A Rainha dos Funerais
Doze
Philippa estava ficando preocupada com Lambert. Nas últimas semanas, ele
parecia estar o tempo todo mal-humorado; o tempo todo irritado com ela. E,
agora, o mau humor estava se transformando em uma raiva rabugenta. Nada
que ela dizia estava certo; nada que ela fazia o agradava.
Tudo havia começado com o fiasco da Briggs & Co. O dia do jogo de
golfe já tinha sido ruim. Depois, o amigo dele tinha sido exposto na
imprensa como vigarista, e Lambert explodira com uma raiva selvagem que
parecia direcionada principalmente a Fleur. Philippa desconfiava de que seu
pai devia ter conversado com Lambert no trabalho sobre o assunto, o que
não teria ajudado muito. Ele agora acordava toda manhã com uma
expressão infeliz e desanimada, chegava em casa do trabalho a cada fim de
tarde com a testa franzida, e rosnava para Philippa quando ela tentava
animá-lo.
No começo, ela não havia se incomodado. Quase ficou feliz com o
desafio de Ajudar o Marido a Atravessar um Momento Ruim. “Na alegria e
na tristeza, na riqueza e na pobreza”, murmurava para si mesma várias
vezes ao dia. “Para amar e respeitar”. Exceto que Lambert não parecia
querer seu amor e seu respeito. Parecia não querer nem sua presença.
Ela havia lido artigos de revistas sobre relacionamentos, folheado livros
na biblioteca, e então tentado implementar algumas das sugestões. Havia
experimentado preparar receitas novas para o jantar, tentado sugerir que os
dois começassem algum hobby juntos, tentado perguntar a ele se queria
discutir a relação, tentado instigá-lo ao sexo. E, em todas essas tentativas,
ela havia recebido a mesma carranca de insatisfação.
Não havia ninguém com quem ela pudesse conversar sobre aquilo. As
garotas no trabalho falavam livremente sobre seus maridos e namorados,
mas Philippa sempre tinha evitado participar das conversas. Primeiro porque possuía um pudor natural que a impedia de contar no trabalho o que
acontecia entre quatro paredes. Segundo — e, para ser sincera, esse era o
real motivo —, Lambert parecia tão diferente dos maridos das outras
mulheres que Philippa sentia vergonha de contar a verdade para elas. Todas
pareciam ser casadas com caras bem-humorados que gostavam de futebol,
de pub e de sexo; que iam às festas da empresa e, apesar de não se
conhecerem, logo encontravam um assunto em comum. Lambert não era
assim. Não assistia a jogos de futebol nem ia a pubs. Às vezes, gostava de
sexo; às vezes, parecia quase ter nojo de sexo. E, nas festas da empresa, ele
sempre se isolava de todo mundo, fumando um cigarro, com cara de tédio.
Depois, no carro, zombava do sotaque de todo mundo com quem ela
trabalhava, e Philippa se via abandonando, desolada, os planos de convidar
alguns casais divertidos para um jantar em sua casa.
Eles não tinham voltado à Maples desde o dia do fiasco do golfe.
Sempre que ela sugeria que eles fossem, Lambert fechava a cara e dizia que
não tinha tempo. E embora ela pudesse ter ido sozinha, não queria fazer
isso. Não queria que ninguém percebesse que alguma coisa errada estava
acontecendo. Assim, ela se sentava ao lado de Lambert, todas as noites,
para assistir à televisão e ler livros. Nos fins de semana, quando todos os
outros casais pareciam ter planos, ela e Lambert não tinham nenhum. Eles
acordavam, Lambert ia para o escritório e lia o jornal, eles almoçavam, e, às
vezes, Philippa saía para dar um pulinho em algumas lojas. E, a cada dia,
ela se sentia mais solitária.
E, então, sem nenhum aviso, Fleur telefonou para ela.
— Philippa, é a Fleur. Estarei em Londres na sexta-feira para ir a uma
missa fúnebre. O que acha de almoçarmos?
— Almoço? Nossa! — Philippa se sentiu corando, e o coração bateu
forte, como se estivesse sendo convidada para um encontro romântico. —
Eu adoraria!
— Sei que você vai estar trabalhando — disse Fleur —, caso contrário,
sugeriria que nos encontrássemos mais cedo para fazermos umas
comprinhas.
