Fleur?
— Ela é ótima! — disse Antony com entusiasmo genuíno. — Ela é
muito divertida. Nunca pensei...
— Não me diga. Você nunca pensou que seu pai namoraria de novo —
disse Zara, e tragou de novo. Antony olhou para ela com curiosidade.
— Não — disse ele —, não pensei. Bem, ninguém pensa, né? Nos pais
namorando, digo.
Zara ficou em silêncio.
De repente, eles ouviram um som. Passos vinham na direção deles;
vozes indistintas se elevavam sobre as árvores. Com um movimento rápido,
Zara apagou o cigarro e o enfiou na terra. Antony se apoiou num dos
cotovelos, de um jeito blasé. Um instante depois, Xanthe Forrester e Mex
Taylor chegaram à clareira. Xanthe segurava uma garrafa de vodca, o rosto
corado e a camisa desabotoada — revelando um sutiã quadriculado de rosa-
choque com branco, de algodão. Quando viu Antony e Zara, parou na hora.
— Antony! — disse ela, perplexa. — Eu não sabia que você...
— Oi, Xanthe. Essa é a Zara — disse Antony. Ele olhou para Zara. —
Esses são a Xanthe e o Mex.
— E aí? — disse Mex, piscando para Antony.
— Oi — disse Zara.
— Acho melhor a gente ir andando — disse Antony.
Ele se levantou e estendeu a mão para ajudar Zara, mas ela o ignorou,
levantando-se da posição em que estava, de pernas cruzadas, num movimento perfeito. Xanthe riu e ele sentiu a mão subir de modo defensivo
até a marca de nascença.
— Antony é sempre tão cavalheiro, né? — disse Xanthe, olhando para
Zara com uma expressão animada e cúmplice.
— É mesmo? — perguntou Zara de modo educado, estragando a piada.
Xanthe corou de leve, e decidiu rir de novo.
— Estou tão bêbada! — disse ela. Ofereceu a garrafa a Zara. — Bebe
um pouco.
— Eu não bebo — disse Zara. — Mas obrigada mesmo assim. — Ela
enfiou as mãos nos bolsos e encurvou os ombros outra vez.
— É melhor irmos — disse Antony. — Sua mãe já deve ter voltado.
— Sua mãe? — perguntou Xanthe. — Quem é a sua mãe?
Zara desviou o olhar.
— A Fleur — disse ela. Pareceu repentinamente fatigada. — Minha
mãe é a Fleur.
Enquanto eles andavam de volta para a Maples, o sol desapareceu atrás de
uma nuvem, lançando a rua nas sombras. Zara olhava fixamente para a
frente, contendo a vontade de chorar que crescia dentro dela com uma
carranca que ficava mais acentuada a cada passo. Era sempre assim no
começo; ela ficaria bem dentro de um ou dois dias. Saudades de casa — era
como as pessoas na escola chamavam isso. Mas, na verdade, ela não tinha
muito como estar sentindo saudades de casa porque não tinha uma casa da
qual sentir saudades. Havia a escola, com seu cheiro de piso encerado, as
quadras de hóquei e as garotas idiotas e indolentes, e havia o apartamento
de Johnny e Felix, onde não havia exatamente espaço para ela, e então
havia o lugar onde quer que Fleur estivesse. E tinha sido sempre assim,
desde que se entendia por gente.
Frequentava o colégio interno desde os cinco anos. Antes disso, elas
devem ter tido algum tipo de lar, ela supunha, mas não conseguia se
lembrar, e Fleur alegava que também não se lembrava. Então, seu primeiro
lar de fato tinha sido o internato em Bayswater, um casarão acolhedor cheio
de crianças de pais diplomatas que dormiam abraçadas a ursinhos caros. Ela
tinha adorado aquilo lá, tinha amado todos os professores de paixão,
principalmente a Sra. Burton, a diretora.
E tinha amado o Nat, seu melhor amigo, que conhecera em seu primeiro
dia lá. Os pais de Nat estavam trabalhando em Moscou e ele havia confidenciado a Zara, na hora de ir para a cama, enquanto tomavam
chocolate quente, que eles não o amavam nem um pouquinho.
