A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 17 de 19

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A Rainha dos Funerais

Dezessete

 

Meia hora depois, o jantar estava pronto.

— Onde raios está todo mundo? — perguntou Gillian, erguendo o olhar

do forno. — Onde está a Philippa?

— Não sei — disse Antony, abrindo uma garrafa de vinho.

— E o Lambert?

— Quem liga para ele? — perguntou Zara. — Vamos começar a comer

logo.

— Na verdade, acho que vi Philippa no jardim — disse Antony. —

Quando estávamos jogando badminton.

— Vou buscá-la — disse Gillian. — E você pode avisar a todo mundo

que o jantar está pronto, por favor?

— Posso — disse Antony.

Quando Gillian saiu, ele foi até a porta da cozinha para fazer o que ela

pediu.

— O jantar está pronto! — Em seguida, olhou para Zara e deu de

ombros. — Não é minha culpa se eles não conseguem ouvir. — Ele encheu

uma taça de vinho e tomou um gole.

— Ei — disse Zara. — E eu? Não ganho?

Antony ergueu o olhar, surpreso.

— Você nunca bebe vinho!

— Para tudo existe uma primeira vez — disse Zara, pegando a taça

dele. Ela deu um gole hesitante e enrugou o nariz. — Imagino que se passe

a gostar com o tempo. Acho que vou ficar na Coca diet.

— Tem refrigerante na despensa — disse Antony.

Ele olhou para Zara e ficou de pé.

— Tem na geladeira também — disse Zara, rindo.

Mas ela se levantou e o seguiu até a despensa. Antony fechou a porta

quando eles entraram e abraçou Zara. Seus lábios se encontraram com a

facilidade do hábito; a porta rangeu um pouco quando eles se encostaram

nela.

— Você é muito sexy — disse Antony com a voz arrastada quando eles

se separaram.

— Você também — murmurou Zara.

Sentindo-se incentivado, a mão dele começou a descer devagar pelas

costas dela.

— Acho que não tem nenhuma chance...

— Não — disse Zara, achando graça. — Absolutamente nenhuma.

 

Lambert ouviu Antony chamando do andar de baixo e sentiu uma onda de

pânico invadi-lo. Tinha que se apressar; tinha que sair do escritório de

Richard antes que todo mundo começasse a se perguntar onde ele estava.

Franzindo o cenho, recomeçou a datilografar, olhando de poucos em poucos

segundos para a porta, tentando desesperadamente formular as palavras

certas em sua mente.

Ele havia encontrado um maço de papel de carta personalizado de

Richard e uma máquina de datilografia antiga. Ele tinha os dados bancários

de Richard à sua frente, o nome do advogado dele e uma cópia de sua

assinatura. Deveria ter sido fácil escrever uma carta atestando que Richard

estava em vias de deixar sua filha — e consequentemente, Lambert — bem

rica.

Deveria ter sido fácil. Mas a visão de Lambert não parava de ficar

embaçada; sua mente estava lenta e anuviada; seus pensamentos eram

distraídos de tempos em tempos pela lembrança repentina das pernas de

Fleur. Ele datilografava freneticamente, tentando se apressar, falando um

palavrão sempre que cometia um erro. Já tinha estragado cinco folhas; já as

havia rasgado e jogado no chão. A coisa toda era um pesadelo.

Tomou um gole grande de conhaque e tentou focar a mente. Só

precisava se concentrar; apressar-se e terminar a maldita tarefa, e então

descer; agir normalmente. E então, esperaria que o First Bank ligasse. “Ah,

vocês querem uma garantia, certo?”, ele diria, em tom de surpresa.

“Deveriam ter dito antes. O que acham de uma carta de intenção de doação

de bens endereçada ao advogado do Sr. Favour?” Isso faria com que eles

parassem. Não questionariam a porra do Richard Favour, não é mesmo?

— Valor total — disse ele em voz alta, teclando cada letra

cuidadosamente — de c-i-n-c-o milhões. Ponto final.