— Eu vou tirar o dia de folga — Philippa se viu dizendo. — Tenho
vários dias de férias para tirar.
— Que sorte a sua! Bem, por que você não me encontra no trem?
Depois aviso em qual estarei. E podemos seguir juntas.
Quando Philippa desligou, ela se encheu de uma alegria exultante. Fleur
queria ser sua amiga. No mesmo instante, ela imaginou as duas rindo juntas
enquanto pediam um prato em um restaurante caro; desafiando uma à outra
para que experimentassem roupas bizarras. Marcando outro encontro.
Philippa abraçou a si mesma de tão empolgada. Fleur era sua amiga!
— Vou almoçar com Fleur na sexta — contou ela a Lambert, tentando
parecer blasé. — Ela está em Londres.
— Problema dela.
— Ela vai a uma missa fúnebre — disse Philippa, incapaz de controlar o
fluxo de palavras felizes que jorravam dela. — De quem será? Alguém da
família dela, imagino. Ou talvez uma amiga. Ela provavelmente vai estar
bem elegante. O que devo vestir? Será que é melhor comprar alguma roupa
nova?
Enquanto Philippa falava sem parar, Lambert começou a pensar em outra
coisa. À sua frente, havia outra carta bem concisa do banco, exigindo
garantias sólidas de que ele conseguiria pagar seu alto e não aprovado saldo
devedor. Ele tinha que conseguir algum dinheiro em breve. O que
significava ir à Maples de novo e entrar no escritório de Richard. Mas era
arriscado demais. Principalmente porque não estava num bom momento
com Richard. Lambert fez uma careta. O velho idiota o havia chamado em
sua sala na empresa para repreendê-lo por ter insultado Fleur. Repreendê-lo!
Não importava o fato de Fleur ter estragado completamente o jogo deles; de
ela não fazer ideia de como se comportar num campo de golfe. Mas,
claramente, não adiantaria argumentar com Richard naquele momento. Ele
estava sob o encanto de Fleur, e não havia nada a fazer além de esperar que
aquilo passasse; e, de preferência, evitar a Maples até que Richard
esquecesse aquela história.
— Se tem algo de que realmente preciso é um short — dizia Philippa no
cômodo do lado, como se achasse que ele ainda estava prestando atenção.
— Para os fins de semana. Sob medida, mas não elegante demais...
O problema era que ele não podia esperar até que Richard esquecesse
aquela história. Precisava do dinheiro depressa. Lambert tomou um gole de
cerveja da pesada caneca de prata sobre sua mesa e olhou para a carta de
novo. Cinquenta mil calariam a boca do banco. Ele tinha certeza disso. E o
dinheiro estava à sua espera na Maples. Se pudesse ter certeza de que não
estragaria as coisas; de que não seria descoberto... Uma lembrança repentina e indesejada lhe ocorreu: a da voz de Fleur atrás dele, dando um
susto nele enquanto mexia nos arquivos de Richard, o que fez com que
sentisse de novo o suor frio na nuca. Claro que ela não havia desconfiado de
nada; por que desconfiaria? Mas, se tivesse sido Richard ali...
De repente, a voz de Philippa atravessou seus pensamentos.
— Parece que o papai estará numa reunião nesse dia — dizia ela —, e a
Gillian tem aula de bridge. — Lambert girou a cabeça. — Caso contrário,
Fleur teria sugerido que eles viessem com ela. Mas acho bem legal, você
não acha? Só nós duas. Tipo uma oportunidade para criarmos laços?
Lambert se levantou e entrou no quarto do lado.
— O que você disse? Seu pai tem uma reunião na sexta?
— Tem. Parece que ele precisa ir a Newcastle.
— Estou sabendo disso agora.
— Ah, querido. Ele não chamou você para ir junto? — Philippa mordeu
o lábio. — Você poderia almoçar comigo e com a Fleur — disse ela, sem
convicção. — Se quiser.
— Não seja boba. Eu, almoçando com duas bobas alegres como vocês?
Philippa riu baixinho, satisfeita em pensar que ela e Fleur eram duas
bobas alegres. Sentindo-se repentinamente generoso, Lambert sorriu para
ela.
— Vocês duas podem almoçar juntas — disse ele. — Tenho coisas mais
importantes para fazer nesse dia.
