A Rainha dos Funerais
Sete
Quando eles estacionaram na garagem da Maples, Philippa ergueu o olhar
de seu romance, os olhos vermelhos.
— Já chegamos à Maples?
— Não, chegamos a Marte.
— Mas eu não terminei ainda! Me dê dois minutos. Preciso ver o que
acontece. Quer dizer, eu sei o que vai acontecer, mas preciso ver... — Ela
parou de falar. Já tinha voltado a encarar a página, devorando vorazmente o
texto, como se fosse uma caixa de bombons.
— Pelo amor de Deus — disse Lambert. — Bem, eu não vou ficar
sentado aqui esperando. — Ele saiu do carro e bateu a porta com força.
Philippa nem piscou.
A porta da frente estava aberta, mas a casa parecia vazia. Lambert parou
no hall de entrada e olhou ao redor com cautela. Nem sinal de Gillian. O
carro de Richard não estava lá; talvez ele e sua ruiva tivessem saído juntos.
Talvez não houvesse ninguém ali. Talvez ele tivesse a casa toda para si.
Lambert ficou entusiasmado. Não havia esperado aquilo. Pensara que
teria de se esgueirar à noite, ou talvez até esperar por alguma outra
oportunidade. Mas isso era perfeito. Poderia colocar seu plano em ação de
uma vez.
Mais que depressa, ele subiu a escadaria ampla. O corredor no andar de
cima estava silencioso e vazio. Ele parou no topo da escada, apurando os
ouvidos a qualquer som. Mas não houve nenhum. Olhando para trás mais
uma vez a fim de ter certeza de que não estava sendo observado, Lambert se
deslocou com cuidado em direção ao escritório de Richard. Era um cômodo
escondido, totalmente separado dos quartos e, normalmente, ficava
trancado. Se alguém o visse ali, seria impossível fingir que tinha se perdido
a caminho de outro lugar.
Não que isso devesse importar, pensou Lambert, mexendo na chave
dentro do bolso. Richard confiava nele. Afinal, havia entregado a ele uma
chave do escritório — para o caso de emergência, dissera Richard. Se
alguém perguntasse, Lambert poderia sempre dizer que estivera atrás de
alguma informação relacionada à empresa. Na verdade, Richard mantinha
poucas informações ligadas à empresa em casa. Mas daria a Lambert o
benefício da dúvida. As pessoas geralmente davam.
A porta do escritório estava fechada. Porém, ao tentar virar a chave, ele
percebeu que estava destrancada. Rapidamente, guardou a chave no bolso.
Assim, se alguém o visse, ele teria como se justificar. (“Vi que a porta
estava aberta, Richard, então achei melhor conferir...”) Ele entrou e seguiu
até o arquivo armário. Extratos bancários, ele murmurou. Extratos
bancários. Abriu uma gaveta e começou a olhar as pastas.
Cinquenta mil libras não era muito dinheiro. Não para alguém como
Richard, definitivamente não. Richard tinha tanto dinheiro que poderia
facilmente dispor essa quantia. Sequer daria falta dela. Lambert pegaria
emprestados cinquenta mil, iria usá-los para resolver seus problemas com o
banco, e depois os devolveria. Cinco mil libras aqui, dez mil libras ali —
ele pegaria de pouco em pouco, e colocaria de volta quando tivesse chance.
Desde que o valor total na base da página batesse com as contabilidades no
fim do ano, ninguém desconfiaria de nada.
Falsificar a assinatura de Richard não era problema. Programar as
transferências não era problema. Decidir em quais contas entrar era mais
complicado. Ele não queria acabar descobrindo ter desfalcado a conta da
casa, ou o fundo para as férias daquele ano. Conhecendo Richard, cada
quantia, grande ou pequena, provavelmente estava destinada a alguma coisa
específica. Ele teria de tomar cuidado.
Lambert fechou a primeira gaveta e abriu a segunda. Começou a olhar
as pastas. De repente, um som fez com que ele parasse, os dedos ainda
ocupados. Havia algo atrás dele. Algo — ou alguém...