Cinco milhões. Deus, se fosse verdade, Lambert pensou meio zonzo, se

fosse verdade...

— Lambert? — Uma voz interrompeu seus pensamentos, e o coração

dele parou de bater. Lentamente, ele levantou a cabeça. Richard estava de

pé na porta, olhando para ele, sem acreditar. — O que você acha que está

fazendo?

 

Enquanto caminhava até o jardim, Gillian não parava de pensar no Egito.

Havia uma leveza dentro dela; uma leveza que dava energia a seus pés, que

fazia com que ela sorrisse para si mesma e murmurasse trechinhos de

canções populares. Férias com Eleanor Forrester. Com Eleanor Forrester,

quem diria! No passado, ela teria dito “não” automaticamente; teria

desconsiderado o plano totalmente. Mas, agora, ela pensava: por que não?

Por que não viajar a um lugar exótico e distante? Por que não dar uma

chance a Eleanor de ser sua companheira de viagem? Ela se imaginou

vagando por caminhos empoeirados e arenosos, contemplando com

admiração os resquícios de uma civilização distante e fascinante. Sentindo o

sol de um continente diferente em seus ombros; ouvindo os sons

balbuciantes de uma língua desconhecida. Procurando presentes em um

mercado de rua repleto de cores.

De repente, um rangido sob seus pés a trouxe de volta para o mundo

real. Ela olhou para a grama. Um pote de vidro tinha sido deixado no

gramado.

— Que perigo! — disse Gillian em voz alta, ao pegá-lo.

Ela o examinou. Era um frasco de aspirina e estava vazio. Alguém devia

tê-lo deixado do lado de fora sem querer. Haveria uma explicação razoável

para sua presença ali. Mesmo assim, algo lhe disse que alguma coisa estava

errada, e ela apressou o passo.

— Philippa! — gritou ela. — O jantar está pronto. Você está no jardim?

Silêncio. E, então, Gillian ouviu um gemido baixo.

— Philippa! — chamou ela de novo, mais alto. — É você?

Gillian começou a andar em direção ao som; de repente, se viu

correndo.

Atrás das roseiras, nos fundos do jardim, Philippa estava deitada na

grama, os braços estendidos para os lados e o queixo sujo de vômito. Presa em seu peito, havia uma carta que começava com “A todos que conheço”. E

ao lado dela, no chão, havia mais um frasco de aspirina vazio.

 

— É melhor você ter uma explicação — disse Richard, baixinho, e olhou

para a folha de papel em sua mão. — Se isso for o que acho que é, você tem

muito o que explicar.

— Era... era uma brincadeira — disse Lambert. Ele encarava Richard

desesperado, tentando respirar devagar; tentando reprimir o terrível latejar

em sua cabeça. Ele engoliu em seco; sua garganta parecia uma lixa. — Uma

pegadinha.

— Não, Lambert — disse Richard. — Isso não é uma pegadinha. Isso é

fraude.

Lambert lambeu os lábios.

— Olha, Richard — disse ele. — Isso é só uma carta. Sabe... Eu não ia

usá-la.

— É mesmo? — perguntou Richard, de pronto. — E para qual propósito

você não pretendia usá-la?

— Você não entende! — Lambert tentou dar uma risadinha.

— Não, não entendo! — A voz de Richard estalou no ar. — Não

entendo como você pode achar que é permitido entrar nesse escritório sem o

meu consentimento, mexer nas minhas coisas e escrever uma carta se

passando por mim para o meu advogado. Quanto ao teor da carta... — Ele

balançou o papel. — Isso é o que eu acho mais desconcertante.

— Quer dizer que... — Lambert olhou para Richard e se sentiu enojado.

Então Emily tinha mentido para ele. Ela o havia feito de bobo. Aquele

dinheiro não seria de Philippa, no fim das contas. Uma fúria incandescente

tomou conta de Lambert, empurrando a prudência para longe; eliminando o

medo.

