A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 2 de 19

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A Rainha dos Funerais

Dois

 

“O dia que Tu nos deste, Senhor, chegou ao fim”, cantou Fleur. Ela se

forçou a olhar para baixo, para o folheto de cânticos, e fingir que lia a letra.

Como se não a soubesse de cor e salteado; como se não a tivesse cantado

em tantos funerais e missas fúnebres que já tinha até perdido a conta. Por

que as pessoas escolhiam sempre os cânticos mais tenebrosos para essas

ocasiões?, ela se perguntou. Será que elas não se davam conta de que isso

tornava as coisas bem entediantes para os penetras de funerais?

A primeira vez que Fleur entrou de penetra num funeral foi sem querer.

Ao seguir por uma ruazinha secundária em Kensington, numa manhã

qualquer, se perguntando se conseguiria um emprego numa galeria de arte

chique, ela viu um grupo de pessoas vestidas com roupas elegantes na

calçada diante de uma pequena, mas distinta, igreja católica. Um tanto

curiosa, ela diminuiu o passo ao chegar a elas; diminuiu o passo e, então,

parou. Permaneceu em pé, meio fora e meio dentro do grupo, e escutou o

máximo de conversas que conseguiu. Aos poucos, ao ouvir papos sobre

inventários, diamantes de família e ilhas escocesas, percebeu que aquelas

pessoas tinham dinheiro. Muito dinheiro.

Então, de repente, a garoa se transformou em chuva forte, e as pessoas

na calçada abriram vinte e cinco guarda-chuvas ao mesmo tempo, como um

bando de graúnas batendo em revoada. Pareceu totalmente natural, para

Fleur, escolher um senhor com cara de bonzinho, olhar nos olhos dele de

modo tímido, e então se abrigar sob seu guarda-chuva preto de seda da

marca Swaine Adeney Brigg, com um sorriso grato. Não dava para

conversar direito, por causa da chuva, do barulho e dos carros que

passavam, por isso eles só sorriram e assentiram com a cabeça. Quando o

coral acabou o ensaio e as portas da igreja se abriram, os dois pareciam velhos amigos. Ele a levou para dentro da igreja, entregou a ela um folheto

da missa e os dois se sentaram juntos perto do fundo.

— Eu não conhecia o Benjy muito bem — disse o senhor, quando eles

se sentaram. — Mas ele era um grande amigo da minha falecida esposa.

— Ele era amigo do meu pai — respondeu Fleur, olhando para o folheto

da missa e rapidamente memorizando o nome “Benjamin Saint John

Gregory”. — Eu não o conhecia. Mas é de bom tom prestar minha

homenagem.

— Concordo — disse o velho, sorrindo para ela e estendendo a mão. —

Agora, permita que eu me apresente. Meu nome é Maurice Snowfield.

Maurice Snowfield durou três meses. Ele não era tão rico quanto Fleur

havia imaginado, e seu jeito delicado e distraído quase a enlouqueceu. Mas,

quando ela saiu da casa dele em Wiltshire, tinha dinheiro suficiente para

pagar adiantado dois semestres da escola de sua filha, Zara, e um guarda-

roupa novinho em folha de tailleurs pretos.

— “...até todas as Tuas criaturas ganharem o céu”. — Ouviu-se um

ruído de papéis pela igreja quando todos fecharam o folheto de cânticos,

sentaram-se e recorreram ao folheto da missa.

Fleur aproveitou a deixa para abrir a bolsa e olhar de novo o bilhetinho

que Johnny havia enviado a ela, preso por um clipe a um recorte do

obituário do jornal. O anúncio era da missa em homenagem a Emily Favour

na igreja de Saint Anselm, no dia 20 de abril. “Uma bela oportunidade”,

Johnny havia anotado. “Richard Favour é muito rico, muito reservado.”

Fleur observou atentamente o banco da frente. Viu o homem de rosto

borrachento, que havia feito a primeira leitura, e, ao lado dele, uma mulher

de cabelo loiro-escuro com um chapéu horroroso. Em seguida, viu um

adolescente e uma mulher mais velha com um chapéu ainda mais

abominável... Os olhos de Fleur passearam depressa e então pararam. Na

outra ponta do banco havia um homem grisalho e reservado. Ele estava

inclinado para a frente, os ombros curvados, a cabeça encostada no painel

de madeira diante dele.