Ele se virou e sentiu o rosto gelar, incrédulo. Sentada à mesa de
Richard, com as pernas cruzadas, e muito calma, estava Fleur. Sua mente
foi a mil. Será que ela havia estado ali o tempo todo? Será que ela o vira...
— Olá, Lambert — disse Fleur, simpática. — O que você está fazendo
aqui?
Philippa terminou de ler a última página do livro e se recostou, sentindo-se
ao mesmo tempo satisfeita e ligeiramente aborrecida. Palavras e imagens
brigavam em sua mente; em suas narinas, o odor do estofamento do carro se
misturava ao cheiro persistente das balas de menta que Lambert chupava
enquanto dirigia. Ela abriu a porta e inspirou, atordoada, tentando se
desvencilhar da ficção e entrar na realidade. Mas, em sua mente, ela ainda
estava nos Alpes Suíços com Pierre, o impetuoso instrutor de esqui. A boca
viril de Pierre cobria a dela; as mãos dele estavam nos cabelos dela; uma
música tocava ao fundo... Quando Gillian deu uma batidinha no carro de
repente, Philippa deu um gritinho e um pulo, batendo a cabeça na moldura
da janela.
— Eu estava colhendo morangos — disse Gillian. — Quer uma bebida?
— Ah — disse Philippa. — Sim, uma xícara de café cairia bem.
Ela saiu do carro com as pernas rígidas e trôpegas, aprumou-se e seguiu
Gillian casa adentro. Pierre e os Alpes começaram a sumir de sua mente
como um sonho difícil de lembrar.
— O papai saiu? — perguntou ela, sentando-se sem forças em uma
cadeira da cozinha.
— Ele está em uma reunião com Oliver Sterndale — disse Gillian. —
Antony também saiu. — Ela começou a colocar água dentro da chaleira.
— Acho que chegamos um pouco cedo. E a... — Philippa fez uma
careta.
— A quem?
— Você sabe. Fleur!
— O que tem ela? — perguntou Gillian, bruscamente.
— Bem... onde ela está?
— Não sei — disse Gillian. Fez uma pausa. — Voltamos há pouco do
brunch da Eleanor.
— Brunch da Eleanor?
— É.
— Vocês foram ao brunch da Eleanor Forrester?
— Fomos. — O rosto de Gillian pareceu se fechar sob o olhar surpreso
de Philippa. — Uma palhaçada aquilo tudo, na verdade — acrescentou
asperamente.
— Você comprou alguma coisa?
— No fim, acabei comprando. Isso. — Gillian afastou para o lado a
echarpe azul e revelou uma tartaruguinha dourada presa na lapela. Ela franziu a testa. — Não sei se estou usando direito. Provavelmente vai
acabar puxando um fio do tecido e estragar o vestido.
Philippa olhou para a tartaruga. Gillian nunca comprava broches.
Tampouco costumava ir ao brunch de Eleanor. Eram sempre Philippa e a
mãe quem iam, e Gillian ficava em casa. Gillian sempre ficava em casa. E,
agora, pensou Philippa com ciúme repentino, Gillian e Fleur tinham ido, e
ela não foi.
Fleur adorava ver homens tomando sustos. Ver Lambert olhando para ela
sem saber o que dizer fez quase o inconveniente de ser interrompida valer a
pena. Quase. Porque as coisas estavam indo muito bem até ele chegar. Ela
havia deparado com a porta do escritório destrancada, entrado depressa e
começado a procurar o que queria. E teria encontrado se não tivesse sido
interrompida. Richard obviamente era uma pessoa muito organizada. Tudo
em seu escritório era arquivado, listado e preso com clipes. Primeiro, ela
havia ido à mesa dele, à procura de correspondências recentes — e estava
revirando a gaveta da mesa quando a porta se abriu e Lambert entrou.
Imediatamente, ela se enfiara embaixo da mesa, com uma facilidade
adquirida com a prática. Por alguns minutos, ela havia ficado se
perguntando se deveria ou não se levantar. Deveria ficar imóvel esperando
até que ele fosse embora? Ou Lambert poderia desviar o olhar e avistá-la?
