A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 16 de 19

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A Rainha dos Funerais

Dezesseis

 

— Eu devia ter ligado — disse Fleur. Ela esticou as pernas no gramado em

declive onde ela e Johnny estavam sentados. Ao longe, via-se o décimo

quarto buraco; um homem de camisa vermelha se preparava para dar uma

tacada. — Perdão. Achei que você ainda estivesse bravo comigo.

— Eu estava. E estou ainda mais bravo agora! — exclamou Johnny. —

Consegue imaginar o esforço que fiz para vir até aqui? Você sabe que nunca

saio de Londres, se puder evitar.

— Eu sei — disse Fleur. — Mas você está aqui agora. Estou tão feliz

por ainda sermos amigos...

— Eu tive que lutar para descobrir a que horas o trem saía. E, então, me

dei conta de que não fazia a menor ideia de em qual estação eu deveria

pegá-lo e precisei ligar de novo e a pessoa com quem eu tinha falado antes

estava na pausa do chá! — Johnny balançou a cabeça. — Que sistema

ineficiente! E quanto ao trem em si...

— Bem, é maravilhoso ver você — disse Fleur de modo carinhoso. —

Quanto tempo vai ficar?

— Não vou ficar! Santo Deus, há limite para tudo!

— Não invoque o santo nome em vão — disse Fleur distraidamente.

Ela se recostou e sentiu o sol iluminar seu rosto. Seria bom estar de

volta em Londres com Johnny e Felix, ela pensou. Compras, fofocas, um

funeral aqui, outro ali...

— Você parece bem à vontade aqui — disse Johnny, olhando ao redor.

— A perfeita esposa de Surrey. Já está jogando golfe?

— Claro que não.

— Fico feliz em saber. É um jogo tão excêntrico.

— Não é tão ruim assim — disse Fleur, na defensiva. — Zara está

aprendendo a jogar, sabia?

— Ah, bem — disse Johnny de modo carinhoso. — Zara nunca teve

bom gosto.

— Uma pena que ela teve que ir para ser caddie.

— Bem, era com você que eu queria falar — disse Johnny. — Foi por

isso que vim aqui. Como você não retornou meus telefonemas, não me deu

outra opção.

— Sobre o que você quer falar comigo? — perguntou Fleur. Johnny

ficou em silêncio. Fleur se sentou de repente. — Johnny, essa conversa não

vai ser sobre o Hal Winters, vai?

— Sim, vai.

— Mas você ia se livrar dele por mim!

— Não ia, não! Fleur, ele não é, tipo, uma praga doméstica. Ele é o pai

da sua filha. Você me disse que prepararia a Zara para conhecê-lo. O que

obviamente você não fez.

— A Zara não precisa de um pai — disse Fleur, incomodada.

— Claro que precisa.

— Ela tem você.

— Querida, não é a mesma coisa, não é mesmo? — disse Johnny.

Fleur deu de ombros, sentindo que esboçava um sorriso mesmo sem

querer.

— Talvez não — disse ela.

— Zara merece um pai de verdade — disse Johnny. — E posso dizer

que ela vai ter o que merece.

— Como assim?

— Hal Winters virá até aqui no sábado que vem. Para conhecer a Zara,

estando ela pronta ou não.

— O quê? — Fleur sentiu-se empalidecer, em choque. — Ele vai fazer

o quê?

— Está tudo combinado.

— Como vocês ousam combinar alguma coisa! Isso não tem nada a ver

com vocês!

— Isso tem tudo a ver conosco! Se você abre mão da responsabilidade,

alguém precisa assumi-la. Vou te dizer uma coisa: o Felix era a favor de eu

trazê-lo hoje direto de táxi! Mas eu disse que não, que o justo seria alertar a

Fleur. — Johnny tirou um lenço do bolso e secou a testa. — Acredite ou

não, estou do seu lado, Fleur.

— Bem, muito obrigada! — gritou Fleur. Ela se sentiu ligeiramente em

pânico e fora de controle. — Não quero vê-lo! — ela se viu dizendo. — Eu

não quero vê-lo.

— Você não precisa vê-lo. Isso é entre ele e Zara.

