A Rainha dos Funerais
Seis
Para espanto de Fleur, quatro semanas já haviam se passado. O sol de julho
invadia o solário todas as manhãs, Antony estava em casa de férias da
escola e os antebraços de Richard ficavam a cada dia mais queimados de
sol. A conversa no clube só girava em torno de viagens, casas de campo e
governantas.
Fleur agora era figurinha fácil na sede do clube. Pela manhã, depois de
Richard ter saído para o trabalho, Gillian e ela haviam adotado a rotina de
caminhar até a academia de ginástica de Greyworth — cujo título
temporário de sócia Richard havia comprado para Fleur. Elas nadavam um
pouco, ficavam na jacuzzi por um tempo, bebiam um copo de suco de
maracujá batido na hora e caminhavam de volta para casa. Era uma rotina
agradável e tranquila, da qual até Gillian parecia gostar agora — apesar da
resistência inicial. A primeira tentativa de Fleur de convencer Gillian a
acompanhá-la tinha sido quase infrutífera, e Fleur só obteve sucesso após
apelar para o senso de dever de Gillian como anfitriã. Pelo que parecia,
grande parte da vida de Gillian era governada por um senso de dever — um
conceito totalmente estranho a Fleur.
Ela tomou um gole de café e fechou os olhos, sentindo o sol no rosto. O
café da manhã havia terminado, e ela estava sozinha no solário. Richard
havia ido a uma reunião com seu advogado; voltaria mais tarde para uma
partida de golfe com Lambert e um ou outro contato de trabalho. Antony
estava fora de casa em algum lugar fazendo, ela supunha, coisas de
adolescente. Gillian estava no andar de cima supervisionando a faxineira.
Supervisão — outro conceito totalmente estranho para Fleur. Ou uma
pessoa realizava ela mesma uma tarefa, pensava Fleur, ou deixava que outro
a fizesse, sem nem tomar ciência. Mas a verdade é que ela sempre tinha
sido preguiçosa. E estava se tornando ainda mais. Preguiçosa demais.
Uma pontada de autocensura a atingiu. Ela vinha morando na casa de
Richard Favour há quatro semanas. Quatro semanas! E o que havia
conseguido durante esse tempo? Nada. Depois da tentativa inicial no
escritório dele, havia comodamente permitido que o assunto “dinheiro”
saísse de sua cabeça; deixou-se levar por uma vida tranquila e ensolarada na
qual um dia se fundia ao outro e, de repente, estava quatro semanas mais
velha. Quatro semanas mais velha e nem um centavo mais rica. Ela sequer
havia chegado perto do escritório dele de novo. Até onde Fleur sabia, ele
estava destrancado e cheio de barras de ouro.
— Um centavo por seus pensamentos — disse Gillian, aparecendo na
porta no solário.
— Meus pensamentos valem mais que um centavo — respondeu Fleur,
animadamente. — Muito mais.
Fleur olhou para a roupa de Gillian com uma expressão zombeteira.
Gillian usava um vestido cor de laranja com uma gola espalhafatosa e, por
cima dela, a echarpe azul. Não passava um dia sem que Gillian usasse
aquela echarpe, sempre do jeito exato como Fleur havia mostrado —
independentemente da roupa que estivesse usando. Fleur supôs que deveria
se sentir lisonjeada, mas, em vez disso, estava começando a se irritar. Ela se
perguntava se a única saída seria dar à mulher uma echarpe de cada cor.
— Melhor irmos daqui a pouco — disse Gillian. — Não sei o que
manda a etiqueta. Talvez todo mundo chegue depois da hora marcada.
Elegantemente atrasado. — Ela arriscou uma risadinha.
— Esse conceito de “atraso elegante” está fora de moda — disse Fleur,
meio blasé. — Embora, supostamente, ainda possa estar na moda em
Surrey.
Hoje à tarde, ela pensou. Tentaria de novo essa tarde. Talvez enquanto
Richard estivesse no campo de golfe. Poderia manter Gillian na cozinha
sugerindo que fizesse um bolo. E talvez conseguisse um motivo para pegar
emprestada a chave de Richard. Fleur entraria e sairia antes que qualquer
um sequer se perguntasse onde ela estava.