Com certeza seria melhor surpreendê-lo do que ser descoberta escondida
embaixo da mesa.
E, então, ela notou que Lambert também não parecia muito à vontade.
Seu comportamento era quase... duvidoso. O que ele fazia xeretando o
arquivo armário? Será que Richard tinha ciência daquilo? Estava
acontecendo alguma coisa que ela deveria saber? Nesse caso, poderia ser de
seu interesse deixar Lambert saber que ela o vira. Fleur havia pensado por
um momento, e, então, antes que Lambert conseguisse escapar, ela havia
ficado de pé, se sentado casualmente na cadeira de Richard e esperado que
ele se virasse. Agora, ela se divertia observando os olhos esbugalhados
dele; seu rosto corando. Algo estava acontecendo. Mas o quê?
— Este escritório é seu também? — perguntou ela, com um tom quase
inocente o suficiente para enganar. — Não fazia ideia disso.
— Não exatamente — disse Lambert, recuperando ligeiramente a
compostura. — Eu só estava verificando uma coisa para a empresa. Para a
empresa — repetiu ele, beligerantemente. — Há muitas coisas altamente confidenciais aqui dentro. Na verdade, fico me perguntando o que você
estaria fazendo aqui, para começo de conversa.
— Ah, eu! — disse Fleur. — Bem, eu só estava procurando algo que
deixei aqui ontem à noite.
— Algo que deixou aqui? — Ele parecia não acreditar. — O quê? Devo
ajudá-la a procurar?
— Não se preocupe — disse Fleur, levantando-se e andando até ele. —
Já encontrei.
— Já encontrou — disse Lambert, cruzando os braços. — Posso saber o
que era?
Fleur fez uma pausa, e então abriu a mão, revelando uma calcinha de
seda preta.
— Estava embaixo da mesa — disse ela, em tom de confidência. — Tão
fácil esquecer onde foi deixada. Eu não queria que a faxineira ficasse
horrorizada. — Fleur olhou para o rosto corado dele. — Você não está
horrorizado, não é, Lambert? Você perguntou.
Lambert não respondeu. Parecia estar com dificuldade para respirar.
— Pode ser melhor não comentar isso com o Richard — disse Fleur,
aproximando-se de Lambert e olhando bem dentro de seus olhos. — Pode
ser que ele fique um pouco... constrangido. — Ela fez uma breve pausa,
respirando um pouco mais rápido que o normal e inclinando-se levemente
em direção ao rosto de Lambert. Ele parecia petrificado.
E, como num passe de mágica, ela havia desaparecido. Lambert
permaneceu exatamente onde estava, ainda sentindo a respiração dela em
sua pele, ainda ouvindo a voz dela em seu ouvido, repassando a cena na
mente. A calcinha de Fleur — sua calcinha de seda preta — tinha estado
embaixo da mesa. O que devia significar que ela e Richard... Lambert
engoliu em seco. Ela e Richard...
Com um estrondo, Lambert fechou a gaveta do arquivo armário e se
virou. Não conseguia mais se concentrar; não conseguia manter o foco. Não
conseguia pensar em extratos e saldos. Só conseguia pensar em...
— Philippa! — vociferou ele escada abaixo. — Suba aqui! — Um
silêncio se seguiu. — Suba aqui! — repetiu ele.
Por fim, Philippa apareceu.
— Eu estava conversando com a Fleur — reclamou ela, subindo a
escada depressa.
— Não quero saber. Entre aqui.
Ele segurou a mão de Philippa e a levou depressa até o quarto do fim do
corredor, no qual eles sempre ficavam. Tinha sido de Philippa na infância,
uma terra de fantasia de rosas e coelhos, mas, assim que ela saiu de casa,
Emily havia retirado o papel de parede e o substituído por um xadrez em
tom verde escuro.
— O que você quer? — Philippa puxou o braço para se desvencilhar das
garras de Lambert.
— Você. Agora.
— Lambert! — Ela olhou inquieta para ele. Lambert a encarava com
olhos vidrados e desfocados.