Ela o avaliou por alguns segundos. Não, ele não estava fingindo —

havia amado mesmo a esposa. Sentia falta dela. E, a julgar pela linguagem

corporal, não falava com a família sobre o assunto.

Isso tornava as coisas mais fáceis. Os pesarosos de verdade eram os

alvos mais vulneráveis — homens que não conseguiam conceber a ideia de

que voltariam a se apaixonar; que juravam permanecer fiéis à esposa falecida. Pela experiência de Fleur, isso significava que, ao se apaixonarem

por ela, tornavam-se convictos de que era amor de verdade.

 

Haviam perguntado a Richard se ele gostaria de fazer o discurso fúnebre.

— Você deve estar acostumado a falar em público — tinha dito o

vigário. — Palestras de negócios. Isso é mais ou menos a mesma coisa: só a

descrição da personalidade de sua esposa, talvez uma ou outra história,

menção às instituições de caridade com as quais ela estava envolvida,

qualquer coisa que faça a congregação se lembrar de quem era a verdadeira

Emily... — Ele havia parado de falar ao ver a expressão repentinamente

triste de Richard, e acrescentado, com delicadeza: — Não se sinta obrigado

a isso... se achar que vai ser muito difícil para você.

E Richard havia assentido.

— Acho que vai ser muito difícil para mim — murmurara ele.

— É compreensível — dissera o vigário depressa. — Você não está

sozinho.

Mas ele estava sozinho, sim, pensou Richard. Estava sozinho em sua

tristeza; isolado na constatação de que sua esposa havia morrido e que

ninguém além dele perceberia quão pouco ele a conhecia. A solidão que ele

havia sentido ao longo da vida conjugal parecia agora insuportavelmente

pior; destilada em uma amargura que não era muito diferente de raiva. A

verdadeira Emily!, ele sentiu vontade de gritar. O que eu conheci da

verdadeira Emily?

Sendo assim, a responsabilidade pelo discurso fúnebre passou

diretamente ao velho amigo da família, Alec Kershaw. Richard se

endireitou no banco quando Alec se aproximou do púlpito, juntou os cartões

brancos à sua frente e olhou para a congregação por cima dos óculos meia-

lua sem aros.

— Emily Favour era uma mulher corajosa, charmosa e generosa —

começou ele, de modo formal, projetando a voz. — Seu senso de dever só

se igualava ao seu senso de compaixão e à sua devoção em ajudar os outros.

Alec fez uma pausa e olhou para Richard. Quando viu a expressão de

Alec, Richard foi atingido por um raio de revelação. Alec também não

havia conhecido Emily de verdade. Aquelas eram palavras vazias, genéricas

— feitas para cumprir um dever, não para dizer a verdade.

Richard começou a se sentir ridiculamente alarmado — uma sensação

de pânico, quase. Assim que o discurso fúnebre fosse ouvido, assim que a missa terminasse e as pessoas saíssem da igreja, tudo estaria acabado.

Aquela seria para sempre a versão oficial da personalidade de Emily

Favour. Fim da história; caso encerrado; nada mais a descobrir. Será que ele

aguentaria? Será que toleraria viver com o fato de a avaliação final de sua

esposa não passar de uma série de clichés bem intencionados?

 

— Seu trabalho de caridade era incomparável, principalmente o trabalho

que realizava com o Rainbow Fund e com o Lar de Idosos Saint Bride.

Acho que muitos de nós nos lembraremos do primeiro leilão de Natal do

Clube de Golfe Greyworth, um evento que se tornou fixo em nosso

calendário.

Fleur sentiu que estava prestes a bocejar. Será que aquele homem não

pararia de falar nunca mais?

— E, claro, falar do Clube de Golfe Greyworth nos leva a outro aspecto

muito importante da vida de Emily Favour. O que alguns podem descrever

como um passatempo... um jogo. Obviamente, o restante de nós sabe que

esse é um assunto muito sério.

Vários membros da congregação deram uma risadinha contida, e Fleur

ergueu o olhar. Sobre o que ele estava falando?

— Quando se casou com Richard, Emily teve a opção de se colocar no

papel de “viúva” de jogador de golfe ou no de parceira de golfe. E ela se

tornou parceira de golfe. Apesar de seus problemas de saúde, ela

desenvolveu uma maneira muito firme e invejável de jogar, como podemos

atestar todos os que fomos testemunhas de seu belo desempenho no

Quarteto das Damas.