— Não sei quem vai estar lá — dizia Gillian. — Nunca fui a esse tipo
de evento antes.
Gillian estava estranhamente falante, pensou Fleur. Ela ergueu o olhar e
Gillian a encarou com uma expressão de súplica. Meu Deus, ela está
nervosa, pensou Fleur. Sou eu a impostora aqui e é ela quem está nervosa.
As duas estavam prestes a ir até a casa de Eleanor Forrester para um
brunch e para olhar as bijuterias que Eleanor vendia com entusiasmo
sempre que tinha chance. Aparentemente, Gillian nunca tinha ido a uma das
manhãs de brunch de Eleanor. Lendo nas entrelinhas, pensou Fleur, Gillian
nunca tinha sido convidada antes.
Ao ser convidada por Eleanor, a primeira coisa que passara pela cabeça
de Fleur tinha sido recusar o convite. Mas ela vira o sorriso de satisfação de
Richard, e se lembrara de seu próprio princípio orientador. Se um homem
sorrir, faça mais uma vez; se ele sorrir de novo, não pare.
— Claro — dissera ela, lançando um olhar para o rosto sério de Gillian.
— Nós adoraríamos ir, não é mesmo, Gillian? — Depois disso, ela não
soube de qual dessas duas coisas desfrutar mais: a expressão constrangida
no rosto de Gillian ou a desconcertada no de Eleanor Forrester.
Gillian alternava o peso entre um pé e o outro e enrolava a ponta da
echarpe em dedos ansiosos. Ainda que fosse só para proteger a integridade
da echarpe, Fleur se levantou.
— Certo — disse ela. — Vamos ver as bugigangas dessa mulher.
O jardim de Eleanor era grande e em ligeiro declive, contendo
caramanchões, pérgolas e bancos de ferro forjado. Duas mesas de cavaletes
tinham sido montadas no gramado: uma coberta de comida; a outra, de
bijuterias.
— Tomem uns buck’s fizz! — exclamou Eleanor quando elas chegaram.
— Não preciso perguntar se estão dirigindo, não é mesmo? Vocês souberam
do coitado do James Morrell? — acrescentou ela, falando mais baixo. —
Banido por um ano. A esposa dele está furiosa. Agora, vão e sentem-se.
Muitas das meninas já estão aqui.
As “meninas” tinham entre trinta e cinco e sessenta e cinco anos. Eram
todas queimadas de sol, estavam em boa forma física e eram muito
animadas. Muitas usavam roupas coloridas com o que pareciam ser
bordados extremamente caros. Pequenos jogadores de tênis eram sacudidos
acima de seios; jogadores de golfe em miniatura dançavam para cima e para
baixo em braços, dando intermináveis tacadas em bolinhas de golfe feitas
de contas.
— Não são uma graça? — disse uma mulher ao perceber o olhar de
Fleur. — A Foxy é quem vende essas roupas! Tem camisas polo, calças, tudo, na verdade. Foxy Harris. Tenho certeza de que ela vai te contar tudo
sobre elas assim que chegar.
— Decerto que sim — murmurou Fleur.
— Emily tinha uma bela coleção de roupas da Foxy — disse outra
mulher, vestida de rosa-choque da cabeça aos pés. — Emily sempre ficava
linda com elas!
Fleur não disse nada.
— Você era amiga da Emily, Fleur? — perguntou a mulher de rosa-
choque.
— Não exatamente — disse Fleur.
— Não. Imaginei que não pudesse ter sido — disse a mulher. — Acho
que eu a conhecia melhor do que todo mundo aqui. Ela teria falado de mim.
Tricia Tilling.
Fleur fez um gesto vago com a mão.