— Tire esse vestido.
— Mas a Fleur...
— Eu quero que ela vá se foder, a Fleur. — Ele observou Philippa tirar
o vestido pela cabeça de um jeito apressado, e então fechou os olhos e a
puxou para si, apertando o corpo dela com força entre os dedos. — Que ela
vá se foder, a Fleur — disse ele, a voz tremida. — Foder a Fleur.
Richard voltou da reunião e encontrou Fleur sentada, reclinada na cadeira
de sempre no solário.
— Onde estão a Philippa e o Lambert? — perguntou ele. — O carro
deles está no acesso de veículos. — Richard olhou o relógio. — Nós
começaremos em meia hora.
— Ah, imagino que eles estejam em algum lugar por aí — murmurou
ela. — Vi Lambert mais cedo, rapidamente. — Ela se levantou. — Vamos
dar uma voltinha no jardim.
Enquanto eles andavam, Fleur segurou o braço de Richard e disse, como
quem não quer nada:
— Imagino que você e Lambert se conheçam muito bem. Agora que são
da mesma família.
Ela ficou analisando a expressão no rosto dele enquanto falava, e
percebeu uma leve expressão de desgosto surgir, que rapidamente foi
suplantada por uma expressão de tolerância racional e civilizada.
— Certamente tive a oportunidade de conhecê-lo melhor como pessoa
— disse Richard. — Mas não diria...
— Você não diria que é amigo dele? Deduzi isso. Então, quer dizer que
não conversa muito com Lambert? Não se abre com ele?
— Há uma lacuna geracional — disse Richard, na defensiva. — É
compreensível.
— Totalmente compreensível — disse Fleur, e abriu um sorrisinho.
O que tinha imaginado era realmente a verdade. Os dois não eram
confidentes. O que significava que Lambert não abordaria Richard para
falar sobre sexo no chão do escritório. Ele não verificaria a história dela;
estava a salvo.
Quanto à história de Lambert, ela não fazia ideia qual era. No passado,
talvez se sentisse compelida a investigar. Mas a experiência havia lhe
ensinado que em toda família há alguém com um segredo. Sempre há um
integrante da família com planos escusos; às vezes, vários integrantes.
Tentar usar evidências circunstanciais em benefício próprio nunca
funcionava. As guerras em família eram sempre irracionais, duravam
sempre muito tempo e os soldados sempre trocavam de lado quando
qualquer outro os atingia. O melhor era ignorar todo mundo e correr atrás
de seu próprio objetivo o mais rápido que pudesse.
Eles continuaram caminhando por alguns minutos em silêncio, e então
Fleur disse:
— A reunião foi boa?
Richard deu de ombros, abrindo um sorrisinho tenso.
— A reunião me fez pensar. Sabe, eu ainda sinto que havia partes da
Emily que eu não conhecia.
— A reunião foi sobre a Emily?
— Não... mas tinha a ver com alguns assuntos que nós discutimos antes
de ela morrer. — Richard franziu o cenho. — Eu estava tentando me
lembrar da lógica dela; de sua motivação para fazer as coisas — disse ele,
lentamente. — E percebi que não sei por que ela queria que certas coisas
fossem feitas. Acho que ela não me contou, ou eu me esqueci do que ela
disse. E eu não conheci sua personalidade bem o suficiente para deduzir
isso agora.
— Talvez eu possa ajudar — disse Fleur. — Se você me explicar do que
se trata.
Richard olhou para ela.
— Talvez pudesse, sim. Mas sinto que... isso é algo que eu devo
desvendar sozinho. Você entende?
— Claro — disse Fleur com tranquilidade e apertou o braço dele de
maneira afetuosa.
Richard deu uma risadinha.
— Não é nada importante. Não vai afetar nada do que eu faça. Mas... —
Ele se interrompeu e encarou Fleur. — Bem, você sabe como me sinto em
relação à Emily.
— Ela era cheia de segredos — disse Fleur, tentando não bocejar. Será
que eles já não tinham conversado o suficiente sobre aquela bendita
mulher?