A quarta-feira começou com sol, céu azul e calor. Quando Zara desceu do
quarto, a mesa do café da manhã já tinha sido montada no jardim. Havia um
grande arranjo de flores ao lado da cadeira dela, um balão prateado de hélio
brilhando no encosto, e seu prato estava coberto de cartões e embrulhos.
— Feliz aniversário! — gritou Antony assim que ele a viu sair do
solário. — Gillian, a Zara está aqui! Traga o buck’s fizz! Foi ideia minha —
disse ele a Zara. — Buck’s fizz no café da manhã. E panquecas.
Zara não disse nada. Olhava fixamente para a mesa decorada como se
nunca tivesse visto nada parecido antes.
— Isso tudo é para mim? — disse ela, por fim, a voz rouca.
— Bem, claro que sim! É seu aniversário! Sente-se — acrescentou ele,
com voz de anfitrião. — Coma alguns morangos.
Fleur apareceu no gramado segurando uma cafeteira, e abriu um sorriso
bonito para Zara.
— Feliz aniversário, querida. Quer um pouco de café?
— Não — disse Zara.
— Como quiser. — Fleur deu de ombros.
— Mas você precisa comer um morango — insistiu Antony. — Eles
estão deliciosos
Zara se sentou e olhou para todos os cartões empilhados em cima do seu
prato. Ela parecia um pouco atordoada.
— Legal o balão, né? — disse Antony, feliz. — É da Xanthe e do Mex.
— O quê? — Ela ergueu o olhar para ver se ele estava brincando.
— Eles descobriram que era seu aniversário. Acho que mandaram um
cartão também. E eu disse que talvez a gente se encontre para beber alguma
coisa mais tarde. Mas depende do que você quiser fazer.
— Eles mandaram um balão para mim — disse Zara, estupefata. Ela
puxou a linha e o observou subir de novo. — Mas eu nem conheço eles
direito. — Ela olhou para Antony. — E eu pensei que você odiasse os dois.
— A Xanthe não é tão ruim assim. — Antony sorriu timidamente para
ela. — Agora, vamos, abra alguns dos seus presentes.
— Espere! — gritou Richard do solário. — Quero filmar isso!
— Ah, pelo amor de Deus — disse Antony. — Vamos ficar aqui o dia
todo.
Gillian chegou no jardim trazendo uma bandeja cheia de taças com suco
de laranja e champanhe.
— Feliz aniversário, Zara! — exclamou ela. — Que dia lindo!
— Obrigada — murmurou Zara.
— Certo? — disse Richard. — Estou filmando. Você pode começar a
abrir seus presentes.
— Abre o meu primeiro — disse Antony, animado. — O embrulho de
listras vermelhas.
Zara pegou o pacote e olhou para ele por alguns instantes sem dizer
nada.
— Que lindo — disse Fleur, alegremente.
Zara lançou um olhar para Fleur, mas logo o desviou. Em seguida,
mordendo o lábio, ela começou a abrir o embrulho. Em seu colo, caiu uma
pequena gravura emoldurada.
— É um mapa dos Estados Unidos — disse Antony. — Para quando
você... para quando você for lá.
Zara olhou para ele. Seu queixo tremia.
— Obrigada, Antony — disse ela, e caiu no choro.
— Zara!
— O que foi, lindinha?
— Você não gostou? — perguntou Antony, ansioso.
— Eu amei — sussurrou Zara. — Foi mal. É só que...
— É só que você precisa de botar um bom gole de buck’s fizz e umas
panquecas para dentro — disse Gillian depressa. — Sabe, não é fácil fazer
catorze anos. Eu me lembro bem. Vamos, Zara. — Ela deu umas batidinhas
no ombro nu e magro de Zara. — Venha me ajudar a trazer o café da
manhã, e você abre o resto dos presentes daqui a pouco.
— Você não está gostando do seu aniversário? — perguntou Antony, mais
tarde.
Eles estavam sentados nos fundos do jardim, abrigados do sol, ouvindo
a música que tocava no novo aparelho de som portátil de Zara.
— Claro que estou.
— Você não parece muito feliz.
— Estou bem, tá? — rebateu ela.
Antony esperou alguns minutos. E então, perguntou, como quem não
quer nada:
— Zara, qual é o seu signo?