— O quê? Então eu não tenho nada a ver com isso?

— Claro que tem. Mas você não precisa dele. A Zara precisa.

— Ela está bem!

— Ela não está bem! Ela vive falando sobre os Estados Unidos comigo

ao telefone; sobre o pai dela. Fleur, ela está obcecada!

Por um instante, Fleur o encarou, o rosto tenso, os lábios contraídos. E

então, de repente, relaxou.

— Tá bem — disse ela. — Tudo bem. Você tem toda razão. Traga o Sr.

Winters no próximo sábado. Mas não conte para a Zara ainda. Vou prepará-

la eu mesma.

— Fleur...

— Prometo! Dessa vez, vou fazer isso, de verdade.

Johnny olhou para ela, desconfiado.

— E você vai fazer com que ela esteja aqui para conhecê-lo?

— Claro que sim, querido — disse Fleur com delicadeza e, fechando os

olhos, recostou-se de novo ao sol.

 

Philippa estava sentada sozinha a uma mesa no jardim. À sua frente, havia

um bule de chá, vários scones enormes e uma garrafa de vinho que ela

havia ganhado na tômbola. No canto do jardim, a banda tocava “Strangers

in the Night”, e várias crianças tentavam dançar umas com as outras na

frente do palco. Uma lágrima caiu do olho de Philippa dentro do chá. Ela

estava sozinha. Fleur a havia abandonado totalmente. Gillian estava do

outro lado do jardim, conversando animadamente com uma mulher que

Philippa nunca tinha visto antes. Ninguém havia nem perguntado como ela

estava nem por que estava tão pálida; ninguém estava interessado nela. Ela

tomou um gole de chá e olhou ao redor. Mas todo mundo estava rindo,

conversando ou se divertindo com a música.

De repente, ela viu Zara e Antony andando em direção a sua mesa.

Olhou fixamente para um ponto a meia distância e empurrou um pouco o

prato de scones para indicar sua perda de apetite.

— Oi, Philippa! — A voz de Antony estava alegre. — Tem chá aí

suficiente para nós dois?

— Mais que suficiente — sussurrou Philippa.

— Legal — disse Zara. Ela sorriu para Philippa. — Você nem imagina

como o Antony jogou bem. Conte para ela, Antony.

— Eu completei o circuito em sessenta e oito minutos — disse Antony,

corando. Ele abriu um sorriso enorme.

— Sessenta e oito! — repetiu Zara.

— Isso é bom? — perguntou Philippa.

— Claro que é bom! É fantástico!

— Por causa do meu handicap — disse ele depressa. — Meu handicap

ainda é bem alto, por isso devo ir bem.

— Você deve vencer, melhor dizendo — disse Zara. — O Antony é o

campeão!

— Ssh! — disse Antony sem jeito. — Não sou! Ainda não.

— Espere até a gente encontrar seu pai! Você foi melhor que ele, sabia?

— Eu sei — disse Antony. — Eu me sinto um pouco mal por isso.

Zara revirou os olhos.

— Isso é tão típico. Se algum dia eu derrotasse a Fleur em alguma

coisa, jamais a deixaria esquecer.

— Cadê a Fleur? — perguntou Philippa com uma voz estridente.

— Com Johnny, acho.

— Johnny?

— Um amigo nosso — disse Zara de modo casual. — Ele veio visitar a

gente de surpresa. Ele é, tipo, o melhor amigo dela.

— Entendo — disse Philippa.

— Ah, e você não sabe! — disse Antony. — A Xanthe Forrester

convidou a gente para ir à casa dos pais dela na Cornualha. Só por alguns

poucos dias. Você acha que papai vai deixar a gente ir?

— Não faço ideia — disse Philippa, sem ânimo.

O ciúme fervia de maneira nauseante dentro dela. O melhor amigo de

Fleur era um homem chamado Johnny; um homem sobre quem Philippa

nunca ouvira falar. Fleur havia corrido para ficar com ele sem dar a mínima

para ela.

— Espero muito que ele deixe — disse Antony. Virou-se para Zara. —

Vamos dar uma olhadinha no placar?

