A Rainha dos Funerais
Treze
Na sexta de manhã, Richard saiu cedo para sua reunião, e Fleur suspirou
aliviada. Ela estava achando a presença constante dele um pouco opressiva.
Conforme o clima chegava à perfeição do verão, Richard tirava grandes
folgas do trabalho — dias de férias há muito devidos, ele havia explicado
— e os passava todos em casa. Da primeira vez que a palavra “férias” fora
mencionada, Fleur havia sorrido lindamente, e se perguntado se poderia
convencê-lo a levá-la a Barbados. Mas Richard não queria viajar. Como um
adolescente apaixonado, tudo o que ele queria era ficar com ela. Passava a
noite toda na cama dela; estava a seu lado o dia todo; não havia como
escapar dele. Um dia antes, Fleur se vira sugerindo que os dois jogassem
golfe juntos. Qualquer coisa para quebrar a monotonia. Temos que tomar
cuidado, ela se pegou pensando enquanto bebia o restinho do café pela
manhã, para não cair na rotina.
Então, de repente, Fleur interrompeu aquela linha de raciocínio. Ela não
cairia na rotina com Richard porque não ficaria com Richard. Às três horas
daquela tarde, estaria na missa fúnebre de Hattie Fairbrother, esposa do
magnata aposentado Edward Fairbrother; quando a recepção chegasse ao
fim, talvez ela já tivesse outros planos.
Fleur se levantou, verificando se o tailleur preto não tinha amassado, e
subiu a escada. Ao passar pela porta do escritório, andou mais devagar.
Ainda não tinha tido uma chance de vasculhar as coisas de Richard. Agora
que estava oficialmente decorando o escritório, deveria ter sido mais fácil.
Poderia entrar quando quisesse, espiar, abrir e fechar gavetas, descobrir o
que queria a respeito dos negócios de Richard, e ninguém desconfiaria de
nada. Mas, com Richard em constante adoração ao seu lado, encontrar um
momento em que pudesse ficar sozinha ali dentro era mais difícil do que
havia imaginado. Além disso, ela tinha quase certeza de que ele não estava na categoria esperada. Johnny havia se enganado. Richard Favour não
passava de um homem razoavelmente bem de vida, cujo cartão Gold
renderia a ela talvez quinze ou vinte mil libras. Quase não valia a pena se
dar ao trabalho de verificar os registros contábeis enfadonhos dele.
Mas a força do hábito a atraiu para a porta do escritório. Seu táxi
chegaria em poucos minutos para levá-la à estação de trem, mas ainda daria
tempo de dar uma olhada rápida na correspondência mais recente dele. E,
afinal, era esperado que ela estivesse decorando o ambiente. Fleur entrou no
escritório com a cópia da chave que Richard havia lhe dado, olhou para as
paredes sem graça e estremeceu. Seus olhos pousaram na janela ampla atrás
da mesa; em sua cabeça, ela a via com uma cortina grande e pesada, em um
tom dramático de verde-escuro. Ela combinaria as cortinas com um carpete
verde-escuro. E, nas paredes, um conjunto de gravuras de golfe antigas.
Talvez comprasse algumas para ele em leilão.
Exceto que, obviamente, ela não faria nada disso. Mordendo o lábio,
Fleur se sentou na cadeira de Richard e girou preguiçosamente. Pela janela,
ela via uma parte do jardim: o gramado, a pereira, a rede de badminton que
Antony e Zara tinham deixado esticada na noite anterior. Eram paisagens
familiares. Familiares demais. Seria surpreendentemente difícil abrir mão
delas. E, sendo muito sincera consigo mesma, seria surpreendentemente
difícil abrir mão de Richard.
Mas a verdade é que a vida em si era surpreendentemente difícil. Fleur
trincou os dentes e tamborilou as unhas na madeira polida da mesa,
impaciente consigo mesma. Ainda não havia alcançado seu objetivo. Ainda
não era uma mulher suficientemente rica. Portanto, ela teria que seguir em
frente; não tinha escolha. E não adiantava nada ficar ali indefinidamente à
espera das últimas migalhas. Richard não era o tipo de homem que, do
nada, esbanjaria comprando um vestido de alta costura ou uma pulseira de
diamantes, assim, de última hora. Tão logo Fleur concluísse o quanto
Richard podia se dar ao luxo de perder, ela sacaria até o limite do cartão
Gold, pegaria o dinheiro e sumiria. Se ela acertasse na quantia — e sabia
que acertaria —, ele cobriria o rombo, não diria nada, lamberia as feridas na
privacidade do lar e consideraria todo o episódio como uma experiência de
vida. Era o que sempre faziam. E, quando isso acontecesse, ela já estaria em
outra família, em outro lar, talvez até em outro país.
Suspirando, ela puxou a bandeja de entradas de Richard e começou a
verificar as correspondências mais recentes. Seus dedos pareciam lentos e relutantes; sua mente estava apenas parcialmente focada. Mal sabia o que
procurava. A emoção da caça parecia ter evaporado dentro dela; sua força
motriz havia perdido a potência. Antes, ela teria analisado cada carta
agilmente, à procura de pistas; buscando oportunidades de ganho
financeiro. Agora, seus olhos pousavam desfocados em cada folha,
assimilando poucas palavras aqui e ali, e passando para a próxima. Havia
uma carta breve que dizia respeito à locação do apartamento de Richard em
Londres. Havia um pedido de doações para uma organização de caridade
infantil. Havia um extrato bancário.