— Para você, está tudo bem! — ele se pegou gritando de repente. —

Você tem milhões!

— Lambert, você está perdendo a cabeça.

— A Emily me disse que eu ficaria rico! A Emily disse que a Philippa

entraria em um fundo fiduciário. Disse que eu poderia comprar o que

quisesse! Mas ela estava mentindo, não estava?

Richard o encarou, incapaz de falar.

— A Emily disse isso? — perguntou ele, por fim, a voz meio trêmula.

— Ela disse que eu havia me casado com uma milionária. E eu acreditei

nela!

Richard entendeu tudo enquanto olhava para Lambert.

— Você está devendo dinheiro, é isso?

— É claro que é isso. Eu devo dinheiro. Como todas as outras pessoas

no mundo. Todo mundo menos você, claro. — Lambert fechou a cara. —

Tenho trezentas mil libras de saldo negativo no banco. — Ele ergueu a

cabeça e encontrou os olhos incrédulos de Richard. — Nada comparado a

dez milhões, não é? Você poderia pagar isso amanhã.

Richard ficou olhando fixamente para Lambert, tentando controlar sua

repulsa; lembrando que Lambert ainda era seu genro.

— A Philippa sabe disso? — perguntou ele, por fim.

— Claro que não.

— Graças a Deus — murmurou Richard. Ele olhou para o papel em sua

mão mais uma vez. — E o que exatamente você estava pretendendo fazer

com isso?

— Mostrar ao banco — disse Lambert. — Pensei que faria com que eles

se calassem por um tempo.

— Então você é um desmiolado, além de desonesto!

Lambert se encolheu. Por alguns minutos, os dois se encararam, com

antipatia mútua.

— Eu... eu vou ter que pensar no assunto — disse Richard, por fim. —

Enquanto isso, posso pedir para não contar nada a Philippa... nem para mais

ninguém?

— Por mim, tudo bem — disse Lambert, e sorriu de um jeito

convencido para Richard.

Algo dentro de Richard deu um estalo.

— Não ouse sorrir para mim! — gritou ele. — Não há nenhum motivo

para sorrir! Você é um fraudador desonesto e sem princípios! Meu Deus,

como a Philippa conseguiu se apaixonar por você?

— Foi por causa do meu charme natural, imagino — disse Lambert,

passando a mão pelos cabelos.

— Saia daqui! — disse Richard, tremendo de ódio. — Saia do meu

escritório, antes que eu... antes que eu... — Ele parou, sem conseguir achar

as palavras certas, e a boca de Lambert se contorceu em um sorriso de

escárnio.

Mas, antes que um dos dois pudesse dizer qualquer outra coisa, foram

interrompidos pela voz de Gillian, gritando do hall no andar inferior.

— Richard! Venha aqui depressa! É a Philippa!

 

Gillian havia arrastado Philippa para dentro da casa e chamado uma

ambulância. Quando os dois chegaram ao andar de baixo, Philippa estava

sentada e gemia baixinho.

— Acho que ela vomitou a maior parte dos comprimidos — disse

Gillian. Ela franziu o cenho, e secou bruscamente uma lágrima do olho. —

Menina boba, boba!

Richard olhava fixamente para a filha, em estado de choque, sem

palavras; para aquela figura mal-ajambrada e infeliz.

— Com certeza ela não queria de fato... — começou Richard, e parou,

incapaz de formular as palavras.

— Claro que não — disse Gillian. — Foi um… — sua voz falhou —

pedido de socorro.

— Mas ela sempre pareceu... — disse Richard, e parou.

Ele estava prestes a dizer que Philippa sempre tinha parecido feliz. Mas,

de repente, se deu conta de que não era verdade. Richard se tocou para o

fato de que desde que Philippa havia deixado de ser criança, ele raramente a

vira feliz de verdade. Ela sempre parecera ansiosa ou emburrada; quando

estava animada, sempre tinha algo de histérico em seu comportamento.