— Minha mãe também não me ama — dissera ela, de pronto.
— Eu acho que talvez a minha mãe me ame — dissera Nat, os olhos
enormes encarando a borda da caneca de porcelana branca —, mas meu pai
me odeia.
Zara havia pensado por um instante.
— Eu não conheço meu pai — acabara confessando ela—, mas ele é
americano.
Nat a olhara com respeito.
— Ele é caubói?
— Acho que sim — respondera Zara. — Ele usa um chapéu bem
grandão.
No dia seguinte, Nat havia feito um desenho do pai de Zara usando seu
chapéu, e a amizade entre eles fora selada. Os dois tinham se sentado lado a
lado em todas as aulas, brincado juntos na hora do recreio, sido o parceiro
do outro na fila dupla na hora do deslocamento da turma pela escola, e, às
vezes — o que era estritamente proibido —, até se deitavam na cama um do
outro à noite para contar histórias.
E, então, quando tinha sete anos, Zara voltara para o colégio depois das
férias escolares que passou tomando milk-shakes de morango em um quarto
de hotel em Kensington e encontrou a cama de Nat sem lençóis, e o armário
dele vazio. A Sra. Burton havia começado a explicar para ela, com toda a
delicadeza, que os pais de Nat haviam sido transferidos de Moscou para
Washington, de uma hora para outra, e o retirado do colégio interno para
que fosse morar com eles — porém, antes que ela conseguisse terminar, os
gritos de dor e pesar de Zara já ecoavam pela escola toda. Nat a havia
abandonado. No fim das contas, os pais dele o amavam, sim. E ele tinha ido
para os Estados Unidos, onde o pai dela era caubói, e ele não a havia
levado.
Ela chorou todos os dias durante uma semana inteira, recusando-se a
comer, recusando-se a escrever para Nat, recusando-se a falar, num primeiro
momento, e depois só falava com o que ela achava ser um sotaque
americano. Fleur acabara sendo chamada à escola e Zara havia implorado,
histericamente, para que a mãe a levasse para morar nos Estados Unidos.
Mas, em vez disso, Fleur a tirou do colégio interno e a mandou para
uma boa escola preparatória para meninas em Dorset, onde filhas de fazendeiros cavalgavam seus próprios pôneis, tinham cães de estimação e
não criavam elos artificiais umas com as outras. Zara chegara lá, a
excêntrica de Londres, propensa às lágrimas e ainda apegada ao sotaque
americano. Continuava sendo considerada a excêntrica desde então.
***
Ela era incrível, assim como Fleur era incrível — mas totalmente diferente.
Antony andava em silêncio ao lado de Zara, a cabeça zumbindo com
pensamentos, o corpo tomado por uma leve agitação. As implicações da
chegada de Zara só agora tomavam forma em sua mente. Se ela ficasse
hospedada na Maples por um período, então ele teria alguém com quem
passar o tempo. Alguém para impressionar os outros. A cara de Xanthe ao
ver Zara tinha sido a melhor. Até Mex pareceu impressionado.
De repente, ele se viu desejando ardentemente que o pai não fizesse
nenhuma besteira, como terminar com Fleur, por exemplo. Era bom tê-la
por perto. E seria ainda melhor ter Zara por perto. Ela não era exatamente a
pessoa mais simpática do mundo, mas isso não importava. E talvez ela se
soltasse depois de um tempo. Disfarçadamente, ele deu uma espiada no
rosto de Zara. A testa estava franzida, a mandíbula contraída e os olhos
cintilavam. Brava, pensou Antony. Ela provavelmente está irada porque
fomos interrompidos antes de ela ter terminado de fumar. Esses usuários
eram sempre meio esquisitos.
Naquele momento, eles dobraram uma esquina e o sol do fim da tarde
iluminou o rosto de Zara. O coração de Antony deu um pequeno salto.
Porque naquele breve facho de luz, suas bochechas magras pareceram
menos duras e mais melancólicas, e seus olhos deram a impressão de
cintilar não de raiva, mas de lágrimas. E, de repente, ela pareceu mais uma
menininha solitária que uma drogada.
Assim que eles chegaram de volta à Maples, um quarto já tinha sido
arrumado para Zara e todos a aguardavam.
