A Rainha dos Funerais
Cinco
O café da manhã havia sido servido no solário.
— Que lindo espaço — disse Fleur, educadamente, olhando para o rosto
de Gillian, buscando contato visual.
Mas Gillian mirava o prato. Ela ainda não tinha encarado Fleur desde
que chegara com Richard, na noite anterior.
— Gostamos muito daqui — comentou Richard, animado. —
Principalmente na primavera. No verão, às vezes fica quente demais.
Fez-se um novo silêncio. Antony pousou a xícara de chá e todo mundo
pareceu ficar prestando atenção no tilintar gerado pelo movimento.
— Construímos o solário há cerca de... dez anos — continuou Richard.
— Não foi isso, Gillian?
— Acho que sim — disse ela. — Alguém quer mais chá?
— Sim, por favor — respondeu Fleur.
— Certo. Vou preparar mais um bule — disse Gillian, e foi para a
cozinha.
Fleur deu uma mordida na torrada. As coisas estavam indo bem, pensou
ela, apesar do carneiro assado e da pavlova que não comeram. Tinha sido o
garoto, Antony, quem os havia confrontado na noite anterior, quase no
mesmo instante em que entraram na casa, e informado que Gillian havia
passado o dia todo cozinhando. Richard ficara petrificado, e Fleur
conseguira demonstrar de forma convincente estar muito consternada.
Felizmente, ninguém pareceu culpá-la. Felizmente também, ficou óbvio
naquela manhã que ninguém mais voltaria a tocar no assunto.
— Aqui está. — Gillian havia voltado com o bule.
— Perfeito — disse Fleur, sorrindo para a expressão facial nada
receptiva de Gillian.
Isso vai ser fácil, pensou Fleur, se o único desafio for enfrentar silêncios
desconfortáveis e olhares penetrantes. Esses olhares não a incomodavam
nem um pouco; muito menos sobrancelhas arqueadas; nem comentários
atravessados. Era essa a vantagem de escolher como alvo a reservada classe
média britânica, pensou Fleur, bebericando o chá. As pessoas pareciam não
falar abertamente umas com as outras; nunca queriam mudar o status quo;
pareciam quase mais dispostas a perder todo o dinheiro que tinham a se
submeter ao constrangimento de um confronto direto. O que significava
que, para uma pessoa como ela, o caminho estava livre.
Fleur olhou para Gillian com curiosidade. Para alguém que
supostamente tinha recursos financeiros, Gillian usava roupas horrendas.
Calça verde-escura — pantalona, Fleur imaginou que deveria ser esse o
nome correto — e uma camisa de algodão com bordado azul de mangas
curtas, dobradas em estilo operário. Quando Gillian se inclinou para a frente
com o bule, Fleur olhou para os braços dela — placas sólidas de pele
branca, opaca, quase morta.
As roupas de Antony eram um pouco melhores. Calça jeans padrão e
uma camisa vermelha bem bonita até. Uma pena que tivesse aquela marca
de nascença. Será que não tinham conseguido tratá-la? Provavelmente não,
porque se estendia por cima do olho. Ele poderia escondê-la com
maquiagem, se quisesse... Mas, tirando isso, pensou Fleur, ele era um rapaz
bonito. Tinha puxado ao pai.
O olhar de Fleur voou preguiçosamente para Richard. Ele estava
recostado na poltrona, admirando o jardim pelo vidro do solário com uma
expressão de aparente satisfação no rosto, como se estivesse no primeiro dia
de férias. Quando sentiu que ela o observava, ergueu o olhar e sorriu. Fleur
fez o mesmo. Era fácil sorrir para Richard, pensou ela. Era um homem bom,
gentil e atencioso, e não tão enfadonho quanto ela havia temido no início.
Aquelas últimas semanas tinham sido divertidas.
Mas era de dinheiro que ela precisava, não de diversão. Não havia
perseverado tanto para acabar com uma renda limitada e férias em Majorca.
Fleur deu um suspiro discreto e tomou mais um gole de chá. Às vezes, o
esforço de ir atrás de dinheiro a deixava exaurida; às vezes, começava a
achar que Majorca não seria uma ideia tão ruim assim, no fim das contas.
Mas isso era fraquejar. Ela não tinha ido tão longe simplesmente para
desistir. Alcançaria seu objetivo. Tinha de alcançá-lo. Além do mais, era o
único objetivo que possuía na vida.
Ela olhou para Richard e sorriu.
— Essa aqui é a maior casa de Greyworth?
— Acho que não — disse Richard. — Uma das maiores, acredito eu.
— Os Tilling têm oito quartos — disse Antony. — E um salão de jogos
com uma mesa de sinuca.
