A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 14 de 19

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A Rainha dos Funerais

Catorze

 

Fleur voltou de Londres e encontrou Geoffrey Forrester, capitão do Clube

de Golfe de Greyworth, apertando a mão de Richard no hall de entrada da

casa.

— Arrá! — disse Geoffrey assim que viu Fleur. — Você chegou a

tempo de ouvir as novidades. Posso contar para a Fleur, Richard, ou você

mesmo quer falar?

— O que foi? — perguntou Fleur.

— Geoffrey acabou de me informar que, se eu quiser, serei nomeado

capitão do clube — disse Richard.

Fleur olhou para ele. Estava claro que Richard tentava manter a cara

séria, mas já esboçava um sorriso e os olhos brilhavam de satisfação.

— Como eu contei ao Richard, o comitê votou nele por unanimidade —

disse Geoffrey. — O que, posso garantir, nem sempre acontece.

— Muito bem, querido! — disse Fleur. — Estou tão feliz.

— Bem, preciso ir — disse Geoffrey, olhando para o relógio. — Então,

Richard, você vai me comunicar sobre a sua decisão pela manhã?

— Sem dúvida — disse Richard. — Boa noite, Geoffrey.

— E espero que vejamos vocês dois na Copa do Clube — disse

Geoffrey. — Sem desculpas agora, Richard! — Ele abriu um sorriso jovial

para Fleur. — Cá entre nós, Fleur, já não está na hora de você começar a

jogar?

— Não sei se consigo jogar golfe — disse Fleur, sorrindo para ele.

— Nunca é tarde demais para começar! — Geoffrey riu. — Ainda

vamos convencer você, Fleur. Não é, Richard?

— Espero que sim — disse Richard. Ele pegou a mão de Fleur e a

apertou. — Espero realmente que sim.

Eles ficaram olhando o carro sair do acesso a veículos em frente à casa,

e então voltaram para dentro.

— De qual decisão ele estava falando? — perguntou Fleur.

— Eu disse ao Geoffrey que não podia concordar com essa indicação

sem consultá-la — disse Richard.

— O quê? — Fleur o encarou. — Mas por quê? Você quer ser capitão,

não quer?

Richard suspirou.

— Claro que quero, por um lado. Mas não é tão simples assim. Ser

capitão, além de ser uma honra enorme, é um compromisso enorme

também. — Ele pegou uma mecha de cabelo de Fleur e a passou nos lábios.

— Se eu aceitar, terei que ficar mais tempo no clube do que tenho ficado

ultimamente. Terei que jogar mais, aprimorar minhas habilidades de novo,

participar de reuniões... — Ele espalmou as mãos. — Tem muita coisa

envolvida. E, com isso, terei menos tempo para ficar com você.

— Mas você vai ser o capitão! Não vale a pena? — Fleur estreitou os

olhos. — Ser o capitão de Greyworth não é o que você sempre quis?

— É engraçado — disse Richard. — Por anos, pensei que fosse

exatamente o que eu queria. Ser o capitão de Greyworth era... bem, era o

meu objetivo. E agora que tenho o meu objetivo ao meu alcance, não

consigo me lembrar por que queria isso. Meu objetivo mudou. A trave do

gol mudou de lugar, digamos assim. — Ele começou a enrugar o nariz. —

Ou talvez eu deva dizer que a bandeira do décimo oitavo buraco mudou de

lugar. — Ele abafou uma risadinha.

Fleur franziu a testa, encucada.

— Você não pode simplesmente desistir do seu objetivo — disse ela, de

repente. — Se é algo que você quis a vida inteira.

— Não vejo por que não. A questão é: por que eu queria isso? — disse

Richard. — E se eu não der mais tanta importância a essa posição? — Ele

deu de ombros. — E se eu preferir passar meu tempo com você, em vez de

ficar num campo com algum chato de um clube de golfe?

— Richard, você não pode desistir assim! — exclamou Fleur. — Não

pode simplesmente se conformar com... uma vida pacata! Você sempre quis

ser capitão de Greyworth e agora tem a sua chance. As pessoas devem

agarrar as oportunidades que a vida lhes dá. Ainda que isso signifique... —

Ela parou de falar, ofegante.