— Sagi... — ela começou, e então parou. — Não acredito nessas
baboseiras.
— Acredita, sim. Você estava lendo o horóscopo outro dia.
— Não quer dizer que eu acredite em horóscopo. Jesus, se todas as
vezes que alguém lê o horóscopo...
— Mas ainda sabe qual é o seu signo, né? — interrompeu ele. — Não é
sagitário. Não pode ser. Então, qual é?
— Por que você quer saber? — Ela se sentou, derrubando a limonada
diet na roupa. — Merda — disse. — Vou pegar um pano.
— Não vai, não! Não muda de assunto! Zara, qual é o seu signo?
— Olha, seu babaca, minha jaqueta está toda molhada.
— E daí? Você fez isso de propósito. Meu Deus, você deve achar
mesmo que eu sou muito burro. — Ela começou a se deslocar, mas ele a
segurou com força pelo braço, puxando-a para o chão. — Zara, qual é o seu
signo? Diga!
— Pelo amor de Deus! — Ela lançou a ele um olhar sarcástico e jogou
os cabelos para trás. — Certo — falou ela. — É escorpião.
— Errado. — Ele se recostou. — É leão.
— E daí? — perguntou Zara. — Escorpião, leão. Quem se importa?
— Zara, o que está acontecendo?
— Sei lá. É você quem está se comportando como um imbecil.
— Seu aniversário não é hoje de verdade, é?
— Claro que é. — Ela desviou o olhar e pegou um chiclete do bolso.
— Não é! Seu aniversário é entre 22 de novembro e 21 de dezembro. Eu
pesquisei sobre sagitário. — Ele se remexeu na grama até conseguir ver o
rosto dela, e olhou para Zara com olhos suplicantes. — Zara, o que está
acontecendo? Seja lá o que for, eu não vou contar para ninguém, prometo.
Zara, sou seu amigo, não sou?
Ela deu de ombros em silêncio e enfiou o chiclete na boca.
Antony olhou para ela por um tempo, antes de recomeçar a falar.
— Também não acho que seu pai esteja morto. — Ele falou devagar,
sem tirar os olhos dela. — Acho que ainda está vivo. E acho que sua mãe
também estava mentindo sobre isso.
Zara mascava o chiclete depressa, quase desesperadamente, desviando o
olhar dele e olhando para as árvores.
— Pode se abrir comigo — implorou Antony. — Não vou contar para
ninguém. E para quem eu contaria, afinal? Não conheço ninguém para
quem contar.
Zara deu uma risadinha curta.
— Você conhece um monte de gente para quem contar — disse ela. —
Seu pai... a Gillian...
— Mas eu não faria isso! — exclamou ele. Passou a falar mais baixo.
— Independentemente do que seja, não vou contar para eles. Mas quero
saber a verdade. Quero saber quando é o seu aniversário de verdade. E por
que você está fingindo que é hoje. E... e tudo mais.
Eles ficaram em silêncio por um tempo. E, então, Zara se virou para ele.
— Tá, mas escute aqui — disse ela, baixinho. — Se você contar para
mais alguém o que vou contar agora, vou dizer que você tentou me estuprar.
— O quê? — Antony a encarou, horrorizado.
— Vou dizer que você me chamou para vir aos fundos do jardim e que
me prendeu no chão, me segurando pelos pulsos. — Ela parou e olhou para
a mão de Antony, a mão que, poucos minutos antes, a havia segurado e puxado para baixo na grama. As bochechas dele ficaram muito vermelhas.
— E, depois, vou dizer que você tentou me estuprar.
— Sua...
— Eles provavelmente não vão prestar queixa. Mas vão te interrogar.
Não vai ser legal. E algumas pessoas vão achar que você fez isso. Algumas
pessoas sempre acham.
— Eu simplesmente não acredito... — Ele a encarava, levemente
ofegante.
— Olha, eu estou falando sério — disse Zara. — Você não pode contar.
Se disser alguma coisa para o seu pai ou para a Gillian, ou para quem quer
que seja, eu vou à polícia. E você vai se ferrar. — Ela cuspiu o chiclete. —
Você quer saber ou não?