Quando o retirou do envelope, Fleur sentiu algo dentro dela acelerar.
Pelo menos aquilo poderia se mostrar algo interessante. Ela desdobrou a
folha e seu olhar se dirigiu automaticamente ao saldo final, já estimando em
sua mente que tipo de quantia estaria ali. E, então, quando seus olhos se
focaram, e ela se deu conta do número para o qual estava olhando, sentiu
um choque sacudir seu corpo. Seus dedos de repente ficaram suados; a
garganta ficou seca; não conseguia respirar.
Não, ela pensou, tentando se controlar. Aquilo não podia estar certo.
Simplesmente não podia estar certo. Ou podia? Ela se sentiu tonta de
espanto. Estaria lendo os números direito? Fechou os olhos, engoliu em
seco, respirou fundo e os abriu de novo. O mesmo número continuava,
espantosamente, na coluna de crédito. Ela o encarou, devorando-o com a
mente. Seria possível que estivesse correto? Estaria olhando mesmo para...
— Fleur! — Gillian chamou do andar de baixo. Fleur se sobressaltou;
seus olhos voaram para a porta. — Seu táxi chegou!
— Obrigada! — respondeu Fleur.
Sua voz estava estridente e pouco natural; de repente, notou que sua
mão tremia. Olhou para o número de novo, sentindo-se um pouco tonta. O
que diabos estava acontecendo? Ninguém, mas ninguém mesmo, deixava
uma quantia como aquela parada numa conta bancária. Só se fosse uma
pessoa muito burra — o que Richard não era — ou só se fosse muito,
muito, muito rica mesmo...
— Fleur! Você vai perder o trem!
— Estou indo!
Mais que depressa, antes que Gillian resolvesse subir para buscá-la,
Fleur colocou o extrato bancário de volta onde o encontrou. Ela tinha que
pensar sobre aquilo. Tinha que pensar com muito cuidado.
Philippa havia comprado uma roupa nova para passar o dia com Fleur. Ela
ficou esperando na catraca da estação de Waterloo, sentindo-se muito
chamativa com seu tailleur rosa, e se perguntando se deveria ter escolhido
algo mais casual. Mas, assim que viu Fleur, seu coração bateu aliviado.
Fleur estava ainda mais arrumada que ela. Vestia o mesmo tailleur preto de
quando Philippa a vira pela primeira vez na missa fúnebre da mãe, o look
finalizado por um lindo chapéu preto coberto por pequenas flores roxas. As
pessoas ficaram olhando fixamente para Fleur enquanto caminhava pela
estação, e Philippa sentiu uma pontada de orgulho. Aquela mulher linda e
elegante era sua amiga. Sua amiga!
— Querida! — O beijo de Fleur foi mais exibido que caloroso, mas
Philippa não se incomodou. Imaginou, com uma onda de alegria, a imagem
das duas lado a lado com seus tailleurs — um rosa, o outro preto. Duas
mulheres glamorosas se encontrando para um almoço. Se, no dia anterior,
ela tivesse visto tal imagem, teria sido tomada por uma inveja melancólica;
mas, hoje, ela era a imagem. Ela era uma daquelas mulheres glamorosas.
— Aonde vamos primeiro? — perguntou Fleur. — Reservei uma mesa
no Harvey Nichols para o meio-dia e meia, mas poderíamos ir a algum
outro lugar primeiro. Onde gostaria de fazer compras?
— Não sei! — exclamou Philippa, animada. — Vamos dar uma olhada
no mapa. Tenho um passe de metrô...
— Eu estava pensando em pegar um táxi... — interrompeu Fleur
gentilmente. — Não pego o metrô se puder evitar.
Philippa ergueu o olhar e sentiu o rosto corar, envergonhada. Por um
instante aterrorizante, ela teve a sensação de que o dia já poderia ter sido
estragado. Mas, de repente, Fleur riu e entrelaçou o braço no de Philippa.
— Eu não deveria ser tão fresca — disse ela. — Imagino que você
sempre use o metrô, não é, Philippa?
— Todos os dias — disse Philippa. Ela se forçou a sorrir para Fleur. —
Mas estou disposta a quebrar esse hábito.
Fleur riu.
— Essa é a minha garota.
Elas começaram a andar em direção ao ponto de táxi, e Philippa
manteve o braço entrelaçado ao de Fleur. Ela se sentia quase zonza de
excitação, como se estivesse embarcando em algum tipo de caso amoroso.
No táxi, Philippa se virou para Fleur na expectativa, esperando o início
de alguma fofoca hilariante e íntima. Ela podia sentir uma risada se formando na base da garganta; já tinha até preparado um gesto afetuoso.
“Ah, Fleur!”, exclamaria no momento apropriado. “Você é simplesmente
demais!” E apertaria o braço de Fleur, como uma velha amiga. O taxista
olharia para elas pelo retrovisor imaginando que fossem amigas de longa
data. Ou talvez até irmãs.