— Ainda que isso signifique que seremos infelizes? — Richard riu.

— Talvez! Melhor aproveitar a oportunidade e ser infeliz do que deixar

passar e se arrepender.

— Fleur. — Ele pegou as mãos dela e as beijou. — Você é

extraordinária, absolutamente extraordinária! Não consigo imaginar uma

esposa mais incentivadora e que dê mais apoio...

O silêncio dominou o ambiente.

— Mas eu não sou sua esposa — disse Fleur lentamente.

Richard olhou para baixo. Respirou fundo, e então ergueu o olhar,

diretamente para ela.

— Fleur — começou ele.

— Richard, preciso tomar banho — disse Fleur, antes que ele pudesse

continuar. — Estou imunda desde que voltei de Londres. — Ela se

desvencilhou das mãos dele e seguiu rapidamente até a escada.

— Claro — disse Richard, baixinho. Em seguida, sorriu para ela. —

Você deve estar exausta. E ainda nem perguntei como foi a missa fúnebre.

— Acabei não indo — disse Fleur. — Estava ocupada demais me

divertindo com a Philippa.

— Ah, que bom! Fico feliz por vocês duas estarem ficando amigas.

— E obrigada pelo champanhe — acrescentou ela, no meio da escada.

— Ficamos tão surpresas.

— Sim — disse Richard. — Imaginei que ficariam.

 

***

 

Fleur foi direto para o banheiro, abriu as duas torneiras da banheira e

trancou a porta. Sua mente parecia confusa; ela precisava pensar.

Suspirando, sentou-se numa cadeira que havia no banheiro — uma coisa

estofada medonha — e encarou seu reflexo no espelho.

Qual era seu próprio objetivo na vida? A resposta veio imediatamente,

sem que ela nem parasse para pensar. Seu objetivo era adquirir uma

quantidade enorme de dinheiro. Quanto era uma quantidade enorme de

dinheiro? Dez milhões de libras era uma quantidade enorme de dinheiro. Se

ela se casasse com Richard, teria uma quantidade enorme de dinheiro.

— Mas não nos meus próprios termos — disse Fleur em voz alta para

seu reflexo. Suspirou e tirou os sapatos. Seus pés doíam um pouco por ter

caminhado pelas ruas de Londres, apesar do couro caro e macio dos

calçados; apesar dos muitos táxis.

Ela poderia se tornar a esposa de Richard? A Sra. Richard Favour, de

Greyworth. Fleur teve um leve calafrio; só de pensar, ela se sentia sufocada.

Os homens mudavam depois do casamento. Richard compraria roupas de

golfe para ela, esperando que ela começasse a jogar. Daria uma mesada a

ela. Estaria ao seu lado todo dia de manhã quando ela acordasse, abrindo

aquele sorriso inocente e carente. Se ela planejasse uma viagem ao exterior,

ele iria junto.

Mas, ao mesmo tempo... Fleur mordeu o lábio. Ao mesmo tempo, ele

tinha muito dinheiro. Ele era uma oportunidade que talvez não voltasse a

aparecer para ela. Tirou o blazer e o jogou sobre o toalheiro. Ao ver a seda

preta, de repente ela se lembrou da missa fúnebre à qual não tinha ido

naquela tarde. Uma chance perdida. Quem poderia ter ido àquela

cerimônia? Que encontro feliz poderia ter ocorrido se ela tivesse ido?

— Decida-se — disse Fleur para seu reflexo, tirando a saia, abrindo o

sutiã. — É pegar ou largar.

Ela tirou a meia-calça, caminhou até a banheira e se sentou na beirada,

colocando os pés para o lado de dentro. Ao descê-los na água quente e cheia

de espuma, sentiu o corpo todo começar a relaxar e parou de pensar.

Uma batida na porta a sobressaltou.

— Sou eu! — Ela ouviu a voz de Richard. — Trouxe uma taça de

vinho.

— Obrigada, querido! — respondeu ela. — Vou pegar num segundo.