— Todos sentimos saudade dela — disse Tricia. Ela fez uma pausa
como se estivesse perdida em lembranças. — E, claro, Richard era devotado
a ela. Eu costumava pensar que nunca veria um casal tão apaixonado quanto
Richard e Emily Favour. — Fleur estava ciente de Gillian se remexendo de
modo estranho ao lado dela. — Eles nasceram um para o outro —
continuou Tricia. — Como... gin e tônica.
— Que bela comparação — disse Fleur.
Os olhos de Tricia encontraram os dela de forma avaliadora.
— Que relógio lindo, Fleur — disse ela. — Richard o comprou para
você? — Ela deu uma risadinha. — George está sempre me comprando
coisinhas aqui e ali.
— É mesmo? — perguntou Fleur. Ela tocou o relógio indolentemente e
não disse mais nada. Pelo canto do olho, percebeu a cara de satisfação de
Tricia.
— Então — disse Tricia, como se estivesse puxando outro assunto —, o
coitado do Graham Loosemore se meteu em uma grande enrascada. Vocês
se lembram do Graham? — Houve murmúrios de concordância. — Bem,
ele foi para as Filipinas de férias... e se casou com uma moça de lá! Dezoito
anos. Eles estão morando juntos em Dorking! — Uma onda de perplexidade
se seguiu. — Ela está atrás do dinheiro dele, obviamente. — Tricia fez uma
careta. — Ela vai ter um filho, para poder garantir seu sustento, e depois se
separar. Provavelmente vai ficar com... metade da casa? São duzentas mil
libras! E tudo isso por um erro bobo. Que tolo!
— Talvez ele não seja um tolo — disse Fleur, bem blasé, e piscou para
Gillian.
— O quê? — perguntou Tricia.
— Quanto você pagaria a um filipino jovem e musculoso para fazer
amor com você toda noite? — Fleur sorriu para Tricia. — Eu pagaria muito.
Tricia arregalou os olhos para Fleur.
— O que você está querendo dizer exatamente? — sussurrou ela, num
tom de voz preparado para reagir com assombro depois.
— O que estou querendo dizer é que... talvez essa garota valha a pena.
— Valha a pena?
— Talvez ela valha duzentas mil libras. Para ele, pelo menos.
Tricia olhou para Fleur como se desconfiasse de que aquilo era uma
brincadeira.
— Esses viúvos ricos têm que ter muito cuidado — disse ela, por fim.
— Eles são extremamente vulneráveis.
— Assim como as viúvas ricas — disse Fleur de maneira descontraída.
— Eu mesma preciso ficar o tempo todo alerta.
Tricia se retesou toda. Mas, antes que pudesse falar, a voz de Eleanor
Forrester interrompeu o grupo.
— Mais buck’s fizz? Depois disso, vou começar a apresentação. Eu
contei a vocês sobre o coitado do James Morrell? — acrescentou ela,
entregando copos. — Banido por um ano! E ele só tinha ultrapassado um
pouco o limite de velocidade! Afinal, quem de nós nunca passou um pouco
da velocidade permitida?
— Eu — disse Fleur, pousando o copo na grama sem beber. — Eu não
dirijo.
Um burburinho se iniciou ao redor dela. Como era possível Fleur não
dirigir? Como ela fazia? E a ida e a volta da escola? As compras?
A voz de Tricia Tilling se destacou truculentamente acima das outras.
— Imagino que você tenha motorista, certo, Fleur?
— Às vezes — respondeu ela.
De repente, do nada, ela se lembrou de uma ocasião em que estava
sentada no banco atrás do motorista do carro do pai em Dubai, com a
cabeça para fora da janela, olhando para a rua quente e poeirenta, recebendo
ordens em árabe para se aquietar. Eles estavam passando pelo gold souk, o
mercado de ouros e joias. Para onde estavam indo? Fleur não conseguia se
lembrar.
— Então, todas prontas? — A voz de Eleanor invadiu a consciência de
Fleur. — Vou começar com os broches. Não são uma graça?