— Com certeza — disse Zara, sorrindo para ele. — Vamos ver a

pontuação de todos aqueles perdedores e tirar onda com eles.

— Não! — protestou Antony. — Só olhar.

— Você pode só olhar, se quiser — disse Zara. — Eu vou tirar onda.

 

Às seis da tarde, a pontuação final foi calculada, e Antony foi oficialmente

declarado o vencedor da Copa do Clube. Quando o resultado foi anunciado,

todos aplaudiram e Antony ficou muito vermelho.

— Muito bem! — exclamou Richard. — Antony, estou tão orgulhoso de

você! — Ele deu um tapinha no ombro de Antony, que corou ainda mais.

— Eu sabia que ele ia ganhar! — Zara disse a Richard. — Eu sabia!

— Eu também sabia — disse Gillian, sorrindo. — Fiz pavlova

especialmente para ele.

— Legal — disse Antony.

— Que incrível! — disse Fleur. — Eu já te dei os parabéns? Dê os

parabéns a ele, Johnny.

— Parabéns, garoto — disse Johnny. — Detesto golfe e tudo

relacionado a ele, mas meus parabéns mesmo assim.

— Você vai ficar para jantar? — perguntou Gillian.

— Não, não — disse Johnny. — Londres me chama. Mas espero voltar

daqui a uma semana. Você já vai ter voltado da Cornualha? — perguntou

ele a Zara.

— Já.

— Ótimo — disse Johnny. — Porque vou te trazer um presente.

Philippa e Lambert se uniram ao grupo, e o clima ficou um pouco

pesado.

— Você está começando cedo, Lambert — disse Fleur, de um jeito

alegre, olhando para o copo de conhaque na mão de Lambert.

— Muito bem, Antony — disse Lambert, ignorando Fleur e apertando a

mão de Antony um pouco forte demais. — Eu joguei muito mal. — Ele

tomou um gole do copo. — Mal demais.

— Eu não fazia ideia de que você era bom no golfe, Antony — disse

Philippa, baixinho. Tentou se aproximar de Fleur. — Você sabia, Fleur?

— Claro que eu sabia — disse Fleur com simpatia.

— Bem, claro, eu ando meio distraída ultimamente — começou

Philippa, com a voz baixa. Mas foi interrompida por Johnny.

— Meu trem! Ele parte em quinze minutos! Preciso chamar um táxi.

— Alguém vai levar você — disse Fleur. — Quem tem carro? Lambert.

Você se incomodaria em levar o Johnny até a estação?

— Creio que não — disse Lambert meio resmungando.

— Sim, leve ele, Lambert — disse Philippa, de pronto. — Vamos

esperar você na casa, depois.

— Excelente — disse Fleur. — E vai ter espaço para mim também no

seu carrão.

Antes que Philippa pudesse dizer alguma coisa, os três partiram. Ela

olhou para eles desanimada, e sentiu uma raiva dolorosa crescendo no peito.

Fleur estava agindo como se Philippa não estivesse ali. Como se ela não

existisse. Como se ela não tivesse nenhuma importância.

— Você está bem, Philippa? — perguntou Gillian.

— Estou bem — rebateu Philippa, e virou-se. Não queria a atenção de

Gillian, que não servia para nada. Tinha que ter a Fleur.

 

Enquanto os outros andavam de volta para a Maples, Zara se aproximou de

Richard.

— Antony jogou tão bem hoje — disse ela. — Você deve estar muito

orgulhoso dele.

— Estou — disse Richard, sorrindo para ela.

— Ele estava muito... — Zara enrugou a testa para pensar na palavra. —

Muito confiante — disse por fim. — Foi muito habilidoso. Você tinha que

ter visto.

— Ele praticou muito neste verão — disse Richard.

— E, tipo, parece que ele se esqueceu daquela história da marca de

nascença. Só jogou.

— O que você disse? — Richard franziu a testa olhando para ela.

— Você sabe. Aquela chateação com a marca de nascença.

— Do que você está falando, exatamente? — perguntou Richard com

cuidado.

Zara baixou o tom de voz.