Mas Fleur olhava em silêncio pela janela para o trânsito. A testa estava
franzida e ela mordia o lábio, de um jeito que parecia, Philippa pensou meio
apreensiva, não querer ser incomodada. Como se estivesse pensando em
alguma coisa; como se não quisesse estar ali de verdade.
E, então, de repente, ela se virou para Philippa.
— Me diga uma coisa. Você e Lambert são felizes juntos? — perguntou
ela.
Philippa se sobressaltou. Não queria pensar em Lambert hoje. Mas
Fleur esperava uma resposta.
— Ah, sim — disse Philippa, e abriu um sorrisão para Fleur. — Temos
um casamento muito feliz.
— Um casamento feliz — repetiu Fleur. — O que exatamente faz um
casamento ser feliz?
— Bem — disse Philippa, em dúvida. — Você sabe.
— Sei? — perguntou Fleur. — Não tenho certeza se sei.
— Mas você foi casada, não foi? — perguntou Philippa. — Com o pai
da Zara.
— Ah, sim — disse Fleur vagamente. — Claro que fui. Mas não era
feliz.
— Sério? Não sabia disso — disse Philippa.
Ela olhou para Fleur inquieta, se perguntando se ela queria falar sobre
seu casamento infeliz. Mas Fleur balançou a mão com impaciência.
— O que quero dizer é: por que alguém decide se casar, para começo de
conversa? — Ela olhou para Philippa. — O que fez você decidir se casar
com o Lambert?
Philippa estremeceu de repente, como se estivesse fazendo a prova oral
de uma matéria para a qual não havia estudado. Imagens rápidas e positivas
dela com Lambert passaram por sua mente: os dois no dia do casamento; a
lua de mel nas Maldivas; Lambert queimado de sol e afetuoso; tardes de
sexo sob um mosquiteiro.
— Bem, eu amo o Lambert — ela se pegou dizendo. — Ele é forte e
cuida de mim... — Ela olhou para Fleur.
— E?
— E nós nos divertimos juntos — disse Philippa, hesitante.
— Mas como você soube que ele era o homem certo para você? —
insistiu Fleur. — Como soube que era o momento certo de parar de procurar
e... sossegar para sempre?
Philippa sentiu-se corar.
— Eu simplesmente soube — disse ela, com a voz aguda demais, na
defensiva.
E, de repente, ela se lembrou da mãe. Uma lembrança que pensou que
tivesse reprimido para sempre. A mãe, sentada na cama, olhando para
Philippa com os olhos azuis gélidos. Philippa reviveu o diálogo em sua
mente.
— Aceite se casar com Lambert, Philippa, e sinta-se grata. Que outro
homem vai querer uma moça como você?
— O Jim me queria — respondera Philippa, a voz trêmula.
— Jim? — rebatera Emily. — Seu pai detesta o Jim! Ele nunca
permitiria que você se casasse com ele. É melhor você aceitar o Lambert.
— Mas...
— Nada de “mas”. Essa é sua única chance. Olhe para você! Não é
bonita, não é charmosa, nem é mais virgem. Que outro homem vai querer
você?
Durante a fala da mãe, Philippa havia se sentido mal, como se estivesse
sendo agredida fisicamente. Agora, de repente, sentiu-se mal de novo, de
volta ao momento presente.
— “Você simplesmente soube.” — Fleur parecia insatisfeita. — Eu
simplesmente soube que esse chapéu era perfeito para mim. — Ela fez um
gesto em direção à cabeça. — Mas, então, quando o comprei, vi um outro
melhor ainda.
— É um chapéu lindo — disse Philippa, debilmente.
— A questão é que você pode ter mais de um chapéu — disse Fleur. —
Pode ter vinte chapéus. Mas não pode ter vinte maridos. Você nunca se
pergunta se escolheu cedo demais?
— Não! — disse Philippa sem pensar. — Não! O Lambert é perfeito
para mim.
— Bem, ótimo — disse Fleur. Ela sorriu para Philippa. — Fico feliz por
você.
Philippa encarou Fleur e sentiu o sorriso feliz começar a perder a forma,
e de repente desejou, pela primeira vez na vida, ter sido mais sincera.
Poderia ter se aberto com Fleur; poderia ter dividido suas preocupações e
pedido conselhos. Mas seu primeiro instinto foi pintar uma imagem
romântica e cor-de-rosa de si mesma. Uma imagem que Fleur admiraria, e,
possivelmente, invejaria. E agora, sua chance de dizer a verdade havia
desaparecido.
Lambert chegou à Maples logo depois de Gillian ter saído para a aula de
bridge. Ele estacionou o carro, entrou na casa e ficou parado no hall de
entrada atento a quaisquer vozes. Mas a casa estava em silêncio, como ele
esperava que estivesse. Na noite anterior, ele havia telefonado e
mencionado casualmente a Gillian que poderia passar por lá entre uma
reunião e outra.
— Mas não vai ter ninguém aqui — dissera ela. — Richard vai para
Newcastle, eu vou jogar bridge e o Antony provavelmente vai sair com a
Zara; eles vão treinar para a Copa do Clube.