— Querida! — disse Fleur, no momento em que ela e Antony
adentraram a porta da frente; antes que qualquer outra pessoa conseguisse
falar. — Vamos subir direto para o seu quarto, vamos? — Ela sorriu para Richard. — Você não se incomoda se eu ficar um tempinho a sós com a
minha filha?
— Claro que não! O tempo que quiserem! — Richard abriu um sorriso
encorajador para Zara. — Deixe-me apenas dizer o quanto estou feliz por
receber você, Zara. O quanto todos estamos muito felizes.
Zara ficou em silêncio enquanto elas subiam a escada e atravessavam o
corredor até o seu quarto. E, então, assim que fecharam a porta, ela se virou
para Fleur.
— Você não me disse onde estava.
— Não? Eu devo ter esquecido, lindinha. — Fleur foi até a janela e a
empurrou para abrir. — Assim é melhor. — Ela se virou. — Não fique tão
brava, querida. Eu sabia que o Johnny contaria a você do meu paradeiro.
— Johnny não estava em casa. — Ela pronunciou cada palavra com
bastante ênfase. — O semestre acabou há uma semana. Tive que me
hospedar em um hotel.
— É mesmo? — perguntou Fleur, interessada. — Qual?
O pescoço de Zara ficou rígido.
— Não importa qual. Você deveria ter me contado onde estava. Você
disse que faria isso.
— Eu ia contar, de verdade, lindinha. Mas, no fim das contas, você
chegou aqui. Isso é o mais importante.
Zara se sentou numa banqueta forrada de verde diante da penteadeira e
olhou para o reflexo de Fleur no espelho.
— O que aconteceu com o Sakis? — perguntou ela.
Fleur deu de ombros.
— A fila andou. Essas coisas acontecem. — Ela fez um gesto de
desdém com a mão.
— Ele não tinha dinheiro, é? — perguntou Zara. — Pensei que ele fosse
ricaço.
Fleur ficou vermelha de irritação.
— Fale baixo! — disse ela. — Alguém pode ouvir.
Zara deu de ombros. Pegou um chiclete do bolso e começou a mascar.
— Então, quem é esse cara? — perguntou ela, fazendo um gesto amplo
que indicava o ambiente ao redor. — Ele é rico?
— Ele é muito legal — disse Fleur.
— Onde você o conheceu? Em um funeral?
— Numa missa fúnebre.
— Arrã. — Zara abriu uma gaveta da penteadeira, olhou por um tempo
para o papel que a forrava e voltou a fechá-la. — Quanto tempo pretende
ficar aqui?
— Tudo depende.
— Arrã. — Zara mascou um pouco mais. — Não vai me contar mais
detalhes?
— Você é uma criança — disse Fleur. — Não precisa saber de tudo.
— Preciso! — rebateu Zara. — Claro que preciso!
Fleur se retraiu.
— Zara, fale baixo!
— Escute aqui, Fleur — sibilou Zara, irritada. — Eu preciso saber, sim.
Preciso saber o que está acontecendo. Você costumava me contar. Lembra?
Você me dizia para onde íamos, quem eram as pessoas e o que falar. Agora,
você só espera que eu simplesmente... encontre você. Tipo, você poderia
estar hospedada em qualquer lugar, mas eu tenho que te encontrar, e então
tenho que dizer todas as coisas certas, sem cometer um erro sequer...
— Você não tem que dizer nada.
— Não tenho mais dez anos. As pessoas conversam comigo. Elas me
fazem perguntas. Não posso simplesmente ficar dizendo que não sei ou que
não me lembro.
— Você é uma menina inteligente. Consegue se virar.
— Você não tem medo de eu cometer algum erro? — Zara lançou a
Fleur um olhar hostil e desafiador. — Não tem medo de que eu estrague
tudo?
— Não — disse Fleur, de pronto. — Não tenho. Porque você sabe que,
se fizer isso, vai ficar tão encrencada quanto eu. O dinheiro para pagar a
anuidade escolar não cai do céu, sabe? Nem para pagar aquela coisa
horrorosa que você fuma.
Zara ergueu a cabeça, de repente.