— Ele me contou que a mãe dele detestava aquela marca. — Ela deu de

ombros. — Você sabe, a história do tapa-olho e tudo mais. Mas acho que

agora ele superou isso, o que acho que fez a maior diferença.

— Zara, o que... — Richard mal conseguia falar. Ele engoliu em seco e

respirou fundo. — Que história é essa de tapa-olho?

— Ah. — Zara olhou para ele e mordeu o lábio. — Você não sabe?

Acho que nenhum deles contou para você.

No carro, voltando para casa da estação, Fleur pegou um espelho compacto.

Ignorando Lambert, ela começou a pintar os lábios com um pincel

comprido e dourado. Pelo canto do olho, Lambert observava, hipnotizado,

enquanto ela passava o gloss. Porque não estava olhando para a frente, ele

desviou erraticamente algumas vezes para a pista do lado, e o carro de trás

buzinou forte.

— Lambert! — exclamou Fleur. — Você está bem para dirigir? — Ela

se inclinou para ele e fungou. — Quantos conhaques você tomou no clube?

— Estou bem — disse Lambert, curto e grosso.

Ele parou diante do semáforo e o carro começou a balançar de leve. Ele

sentia o cheiro de Fleur. Via as pernas dela, esticadas à sua frente. Pernas

compridas, alvas, caras.

— Então, Fleur — disse ele. — Está gostando de morar com o Richard?

— Claro — disse Fleur. — O Richard é um homem tão maravilhoso.

— E rico também — disse Lambert.

— É mesmo? — disse ela, de modo inocente.

— Ele é rico para caralho — disse Lambert. Ele se virou para olhar para

Fleur, e ela deu de ombros. — Não me diga que você não sabia que ele era

rico — falou ele, carrancudo.

— Eu não tinha parado para pensar nisso.

— Ah, por favor!

— Lambert, só vamos para casa, tudo bem?

— Casa — disse Lambert, divertindo-se. — É, suponho que agora seja a

sua casa, não é? Dama consorte do Sr. Rico para Caralho.

— Lambert — disse Fleur, séria. — Você está bêbado. Não deveria estar

dirigindo.

— Porra nenhuma.

O semáforo ficou amarelo e Lambert pisou fundo no acelerador.

— Então você não liga para dinheiro, é isso? — perguntou ele, mais alto

que o barulho do motor. — Você deve ser a única pessoa na porra da face da

Terra que não liga.

— Você é um homem sórdido, não é mesmo? — perguntou Fleur, em

voz baixa.

— Como é?

— Você é sórdido! Um homem sórdido e desagradável!

— Eu vivo no mundo real, está bem? — Lambert estava ofegante, o

rosto ficando vermelho.

— Todos vivemos no mundo real.

— Quem, você? Não me faça rir! Em que tipo de mundo real você vive?

Não tem emprego, não tem preocupações, só relaxa e gasta dinheiro.

Fleur comprimiu a mandíbula; ela não disse nada.

— Imagino que você tenha achado que Richard seria uma boa aposta,

não? — continuou Lambert, a voz arrastada. — Você ficou de olho nele a

quilômetros de distância. Provavelmente foi à missa fúnebre da esposa dele

de propósito para fisgá-lo.

— Estamos quase em casa — disse Fleur. — Graças a Deus. — Ela

olhou para Lambert. — Você poderia ter nos matado. E ao Johnny.

— Gostaria de ter feito isso. Uma bicha a menos na face da Terra.

Eles ficaram em silêncio por um instante.

— Não vou bater em você — disse Fleur com a voz trêmula —, porque

está dirigindo e não quero causar um acidente. Mas se disser algo assim de

novo...

— Você vai me encher de porrada? Nossa, estou morrendo de medo.

— Não — disse Fleur. — Mas alguns amigos do Johnny poderiam fazer

isso.

Eles entraram pelo acesso de veículos da Maples, e Fleur abriu a porta

imediatamente. Lançou um olhar fulminante para Lambert.

— Você me dá nojo — disse ela, e bateu a porta.