— Vou passar aí de qualquer jeito — respondera Lambert de modo
casual —, já que vou estar por perto.
Agora, sem hesitar, ele se dirigiu ao escritório de Richard. Seria um
simples caso de encontrar a informação de que precisava, e, então, quando
voltasse para casa, transferiria a quantia apropriada para sua conta.
Conseguiria ter um cheque pronto para o banco em uma semana, o que o
faria ganhar alguns meses. E, então, até o Natal, Philippa completaria vinte
e nove anos, e o dinheiro do fundo fiduciário ficaria ainda mais perto, e seus
problemas financeiros inconvenientes desapareceriam para sempre.
Quando entrou no escritório, ele se viu curvando, de um jeito
engraçado, para olhar embaixo da mesa. Como se não soubesse que Fleur
estava em Londres com Philippa. E comparecendo a outra missa fúnebre.
Será que a mulher não tinha nada melhor para fazer com seu tempo do que
ir a malditas missas fúnebres? Ele franziu o cenho ao olhar para o carpete
empoeirado, e então ficou de pé e foi até o arquivo armário, abrindo a
terceira gaveta; a gaveta que ele não havia alcançado da última vez. E ali,
como uma recompensa, estavam pastas e mais pastas de extratos bancários
de Richard.
“Bingo”, murmurou ele. Ajoelhou-se e, ao acaso, puxou uma pasta com
a etiqueta “Casa”. Os extratos estavam muito bem organizados com clipes; ao folheá-los, começou a sentir a expectativa crescendo. Ali estava a vida
financeira de Richard, descortinando-se diante dele. A riqueza que, um dia,
seria dele e de Philippa. Exceto que, naquela conta, havia pouca evidência
de riqueza. O saldo não parecia ir além de três mil libras. Qual era a
serventia daquilo?
Impacientemente, ele guardou a pasta, e puxou outra, uma mais puída,
com a etiqueta “Filhos”. Ninharias, pensou Lambert com desdém, e a jogou
no chão, onde caiu aberta. Sua mão estava esticada em direção a outra pasta
quando ele olhou casualmente para a que estava no chão. O que viu o
deixou perplexo. O extrato de cima era do mês anterior, e o saldo beirava
dez milhões de libras.
— Quantos pratos pediremos? — perguntou Philippa, olhando para o
cardápio. — Três?
— Dez milhões — disse Fleur, distraída.
— O quê? — Philippa olhou para ela.
— Ah, nada. — Fleur sorriu. — Perdão, minha cabeça estava bem longe
daqui.
Ela começou a tirar o chapéu e a jogar para trás os cabelos
avermelhados. No canto do restaurante, um jovem garçom a admirava.
— A dez milhões de quilômetros daqui — disse Philippa, e riu.
O dia, até aquele momento, tinha mais do que atendido suas
expectativas. Ela e Fleur tinham ido de loja em loja experimentando roupas,
espirrando perfume uma na outra e rindo alegremente, atraindo olhares
como duas aves-do-paraíso. As revistas estavam enganadas, pensou
Philippa. Elas diziam que o Jeito de Conseguir um Homem era andando
com uma amiga mais feia que você. Mas não era verdade. Fleur era muito
mais bonita que ela, mesmo sendo muito mais velha — mas, hoje, em vez
de se sentir inadequada, Philippa havia se sentido elevada ao status de Fleur.
E as pessoas a haviam tratado de modo diferente. Haviam sorrido para ela,
homens haviam aberto a porta para ela, jovens trabalhadoras passando
apressadas pelas duas haviam olhado para ela com inveja nos olhos. E
Philippa havia saboreado cada momento.
— Ah, não sei — disse Fleur, de repente. — É tudo tão difícil. Por que a
vida não pode ser simples? — Ela suspirou. — Vamos tomar um drinque.
Ela fez um sinal para o jovem garçom, que se aproximou.
— Um Manhattan — disse Fleur, sorrindo para ele.
— Dois — disse Philippa.
O garçom retribuiu o sorriso. Ele era, Philippa pensou, extremamente
bonito. Na verdade, todo mundo que trabalhava em lojas caras parecia ser
lindo.
— Com licença, senhoritas. — Outro garçom se aproximou da mesa.
Carregava uma bandeja de prata, na qual equilibrava uma garrafa de
champanhe. — Isso foi pedido e pré-pago para vocês.
— Não! — Fleur começou a rir. — Champanhe! — Ela olhou para a
garrafa. — Champanhe de ótima qualidade, na verdade. Quem fez esse
pedido para nós? — Ela olhou ao redor. — Podemos saber?
— Isso está parecendo a cena de um filme — disse Philippa, animada.
— Há um cartão com uma mensagem para a Sra. Daxeny — disse o
garçom.
— Arrá! — disse Fleur. — Então eles sabem nossos nomes!
— Leia! — pediu Philippa.
Fleur abriu o cartãozinho.
— “Bom almoço, minhas queridas” — ela leu. — “Gostaria de estar aí
com vocês. Richard”. — Fleur ergueu o olhar. — É do seu pai — disse ela.
Fleur parecia surpresa. — Seu pai nos mandou champanhe.