“Viúva” de jogador de golfe ou parceira de golfe, pensou Fleur. Viúva

ou parceira. Bem, essa era fácil — a viúva sempre vence.

 

Depois da missa, Richard foi até a porta da igreja, como o vigário havia

sugerido, para cumprimentar amigos e familiares. “As pessoas gostam de

prestar condolências pessoalmente”, dissera o vigário. Agora Richard se

perguntava se isso de fato era verdade. A maioria das pessoas passava por

ele lançando frases de condolências apressadas e difíceis de entender, como

se rogassem pragas. Algumas paravam, olhavam diretamente em seus olhos,

apertavam sua mão; até o abraçavam. Mas essas eram, com frequência

surpreendente, as pessoas que ele mal conhecia: os representantes de empresas de advocacia e bancos privados; as esposas de conhecidos do

mundo dos negócios.

— Vamos ao Lanesborough — dizia Lambert de modo pomposo do

lado de fora. — Drinques no Lanesborough.

Uma mulher elegante com cabelos avermelhados parou diante de

Richard e estendeu a mão branca como neve. Cansado de apertar mãos,

Richard a segurou.

— A verdade — disse a mulher, como se continuasse uma conversa já

iniciada — é que a solidão não vai durar para sempre.

Richard se sobressaltou de leve, e sentiu as pálpebras pesadas de sua

mente se abrirem de supetão.

— O que você disse? — começou ele. Mas a mulher já havia sumido.

Richard virou-se para o filho de quinze anos, Antony, de pé ao lado dele. —

Quem era aquela? — perguntou.

Antony deu de ombros.

— Sei lá. Lambert e Philippa estavam falando dela. Acho que deve ter

conhecido a mamãe na escola.

— Como ela sabia... — Richard começou e parou. Ele pretendia dizer:

“Como ela sabia que eu me sinto solitário?” Mas, em vez disso, virou-se,

sorriu para Antony e falou: — Você leu muito bem.

Antony deu de ombros.

— Pode ser, sei lá.

No movimento inconsciente que ele repetia a cada três minutos, mais ou

menos, Antony levou a mão ao rosto e coçou a sobrancelha; e, por alguns

instantes, a marca de nascença vermelho-escura que havia sobre seu olho,

parecendo um pequeno lagarto, foi mascarada. A cada três minutos de sua

vida, mesmo sem se dar conta, Antony escondia a marca de nascença da

vista das pessoas. Até onde Richard sabia, nunca haviam zombado dele, ou

implicado com ele, por causa da marca; em casa, pelo menos, todo mundo

sempre havia se comportado como se ela não existisse. Mesmo assim, a

mão de Antony subia até o rosto com uma regularidade quase desesperada,

e, às vezes, permanecia ali por mais tempo, horas e horas, protegendo dos

olhos curiosos dos outros, como um anjo da guarda atento, o pequeno

lagarto vermelho.

— Bem — disse Richard.

— Bem — disse Antony.

— Acho melhor irmos.

— É.

E foi isso. Assunto encerrado. Quando ele havia parado de conversar

com Antony?, Richard se perguntou. Como aqueles solilóquios adoráveis e

sem reservas dirigidos a seu filho acabaram se tornando, com o passar dos

anos, um bate-papo superficial e em público como esse?

— Certo — disse Richard. — Bem, vamos, então.

 

O Salão Belgravia do hotel cinco estrelas Lanesborough estava quase cheio

quando Fleur chegou. Ela aceitou uma taça de buck’s fizz de um garçom

australiano com a pele queimada de sol e seguiu diretamente para Richard

Favour. Quando se aproximou, mudou a trajetória de leve, como se fosse

passar por ele.

— Com licença. — A voz de Richard soou às costas de Fleur, e ela

sentiu uma pontada de triunfo. Às vezes, chegava a passar meia hora

andando de um lado para o outro até que seu alvo fosse falar com ela.

Fleur se virou o mais rápido que pôde sem parecer muito ávida, e abriu

para Richard Favour o sorriso mais largo e caloroso que conseguiu. Ela já

havia concluído que bancar a difícil com viúvos era perda de tempo. A

alguns faltava energia para a caçada; a outros faltava confiança; alguns

começavam a ficar desconfiados durante o processo de conquista em si. Era

melhor entrar de vez na vida deles; tornar-se parte do status quo o mais

rápido possível.