— O Johnny me contou — disse Fleur. — Ele ficou chocado.
— O Johnny que vá se foder.
Fleur esboçou um sorrisinho de canto de boca.
— Lá se vai mais uma libra para a caixa de palavrões de Felix — disse
ela.
Involuntariamente, Zara sorriu para as mãos. Mascou um pouco mais e
olhou para o anel de prata enorme em sua mão esquerda, aquele que Johnny
tinha lhe dado naquela semana horrorosa entre a saída do colégio interno e a entrada para a Escola Heathland para Garotas. “Sempre que se sentir para
baixo”, dissera ele, “dê um polimento no seu anel e você verá meu reflexo
sorrindo para você”. E ela havia acreditado nele. E ainda acreditava um
pouco.
— Falando nisso, Johnny quer que você ligue para ele — disse ela. — É
muito urgente.
Fleur suspirou.
— O que foi dessa vez?
Zara deu de ombros.
— Não sei. Ele não me disse. Alguma coisa importante, imagino.
— Um funeral?
— Não sei — respondeu Zara. — Ele não me disse. Já falei isso.
Fleur suspirou de novo e examinou as unhas.
— Urgente. O que pode ser urgente para ele? Aposto que está
escolhendo um papel de parede novo.
— Ou vai dar uma festa e não sabe o que vestir.
— Talvez tenha perdido o papel da lavanderia de novo. Lembra daquele
dia? — Os olhos de Fleur encontraram os de Zara e, pela primeira vez
desde que se encontraram, elas sorriram uma para a outra.
Isso sempre acontece, pensou Zara. Nós nos damos melhor quando
estamos falando do Johnny. No restante do tempo, pode esquecer.
— Bem, até mais tarde — disse Fleur, de repente, levantando-se. — E
já que está tão interessada em detalhes, talvez eu devesse te contar que a
falecida esposa de Richard Favour se chamava Emily e foi minha amiga há
muito tempo. Mas não falamos muito sobre ela.
— Não — disse Zara, cuspindo o chiclete dentro da lixeira. — Aposto
que não.
***
Às oito horas, Gillian levou uma jarra de Pimm’s para a sala de estar.
— Onde está o papai? — perguntou Philippa, entrando na sala e
olhando ao redor. — Quase não o vi hoje e não podemos ficar até muito
tarde.
— Ele ainda está trabalhando — disse Lambert. — No escritório.
Ele pegou o copo que Gillian lhe ofereceu e tomou vários goles grandes,
sentindo que, se não ingerisse um pouco de álcool, iria ferver de tanta frustração. Desde que voltara, ele havia se esgueirado até o escritório em
várias ocasiões, mas, toda vez, a porta estava entreaberta, e a luminária
sobre a mesa, acesa, e era possível ver a nuca de Richard pela fresta. O
desgraçado não tinha saído do lugar. Então, parecia que tinha perdido sua
oportunidade. Ele teria de voltar para Londres sem ter chegado um
milímetro mais perto de resolver o problema do saldo negativo. Sem falar
do negócio com a Briggs & Co., um que deveria ter sido assinado e fechado
até as seis da tarde. Uma sensação de raiva contida queimava no peito de
Lambert. Que desastre aquele dia tinha virado. E era tudo culpa daquela
maldita mulher, a Fleur.
— Lambert, você conheceu a Zara? — E ali estava ela de novo, com um
vestido vermelho justo que fazia com que parecesse uma prostituta,
sorrindo como se fosse a dona do lugar, pastoreando a maldita filha para
dentro da sala.
— Olá, Zara — disse ele, olhando fixamente para a curva dos seios de
Fleur dentro do vestido.
Zara. Que nome ridículo era aquele?
— Oi! — Philippa correu até Zara com entusiasmo, os olhos brilhando.
Enquanto andava de volta para casa, uma outra ideia havia lhe ocorrido.
Poderia se tornar amiga da filha de Fleur. Seria como uma irmã mais velha.
As duas falariam sobre roupas, maquiagem e problemas com namorados, e
a menina se confidenciaria com Philippa, que a aconselharia com tato... —
Meu nome é Philippa — disse ela, sorrindo calorosamente para Zara. — A
irmã mais velha do Antony.