— E a Philippa está ao telefone. Quer falar com você.

Fleur revirou os olhos. Já aguentara Philippa o suficiente por um dia.

— Diga a ela que retornarei a ligação.

— Direi. Vou deixar a taça aqui — disse a voz de Richard. — Em frente

à porta.

Ela o imaginou se abaixando, cuidadosamente deixando a taça no

carpete em frente à porta do banheiro, olhando para ela, se perguntando se

Fleur a derrubaria sem querer, e então voltando a se abaixar para afastar a

taça alguns centímetros e, depois disso, indo embora na ponta dos pés. Um

homem prudente e cuidadoso. Será que ele permitiria que ela gastasse todo

o seu dinheiro? Muito provavelmente não. E, nesse caso, ela teria se casado

com ele por nada.

 

Philippa botou o fone no gancho e mordeu o lábio. Mais lágrimas desceram

por seu rosto vermelho; ela sentia como se suas entranhas estivessem sendo arrancadas. Não havia mais ninguém para quem ela pudesse ligar. Ninguém

mais com quem ela pudesse se abrir. Ela tinha que falar com Fleur, mas

Fleur estava na banheira.

— Ai, meu Deus — disse ela, falando sozinha. — Ai, meu Deus, me

ajude.

Ela deslizou do sofá para o chão e começou a chorar desesperadamente,

com as mãos na barriga, balançando para a frente e para trás. Seu tailleur

rosa estava amassado e molhado de lágrimas, mas ela não se importava com

a aparência agora; não havia ninguém para vê-la. Ninguém para ouvi-la.

Lambert havia batido a porta meia hora antes, deixando-a mortificada,

sem conseguir falar. Por um tempo, ela tinha permanecido encolhida no

sofá, incapaz de se mexer sem sentir dor no estômago e sem chorar. E,

então, quando sua respiração se acalmou, ela conseguiu pegar o telefone e

ligar para o número da Maples e pedir para falar com Fleur, adotando uma

voz que parecia normal. Fleur, ela havia pensado, desesperada. Fleur. Se eu

ao menos pudesse falar com a Fleur.

Mas Fleur estava na banheira e não podia falar com ela. E, depois de se

despedir do pai, as lágrimas tinham começado a rolar de novo, e ela havia

caído no chão, e se perguntado como um dia que tinha começado tão

perfeito poderia terminar em tamanha humilhação.

Ele havia rido dela. Para começar, Lambert havia rido dela. Uma risada

sórdida e zombeteira que a fez endireitar os ombros, olhar nos olhos dele e

dizer, com um tom de voz ainda mais agressivo que antes:

— Estou deixando você!

Uma vigorosa adrenalina havia começado a percorrer seu corpo, e ela

sorrira, concluindo que deveria ter feito aquilo anos antes.

— Acho que vou para a casa do meu pai — dissera, num tom formal. —

Até eu conseguir uma casa para mim.

E Lambert olhara para ela de cima a baixo e dissera:

— Philippa, cale a boca, pode ser?

— Lambert, você não entendeu? Estou me separando de você!

— Não está, não.

— Estou, sim!

— Não está, porra.

— Estou! Você não me ama, então qual é o sentido de continuarmos

juntos?

— A questão é que somos casados, caralho. Entendeu?

— Bem, talvez eu não queira mais ser casada, caralho!

— Mas talvez eu queira!

E Lambert se levantara, se aproximara de Philippa e segurara o pulso

dela.

— Você não vai me deixar, Philippa — disse ele, com uma voz que ela

quase não reconheceu; uma voz que quase a assustou. Ele estava vermelho

e trêmulo. Parecia possuído. — Não vai me deixar porra nenhuma, tá?

E ela se sentira lisonjeada. Olhara para o rosto desesperado dele e

pensara: isso é amor. Ele me ama de verdade. Estava prestes a sucumbir, a

acariciar seu rosto e chamá-lo de querido. Quando ele se movimentara em

direção a ela, Philippa sentira a chegada de um sorriso e se preparara para

um abraço apaixonado e de reconciliação. Mas, de repente, as mãos dele

estavam apertando seu pescoço de forma bruta.