— Oi de novo — disse Fleur.

Ela tomou um gole da bebida e esperou que ele falasse. Se algum

integrante curioso da família os estivesse observando, veria que ele havia

puxado conversa com ela, não o contrário.

— Queria lhe agradecer por suas doces palavras — disse Richard. —

Você falou como se soubesse como é passar por isso.

Fleur lançou um olhar terno para a bebida em sua mão por alguns

instantes, decidindo que história escolher. Por fim, ergueu o olhar e abriu

um sorriso corajoso.

— Eu sei. Já passei por isso. Há um tempinho.

— E sobreviveu.

— Sobrevivi — repetiu ela. — Mas não foi fácil. É difícil saber com

quem conversar. Em geral, os familiares são próximos demais.

— Ou de menos — disse Richard, pensando, entristecido, em Antony.

— Exatamente — disse Fleur. — Não são próximos o suficiente para

entender direito pelo que estamos passando; não são próximos o suficiente

para... para compartilhar o luto. — Ela tomou mais um gole da bebida e

olhou para Richard. De repente, ele parecia desolado.

Droga, pensou ela. Será que fui longe demais?

— Richard? — Fleur ergueu o olhar. O homem de rosto borrachento

avançava sobre eles. — Derek Cowley acabou de chegar. Você se lembra...

Ele é o diretor de software da Graylows.

— Eu o vi na igreja — disse Richard. — Quem o convidou, pelo amor

de Deus?

— Eu o convidei — disse Lambert. — Ele é um contato importante.

— Entendi. — O rosto de Richard ficou tenso.

— Conversei com ele — continuou Lambert —, mas ele quer falar com

você também. Pode trocar uma palavrinha com o Derek? Ainda não

mencionei nada sobre o contrato... — Ele fez uma pausa, como se

percebesse a presença de Fleur pela primeira vez.

Já entendi tudo, pensou Fleur, estreitando os olhos. As mulheres não

têm nenhuma importância para ele.

— Ah, oi — disse Lambert. — Perdão, como é mesmo o seu nome?

— Fleur — respondeu ela. — Fleur Daxeny.

— Certo. E você é... o quê? Amiga da Emily da época de escola?

— Ah, não. — Fleur sorriu graciosamente.

— Imaginei que fosse um pouco jovem para isso — disse Lambert. —

Então, como conheceu Emily?

— Bem, é uma história interessante — disse Fleur, e tomou mais um

gole da bebida, pensativa.

Era surpreendente como tomar um gole de bebida ou comer um petisco

tinha o poder de adiar a resposta de uma pergunta complicada. Com

bastante frequência, durante esse silêncio, alguém que passava via que a

conversa havia parado temporariamente e, assim, aproveitava a

oportunidade para se juntar ao grupo — e a resposta dela era

convenientemente esquecida.

Mas, hoje, ninguém a interrompeu, e Lambert ainda olhava para ela

com intensa curiosidade.

— É interessante — disse Fleur mais uma vez, olhando para Richard.

— Só vi sua esposa duas vezes. Mas, nas duas ocasiões, ela me causou

grande impacto.

— Onde vocês se conheceram? — perguntou Lambert.

— Em um almoço — disse Fleur. — Um almoço de um grande evento

de caridade. Estávamos sentadas à mesma mesa. Eu reclamei da comida, e

Emily disse que concordava comigo, mas que não era o tipo de pessoa que

reclamava. E, então, começamos a conversar.

— Sobre o que vocês conversaram? — Richard olhou para Fleur.

— Sobre tudo — disse Fleur. Ela olhou para Richard; notou a ânsia em

seu olhar. — Eu confidenciei várias coisas a ela — disse devagar, baixando

o volume da voz para fazer com que Richard, inconscientemente, se

inclinasse para a frente. — E ela me confidenciou coisas também.

Conversamos sobre nossas vidas... e famílias... e as escolhas que fizemos...

— O que ela disse? — A pergunta de Richard saiu de repente, sem que

ele conseguisse se controlar.

Fleur deu de ombros.