— Pensei que fosse de um príncipe anônimo — disse Philippa,
desapontada. — Como o papai sabia que estaríamos aqui?
— Eu devo ter dito a ele — disse Fleur, devagar. — E ele deve ter se
lembrado e telefonado para cá para fazer esse pedido, torcendo para que não
mudássemos de restaurante. E nesse tempo todo ele não disse nada a
respeito.
— Posso abrir? — perguntou o garçom.
— Ah, sim! — disse Philippa.
— Sim, por favor — disse Fleur. Ela pegou o cartãozinho e ficou
olhando para ele por alguns segundos. — Que homem extraordinariamente
atencioso seu pai é.
— Na verdade, acho que ainda vou querer meu Manhattan — disse
Philippa. — E, depois, champanhe. Afinal, não estou dirigindo! — Ela
olhou para Fleur. — Você está bem?
— Estou — disse Fleur, franzindo a testa de leve. — Eu estava só...
pensando.
As duas observaram quando, com um estalido muito discreto, o garçom
abriu o champanhe e encheu uma taça. Ele a entregou de modo cerimonioso a Fleur.
— Sabe, os homens geralmente não costumam me surpreender — disse
ela, como se falasse sozinha. — Mas hoje... — Tomou um gole. — Que
delícia.
— Hoje você foi surpreendida — disse Philippa de maneira triunfante.
— Hoje eu fui surpreendida — concordou Fleur. Ela tomou mais um
gole e olhou para a taça, pensativa. — Duas vezes.
O barulho da chave da faxineira na porta de entrada da casa fez Lambert dar
um pulo de susto. Todo atrapalhado com as mãos, ele colocou os extratos
bancários no armário arquivo, saiu correndo do escritório e desceu a escada.
Abriu um sorriso simpático para a faxineira ao passar por ela no hall de
entrada, mas seu coração batia forte, e um calafrio percorria a sua espinha.
Valor líquido de dez milhões. Só podia ser o dinheiro do fundo
fiduciário. Mas não estava no fundo, e sim na conta de Richard. O que
estava acontecendo? Ele chegou ao carro e parou, um pouco ofegante,
tentando não deixar que o pânico tomasse conta. O dinheiro não estava no
fundo fiduciário. O que significava que Philippa não era a milionária que
ele pensou que fosse. E ele tinha uma dívida enorme no banco, sem nenhum
meio para pagá-la além de Philippa.
Ele abriu a porta do carro, entrou e encostou a testa suada no volante.
Não fazia o menor sentido. Será que Emily havia mentido para ele? Ela
havia prometido a ele que Philippa ficaria rica. Tinha dito que eles
resolveriam isso imediatamente. Ela havia falado que o dinheiro seria
transferido para o nome de Philippa; que assim que ela completasse trinta
anos, o dinheiro seria dela. E, no entanto, onde estava? Ainda no nome de
Richard. Pelo visto, Richard vinha liquidando seus ativos havia meses.
Estava claro que ele planejava fazer algo com o dinheiro. Mas o quê? Dá-lo
a Philippa? Ou jogá-los aos malditos pássaros? Nada mais surpreenderia
Lambert. E o pior era que não havia absolutamente nada que ele pudesse
fazer a respeito.
Quando as sobremesas chegaram, Philippa se inclinou sobre a mesa e olhou
bem nos olhos de Fleur. Fleur a encarou. Philippa havia bebido dois
Manhattans e pelo menos metade da garrafa de champanhe, e estava cada
vez mais falante e cada vez menos compreensível. Suas bochechas estavam coradas e seus cabelos, despenteados; ela parecia ter algo importante a
dizer.
— Eu menti para você. — As palavras saíram confusas, e Fleur olhou
para ela surpresa.
— Perdão?
— Não. Eu é que tenho que pedir perdão. Quer dizer, você é a minha
melhor amiga, e eu menti para você. Você é a minha melhor amiga —
repetiu Philippa, enfaticamente. — E eu menti para você. — Ela segurou a
mão de Fleur e conteve as lágrimas. — Em relação ao Lambert.
— É mesmo? O que me disse sobre o Lambert? — Fleur desvencilhou
sua mão e pegou a colher. — Coma a sobremesa.
Obedientemente, Philippa pegou a colher e a enfiou na crosta superficial
do crème brûlée. Em seguida, ergueu o olhar.
— Eu disse que amo o Lambert.
Sem pressa, Fleur engoliu a colherada de mousse de chocolate.
— Você não ama o Lambert?
— Às vezes acho que sim... mas... — Philippa estremeceu. — Não amo,
na verdade.
— Não te culpo.
— Estou presa em um casamento sem amor. — Philippa olhou para
Fleur com olhos vermelhos.
— Bem, então saia desse casamento. — Fleur comeu mais uma
colherada de mousse de chocolate.
— Você acha que eu deveria deixar o Lambert?
— Se ele não faz você feliz, sim.
— Você não acha que eu talvez devesse arranjar um amante? —
perguntou Philippa, esperançosa.
— Não — respondeu Fleur com firmeza. — De jeito nenhum.