— Diga que você não vai me deixar! — sibilou ele. — Você nunca vai

me deixar!

Ele apertou o pescoço dela até que ela mal conseguia respirar, até

Philippa sentir ânsia de vômito por causa da pressão na garganta.

— Diga que não vai me deixar! Diga!

— Não vou te deixar! — Philippa conseguira dizer com a voz rouca.

— Assim está melhor.

Do nada, ele a soltara, jogando-a no sofá como uma criança largando

um brinquedo que não queria mais. Ela não erguera o olhar enquanto ele

saía; não lhe perguntara aonde ele ia. Seu corpo todo estava paralisado de

tristeza. Quando ouvira a porta sendo batida, sentira lágrimas de alívio

descerem por seu rosto. Por fim, ela havia andado até o telefone, trêmula,

discado o número da Maples e pedido para falar com a única pessoa para

quem podia contar tudo aquilo. De alguma forma, ela havia conseguido

falar com o pai com uma voz aparentemente normal, sem deixar

transparecer nada. De alguma forma, ela havia conseguido dizer que é claro

que não tinha problema, até mais, papai, tchau. Mas tão logo havia botado o

fone no gancho, Philippa desabara no carpete, chorando sem parar. Porque

Fleur não podia atendê-la, e não havia mais ninguém a quem ela pudesse

recorrer.

 

Richard botou o fone no gancho e olhou para ele com ternura. Gostou muito

do fato de Philippa ter ligado querendo falar com Fleur e não com ele. Isso

só comprovava, pensou ele, que Fleur estava se tornando, cada vez mais, um integrante da família: ligada não só a ele, mas a todos eles. Gillian

certamente gostava muito de Fleur. Antony parecia adorar a companhia

dela, e, Richard sorriu sozinho, era certo que o filho gostava da jovem Zara.

No decorrer de um verão, Fleur havia se tornado uma parte tão

importante da vida de todos eles que Richard achava difícil lembrar como

eles tinham vivido antes dela. No começo, Fleur parecera uma criatura

estranha e exótica, cheia de ideias esquisitas, totalmente fora de sintonia

com a vida que ele levava; com a vida que todos eles levavam. Mas, agora...

Richard franziu o cenho. Agora, ela parecia totalmente normal. Era Fleur,

simplesmente. Ele não tinha certeza se ela tinha mudado ou se eles tinham

mudado.

E não foi só dentro da família que a transformação ocorreu, pensou

Richard, servindo-se de uma taça de vinho. Todos aqueles olhares de

reprovação na sede do clube tinham, em algum momento, desaparecido.

Toda a fofoca havia passado. Agora, Fleur era tão respeitada em Greyworth

quanto ele. Sua nomeação como capitão trazia tantas honrarias a ela quanto

a ele.

Richard mordeu o lábio. Era hora de ele mesmo honrá-la também.

Estava na hora de ele colocar seus assuntos em ordem; hora de comprar um

anel de noivado; hora de ele pedir a Fleur — do jeito apropriado — para ser

sua esposa.

 

Até a hora do almoço, no dia seguinte, Fleur ainda não tinha tido a

oportunidade de retornar o telefonema de Philippa.

— Ela ligou de novo — disse Gillian, cortando tomates para o almoço

na cozinha. — Enquanto você estava fazendo sua avaliação física. Ela

parecia muito chateada por não ter conseguido falar com você pela terceira

vez.

— Tenho uma resistência muito boa — disse Fleur, olhando o papel em

sua mão. — Mas minha capacidade pulmonar está terrível. — Ela ergueu o

olhar. — Por que será?

— Muito cigarro — disse Zara.

— Eu não fumo!

— Mas fumava.

— Só fumei por pouco tempo — respondeu Fleur. — E morei nos Alpes

Suíços por seis meses. Isso deveria ter curado qualquer dano pulmonar, não

deveria?

— Você também recebeu outro telefonema do seu amigo Johnny —

disse Gillian, olhando para o bloco de notas perto do telefone da cozinha.