— Faz muito tempo. Nem sei se me lembro direito. — Ela sorriu. —

Não foi nada de mais, na verdade. Acho que Emily já devia ter se esquecido

de mim há muito tempo. Mas eu... eu sempre me lembrava dela. E quando

vi o anúncio da missa, não pude deixar de vir. — Fleur olhou para baixo. —

Foi meio presunçoso de minha parte. Espero que não se incomode.

— Claro que não me incomodo — disse Richard. — Qualquer amiga da

Emily é totalmente bem-vinda.

— Engraçado ela nunca ter falado de você — disse Lambert,

encarando-a com um olhar crítico.

— Eu ficaria surpresa se ela tivesse falado de mim — respondeu Fleur,

sorrindo para ele. — Não foi nada importante, mesmo. Umas duas longas

conversas, muitos anos atrás.

— Queria... queria saber o que ela disse a você. — Richard deu uma

risadinha constrangida. — Mas se você não se lembra...

— Eu me lembro de algumas partes. — Fleur sorriu de modo sedutor

para ele. — Pedacinhos. Algumas das coisas que ela disse foram bem

surpreendentes. E outras foram bem... pessoais. — Ela fez uma pausa e

olhou para Lambert de canto de olho.

— Lambert, vá conversar com Derek Cowley — disse Richard, de

repente. — Pode ser que eu fale com ele mais tarde. Mas, agora, eu... eu

gostaria de conversar um pouco mais com a Sra. Daxeny.

Quinze minutos depois, Fleur saiu do Lanesborough e entrou num táxi. No

bolso, levava o número de telefone de Richard Favour, e, na agenda, um

almoço com ele marcado para o dia seguinte.

Tinha sido muito fácil. Ficou bem claro que o coitado estava

desesperado para ouvir o que ela tinha a dizer sobre a esposa — mas foi

educado demais para interrompê-la quando ela mudou para outros assuntos,

como quem não quer nada. Ela o alimentou com algumas frases inócuas, e,

então, de repente, olhou para o relógio e exclamou que precisava partir. Ele

pareceu desanimado e, por alguns segundos, passou a impressão de que

estava resignado com o fato de terminarem a conversa ali. Porém, quando

Fleur já estava quase desistindo dele, Richard pegou a agenda e, com a voz

um tanto vacilante, perguntou se Fleur gostaria de almoçar com ele. Fleur

suspeitou que marcar almoços com mulheres desconhecidas não era algo

que Richard Favour fazia com muita frequência. O que, por ela, tudo bem.

Quando o táxi parou diante do prédio em Chelsea onde moravam

Johnny e Felix, ela havia anotado em uma folha de papel todos os fatos de

que conseguia se lembrar a respeito de Emily Favour. “Saúde debilitada”,

ela sublinhou. “Golfe”, sublinhou duas vezes. Era uma pena que não tivesse

nenhuma noção da aparência de Emily. Uma fotografia teria sido útil. Mas,

na verdade, não pretendia falar de Emily Favour por muito tempo. Pela sua

experiência, o melhor era deixar as esposas falecidas descansarem.

Ao sair do táxi, ela viu Johnny na calçada em frente ao prédio histórico

de tijolos vermelhos, observando atentamente enquanto algo era

descarregado de uma van. Johnny era um homem elegante de quase

sessenta anos, os cabelos castanho-escuros e a pele permanentemente

queimada de sol. Fleur o conhecia há vinte anos; ele era a única pessoa para

quem ela nunca havia mentido.

— Querido! — gritou Fleur. — Johnn-ee! Você recebeu minha

bagagem?

Ele se virou ao ouvir seu nome sendo chamado, franzindo o cenho de

modo petulante por causa da interrupção. Mas, quando viu que era Fleur, a

cara feia desapareceu.

— Querida! — exclamou ele. — Venha ver uma coisa.

— O quê?

— Nosso novo epergne. Felix o comprou num leilão ontem. Uma

bagatela, na nossa opinião. Cuidado! — disse ele, de repente. — Não deixe

cair!

— Felix está em casa?

— Está. Suba. Eu disse para tomar cuidado, seu idiota!

Enquanto subia a escada em direção ao primeiro andar do prédio, Fleur

ouviu Wagner, alto e persistente, vindo do apartamento de Johnny; quando

entrou, o volume pareceu ficar duas vezes mais alto.

— Felix! — gritou ela. Mas ele não a ouviu.