— Segredos, não — disse Richard. — Espero que não tenham sido
segredos. Apenas... qualidades escondidas.
Logo depois de gozar, o afeto fantasioso de Lambert por Philippa
desapareceu. Ele afastou os lábios do pescoço dela e se sentou.
— Preciso ir — disse ele.
— Não podemos ficar deitados aqui só um pouquinho? — perguntou
Philippa, melancolicamente.
— Não, não podemos. Todos vão ficar se perguntando onde estamos.
Ele enfiou a camisa para dentro da calça, ajeitou os cabelos e, de
repente, desapareceu.
Philippa se ergueu, apoiada nos cotovelos, e olhou ao redor do quarto
silencioso. Em sua cabeça, ela havia começado a ver a rapidinha de
Lambert como uma evidência da paixão dele por ela; uma história a ser
confidenciada às amigas animadas que um dia teria. “Sério, ele estava tão
desesperado por mim... nós simplesmente sumimos...” Risos. “Foi tão
romântico... Lambert sempre foi assim, um homem impetuoso...” Mais
risos. Olhares admirados. “Nossa, Phil, que sorte a sua!... Não consigo nem
me lembrar da última vez em que fizemos sexo...”
Mas, agora, cortando as vozes animadas, outra voz surgia em sua
cabeça. A voz de sua mãe. “Sua nojenta.” Um olhar frio de olhos azuis. O
diário de Philippa sendo balançado no ar de modo incriminador. Suas
fantasias adolescentes secretas sendo reveladas e expostas.
Como se os últimos quinze anos não tivessem acontecido, o pânico e a
humilhação da adolescência começaram a tomar conta de Philippa. A voz
de sua mãe atravessando seus pensamentos de novo. “Seu pai ficaria
horrorizado se visse isso. Uma menina da sua idade, pensando em sexo!”
Sexo! A palavra havia ressoado assustadora no ar, cercada por imagens
sórdidas e indescritíveis. O constrangimento de Philippa havia impregnado
seu rosto; seus pulmões. Ela tivera vontade de gritar; não conseguia encarar a mãe. No semestre seguinte, ela havia permitido que vários alunos do
ensino médio do colégio interno para meninos da vizinhança transassem
com ela atrás das moitas ao redor das quadras de hóquei. Em cada uma das
vezes, a experiência tinha sido dolorosa e constrangedora, e ela havia
chorado em silêncio durante o ato. Mas, no fim das contas, pensara ela com
tristeza enquanto um garoto de dezesseis anos após o outro baforava um
hálito de cerveja em seu rosto, isso era tudo o que ela merecia.
Lambert desceu a escada e encontrou Fleur e Richard de braços dados no
hall de entrada da casa.
— Fleur decidiu nos acompanhar pelo campo de golfe — disse Richard.
— Não é uma ótima ideia?
Lambert olhou para ele, horrorizado.
— Como assim? — exclamou ele. — Ela não pode ir com a gente! É
um jogo de negócios.
— Não vou atrapalhar vocês — disse Fleur.
— Vamos discutir assuntos confidenciais de negócios.
— Em um campo de golfe? — perguntou Fleur. — Não devem ser tão
confidenciais assim. De qualquer forma, não vou ficar prestando atenção.
— A Fleur quer muito explorar o campo — disse Richard. — Acho que
não há problema algum.
— Você não se incomoda, não é, Lambert? — perguntou Fleur. —
Estou aqui há quatro semanas e só vi aquela pequena área do campo com
dezoito buracos. — Ela sorriu para ele batendo os cílios. — Ficarei tão
quietinha como uma ratinha.
— Talvez a Philippa possa ir junto também — sugeriu Richard.
— Ela já combinou de tomar chá com a Tricia Tilling — disse Lambert,
de pronto.
Deus os livrasse, pensou ele. Ninguém queria um bando de mulheres
atrás deles de um lado para o outro.
— Um amor, a Tricia Tilling — disse Fleur. — Tivemos uma conversa
muito agradável hoje cedo.