Lambert ficou olhando para ela, sentindo o sangue pulsando por sua

cabeça e uma ligeira confusão em seu cérebro. Ele a odiava ou a desejava?

Ela estava muito brava com ele, de qualquer forma.

Ele pegou a garrafinha de bolso e bebeu um pouco de conhaque.

Sórdido, ele? Ela deveria experimentar ter a porra de uma dívida de

trezentas mil libras. Uma sensação familiar de pânico tomou conta dele, e

ele deu mais um gole na bebida. Tinha que fazer alguma coisa em relação à

dívida. Tinha que dar um jeito nisso agora, antes que todo mundo

começasse a se reunir para jantar e a querer saber onde ele estava. Ele olhou

para a porta da casa, entreaberta. Fleur provavelmente tinha corrido até

Richard, para reclamar dele. Como qualquer mulher. Lambert sorriu. Que

ela reclamasse; que dissesse o que quisesse. Pelo menos, isso tiraria Richard

do caminho por um tempo.

 

Quando chegaram de volta à casa, Richard parou.

— Eu acho que gostaria de conversar com o Antony, só nós dois —

disse ele a Zara. — Se você não se incomodar.

— Claro que não me incomodo — disse Zara. — Acho que ele deve

estar no jardim. Nós íamos jogar badminton. — Ela ergueu o olhar para

Richard, o rosto franzido pela incerteza. — Você não ficou chateado de eu

ter te contado sobre o tapa-olho, ficou?

— Não! — Richard engoliu em seco. — Claro que não. Você fez a coisa

certa.

Ele encontrou Antony sentado perto da trave de badminton, soltando a

rede pacientemente. Por um instante, ele ficou só olhando para o filho; seu

filho alto, gentil e talentoso. Seu filho perfeito.

— Venha aqui — disse ele, quando Antony se virou. — Quero te

parabenizar direito.

Ele puxou Antony junto ao peito e o abraçou com força.

— Meu garoto — disse ele com os lábios nos cabelos do filho, e de

repente, se viu lutando para conter as lágrimas. — Meu garoto. — Ele

piscou algumas vezes, e então soltou Antony. — Estou extremamente

orgulhoso de você.

— Que bom — disse Antony, abrindo um sorriso involuntário. Olhou

para a rede de badminton. — Então você não... Você não liga para eu ter

vencido?

— Se eu ligo? — Richard olhou para ele. — Claro que não! Está na

hora de você começar a me vencer. Você já é um homem!

Um rubor leve de vergonha se espalhou pelo pescoço de Antony, e

Richard sorriu.

— Mas, Antony, eu não sinto orgulho só do seu talento no golfe —

continuou ele. — Sinto orgulho de você por inteiro. De cada pedacinho seu.

— Ele fez uma pausa. — E sei que a sua mãe também tinha orgulho de

você.

Antony não disse nada. Ele apertou a rede embaraçada de badminton

com força.

— Talvez ela nem sempre demonstrasse — disse Richard devagar. —

Era... difícil para ela, às vezes. Mas ela sentia muito orgulho de você. E ela

te amava mais que tudo no mundo.

— Sério? — perguntou Antony com a voz embargada, sem olhar para o

pai.

— Ela te amava mais que tudo no mundo — repetiu Richard.

Por alguns minutos, eles ficaram em silêncio. Richard observou o rosto

de Antony relaxar gradualmente; suas mãos afrouxarem o aperto na rede.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto do garoto e, de repente, ele respirou

fundo, quase como se para recomeçar a vida.

Você acredita em mim, pensou Richard; você acredita em mim sem

questionar. Deus abençoe sua alma crédula.

 

Zara havia decidido se juntar à Gillian na cozinha, esvaziando a lava-louças

enquanto Gillian tirava folhas de salada de dentro dos sacos plásticos e as

colocava dentro de uma enorme tigela de madeira. Ela ouvia pacientemente

enquanto Gillian tagarelava sobre alguma viagem que planejava fazer, o

tempo todo tentando imaginar o que o pai do Antony estava dizendo a ele.

— Que coincidência! — dizia Gillian animada. — Eleanor sempre quis

ir ao Egito também. Parece que Geoffrey se recusa a viajar nas férias para

um lugar onde não haja campo de golfe.