— Sabe, foi a quarta vez que ele ligou essa semana.

— Jesus! — disse Zara. — Vocês dois não se falaram ainda?

— Ele foi enfático quando disse que precisava falar com você —

acrescentou Gillian. — Eu prometi que a convenceria a ligar para ele.

— Não estou a fim de falar com o Johnny — disse Fleur, franzindo a

testa. — Vou ligar para ele mais tarde.

— Ligue para ele agora! — exclamou Zara. — Se ele quer que você

ligue, deve ter um bom motivo. E se for urgente?

— Nada na vida do Johnny é urgente — disse Fleur, sarcasticamente. —

Ele não tem preocupação nenhuma na vida.

— E você tem, por acaso? — rebateu Zara.

— Zara — interrompeu Gillian, de modo diplomático —, por que não

vai colher uns morangos para mim no jardim?

Um breve silêncio se seguiu. Zara lançou um olhar fulminante para

Fleur.

— OK — disse ela, por fim, e se levantou.

— E talvez eu encontre um tempo para falar com o Johnny mais tarde

— disse Fleur, examinando as unhas. — Mas só talvez.

 

Lambert se aproximava do ponto crítico. Ele estava sentado em seu

escritório, rasgando papéis, olhando pela janela, incapaz de se concentrar.

Nos últimos dias, ele havia recebido nada menos que três mensagens de

Erica Fortescue, do First Bank, exortando-o a entrar em contato com ela

urgentemente. Até aquele momento, ele havia conseguido evitar falar com

ela. Mas ele não poderia fugir para sempre. E se ela fosse ao escritório dele?

E se ela telefonasse para Richard?

Seu saldo negativo agora somava trezentos e trinta mil libras. Lambert

sentiu um suor frio invadir sua testa. Como o negativo havia aumentado

tanto? Como havia gastado tanto? O que ele tinha que justificasse tudo

aquilo? Tinha um carro, algumas roupas, alguns relógios. Tinha alguns

amigos; uns caras e suas esposas que ele comprara com garrafas de

conhaque no clube, ingressos para a ópera, camarotes nos jogos de críquete.

Ele sempre fingiu estar distribuindo brindes; seus amigos sempre

acreditaram nele. Se eles alguma vez acreditassem que Lambert estava

pagando tudo do próprio bolso, teriam ficado constrangidos; provavelmente teriam rido dele. Agora, o rosto de Lambert estava vermelho de humilhação

e raiva. Quem eram aqueles amigos? Idiotas estúpidos cujos nomes ele mal

lembrava. E tinha sido para proporcionar diversão a eles que Lambert havia

se metido naquela encrenca.

Qual tinha sido a jogada da Emily, dizendo que ele seria rico? Qual

tinha sido a porra da jogada dela? Uma ira contida tomou conta de Lambert

e ele amaldiçoou Emily por estar morta, a amaldiçoou por ter saído desse

mundo deixando pontas soltas pairando ao vento. Qual era a verdade?

Philippa ficaria rica? Aquele dinheiro seria dela? Ou será que Richard tinha

mudado de ideia? Será que a história toda do fundo fiduciário tinha sido

invenção da Emily? Ele nunca teria imaginado que ela seria capaz disso,

aquela vaca manipuladora. Ela o havia incentivado a pensar que era rico;

ela o havia incentivado a começar a gastar mais do que ele gastava antes. E

agora ele estava afundado em dívidas e todas as dicas e promessas dela não

tinham dado em nada.

Porém — Lambert mordeu o lábio —, ele não tinha como ter certeza de

que não dariam em nada. Ainda era possível que Richard fosse cumprir sua

parte. Talvez ele ainda fosse colocar parte daquele dinheiro no fundo para

Philippa. Talvez, quando ela completasse trinta anos, ela se tornasse uma

milionária, como Emily prometera. Ou talvez Richard tenha decidido agora

esperar um pouco mais até ela completar trinta e cinco, talvez, ou quarenta.