Ela segurou uma tartaruga dourada e uma aranha de diamante artificial e
começou a falar. Fleur ficou olhando para a frente, por educação, mas as
palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro. As lembranças
invadiam sua mente sem parar. Ela estava sentada com Nura el Hassan e as
duas riam. Nura usava roupas de seda em tons pastel; suas mãozinhas
seguravam um colar de contas. Tinha ganhado de presente no aniversário de
9 anos. Ela havia colocado o colar no pescoço de Fleur e as duas riram.
Fleur não havia expressado sua admiração pelas contas em voz alta. Se
tivesse feito isso, Nura teria sido obrigada a dar o colar a Fleur, conforme
manda a tradição. Sendo assim, Fleur apenas sorrira para Nura e para as
contas, a fim de mostrar a ela que as achava lindas. Fleur sabia mais sobre
os costumes de Nura que sobre os seus. Não havia conhecido nada além
daquilo.
Fleur havia nascido em Dubai, de uma mãe que seis meses depois fugiu
para a África do Sul com o amante e de um pai um tanto idoso que
acreditava que criar uma criança era jogar dinheiro em cima dela. No
mundo inconstante e sem raízes dos expatriados de Dubai, Fleur aprendeu a
perder amigos com a mesma facilidade com que os fazia, a dar boas-vindas
a novos alunos na Escola Britânica no começo de cada ano e a se despedir
deles no fim; a usar as pessoas pelo breve período em que as tinha — e
então descartá-las antes que ela mesma fosse descartada. Durante todo esse
tempo, apenas Nura havia permanecido uma constante. Muitas famílias
islâmicas não permitiam que a cristã — na verdade, pagã — Fleur brincasse
com os filhos deles. Mas a mãe de Nura admirava a bonita e insolente
ruivinha; sentia pena do homem de negócios que estava tendo de criar uma
filha e ainda dar conta de um trabalho que exigia muito dele.
E, então, quando Fleur tinha apenas dezesseis anos, seu pai sofrera uma
insuficiência renal aguda repentina. Morrera deixando para Fleur uma
quantia surpreendentemente pequena: não o suficiente para que ela
continuasse morando no apartamento de luxo; não o suficiente para que ela
seguisse estudando na Escola Britânica. A família el Hassan generosamente
levara Fleur para morar com eles enquanto o futuro dela era decidido.
Durante alguns meses, ela e Nura dormiram em quartos adjacentes. Elas
tinham se tornado mais íntimas do que nunca; tinham discutido e se
comparado sem parar. Aos dezesseis anos, Nura foi considerada pronta para se casar; seus pais estavam procurando um marido para ela. Fleur sentia-se
ao mesmo tempo horrorizada e fascinada com aquela ideia.
— Como você pode aceitar isso? — exclamava ela. — Se casar com um
homem que só vai mandar em você?
Nura sempre só dava de ombros e sorria. Ela era uma moça bem bonita,
com pele macia, olhos alegres e traços arredondados que já beiravam a
corpulência.
— Se ele for muito mandão, não vou me casar com ele — disse ela,
uma vez.
— Seus pais não vão te obrigar?
— Claro que não. Eles vão deixar que eu o conheça e depois
conversaremos sobre isso.
Fleur ficou olhando para ela. De repente, sentiu inveja. A vida de Nura
estava sendo confortavelmente planejada para ela, enquanto a de Fleur
oscilava de modo incerto à sua frente, como uma teia de aranha avariada.
— Talvez eu possa me casar, como a Nura — disse ela no dia seguinte à
mãe de Nura, Fatima, que deu uma risadinha, como se Fleur estivesse
brincando, mas esta encarou Fatima com seriedade.
— Tenho certeza de que você vai se casar — disse Fatima. — Vai
conhecer um belo inglês.
— Talvez eu possa me casar com um árabe — disse Fleur.
Fatima riu.
— Você se converteria ao islamismo?
— Talvez — disse Fleur, desesperadamente —, se precisasse.
Fatima ergueu o olhar.
— Está falando sério?
Fleur deu de ombros.
— Você poderia... me arranjar alguém.