Fleur adentrou a sala de estar e encontrou Felix diante do espelho, um

homem de meia-idade atarracado, acompanhando a personagem Brunilda

em seu canto operístico de soprano, num falsete agudo.

Da primeira vez que Fleur ouviu a voz de flauta de Felix, suspeitou que

houvesse algo muito errado com ele. Mas logo descobriu que ele ganhava a

vida com aquele som peculiar, cantando em corais de igrejas e catedrais. Às

vezes, ela e Johnny iam à Catedral de Saint Paul ou à Abadia de

Westminster para ouvir Felix cantar nas missas noturnas, e o viam se

movimentando solenemente em sua beca branca. Com menor frequência,

iam vê-lo de fraque, cantando numa apresentação do Messias, de Händel,

ou da Paixão Segundo São Mateus, de Bach.

Fleur não gostava do som da voz de Felix, e considerava o oratório

Paixão Segundo São Mateus uma peça musical sem graça. Mas ela sempre

se sentava na primeira fileira e aplaudia vigorosamente, acompanhando

Johnny nos gritos de “Bravo!”, porque devia muito a Felix. Sobre as missas

fúnebres, ela podia descobrir lendo o jornal — mas era Felix quem sempre

tinha informações sobre os funerais. Quando não cantava em um deles,

sabia quem cantaria. E era sempre nos funerais mais íntimos e menores que

Fleur costumava obter mais sucesso.

Quando Felix viu o reflexo dela, sobressaltou-se e parou de cantar.

— Não é para o meu tipo de voz — gritou ele acima da música. — Um

pouco grave para mim. Como foi a missa fúnebre?

— Foi boa! — gritou Fleur. Ela se aproximou do CD player e diminuiu

o volume. — Boa — repetiu. — Promissora. Vou almoçar com o Sr. Favour

amanhã.

— Ah, muito bem! — disse Felix. — Eu ia te contar sobre um funeral

que vamos fazer amanhã. Bem bacana; pediram para cantarmos “Hear My

Prayer”, do Mendelssohn. Mas se você já tem compromisso…

— Melhor me contar mesmo assim — disse Fleur. — Não estou

totalmente convencida a respeito dessa família Favour. Não sei se o

dinheiro ali é tão abundante como parece.

— Ah, sério?

— Uns chapéus horrorosos.

— Hum. Chapéus não são tudo.

— Não.

— O que o Johnny disse sobre eles?

— O que o Johnny disse sobre quem? — Ouviram a voz alta de Johnny

entrando pela porta. — Cuidado, seu imbecil! Aqui dentro. Isso. Em cima

da mesa.

Um homem de macacão entrou na sala e colocou um objeto grande na

mesa, enrolado em papel pardo.

— Quero ver! — exclamou Johnny.

Ele começou a rasgar o papel em tiras.

— Um candelabro — disse Fleur. — Que lindo.

— É um epergne — corrigiu Johnny. — Um centro de mesa. Não é

lindo?

— Muito sagaz de minha parte, encontrar uma peça tão incrível dessas

— falou Felix.

— Aposto que custou uma fortuna — disse Fleur, amuada. — Você

poderia ter dado o dinheiro para uma boa causa, não poderia?

— Uma boa causa como você? Nada disso. — Johnny pegou um lenço

e começou a polir o centro de mesa. — Se quer dinheiro tanto assim, por

que abandonou o adorável Sakis?

— Ele não era adorável. Era um valentão arrogante. Ele me dava ordens

e gritava comigo...

— ...e comprava tailleurs Givenchy para você.

— Eu sei — disse Fleur, arrependida. — Mas eu não conseguiria

aguentá-lo nem mais um segundo. Além disso, Sakis não me deu, e nem

nunca ia me dar, um cartão de crédito Gold. — Ela deu de ombros. — Era

só perda de tempo.

— O motivo que leva qualquer um desses homens a te dar um cartão de

crédito vai muito além da minha compreensão — disse Felix.

— Entendo — disse Fleur. — Você não faria o mesmo, não é?

— Touché — disse Felix, fazendo graça.

— Mas você saiu no lucro com ele, não saiu? — perguntou Johnny.

— Mais ou menos. Saquei alguma coisa. Mas não o suficiente. — Fleur

suspirou e acendeu um cigarro. — Que merda.

— Ponha agora mesmo uma libra esterlina na caixinha do palavrão,

senhora, muito obrigado — disse Felix, sem titubear.