— Então você vai ver as pirâmides?

— Claro! E vamos fazer um cruzeiro pelo Nilo.

— E depois você vai ser assassinada — disse Zara. — Como no livro da

Agatha Christie.

Gillian gargalhou.

— Sabe, foi exatamente isso que a Eleanor disse.

— Acho que todo mundo diz isso. — Zara pegou uma panela e olhou

para ela. — Que merda é essa?

— É uma panela para cozinhar aspargos no vapor — disse Gillian de

modo seco. — E não fale palavrão.

Zara revirou os olhos.

— Você é chata igual ao Felix. Ele faz todo mundo colocar uma libra

numa caixa a cada palavrão.

— É uma ótima ideia. Fazíamos a mesma coisa na escola.

— Sim, bem... — disse Zara. — Estamos nos anos noventa, ou você não

reparou?

— Eu já tinha reparado — disse Gillian. — Mas obrigada por me

lembrar disso. — Ela pegou dois vidros de molho de salada. — Vamos de

alho ou manjericão?

— Ambos — sugeriu Zara. — Misture os dois.

— Está bem — disse Gillian. — Mas, se der errado, a culpa é sua.

As duas ergueram o olhar quando Fleur entrou na cozinha.

— Ah, oi — disse Zara. — Johnny conseguiu chegar a tempo de pegar

o trem?

— Chegou em cima da hora, mas deu tempo — disse Fleur. — Graças a

Deus não acabamos os dois mortos. O Lambert estava bêbado! Não parava

de ziguezaguear com o carro!

— Puta merda! — disse Zara. Ela olhou para Gillian. — Quer dizer,

minha nossa!

— Sente-se aqui — disse Gillian, aproximando-se de Fleur. —

Coitadinha! — Ela franziu o cenho. — Sabe, não é a primeira vez que isso

acontece. O Lambert tinha que ser processado!

— Vamos chamar a polícia — disse Zara, animada.

— Coloque a chaleira no fogo, Zara — disse Gillian —, e faça uma boa

xícara de chá para a sua mãe.

— Não, obrigada — disse Fleur. — Acho que vou subir e tomar um

banho de banheira.

— Experimente alguns chapéus — disse Zara. — Isso deve te animar.

— Já chega, Zara — disse Gillian. Ela olhou para Fleur. — Richard já

soube disso?

— Ainda não.

— Pois deveria.

— Sim — falou Fleur. — Ele vai saber.

Ela foi até o hall e começou a subir a escada para o andar de cima.

Enquanto fazia isso, uma voz se fez ouvir lá de baixo.

— Fleur! Aí está você! Venho te procurando o dia todo!

Fleur olhou ao redor. Philippa corria em direção a ela, o rosto vermelho,

meio ofegante.

— Fleur, nós precisamos conversar — dizia ela. — Tenho tanta coisa

para te contar. Sobre... — Ela engoliu em seco e secou uma lágrima do

olho. — Sobre Lambert. Você simplesmente não vai acreditar...

— Philippa — interrompeu Fleur na mesma hora —, agora não,

querida. Não estou bem para conversar agora. E, se quiser saber o motivo,

pode perguntar ao seu marido. — E antes que Philippa pudesse responder,

ela correu para cima.

Philippa ficou olhando fixamente para Fleur, sentindo-se magoada, com

lágrimas de indignação surgindo em seus olhos. Fleur não queria falar com

ela. Fleur a havia abandonado. Ela se sentiu nauseada pela tristeza e pela

raiva. Agora, ela não tinha amigos; não tinha plateia; ninguém a quem contar sua história. E tudo por causa de Lambert. De alguma forma, ele

havia deixado Fleur irritada. Ele estragava tudo. Philippa cerrou os punhos

e sentiu o coração começar a bater mais rápido. Lambert havia arruinado

sua vida, ela pensou, furiosa. Ele havia arruinado sua vida toda, e ninguém

fazia a menor ideia. Ele merecia uma punição. Ele merecia que todo mundo

soubesse quem ele era de verdade. Ele merecia vingança.