— Fleur. — Fatima se levantou e segurou as mãos de Fleur. — Você
sabe que não seria uma noiva adequada para um árabe. Não é só por você
não ser islâmica. Você acabaria achando a vida difícil demais. Seu marido
não permitiria que você respondesse a ele como nós permitimos. Você não
poderia sair sem a permissão dele. Meu marido é muito liberal. A maioria
dos homens não é.
— Você vai encontrar um homem liberal para a Nura?
— Esperamos que sim, claro. E você também vai encontrar um homem,
Fleur. Mas não aqui.
Dois dias depois, o noivado foi anunciado. Nura se casaria com
Mohammed Abduraman, um jovem de uma das famílias mais abastadas dos
Emirados Árabes. Na opinião geral de todos, ela havia se dado muito bem.
— Mas você o ama? — perguntou Fleur naquela noite.
— Claro que eu o amo — disse Nura. Mas seus olhos estavam distantes,
e ela não disse mais nada.
Imediatamente, a família iniciou os preparativos. Fleur andava de um
lado para o outro, sem ser notada, observando incrédula a quantidade de
dinheiro que estava sendo gasta no casamento. Os rolos de seda, a comida,
os presentes para todos os convidados. Nura foi levada embora em um
redemoinho de véus e de óleos perfumados. Em pouco tempo, ela seria
levada embora para sempre. Fleur ficaria sozinha. O que deveria fazer? A
família el Hassan não a queria mais. Ninguém a queria mais.
À noite, ela ficava deitada em silêncio, sentindo o cheiro doce e
almiscarado da casa, permitindo que as lágrimas rolassem pelo rosto,
tentando planejar o futuro. Os pais de Nura achavam que ela deveria voltar
para a Inglaterra, para a tia em Maidenhead que nunca havia conhecido.
— Sua família é a coisa mais importante — dissera Fatima, com a
confiança de uma pessoa cercada pela rede de apoio de uma família de
pessoas leais. — Sua família vai cuidar de você.
Fleur sabia que ela estava enganada. As coisas eram diferentes na
Inglaterra. A irmã de seu pai nunca havia demonstrado interesse por ela.
Fleur teria de contar apenas consigo mesma.
E então havia chegado o dia da festa de noivado de Nura. Foi um evento
só para mulheres, com guloseimas, brincadeiras e muita risada. No meio da
festa, Nura exibiu uma caixinha.
— Veja — disse ela. — Meu anel de noivado.
Em sua mão, o anel parecia quase incongruente — um diamante enorme
posicionado no meio de uma rede intrincada de ouro. O ambiente foi
tomado por reações de satisfação; até mesmo para os padrões árabes, ele era
enorme.
Isso deve valer cem mil dólares, pensou Fleur. No mínimo. Cem mil
dólares no dedo da Nura. E não é como se ela fosse poder exibi-lo por aí.
Muito provavelmente não vai usá-lo quase nunca. Cem mil dólares. O que
se poderia fazer com cem mil dólares?
E, então, sem conseguir se controlar, aconteceu. Fleur pousou o copo,
olhou diretamente para Nura e disse:
— Admiro muito seu anel de diamante, Nura. Eu o admiro demais.
Quem me dera ter um anel desses.
Todas ficaram em silêncio. Nura empalideceu; seus lábios começaram a
tremer. Ela olhou nos olhos de Fleur, chocada e magoada. Fez-se uma pausa
infinitesimal, durante a qual ninguém parecia respirar. Todas as mulheres no
ambiente se inclinaram para a frente. E, então, lenta e cuidadosamente,
Nura tirou o anel de diamante do dedo, estendeu a mão e o deixou cair no
colo de Fleur. Ela olhou para a peça por um instante, e em seguida se
levantou e bateu em retirada. A última imagem que Fleur teve de Nura
resumiu-se a dois olhos obscurecidos pela traição.
Naquela noite, Fleur havia vendido o diamante por cento e vinte mil
dólares. Pegara um voo para Nova York na manhã seguinte e nunca mais
vira Nura.