Philippa deu uma colherada no crème brûlée, mastigou sem muita
vontade, e pegou outra colherada em seguida. Uma lágrima escorreu por
seu rosto.
— Mas e se eu deixar o Lambert e depois... e depois me der conta de
que eu o amo, na verdade?
— Bem, nesse caso, você vai saber.
— Mas e se ele não me aceitar de volta? Vou ficar sozinha!
Fleur deu de ombros.
— E daí?
— E daí? Eu não suportaria ficar sozinha! — A voz de Philippa saiu
mais alta que o barulho do restaurante. — Você tem ideia de como é difícil
conhecer pessoas hoje em dia?
— Tenho — disse Fleur. Ela abriu um sorrisinho. — Você tem que
procurar nos lugares certos.
— Eu não suportaria ficar sozinha — repetiu Philippa, obstinadamente.
Fleur suspirou, sem paciência.
— Bem, nesse caso, fique com ele. Philippa, você bebeu muito...
— Não, você tem razão — interrompeu Philippa. — Vou me separar
dele. — Ela estremeceu. — Ele é nojento.
— Tenho que concordar com você nesse ponto — disse Fleur.
— Eu não queria me casar com ele — disse Philippa. Mais lágrimas
caíram na mesa.
— E agora você vai se separar dele — disse Fleur, contendo um bocejo.
— E vai ficar tudo bem. Vamos pedir a conta?
— E você vai me ajudar a passar por isso?
— Claro. — Fleur levantou a mão e dois garçons loiros com cortes de
cabelo idênticos surgiram imediatamente. — A conta, por favor — disse
ela.
Philippa olhou para o relógio.
— Você precisa ir à sua missa, não precisa? — perguntou ela, anuviada.
— À sua missa fúnebre.
— Bem, sabe, talvez eu acabe não indo à missa fúnebre, no fim das
contas — disse Fleur, lentamente. — Não sei bem... — Fez uma pausa. —
Hattie não era tão minha amiga assim. E não estou muito a fim, na verdade.
É... é uma situação um pouco difícil.
Philippa não estava prestando atenção.
— Fleur? — disse ela, secando os olhos. — Eu gosto muito de você.
— Gosta, querida? — Fleur abriu um sorriso simpático para ela.
Como raios, Fleur se perguntou, alguém como Richard podia ter gerado
uma pilha de autopiedade sem personalidade como aquela?
— Você vai se casar com o papai? — fungou Philippa.
— Ele não me pediu em casamento — respondeu Fleur depressa,
abrindo um sorriso arrebatador para Philippa.
A conta chegou em uma pastinha de couro; sem olhar, Fleur colocou o
cartão Gold dentro. As duas observaram em silêncio enquanto ele era
levado por um dos garçons idênticos.
— Mas se ele pedir — disse Philippa —, você vai aceitar?
— Bem... — respondeu Fleur, lentamente. Recostou-se na cadeira. Dez
milhões, pensou. Aquele pensamento não parava de girar em sua mente
como as reluzentes esferas de um rolamento. Dez milhões de libras. Uma
fortuna, sem dúvida, sob qualquer ponto de vista. — Quem sabe? — disse
ela, por fim, e virou a taça.
— Então, você acha que sua mãe vai se casar com meu pai? — perguntou
Antony, caindo na grama imaculada do campo.
— Não sei — disse Zara irritada. — Para de me perguntar isso. Não
consigo me concentrar. — Ela enrugou o nariz, respirou fundo e bateu na
bola de golfe com o taco. Ela avançou alguns centímetros em direção ao
buraco, e parou. — Pronto. Olha o que você me fez fazer. Que lixo.
— Não foi ruim, não — disse Antony. — Você está indo muito bem.
— Não estou, não. Que jogo idiota. — Ela bateu o taco no chão com
raiva, e Antony olhou ao redor, nervosamente, para ter certeza de que
ninguém tinha visto aquilo. Mas havia poucas pessoas por lá. Estavam na
área para iniciantes, um espaço fora da área usada pelos experientes,
protegido por pinheiros e que normalmente ficava vazia. Antony passara
metade da manhã praticando suas tacadas, preparando-se para a Copa do
Clube, o maior evento de golfe do verão. A outra metade, passara pegando
as bolas que Zara parecia não conseguir evitar que saíssem voando por cima
dos arbustos a cada poucos minutos.
— As tacadas devem ser, tipo, bem controladas — disse ele. — Você
precisa imaginar...
— Não preciso imaginar nada — retrucou Zara. — Sei o que tenho que
fazer. Enfiar a maldita bola no buraco. Só que não consigo. — Ela jogou o
taco no chão e se sentou ao lado de Antony. — Não sei como você
consegue jogar esse jogo idiota. Não chega nem a queimar calorias.
— A gente meio que vicia — disse Antony. — De qualquer forma, você
não precisa perder peso.
Zara o ignorou e encurvou os ombros. Por alguns instantes, nenhum dos
dois disse nada.
— Qual é — disse Antony, por fim. — Por que você está tão mal-
humorada?
— Não estou.
— Está, sim. Está de péssimo humor o dia todo. Desde que sua mãe saiu
de casa hoje cedo. — Ele fez uma pausa. — Foi porque... — Ele se
interrompeu, sem jeito.