Richard sentia que sua vida finalmente se encaixava. Ficou sentado na
poltrona observando Fleur folhear um catálogo com estampas de papel de
parede, e se perguntou como pôde ter achado que o que tinha com Emily era
amor verdadeiro. Ele mal conseguia pensar em todos os anos
desperdiçados; anos que passou vivendo em diferentes tons de cinza. Agora,
vivia em cores vivas; em tons vibrantes que saltavam aos olhos e
alegravam, surpreendendo a vista.
— Você vai ter que decidir se quer paredes pintadas ou se quer papel de
parede no escritório — disse Fleur. Ela olhou para ele por cima dos óculos
de sol. — E me dar um orçamento.
— Darei o que você quiser — disse Richard.
Ele olhou nos olhos dela, que sorriu de modo delicioso e dissimulado. A
reação de Richard foi sentir uma leve comichão na pele sob a camisa, como
se já estivesse na expectativa de outra noite de prazer.
Fleur não ocupava mais o próprio quarto. Agora, dormia com ele todas
as noites, com o corpo moldado ao dele, os cabelos espalhados pelo
travesseiro dele. Toda manhã, o sorriso dela esperava por ele; toda manhã,
ele sentia o coração dar um salto ao vê-la de novo. E eles conversavam mais
agora do que nunca, e Richard se sentia mais feliz do que nunca, e os olhos
de Fleur brilhavam ainda mais do que antes. No momento, ela parecia
cintilar de felicidade e empolgação, pensou Richard, e agora parecia andar
aos saltitos, como se pisasse numa mola, em vez de caminhar normalmente.
Uma mola — e ele abriu um sorriso contido e envergonhado — que ele
havia colocado ali.
E, quando ele a pedisse em casamento, tudo estaria completo. Quando
Oliver voltasse das férias, quando ele já tivesse resolvido a questão do
fundo fiduciário, quando finalmente tivesse fechado o capítulo sobre Emily.
Ele escolheria um momento adequado, um lugar adequado, uma aliança
adequada... Um casamento calmo e adequado. E depois, uma lua de mel
exuberante, barulhenta e feliz. A lua de mel pela qual ele vinha esperando a
vida toda.
Quando Zara terminou de lhe contar tudo, Antony desabou na grama e
encarou o céu azul.
— Não acredito nisso — disse ele. — Ela passa por tudo isso só para
conseguir um cartão Gold?
— Dá para fazer um estrago com um cartão Gold — disse Zara.
— Mas, quero dizer... — Ele parou de falar e franziu a testa. — Não
entendo. Como o fato de seu pai estar morto entra nisso?
— Ela disse para o seu pai que era viúva. Imagino que Fleur deva ter
achado que isso faria com que ela parecesse mais interessante.
Por alguns instantes, Antony ficou em silêncio. Em seguida, falou bem
devagar:
— Então, esse tempo todo, ela só esteve atrás do dinheiro dele. —
Antony se sentou. — Que doido! Tipo, nós não somos tão ricos assim.
— Talvez ela tenha se enganado. Ou talvez vocês sejam mais ricos do
que você pensa.
— Meu Deus, coitado do meu pai. E ele não faz a menor ideia! Zara, eu
preciso contar para ele.
— E, então, ele me jogou na grama, e prendeu meus braços,
Meritíssimo. — Zara começou a recitar num tom de voz monótono. — Eu
tentei me desvencilhar, mas ele foi mais forte que eu.
— Está bem! — disse Antony, irritado. — Não vou contar nada. Mas,
tipo... que merda! Meu pai não pode se dar ao luxo de perder um monte de
dinheiro!
— Pense nisso como um pagamento — disse Zara. — Fleur sempre
pensa assim.
— O quê? Então ela já fez isso antes? — Antony encarou Zara. — Ela
já saiu com homens só pelo dinheiro?
Zara deu de ombros e desviou o olhar. Tinha sido fácil oferecer a
Antony uma versão limitada e editada da verdade; uma verdade que, mesmo se ele desse com a língua nos dentes, não estragaria tudo para Fleur. Ela
havia pintado Fleur como uma esbanjadora fútil, desesperada por um cartão
Gold, que gastaria o dinheiro de Richard em sapatos de salto alto e cortes de
cabelo. E ele ficou chocado com isso. O que aconteceria se ela lhe contasse
a mais pura verdade? Se contasse a ele que a mãe era uma trapaceira cínica
e sem coração? Que entrava na vida das pessoas por causa da
vulnerabilidade e do desespero delas; e que saía ilesa por causa do
constrangimento e do orgulho ferido delas?