Agora, quase vinte e cinco anos depois, sentada no jardim de Eleanor
Forrester, Fleur sentiu um aperto no peito, uma ardência nos olhos. Se eu
acabar com uma vida medíocre, ela pensou, furiosamente —, se eu acabar
sendo a dona de casa inglesa que poderia ter sido desde o início —, então o
diamante não serviu de nada. Perdi a Nura por nada. E não posso suportar
isso. Não posso suportar.
Ela piscou com força, ergueu o olhar e focou de novo na corrente
dourada que Eleanor Forrester segurava no alto. Vou comprar um colar,
pensou ela, e vou comer o brunch, e depois vou tirar tudo o que puder de
Richard Favour.
Oliver Sterndale se recostou na cadeira e olhou para Richard com certa
aflição.
— Você tem consciência — disse ele, pela terceira vez —, de que assim
que esse dinheiro for transferido para o fundo, vai deixar de ser seu?
— Tenho — disse Richard. — É essa a intenção. Ele vai passar a ser das
crianças.
— É muito dinheiro.
— Sei que é muito dinheiro.
Ambos olharam para os números à frente deles. A quantia em questão
estava sublinhada na base da página — o número 1 seguido por uma série
de zeros, como uma lagarta.
— Não é tanto assim — disse Richard. — Não exatamente. E eu quero
que as crianças o tenham. Emily e eu concordamos em fazer isso.
Oliver suspirou e começou a bater a caneta na mão.
— Direitos sucessórios... — começou ele.
— Não é uma questão de direitos sucessórios. É uma questão de...
segurança.
— Você pode dar segurança a seus filhos sem ter que repassar enormes
quantias para eles. Por que não compra uma casa para Philippa?
— Por que não dar a ela uma enorme quantia? — Richard esboçou um
sorriso. — No fim, não faz muita diferença.
— Faz uma diferença enorme! Muitas coisas podem acontecer que o
fariam se arrepender de entregar toda a sua fortuna prematuramente.
— Não chega nem perto de ser minha fortuna toda!
— Uma boa parte dela.
— Emily e eu conversamos sobre isso. Concordamos que seria
perfeitamente possível viver de modo confortável com o restante. E sempre
haverá a empresa.
O advogado se recostou na cadeira, os pensamentos batalhando entre si
em seu rosto
— Quando vocês decidiram tudo isso? — perguntou ele, por fim. —
Refresque minha memória.
— Há cerca de dois anos...
— E, naquela época, Emily sabia que...
— Que ia morrer? Sim, sabia. Mas eu não entendo qual é a relevância
disso.
Oliver encarou Richard. Por um instante, ele pareceu prestes a dizer
algo, mas suspirou e desviou o olhar.
— Ah, não sei — murmurou ele. — O que eu sei — disse com mais
firmeza — é que ao abrir mão de uma quantia tão grande, você pode estar
prejudicando seu próprio futuro.
— Oliver, não seja melodramático!
— O que você e a Emily podem não ter levado em consideração foi a
possibilidade de que sua vida poderia mudar de alguma forma depois da
morte dela. Pelo que sei, você tem uma... amiga hospedada em sua casa no
momento.
— Uma mulher, sim. — Richard sorriu. — O nome dela é Fleur.
— Pois então. — Oliver fez uma pausa. — Pode parecer uma ideia
ridícula agora. Mas o que aconteceria se você, digamos... decidisse se casar
de novo?
— Não me parece uma ideia ridícula — disse Richard lentamente. —
Mas não consigo entender o que isso tem a ver com dar esse dinheiro a
Philippa e a Antony. O que dinheiro tem a ver com casamento?
O advogado pareceu se espantar.
— Você não está falando sério.
— Mais ou menos — admitiu Richard. — Veja bem, Oliver, eu vou
pensar no assunto. Não vou me precipitar. Mas, você sabe, vou ter que fazer
algo com o dinheiro, mais cedo ou mais tarde. Eu o venho liquidando
gradualmente nos últimos meses.
— Não vai ter nenhum problema se ele ficar em uma conta corrente por
um tempo. Melhor perder um pouco de rendimento do que tomar a decisão
errada. — Oliver ergueu o olhar de repente. — Você não contou aos seus
filhos sobre esse plano, certo? Eles não estão na expectativa de ele se
concretizar, estão?