— Fleur está se tornando uma presença constante no clube! — disse
Richard, sorrindo carinhosamente para ela.
— Aposto que sim — disse Lambert.
Um barulho se fez ouvir na escada e todos olharam para cima. Philippa
descia, o rosto bem corado.
— Oi, Fleur — disse ela, ofegante. — Eu queria falar... que tal você ir
comigo à casa da Tricia hoje à tarde? Tenho certeza de que ela não se
incomodaria.
— Já tenho um compromisso — disse Fleur. — Infelizmente.
— Fleur vai nos acompanhar pelo campo de golfe — disse Richard,
sorrindo. — Um presente inesperado.
Philippa olhou para Lambert. Por que ele não a convidava para segui-
los pelo campo de golfe também? Se ele a tivesse chamado, ela teria
cancelado o chá com Tricia Tilling. Começou a imaginar o telefonema que
daria. “Sinto muito, Tricia. Lambert diz que tenho que ir de qualquer jeito...
algo a ver com eu dar sorte para ele!” Um riso descontraído. “Pois é... esses
nossos maridos — eles não são incríveis?”
— Philippa! — Ela se sobressaltou e, em seguida, relaxou, as vozes aos
risos em sua mente desaparecendo. Lambert olhava para ela com
impaciência. — Perguntei se você pode entrar em contato com a loja de
artigos esportivos para saber se eles já consertaram aquele taco.
— Ah, tudo bem — disse Philippa.
Ela observou os três saírem — Richard ria de algo que Fleur dissera;
Lambert ajeitava o suéter de caxemira sobre os ombros. Eles estavam
saindo para se divertir, e ela estava destinada a passar a tarde com Tricia
Tilling. Philippa suspirou, ressentida. Até Gillian se divertia mais do que
ela.
Gillian estava sentada no solário debulhando ervilhas e observando Antony
consertar um taco de críquete. Ele sempre tinha sido bom com as mãos,
pensou ela. Cuidadoso, metódico, confiável. Aos três anos, suas professoras
do jardim de infância ficavam encantadas com suas pinturas — sempre de
uma cor só, cobrindo totalmente a folha de papel. Nunca mais de uma cor;
nunca um único espaço em branco. Beirando a obsessão. Talvez, agora,
pensou Gillian, elas tivessem receio de que ele fosse meticuloso demais
para uma criança de três anos; e o levariam a psicólogos ou terapeutas. Até
naquela época, às vezes, ela detectava uma certa preocupação no olhar dos
professores. Mas ninguém nunca disse nada. Afinal, tinha ficado claro que
Antony era uma criança amada e bem cuidada.
Amada. Gillian olhou para fora, pela janela. Uma criança amada por
todos, menos pela própria mãe. Pela própria mãe egoísta e fútil. Uma
mulher que havia se retraído, com medo, ao ver seu próprio bebê. Que olhara para aquela coisinha enrugada como se não conseguisse ver mais
nada, como se não estivesse segurando um bebê perfeito e saudável pelo
qual ela e todo mundo deveria se sentir eternamente grato.
Claro, Emily nunca havia confessado nada nesse sentido. Mas Gillian
sabia. Ela observou Antony se tornar uma criança risonha e radiante que
corria pela casa com os braços esticados, pronta para abraçar o mundo —
confiante de que o mundo o amava tanto quanto ele amava tudo. E, então,
ela observou o garotinho aos poucos tomar consciência de que o rosto da
mãe sempre mantinha uma expressão de leve desaprovação em relação a
ele; que ela às vezes se retraía diante dele quando ninguém estava olhando;
que só relaxava quando ele estava olhando para outro lado e ela não
conseguia ver o pequeno lagarto por cima de seu olho. No primeiro dia em
que Antony levara a mãozinha ao olho, escondendo a marca de nascença do
mundo, Gillian havia esperado até a noite e confrontado Emily. Toda a sua
frustração e raiva haviam explodido em um discurso choroso, enquanto
Emily permanecia sentada à penteadeira, escovando os cabelos; esperando.
E, então, quando Gillian terminara, Emily olhara ao redor de modo frio e
desdenhoso.