— O quê?
— Bem, eu fiquei me perguntando se talvez você conhecesse a pessoa
homenageada na missa fúnebre à qual ela foi. E que talvez fosse por isso
que você estivesse um pouco...
— Não — interrompeu Zara. — Não, não é isso. — Ela virou o corpo
ligeiramente para o outro lado; a expressão em seu rosto estava mais feroz
que nunca.
— Vai ser ótimo quando você for para Nova York — disse Antony,
animado.
— Se eu for.
— Claro que vai! Seu amigo Johnny vai te levar!
Zara deu de ombros.
— Tenho a sensação de que isso não vai acontecer.
— Por que não?
Ela deu de ombros de novo.
— Simplesmente acho que não vai.
— Você só está meio chateada — disse Antony, mostrando-se
compreensivo.
— Não estou chateada. Eu só queria...
— O quê? — perguntou Antony, interessado. — O que você quer?
— Queria saber o que vai acontecer. Tá? Só queria saber.
— Entre sua mãe e meu pai?
— É. — Sua resposta saiu quase inaudível.
— Acho que eles vão se casar. — A voz de Antony estava tomada pelo
entusiasmo. — Aposto que meu pai vai pedir Fleur em casamento logo. E
aí, toda aquela história do cartão Gold... — Ele passou a falar mais baixo.
— Bem, não vai mais importar, né? Afinal, ela vai ser a esposa dele! Eles
vão compartilhar todos os bens materiais!
Zara olhou para Antony.
— Você já resolveu tudo na sua cabeça, né?
— Bem... — Ele corou e puxou um pouco da grama.
— Antony, você é tão decente.
— Não sou nada! — respondeu ele, com raiva.
Zara soltou uma risada repentina.
— Não é ruim ser decente.
— Você me faz parecer muito careta — protestou ele. — Mas não sou.
Já fiz um monte de... coisas.
— O que você fez? — perguntou Zara, provocando. — Já roubou
alguma coisa em loja?
— Não. Claro que não!
— Jogos de azar, então? — perguntou ela. — E sexo? — Antony corou
e Zara se aproximou dele. — Já fez sexo, Antony?
— Você já? — perguntou ele.
— Não seja bobo. Só tenho treze anos.
Antony sentiu uma repentina onda de alívio.
— Bem, como vou saber? — perguntou ele, ríspido. — Pode ser que
você tenha feito. Tipo, você fuma beck, não fuma?
— Isso é diferente — disse ela. — Bem, quem faz sexo muito cedo
pode ter câncer cervical.
— Câncer cervical? — perguntou Antony, confuso. — Onde é isso?
— No colo do útero, seu burro! Sabe o que é colo de útero? Fica bem
aqui. — Ela apontou para uma região acima do botão de sua calça jeans. —
Bem aqui dentro.
Antony acompanhou o dedo dela com o olhar; ao fazer isso, sentiu o
sangue subir à sua cabeça. Levou a mão à marca de nascença, confuso.
— Não cubra — disse Zara.
— O quê? — A voz dele saiu abafada.
— Sua marca de nascença. Eu gosto dela. Não cubra.
— Você gosta dela?
— Claro. Você não?
Antony desviou o olhar, sem saber bem o que dizer. Ninguém nunca
falava de sua marca de nascença; ele havia se acostumado a fingir que ela
não existia.
— É sexy. — Ela passou a falar mais baixo, a voz suave e rouca nos
ouvidos dele. Antony sentiu a respiração acelerada. Ninguém nunca o havia
chamado de sexy.
— Minha mãe odiava essa marca — disse ele, sem querer.
— Aposto que não — disse Zara para animá-lo.
— Odiava, sim! Ela... — Ele parou de falar. — Deixa para lá.
— Não deixo, não.
Durante alguns segundos de silêncio, Antony ficou olhando para baixo.
Anos de lealdade à mãe entravam em conflito com um desejo inesperado e
desesperado de desabafar.
— Ela queria que eu usasse um tapa-olho para esconder minha marca de
nascença — disse ele, de repente.
— Um tapa-olho?
Antony se virou e viu a expressão incrédula de Zara.
— Quando eu tinha uns sete anos. Ela me perguntou se eu não achava
que seria divertido usar um tapa-olho. Tipo um pirata, segundo ela. E ela
pegou uma... uma coisa horrorosa de plástico preto com um elástico.
— O que você fez?
Antony fechou os olhos e se lembrou da mãe o encarando com uma
expressão de desgosto meio mascarada por um sorriso aberto e falso. Sentiu
uma pontada de dor no peito e respirou fundo, estremecido.
— Eu meio que fiquei olhando para aquela coisa e disse: “Mas não vou
conseguir enxergar direito usando um tapa-olho.” E então, ela riu, e fingiu
que estava só brincando. Mas... — Ele engoliu em seco. — Eu sabia que ela
não estava. Mesmo naquela época, eu sabia. Ela queria que eu cobrisse o
olho para que ninguém visse minha marca de nascença.
— Jesus. Que vaca.
— Ela não era uma vaca! — A voz de Antony falhou. — Ela era só... —
Ele mordeu o lábio.