— Ah, não. Emily e eu concordamos que seria melhor que eles não
soubessem. Além disso, decidimos que deveriam esperar até os trinta anos
antes de terem o controle do dinheiro. Não queríamos que pensassem que
não precisavam se esforçar na vida.
— Muito sábio. E mais ninguém sabe?
— Não. Mais ninguém.
Oliver suspirou e apertou o botão de sua mesa para pedir mais café.
— Bem, acho que isso já é alguma coisa.
***
O dinheiro era dele. Praticamente dele. Assim que Philippa completasse
trinta... Lambert segurava o volante com força e irritação. O que havia de
tão mágico nos trinta anos? O que ela teria aos trinta que não tinha aos vinte
e oito?
Quando Emily contara a ele sobre o dinheiro de Philippa, ele tinha
achado que ela se referia a algo imediato. Na semana seguinte. Ele sentira
uma explosão de alegria percorrer seu corpo, o que deve ter ficado evidente
em seu rosto, porque ela sorriu — um sorriso satisfeito — e disse: “Ela só
vai ter acesso ao dinheiro quando tiver trinta anos, claro.” E ele retribuíra o
sorriso de forma calculada, dizendo: “Claro.” Na verdade, estava pensando:
Por que não? Por que não, porra?!
Maldita Emily. Era óbvio que ela havia feito aquilo de propósito. Havia
contado a ele com muita antecedência para poder vê-lo esperar. Era só mais
um de seus jogos de poder. Lambert sorriu, mesmo sem vontade. Sentia
falta da Emily. Ela tinha sido a única pessoa naquela família maldita com
quem ele de fato havia se dado bem desde o momento em que se
conheceram. O encontro havia ocorrido durante uma festa da empresa, logo
depois de ele assumir o cargo de diretor técnico. Ela estava de pé ao lado de
Richard, em silêncio, ouvindo as histórias alegres do diretor de marketing
— um homem a quem, mais tarde foi revelado, ela desprezava. Os olhos de
Lambert haviam pegado os dela desprevenidos — e, em um instante, ele
tinha visto através daquele comportamento tranquilo e doce, enxergando o
verdadeiro desprezo que havia por trás. Ele havia visto a verdadeira Emily.
Quando o olhar dela encontrara o dele, Emily tinha percebido o quanto
havia se traído. “Apresente-me a esse jovem simpático”, dissera
imediatamente a Richard. E, ao apertar a mão de Lambert, ela esboçara um
sorriso de discreto reconhecimento.
Duas semanas depois, ele fora convidado para passar o fim de semana
na Maples. Ele tinha comprado um novo blazer, jogado golfe com Richard e
caminhado pelo jardim com Emily. Ela havia ficado com a palavra quase o
tempo todo. Falou sobre uma série de assuntos vagos, aparentemente sem
conexão. Comentou que não gostava do diretor de marketing; falou de sua
admiração por quem entendia de computadores; de seu desejo de que
Lambert conhecesse os outros integrantes da sua família. Algumas semanas
depois disso, o diretor de marketing foi demitido por enviar uma newsletter
da empresa cheia de erros vergonhosos. Foi na mesma época, Lambert se
lembrava, quando Richard havia comprado um carro corporativo melhor
para ele. “Emily tem se queixado comigo”, dissera Richard, sorrindo. “Ela
acha que perderemos você se não o tratarmos direito!”
E, então, ele voltou a ser convidado para a Maples, e foi apresentado a
Philippa. Lá também estava Jim, o namorado de Philippa à época, um rapaz
de pernas e braços compridos de vinte e dois anos que havia acabado de sair
da universidade e não sabia bem o que queria fazer da vida. Mas, como
Emily explicou depois a todos no bar do clube, Lambert deixara Philippa
sem chão, quase que literalmente. “No décimo sexto buraco!”, acrescentara
ela, rindo. “Philippa perdeu a bola naquela área pantanosa. Ficou presa, e
Lambert a pegou no colo e a levou de volta ao campo!”