— Oi, Philippa. — O tom de voz de Zara saiu monótono e
desinteressado.
Houve um instante de silêncio.
— Quer um pouco de limonada, querida? — perguntou Gillian.
— Água, obrigada — disse Zara.
— Podemos comer logo — disse Gillian, olhando para Philippa —, se
vocês tiverem que ir embora. Assim que o seu pai descer. Por que não o
chama e todos nos sentamos à mesa?
— Está bem — disse Philippa, demorando um pouco.
Ela olhou para Zara de novo. Nunca tinha visto ninguém tão magro,
pensou. Ela poderia ter sido modelo. Será que só tinha treze anos mesmo?
Parecia mais...
— Philippa! — A voz de Gillian interrompeu seus pensamentos.
— Ah, perdão! — disse Philippa. — Eu estava sonhando acordada de
novo! — Tentou atrair o olhar de Zara com uma risadinha, mas a menina
olhava fixamente para um ponto além dela.
No mesmo instante, Philippa se sentiu desprezada. Quem aquela menina
pensava que era?
Richard apareceu à porta.
— Perdão por ter feito vocês esperarem — disse ele. — Alguns
assuntos exigiram a minha atenção.
Philippa percebeu que Lambert ergueu o olhar bruscamente e o desviou
depois. Ela o cutucou devagar, querendo atrair o olhar dele e revirar os
olhos de modo expressivo em direção a Zara. Mas Lambert a ignorou. Ela
fungou baixinho, ressentida. Todos a estavam ignorando naquela noite, até
o próprio marido.
— Mas, agora, vamos fazer um brinde — continuou Richard. Ele pegou
a taça que Gillian estendia a ele e a ergueu. — Bem-vinda, Zara.
— Bem-vinda, Zara — repetiram os outros, obedientes.
Philippa olhou para dentro da taça. Quando tinha sido a última vez que
alguém fizera um brinde a ela? Quando tinha sido a última vez que alguém
lhe dera as boas-vindas a algum lugar? Todos a ignoravam, até seus
familiares. Ela não tinha amigos. Gillian não se importava mais com ela.
Ninguém mais se importava com ela. Philippa piscou algumas vezes e se
agarrou aos poucos sentimentos reais em sua mente, até uma lágrima
escapar de seu olho e descer lentamente pela bochecha. Agora eles me
fizeram chorar, pensou. Estou chorando e ninguém está nem percebendo.
Mais uma lágrima desceu por seu rosto, e ela fungou mais uma vez.
— Philippa! — A voz alarmada de Richard interrompeu a conversa. —
Você está bem, querida?
Philippa levantou a cabeça, o queixo tremendo.
— Estou bem — disse ela. — Só estava pensando... na mamãe. E-eu
não sei por quê.
— Ah, minha querida. — Richard foi até ela rapidamente.
— Não se preocupe — disse Philippa. — Estou bem, de verdade. — Ela
fungou de novo e sorriu para o pai, deixando que ele envolvesse seus
ombros com o braço e a levasse para fora da sala.
Todos ficaram em silêncio; todos olhavam para o rosto manchado de
lágrimas de Philippa com preocupação. Quando se aproximou de Zara,
Philippa ergueu a cabeça, pronta para ver outro rosto solidário, olhar bravamente para a frente e em seguida, baixar os olhos. Mas, assim que
Zara olhou para ela com olhos impassíveis, Philippa sentiu um arrepio
percorrer seu corpo e sua expressão começou a mudar. Diante daquela
garota, ela se sentia tola e transparente, como se Zara, de algum modo,
soubesse exatamente o que ela estava pensando.
— Sinto muito por você — disse Zara, baixinho.
— Como assim? — perguntou Philippa, se sentindo confusa.
A expressão de Zara não se alterou.
— Por ter perdido a sua mãe.
— Ah. Obrigada.
Philippa expirou ruidosamente e tentou retomar a expressão de bravura.
Mas já não se sentia mais corajosa. As lágrimas tinham secado; ninguém
estava olhando para ela. Lambert havia começado a falar sobre críquete
com Antony. O momento havia passado e fora Zara quem havia estragado
tudo.