— Bem, sabe de uma coisa? Eu acho essa marca sexy. — Zara se
aproximou ainda mais. — Muito sexy. — Fez uma brevíssima pausa; olhou
nos olhos dele.
— Beijar... beijar causa câncer no colo do útero? — perguntou Antony,
por fim. Sua voz soou rouca; o coração batia ruidosamente no peito.
— Acho que não — disse Zara.
— Ótimo — disse Antony.
Lentamente, com movimentos calculados, ele passou o braço pelos
ombros magros dela e a puxou para si. Os lábios de Zara tinham gosto de
menta e Coca diet; sua língua encontrou a dele imediatamente. Ela já foi
beijada antes, pensou ele, meio entorpecido. Ela já foi beijada muitas vezes.
Mais do que eu, provavelmente. E, quando eles se separaram, Antony olhou
para ela, hesitante, meio esperando que ela risse para ele, meio esperando
que ela o humilhasse com algum comentário ácido e experiente.
Mas, para sua surpresa e horror, ela olhava ao longe e uma lágrima
escorria por seu rosto. Imagens de acusações e negações inúteis invadiram
sua mente.
— Zara, me desculpa! — disse ele. — Eu não queria...
— Não se preocupe — disse ela, a voz baixa. — Não é você. Não tem
nada a ver com você.
— Então, você não ligou... — Ele olhou para ela, um pouco ofegante.
— Claro que não liguei — disse ela. — Eu queria que você me beijasse.
Você sabia disso. — Ela secou a lágrima, olhou para ele e sorriu. — E quer
saber de uma coisa? Agora quero que você me beije de novo.
Ao chegar em casa, Philippa estava com uma dor de cabeça latejante.
Depois que Fleur foi embora de táxi em direção à estação de Waterloo, ela
havia continuado fazendo compras sozinha, entrando nas lojas mais baratas,
que Fleur ignorara, mas que ela preferia e não dizia. Agora, seus sapatos
pareciam apertados demais, e os cabelos estavam desgrenhados, e ela se
sentia suja e suada das ruas de Londres. Porém, assim que entrou, ouviu
uma voz desconhecida no escritório, e seu coração se acelerou. Talvez
Lambert tivesse convidado alguém à casa deles. Talvez fosse acontecer um
jantarzinho de última hora. Que bom que ela estava com seu tailleur rosa;
eles pensariam que ela usava roupas como aquela todos os dias. Ela
atravessou o corredor depressa, verificando o reflexo no espelho, adotando
uma postura sofisticada, mas também simpática, e abriu a porta do
escritório.
Mas Lambert estava sozinho. Estava refestelado na poltrona ao lado da
lareira, ouvindo uma mensagem na secretária eletrônica. Uma mulher cuja
voz Philippa não reconheceu estava dizendo: “Nós precisamos nos
encontrar urgentemente para discutir a sua situação.”
— Que situação? — perguntou Philippa.
— Nenhuma — rebateu Lambert.
Philippa olhou para a luz vermelha da máquina.
— Ela está na linha agora? Por que não atende e fala com ela?
— Por que você não cala a boca? — vociferou Lambert.
Philippa olhou para ele. No decorrer da tarde, ela havia começado a
pensar que talvez seu casamento não fosse tão sem amor quanto ela havia
descrito; que talvez houvesse esperança nele. Sua determinação de deixar
Lambert havia enfraquecido, deixando para trás apenas uma decepção tênue e familiar de que a vida não havia se desenrolado como ela havia
imaginado.
Mas agora, de repente, ela sentiu a determinação voltar. Respirou fundo
e cerrou os punhos.
— Você é sempre tão grosseiro comigo! — exclamou ela.
— O quê? — Lambert virou a cabeça devagar até estar olhando para ela
com o que parecia ser uma expressão de perplexidade genuína.
— Estou cansada disso! — Philippa adentrou o ambiente, percebeu que
ainda estava segurando as duas sacolas, e as colocou no chão. — Estou
cansada do jeito como você me trata. Como se eu fosse sua criada! Como
uma imbecil! Eu quero um pouco de respeito! — Ela bateu o pé
triunfantemente e desejou ter uma plateia maior. Frases chegavam em
abundância à sua boca; cenas de confrontos de mil romances tomavam sua
mente. Ela se sentia uma heroína romântica e irascível. — Eu me casei com
você por amor, Lambert — continuou ela, falando baixo, a voz trêmula. —
Queria compartilhar a sua vida. Suas esperanças, seus sonhos. E, apesar
disso, você me deixa de lado, você me ignora...
— Eu não ignoro você! — disse Lambert. — Do que você está falando?
— Você me trata como se eu fosse um monte de merda — disse
Philippa, jogando os cabelos para trás. — Bem, eu cansei. Quero me
separar.
— Você quer o quê? — Lambert gritou sem acreditar. — Philippa, qual
é a porra do seu problema?
— Faça essa pergunta a si mesmo — disse Philippa. — Vou deixar
você, Lambert. — Ela ergueu o queixo, pegou as sacolas e seguiu em
direção à porta. — Vou te deixar e não há nada que você possa fazer a
respeito.