Lambert franziu o cenho ao se lembrar disso. Philippa tinha se mostrado
mais pesada do que o esperado; ele quase estirou um músculo ao tirá-la
daquela lama. Por outro lado, ela também tinha se mostrado mais rica do
que ele esperava. Lambert havia se casado com Philippa achando que
estivesse garantindo segurança financeira. A notícia de que ele, na verdade,
seria extremamente rico, chegara como um prêmio inesperado.
Ele olhou pela janela do carro. Os bairros residenciais da periferia de
Londres gradualmente davam lugar a Surrey; eles chegariam a Greyworth
em meia hora. Philippa estava calada no banco ao lado dele, concentrada
em um de seus livros românticos. Sua esposa, a milionária. A
multimilionária, se Emily tivesse falado a verdade. Só que ela não era
milionária, não ainda. Um ressentimento familiar invadiu Lambert, e ele
sentiu que começava a trincar os dentes. Não era razoável tratar Philippa
como uma criança na qual não se podia confiar. Se ela iria receber o
dinheiro de qualquer jeito, então por que não o entregar a ela desde já? E
por que guardar segredo disso? Nem ela nem Antony pareciam ter a menor
ideia de que eram pessoas potencialmente muito ricas: de que nunca teriam
de trabalhar se não quisessem; de que a vida seria fácil para eles. Quando
Philippa suspirava e se queixava do preço de um par de sapatos novos,
Lambert sentia vontade de gritar: “Pelo amor de Deus, você poderia
comprar vinte pares, se quisesse!” Mas ele nunca fez isso. Não queria que a
esposa ficasse planejando como gastar sua fortuna. Lambert já tinha planos
suficientes para ela.
Ele olhou no espelho retrovisor um Lagonda acelerando pela via
expressa e segurou o volante com mais força. Dois anos, ele pensou. Só
mais dois anos. Seu único problema no momento era o banco. Lambert
franziu o cenho. Ele tinha de pensar em uma solução para o problema do
banco. Idiotas do inferno. Eles queriam a conta de uma pessoa
potencialmente muito rica ou o quê? Nas últimas semanas, um idiota atrás
do outro vinha ligando para ele, querendo marcar uma reunião,
questionando seu saldo negativo sem parar. Ele teria de fazer alguma coisa
antes que decidissem ligar para Philippa. Ela não sabia de nada daquilo. Ela
sequer sabia que ele tinha aquela terceira conta.
Mais uma vez, Lambert repassou as possibilidades em sua mente. A
primeira era ignorar o banco totalmente. A segunda era concordar em se
encontrar com eles, admitir que não tinha dinheiro para cobrir o saldo
negativo e conseguir uma postergação até Philippa receber seu dinheiro. Uma postergação de dois anos? Não era algo inconcebível. Mas também
não era muito provável. Talvez eles decidissem que precisavam de mais
garantia que isso. Talvez decidissem ligar para o empregador dele e obter
uma garantia. Lambert fechou a cara. Eles ligariam para Richard. Ele já
conseguia imaginar a atitude hipócrita de Richard. O sempre perfeito e
organizado Richard, que nunca deixou nem uma conta de gás atrasar. Ele
chamaria Lambert ao seu escritório. Falaria sobre viver com o que se tem.
Citaria a porra do Dickens para cima dele.
Não, isso não poderia acontecer. Lambert fez uma pausa e respirou
fundo. A terceira opção era, de alguma forma, conseguir manter os
predadores do banco felizes. Entregar uma boa quantia para eles. Cinquenta
mil libras ou algo assim. Ao mesmo tempo, ele poderia insinuar que
considerava a falta de confiança deles muito surpreendente, tendo em vista
suas perspectivas futuras. Podia falar que levaria seu dinheiro para outro
lugar. Deixá-los devidamente nervosos. Lambert sorriu. Era a melhor opção
das três. De longe, a melhor. Quase não tinha desvantagens — só uma. O
fato de ele não ter cinquenta mil libras. Ainda não.