A verdade estava ali, dentro dela; Zara sentia como se houvesse apenas
uma cortina fina escondendo-a do restante do mundo. Se Antony esticasse o
braço e puxasse, o material fino cairia, e ele veria as armações, as mentiras
deslavadas e as histórias terríveis, todas enroladas no cérebro dela como
serpentes. Mas ele não esticaria o braço. Ele acreditava já ter tirado a
verdade dela. Nunca ocorreria a ele que havia mais.
— Então, basicamente, ela é só uma prostituta! — dizia ele.
— Fleur pega o que acha que ela vale — rebateu Zara. — Seu pai não
se divertiu nos últimos meses?
Antony encarou Zara.
— Mas ele acha de verdade que Fleur o ama. Eu também. Pensei que
ela amasse o meu pai!
— Bem, talvez ela ame.
— As pessoas que se amam não estão interessadas em dinheiro!
— Claro que estão — disse Zara, desdenhosamente. — Você não
gostaria de ter uma namorada que pudesse te dar um Porsche de presente?
E, se disser que não, está mentindo.
— Tá, mas o amor verdadeiro é diferente! — protestou Antony. — Tem
a ver com a pessoa por dentro.
— Tem a ver com tudo — respondeu Zara. — Tem a ver com dinheiro
primeiro, aparência depois, e personalidade, se você estiver desesperado.
— Meu Deus, você é doente! O dinheiro não entra nisso! Quer dizer...
Vamos supor que você se case com um cara muito rico, mas aí a bolsa de
valores quebra e ele acaba perdendo todo o dinheiro.
— Vamos supor que você se case com alguém bem legal, que essa
pessoa sofra um acidente de carro e acabe perdendo a personalidade. Qual é
a diferença?
— Não é a mesma coisa! Você sabe que não é. — Ele olhou para ela. —
Por que está defendendo sua mãe?
— Não sei! — gritou Zara, descontrolada. — Porque ela é minha mãe,
talvez! Nunca conversei sobre ela com ninguém antes. Nunca pensei... —
Ela parou de falar. — Ah, pelo amor de Deus! Como eu queria nunca ter te
contado nada!
— Eu também! Que confusão dos diabos.
Eles se entreolharam, furiosos.
— Escute aqui — disse Zara, por fim. — Seu pai não é burro. Ele não
vai permitir que ela o deixe com uma mão na frente e outra atrás, vai? —
Ela se forçou a olhar firme nos olhos dele, sem vacilar.
— Não — disse Antony, soltando o ar devagar. — Acho que não.
— E você gosta de ter a Fleur aqui por perto, não gosta?
— Claro que gosto! Adoro ter a Fleur aqui. E gosto... gosto de ter você
por perto.
— Que bom — disse Zara. E sorriu para ele. — Porque eu gosto de
estar aqui.
Mais tarde, eles voltaram para casa e encontraram Fleur e Richard
discutindo com bom humor sobre papel de parede.
— Antony! — exclamou Fleur. — Bote um pouco de juízo na cabeça do
seu pai. Primeiro, ele me dá carte blanche para redecorar o escritório,
depois diz que não aceita nada além de listras e flor-de-lis.
— Não sei o que é flor-de-lis — disse Antony.
Ele encarou Fleur. A imagem que ele fazia dela havia mudado, agora
que sabia a verdade; ao andarem em direção a ela, Antony tinha achado
honestamente que ela assumiria uma aparência diferente. Mais...
monstruosa. Ele se vira temendo o instante em que seus olhos encontrariam
os dela. Mas ali estava Fleur, a mesma pessoa calorosa, bonita e simpática
de sempre. E agora sorria para ele, e ele sorria de volta, e, de repente, ele
começou a se perguntar se tudo o que Zara dissera sobre ela podia mesmo
ser verdade.
— Façamos o seguinte — disse Richard a Fleur. — Por que não arranja
mais catálogos de papel de parede quando estiver em Londres? Tenho
certeza de que poderemos chegar a um consenso. Mas, lembre-se: sou eu
quem tem que permanecer no ambiente e tentar trabalhar. — Ele sorriu para
Antony e para Zara. — Fleur adora umas paredes cor de laranja.