Mas Richard havia presumido que estivesse tudo mais ou menos bem

com ela. Agora, uma culpa implacável mergulhava o invadia. Eu deveria ter

trazido felicidade para a vida dela, Richard se pegou pensando. Deveria ter

feito tudo para que ela se sentisse feliz, estável e satisfeita. Mas eu a deixei

com a mãe e, depois, com o marido. E os dois falharam com ela. Todos nós

falhamos com ela.

— Philippa — disse Lambert, curvando-se. — Você consegue me

ouvir?

Os olhos de Philippa se abriram e ela gemeu mais alto.

— Lambert — disse Gillian. — Acho melhor você ficar longe dela.

— Por quê? — perguntou Lambert de modo truculento. — Eu sou o

marido dela.

— Ela escreveu uma carta — disse Gillian.

Gillian entregou a carta para Richard; enquanto ele a examinava, sua

expressão ficou sombria. Uma veia começou a latejar em sua testa.

— Me dê isso — disse Lambert. — Tenho todo o direito...

— Você não tem direito algum! — rebateu Richard. — Direito nenhum!

— A ambulância chegou — disse Gillian, de repente, olhando pela

janela. — Quem vai com ela?

— Eu vou — disse Lambert.

— Não — disse Richard de pronto —, você não. Quem vai sou eu.

A caminho do hospital, Richard ficou olhando fixamente para baixo,

para o rosto da filha; segurou sua cabeça enquanto ela vomitava em um

recipiente de papelão, e alisou seus cabelos para trás.

— Eu não queria me casar com ele — murmurou ela, lágrimas descendo

pelo rosto inchado. — Ele me dá nojo!

— Tudo bem, querida — disse Richard com delicadeza. — Chegaremos

logo ao hospital. Você vai ficar bem.

— Foi a mamãe — chorou Philippa. — Ela me fez casar com o

Lambert! Ela dizia que eu era feia e que não era... — Ela parou de falar e

olhou para ele com os olhos vermelhos. — Você odiava mesmo o Jim?

— Quem é Jim? — perguntou Richard, sem entender.

Mas Philippa voltou a vomitar. Richard olhou para ela em silêncio. Uma

depressão pesada e sombria estava se apoderando dele; era como se as

pedras preciosas reluzentes que formavam sua família estivessem sendo

viradas, uma a uma, revelando um monte de vermes horripilantes. O que

mais ele não sabia? O que mais não tinham contado a ele?

— Cadê a Fleur? — perguntou Philippa, assim que conseguiu se sentar

de novo. — Ela sabe?

— Não sei — disse Richard com calma. — Não precisamos contar para

ela se você não quiser.

— Mas eu quero que ela saiba! — gritou Philippa, histérica. — Quero

ela comigo!

— Sim, querida — disse Richard, sentindo-se à beira das lágrimas, de

repente. — Sim, eu também.

 

Muito mais tarde, Richard chegou em casa, cansado e deprimido, e

encontrou todo mundo à sua espera no hall.

— O que aconteceu? — perguntou Fleur. Ela correu e segurou a mão

dele. — Querido, fiquei tão chocada quando soube.

— Ela vai passar a noite no hospital — disse Richard. — Eles acham

que não aconteceu nada mais grave. Eles vão... — Ele engoliu em seco. — Eles vão encaminhá-la ao atendimento psicológico.

— Podemos, tipo, ir lá e visitá-la? — perguntou Antony, sem saber

como agir.

Richard olhou para ele, sentado na escada com Zara, e sorriu.

— Ela volta para casa amanhã. Sinceramente, não há motivo para

preocupação. Foi só um susto.

— Mas por que ela fez isso? — perguntou Antony. — Ela não se deu

conta? Não pensou em como todos ficaríamos assustados?

— Acho que ela não pensou muito no assunto — disse Richard,

delicadamente. — Está um pouco confusa no momento. — De repente, ele

olhou ao redor. — Onde está o Lambert?