— Você só está com inveja — dissera ela. — É doentio! Você queria
que o Antony fosse seu filho. Bem, ele não é seu; ele é meu.
Gillian havia encarado Emily em choque, repentinamente menos segura
de si. Será que desejava de verdade que Antony fosse seu? Seria doentia?
— Você sabe que eu amo o Antony — continuara Emily. — Todo
mundo sabe que eu o amo. — Pausa. — Richard sempre comenta como sou
maravilhosa com ele. E quem se importa com uma marca de nascença? Nós
nunca nem notamos. — Seus olhos se estreitaram. — Na verdade, estou
surpresa com você, Gillian, falando nisso o tempo todo. Achamos que o
melhor a fazer é ignorar.
De alguma forma, ela havia distorcido e invertido as palavras de Gillian
até Gillian se sentir confusa e questionar suas próprias motivações. Estaria
se tornando uma solteirona frustrada e invejosa? Será que seu amor por
Antony beirava a possessividade? Afinal, Emily é quem era a mãe biológica
dele. Depois disso, ela havia recuado e não dito mais nada. E, no fim das
contas, Antony tinha se tornado uma criança agradável e zero problemática.
— Pronto! — Antony ergueu o taco de críquete.
— Muito bem — disse Gillian.
Ela observou quando ele se levantou e testou o taco. Estava alto agora;
um adulto, praticamente. Mas, às vezes, quando ela via aqueles braços
fortes e o pescoço liso, voltava a enxergar nele aquele bebê feliz e gorducho
que havia gargalhado para ela de dentro do berço; cujas mãos ela havia
segurado enquanto ele dava os primeiros passos; a quem ela amara desde o
instante do nascimento.
— Cuidado — disse ela, rispidamente, quando ele balançou o taco em
direção a um vaso de planta grande e pintado.
— Estou tomando cuidado — disse ele, irritado. — Você sempre
exagera.
Ele deu tacadas imaginárias. Em silêncio, Gillian debulhou mais
algumas ervilhas.
— O que você vai fazer hoje à tarde? — perguntou ela, por fim.
— Sei lá — disse Antony. — Assistir a um filme, talvez. Ou dois, quem
sabe. É tudo um tédio sem o Will.
— E os outros? A Xanthe. E aquele garoto novo, o Mex. Você poderia
combinar algo com eles?
— É, pode ser. — Ele fechou a cara e se virou, balançando o taco com
força no ar.
— Cuidado! — exclamou Gillian.
Mas era tarde demais. Quando Antony girou o taco para trás, ouviu-se o
estrondo do vaso de argila caindo da prateleira e se espatifando no piso.
— Olha o que você fez! — A voz de Gillian saiu alta e ríspida. — Eu
mandei você tomar cuidado!
— Foi mal, valeu?
— Sujou o chão todo! — Gillian se levantou e olhou desanimada para
os pedaços de vaso, para a terra espalhada, para as folhas caídas.
— Qual é. Não é o fim do mundo. — Ele se abaixou e pegou um pedaço
do vaso. Um torrão de terra caiu em cima de seu sapato.
— Melhor eu buscar uma vassoura. — Gillian suspirou e largou as
ervilhas.
— Eu varro — disse Antony. — Na boa.
— Você não vai fazer direito.
— Vou, sim! Não tem uma vassoura por aqui em algum lugar?
Antony percorreu o solário com o olhar, mas parou ao avistar a porta.
— Jesus! — exclamou ele.
O pedaço do vaso caiu de sua mão, espatifando-se no chão.
— Antony! Eu já te disse...
— Ali! — interrompeu ele. — Quem é aquela?
Gillian se virou e acompanhou o olhar dele. De pé do outro lado da
porta estava uma garota com cabelos compridos e quase brancos de tão
loiros, olhos castanhos bem escuros e uma expressão suspeita.
— Oi — disse ela através do vidro. Sua voz era estridente e tinha um
sotaque americano. — Acho que vocês não estavam me esperando. Vim
para ficar. Meu nome é Zara. Sou filha da Fleur.