Fleur revirou os olhos e enfiou a mão na bolsa para pegar a carteira.

Ergueu o olhar.

— Tem troco para uma nota de cinquenta libras?

— Provavelmente — disse Felix. — Deixe-me olhar na caixa.

— Sabe de uma coisa, Fleur? — perguntou Johnny, ainda polindo o

centro de mesa. — Seu “mais ou menos” provavelmente se somou a uma

quantia que muitas pessoas chamariam de fortuna.

— Não chamariam, não — disse Fleur.

— Quanto você já tem nas suas economias?

— Não o suficiente.

— E quanto é suficiente?

— Ah, Johnny, pare de me interrogar! — disse Fleur, irritada. — É tudo

culpa sua. Você me disse que com Sakis seria moleza.

— Eu não disse nada disso. Só disse que, de acordo com minhas fontes,

ele era multimilionário e emocionalmente vulnerável. O que acabou sendo a

mais pura verdade.

— Ele vai ficar ainda mais vulnerável hoje à noite quando se der conta

de que você deu o fora — disse Felix, colocando a nota de cinquenta libras

de Fleur em uma lata grande, decorada com querubins cor-de-rosa.

— Não comece a sentir pena dele! — exclamou Fleur.

— Ah, eu não sinto! Qualquer homem que se deixa enganar por você

merece tudo o que recebe em troca.

Fleur suspirou.

— Eu me diverti no iate dele, pelo menos. — Ela soprou uma nuvem de

fumaça. — É uma pena, mesmo.

— Uma grande pena — disse Johnny, dando um passo atrás para

admirar o epergne. — Agora, acho que precisamos encontrar outro homem

para você.

— E não precisa esperar outro grego rico — disse Felix. — Não

costumo ser chamado para cantar em cerimônias ortodoxas com frequência.

— Você foi à missa da Emily Favour?

— Fui, sim — disse Fleur, batendo as cinzas de seu cigarro. — Mas não

fiquei impressionada. Será que eles têm dinheiro mesmo?

— Têm, sim — disse Johnny, erguendo o olhar. — Pelo menos,

deveriam ter. Meu amigo do Rouchets me contou que Richard Favour tem uma fortuna de milhões. E ainda há a empresa da família. Devem ter muito

dinheiro.

— Bem, vou almoçar com ele amanhã. Vou tentar descobrir.

Fleur se aproximou da cornija da lareira e começou a mexer nos cartões

decorados endereçados a Johnny e a Felix.

— Olha, talvez você devesse diminuir um pouco suas expectativas —

sugeriu Felix. — E se contentar com um milionário velho e comum de vez

em quando.

— Nada disso. Com um milhão não se vai a lugar nenhum hoje em dia

— disse Fleur. — Nenhum! Você sabe disso tão bem quanto eu. E eu

preciso de segurança financeira. — Ela olhou para um porta-retratos

prateado com a foto de uma menininha de cabelos loiros e sedosos, com a

luz do sol parecendo uma auréola acima de sua cabeça. — Zara precisa de

segurança financeira — acrescentou.

— A querida Zara — disse Johnny. — Há algum tempo não temos

notícias dela. Como está sua menina?

— Bem — disse Fleur, vagamente. — Na escola.

— A propósito — disse Johnny, olhando para Felix. — Você contou

para ela?

— O quê? Ah, aquilo? Não — disse Felix.

— O que foi? — perguntou Fleur, desconfiada.

— Alguém ligou para cá na semana passada.

— Quem?

— Hal Winters.

Os três ficaram em silêncio por um instante.

— O que ele queria? — perguntou Fleur, por fim.

— Você. Ele queria entrar em contato com você.

— E vocês disseram a ele...

— Nada. Dissemos que não sabíamos onde você estava.

— Ótimo. — Fleur soltou o ar devagar.

Ela encarou Johnny e rapidamente desviou o olhar.

— Fleur — disse Johnny, sério —, você não acha que deveria ligar para

ele?

— Não — disse Fleur.

— Bem, eu acho.

— Bem, eu não acho! Johnny, eu já disse isso antes. Nós não falamos

sobre ele.

— Mas...

— Você entendeu? — exclamou ela, irada. — Nós não falamos sobre

ele!

E, antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, ela pegou a bolsa,

jogou os cabelos para trás e saiu depressa da sala.