— Foi embora — disse Gillian. — Eu o mandei para um hotel para

passar a noite. — Ela contraiu os lábios. — Ele estava bêbado demais para

dirigir.

— Muito bem, Gillian. — Richard a encarou. — E obrigado. Se você

não tivesse saído para procurar a Philippa...

— Sim, bem... — Gillian desviou o olhar. — Não vamos pensar nisso.

— Ela olhou no relógio. — Está tarde. Hora de irmos para a cama. Antony,

Zara, vocês precisam dormir.

— Sim — disse Antony com a voz baixa. — Bem, boa noite para vocês.

— Boa noite — disse Zara.

— Antony, sinto muito por não termos conseguido comemorar sua

vitória direito — disse Richard, lembrando-se de repente. — Mas faremos

isso. Outro dia.

— Claro, pai. Boa noite.

— Acho que também vou dormir — disse Gillian. Ela olhou para

Richard. — Você está com fome?

— Não — disse ele. — Sem fome. — Então olhou para Fleur. — Mas

acho que vou beber um copo de uísque.

Fleur sorriu.

— Vou pegar — disse ela, e foi para a sala de estar.

Richard olhou para Gillian.

— Gillian — disse ele, baixinho. — Você fazia alguma ideia de que isso

poderia acontecer? Você tinha notado que a Philippa estava tão infeliz

assim?

— Não — disse Gillian. — Eu não fazia ideia. — Ela mordeu o lábio.

— Mas, ao mesmo tempo, quando penso nisso, fico me perguntando se não era óbvio. Se eu deveria ter notado alguma coisa.

— Exatamente — disse Richard. — É exatamente assim que estou me

sentindo.

— Sinto que eu a deixei na mão — disse Gillian.

— Você não fez isso — disse Richard com firmeza. — Você não a

deixou na mão! Se alguém fez isso, foi a mãe dela.

— O quê? — Gillian olhou para ele com os olhos arregalados.

— Emily a deixou na mão! Emily era uma... — Ele se interrompeu, a

respiração pesada, e Gillian olhou para ele, desolada.

Por alguns instantes, nenhum deles disse nada.

— Eu sempre soube que havia um lado obscuro em Emily — disse

Richard. — Eu estava desesperado para descobrir mais sobre a

personalidade dela. — Ele ergueu o olhar triste. — E agora parece que a

Emily doce e inocente que eu conhecia era só... uma fachada! Eu não

conhecia a verdadeira Emily! Eu não ia querer conhecer a verdadeira

Emily!

— Ah, Richard. — Lágrimas marejaram os olhos de Gillian. — A

Emily não era só ruim, você sabe.

— Sei que não era. — Richard esfregou o rosto. — Mas sempre pensei

que ela fosse perfeita.

— Ninguém é perfeito — disse Gillian em voz baixa. — Ninguém no

mundo é perfeito.

— Eu sei — disse Richard. — Eu fui uma besta. Uma grande besta.

— Você não é uma besta — disse Gillian. Ela se levantou. — Vá beber

seu uísque. E esqueça a Emily. — Ela olhou fundo nos olhos dele. — Está

na hora de seguir com a vida.

— Sim — disse Richard lentamente. — Está, não está?

 

Fleur estava sentada no sofá na sala de estar, com dois copos de uísque ao

seu lado.

— Coitadinho de você — murmurou ela quando Richard entrou na sala.

— Que noite horrenda.

— Você não sabe da missa a metade — disse Richard. Ele pegou o copo

de uísque e bebeu tudo de uma vez. — Às vezes, Fleur, fico me

perguntando se ainda existem pessoas decentes no mundo.

— Como assim? — perguntou Fleur, levantando-se e voltando a encher

o copo dele. — Aconteceu alguma outra coisa hoje?

— É quase vil demais para contar — disse ele. — Você vai ficar

enojada quando souber.

— O que foi? — Ela se recostou no sofá e olhou para Richard, ansiosa.

Ele suspirou e tirou os sapatos.