— Não é laranja. É terracota.
— Quando você vai pra Londres? — perguntou Zara.
— Na sexta — disse Fleur. — Depois de amanhã.
— Sua mãe tem que ir a uma missa fúnebre — disse Richard.
Zara ficou paralisada; seu rosto empalideceu.
— Você vai a uma missa fúnebre? — perguntou ela.
— Isso mesmo — respondeu Fleur.
— Uma missa fúnebre? — repetiu Zara sem acreditar. — Você vai a
uma missa fúnebre?
— Sim, querida — disse Fleur, impaciente. — Por que tanto alvoroço?
— Ela olhou fixamente nos olhos de Zara. — Vou ficar fora um dia apenas.
Foi a coitada da Hattie Fairbrother — acrescentou ela, casualmente. —
Você se lembra da Hattie, não lembra, querida?
Zara se retraiu e se virou.
— Zara! — Elas foram interrompidas por Gillian. — Telefonema para
você. Alguém chamado Johnny.
— Johnny? — Zara ergueu a cabeça bruscamente. — Johnny está ao
telefone? Tá, estou indo! Já vou! Não deixe ele desligar! — E, sem olhar
para trás, ela correu casa adentro.
— Quer uma Coca-Cola diet? — perguntou Antony, mas ela não estava
prestando atenção. — Eu vou... ver se ela quer uma Coca-Cola diet — disse
aos outros e desapareceu atrás dela.
Richard olhou para Fleur.
— Zara pareceu muito chateada com a ideia de você ir a uma missa
fúnebre — disse ele.
— Eu percebi — disse Fleur. — Desde que o pai dela morreu, tudo que
tem a ver com morte a deixa assim. — Ela fez cara de triste. — Tento não
insistir no assunto.
— Claro — disse Gillian. — É perfeitamente compreensível.
— Coitadinha — disse Richard. Os olhos dele brilharam um pouco. —
E quem é Johnny? Um amigo de Zara?
— Um amigo nosso — disse Fleur. Ela ficou um pouco séria. — Eu o
conheço há muitos anos.
— Você deveria convidá-lo para vir aqui — sugeriu Richard. —
Gostaria de conhecer alguns dos seus amigos.
— Talvez — disse Fleur, e mudou de assunto.
Zara havia desaparecido dentro do cubículo ao lado do hall de entrada, que
não possuía nada além de um telefone, uma cadeira e uma mesinha de apoio para anotar recados. Ao sair de lá, Antony estava esperando por ela. Ele
encarou Zara: seus olhos brilhavam; de repente, ela parecia animada de
novo.
— Então, quem é Johnny? — perguntou ele, sem conseguir se controlar.
— Seu namorado?
— Não seja bobo! — disse Zara. — Eu não tenho namorado. O Johnny
é só um amigo. Um bom amigo.
— Ah, é? — disse Antony, tentando soar alegre e provocativo. — Já
ouvi isso antes.
— Antony, o Johnny tem cinquenta e seis anos!
— Ah — disse Antony, sentindo-se bobo.
— E ele é gay! — acrescentou Zara.
— Gay? — Ele a encarou.
— É, gay! — Ela riu. — Está satisfeito agora? — Ela começou a andar
em direção ao jardim.
— Aonde você vai? — perguntou Antony, correndo atrás dela.
— Tenho um recado do Johnny para a Fleur.
Eles chegaram ao gramado juntos, ofegantes.
— Olha, o Johnny disse que espera que você tenha mudado de ideia e
pediu que ligasse para ele caso tivesse mudado de ideia — anunciou Zara.
— Sobre o quê? — disse Fleur.
— Ele disse que você sabia do que ele estava falando. E... ele também
disse que talvez me leve para Nova York! Como um presente especial de
catorze anos! — Ela lançou um olhar triunfante a Fleur.
— Nova York! — exclamou Antony. — Fantástico!
— Que legal — disse Fleur de modo ácido.
— Bem, esse é o recado. — Zara pegou um chiclete do bolso e
começou a mascá-lo alegremente. — Então, você vai ligar para ele?
— Não — disse Fleur, fechando o catálogo de papel de parede. — Não
vou.