Era uma tortura não saber. E ele não tinha como descobrir. Richard era

um desgraçado reservado — nunca contaria nada a Lambert —, e claro que

Philippa não sabia de nada. Philippa não sabia nada de coisa nenhuma. Uma

memória repentina invadiu a mente de Lambert: o rosto vermelho e

contorcido de Philippa na noite anterior. Ela ficara chorando no sofá quando

ele saíra de casa furioso; ele não a tinha visto desde então.

Ele havia exagerado na reação à ridícula ameaça dela de deixá-lo;

conseguia ver isso agora. Claro que ela não estava falando sério; Philippa

nunca o deixaria. Mas, naquele momento, ela o havia tirado do sério. Ele

sentira um pânico incandescente se espalhando pelo corpo e uma convicção

de que deveria, a todo custo, detê-la. Ele tinha que continuar casado com

Philippa; tinha que manter a engrenagem funcionando, pelo menos até saber

onde estava pisando. E então ele a havia atacado. Talvez tenha exagerado

um pouco, talvez a tenha deixado mais transtornada que o necessário. Mas,

pelo menos, aquilo a manteria calada por um tempo; assim, ele teria tempo

para resolver suas coisas.

O telefone tocou, e ele sentiu um espasmo de medo percorrer suas veias.

Talvez fosse Erica Fortescue, do First Bank, ele pensou; um pensamento

absurdo. Ela estava na recepção; estava subindo...

Tocou de novo, e ele atendeu.

— Alô? — vociferou, tentando disfarçar o nervosismo.

— Lambert? — Era a secretária dele, Lucy. — Só queria dizer que

marquei aquela reunião para você.

— Ótimo — disse Lambert, e desligou o telefone.

Não podia enfrentar nenhuma reunião naquele momento; não podia

enfrentar ninguém. Tinha que reservar um tempo para pensar no que faria.

Será que ele deveria simplesmente ir até Richard, explicar a situação e

pedir ajuda financeira? Será que Richard entregaria aquela quantia a ele de

bom grado? Ele voltou a pensar na cifra toda e estremeceu. O número que

parecera tão ínfimo quando comparado com a futura fortuna de Philippa

agora parecia uma extravagância. Ele fechou os olhos e se imaginou

contando a Richard; pedindo humildemente por ajuda; sentado em silêncio

enquanto Richard lhe passava um sermão. Sua vida seria um martírio. Que

pesadelo infernal.

Aquilo era tudo culpa de Larry Collins, pensou Lambert, de repente.

Larry, seu amigo no banco. Larry, que havia convidado Lambert a entrar no

cheque especial. Ele havia se deixado impressionar pelas garantias de

Lambert de que, em breve, Philippa receberia milhões. Ele tinha dito a

Lambert que ele era um cliente de valor. Dissera que a papelada não

importava; ele havia aumentado o limite sem questionar nada. Se ele não

tivesse sido um idiota tão irresponsável; se seus chefes não tivessem sido

tão cegos — então Lambert nunca teria um limite tão alto no cheque

especial, para começo de conversa, e o problema todo nunca teria surgido.

Mas ninguém pensou em checar, a dívida de Lambert havia aumentado

exponencialmente — e só então Larry foi demitido. Larry estava fora de

cena, para sorte dele, e fora Lambert quem tinha sido deixado sozinho para

juntar os cacos.

O que deveria fazer? Se se ativesse ao plano original — se pegasse

cinquenta mil da conta de dez milhões e entregasse esse valor ao banco para

deixá-los felizes —, então teria que encontrar uma maneira de devolver o

dinheiro a Richard antes do fim do ano. Não poderia deixar por isso mesmo;

Richard notaria um déficit de cinquenta mil. Assim, precisaria aumentar

ainda mais o negativo. Mas quem autorizaria o aumento do limite para ele, agora que Larry não estava mais no banco? Quem faria isso sem qualquer

prova de que o fundo fiduciário de Philippa estava estabelecido? Lambert

cerrou os punhos, frustrado. Se ao menos tivesse provas. Alguma evidência,

por menor que fosse. Algo que convencesse algum idiota em algum lugar a

deixá-lo manter a dívida. Um documento ou uma carta. Algo assinado por

Richard. Qualquer coisa serviria.