— Mais cedo, eu encontrei Lambert no meu escritório, tentando forjar

uma carta minha para um de meus advogados. Ele está com dificuldades

financeiras, e acreditou que meu nome o ajudaria a tirar os credores da cola

dele. — Richard tomou mais um gole de uísque e balançou a cabeça. — A

história toda é deplorável.

— Ele está com sérios problemas financeiros?

— Receio que sim. — Richard franziu o cenho.

— Não me conte mais se não quiser — disse Fleur depressa.

Richard segurou a mão dela e sorriu delicadamente.

— Obrigado, querida, por ser tão sensível. Mas não tenho segredos com

você. Na verdade, é um alívio conversar com alguém sobre isso. — Ele

suspirou. — A Lambert foi dada a impressão por… por alguém... de que

Philippa logo teria acesso a muito dinheiro. E, baseado nisso, ele começou a

gastar muito mais do que podia.

— Ai, minha nossa — disse Fleur. Ela franziu a testa. — Foi por isso

que a Philippa...

— Não, a Philippa não sabe sobre o dinheiro. Mas eles brigaram.

Philippa ameaçou se separar do Lambert e as coisas ficaram bem feias.

Parece que vocês duas conversaram longamente sobre isso em Londres.

— Não tão longamente — disse Fleur, franzindo o cenho.

— Mesmo assim, ela achou seu conselho muito útil. Está desesperada

para ver você. — Richard acariciou os cabelos de Fleur. — Acho que ela

está começando a te ver como uma figura materna.

— Não tenho certeza disso — disse Fleur, dando uma risadinha.

— Quanto ao Lambert... — Richard deu de ombros. — Não faço ideia

se ele e Philippa conseguirão consertar as coisas ou se ele deveria fazer as

malas e ir embora.

— Fazer as malas e ir embora — disse Fleur, estremecendo. — Ele é

detestável.

— E desonesto — disse Richard. — Agora acho difícil acreditar que ele

não se casou com Philippa pelo dinheiro dela, para começo de conversa!

— Então ela é rica? — perguntou Fleur casualmente.

— Ela vai ser — disse Richard. — Quando completar trinta anos. —

Ele tomou mais um gole de uísque. — A ironia nisso é que eu só assinei os

papéis hoje cedo.

Por um momento, Fleur ficou parada, e então ergueu o olhar e

perguntou:

— Que papéis?

— Hoje cedo, eu transferi uma enorme quantidade de dinheiro para um

fundo fiduciário para o Antony e a Philippa. — Ele sorriu para ela. —

Cinco milhões para cada, na verdade.

Fleur encarou Richard por alguns segundos.

— Cinco milhões para cada — disse ela lentamente. — Que somados

dão dez milhões. — Ela fez uma pausa, parecendo ouvir o que dizia.

— Sei que parece ser muito dinheiro — disse ele. — Mas eu queria dar

independência financeira aos dois. E, ainda assim, viverei com muito

conforto.

— Você acabou de abrir mão desse dinheiro todo... — disse Fleur

baixinho. — Para os seus filhos.

— Eles ainda não sabem — disse Richard. — Mas sei que posso confiar

em você para guardar segredo.

— Claro — murmurou Fleur. Ela bebeu todo o líquido do copo e ergueu

o olhar. — Você poderia... acha que poderia me dar mais um copo, por

favor?

Richard se levantou, encheu o copo de Fleur de novo com o líquido

âmbar e voltou para perto dela. De repente, parou.

— Fleur, o que estou esperando? — perguntou ele. — Há muito tempo

venho querendo te perguntar uma coisa. Sei que a noite foi difícil, mas

talvez... talvez isso me dê mais motivo para fazer o que pretendo fazer.

Ajoelhando-se no carpete, ainda segurando o copo de uísque, Richard

ergueu o olhar para Fleur.

— Fleur — disse ele, a voz embargada. — Fleur, minha querida, você

quer se casar comigo?