— Pronto — disse Richard, sorrindo. — Antony sabe das coisas.
Antony não disse nada. Ele achava perturbadora a visão de Fleur
sentada à sua frente, do outro lado da mesa. Aquela mulher estava mesmo
saindo com seu pai? Ela era linda. Linda! E fazia seu pai parecer diferente.
Quando os dois chegaram na noite anterior, elegantes e glamorosos,
pareciam vir de outra família. Seu pai não se parecia com seu pai. E Fleur
não se parecia com a mãe de ninguém. Mas também não era uma vadia,
pensou Antony. Não era bonitinha e cabeça de vento. Era só... bonita.
Ao pegar sua xícara, Richard testemunhou Antony olhando fixamente
para Fleur, sem esconder a admiração. Instintivamente, ele sentiu uma
pontinha de orgulho. Isso mesmo, meu menino, teve vontade de dizer. A
vida ainda não acabou para mim. Lá no fundo, pensamentos cheios de culpa
corriam por sua mente como um trem: lembranças de Emily sentada
exatamente onde Fleur estava agora; memórias de cafés da manhã em
família com a risada alegre de Emily abafando a conversa. Mas ele as
reprimia sempre que vinham à tona; recusava-se a permitir que aquele
sentimentalismo tomasse conta dele. A vida era para ser vivida; a felicidade
era para ser aproveitada; Fleur era uma mulher incrível. Sentada à luz forte
do sol, parecia não haver nada além daquilo.
Depois do café da manhã, Richard se retirou para se preparar para o golfe.
Como havia explicado a Fleur, aquele era o dia da Copa Banting. Se fosse
qualquer outro sábado, ele teria deixado o golfe de lado para fazer um tour
pelo local com ela. Mas a Copa Banting...
— Não se preocupe — dissera Fleur, sem pestanejar. — Vou ficar bem.
— Podemos nos encontrar para beber alguma coisa mais tarde —
acrescentara Richard. — Gillian levará você à sede do clube. — Ele parara,
franzindo a testa. — Você se incomoda?
— Claro que não — dissera Fleur, rindo. — Vou aproveitar a manhã
sozinha.
— Você não vai ficar sozinha! — dissera Richard. — Gillian vai cuidar
de você.
Agora, Fleur olhava para Gillian de modo pensativo. Ela estava
retirando pratos limpos da lava-louça e organizando-os em uma pilha.
Sempre que se abaixava, soltava um suspiro baixo; sempre que se
levantava, parecia que o esforço a mataria.
— Que pratos lindos — disse Fleur, levantando-se. — Simplesmente
lindos. Você que escolheu?
— O quê? Esses aqui? — disse Gillian. Ela olhou para o prato que
segurava como se o detestasse. — Ah, não. A Emily escolheu. A mulher do
Richard. — Ela fez uma pausa, e sua voz ficou mais séria. — Ela era minha
irmã.
— Entendi — disse Fleur.
Bem, não havia demorado muito para chegar a esse assunto, ela pensou.
A esposa falecida e sem culpa de nada. Talvez ela tivesse subestimado essa
Gillian. Talvez o ataque fosse começar naquele momento. Os lábios
contraídos, as ameaças sussurradas. Você não é bem-vinda na minha
cozinha. Ela ficou ali, observando Gillian e esperando. Mas o rosto de
Gillian permanecia impassível; pálido e flácido como uma broa mal assada.
— Você joga golfe? — perguntou Fleur, por fim.
— Um pouco.
— Eu não sei jogar, na verdade. Preciso tentar aprender.
Gillian não respondeu. Ela havia começado a colocar os pratos de volta
no armário. Eram pratos de cerâmica pintada à mão, cada um deles
decorado com um animal de fazenda diferente. Se era para serem expostos,
pensou Fleur, que pelo menos os animais ficassem virados para cima. Mas
Gillian não parecia reparar nisso. Cada prato voltou ao armário com um
barulho, até a prateleira de cima e metade da segunda serem tomadas por
animais em ângulos diferentes. Então, de repente, os animais acabaram e ela
começou a encher o restante das prateleiras com pratos de cerâmica com
desenhos azuis e brancos. Não!, Fleur sentiu vontade de exclamar. Não está
vendo que assim fica horrível? Levaria dois minutos para deixar tudo
bonito.
— Que adorável — disse ela, enquanto Gillian terminava. — Gosto
muito de cozinhas no estilo fazenda.
— São difíceis de manter limpas — disse Gillian, de modo taciturno. —
Todos esses azulejos. Quando picamos legumes, pedacinhos ficam grudados
entre eles.
Fleur olhou ao redor devagar, tentando pensar em algo a dizer sobre o
assunto dos legumes picados. O lugar trazia a ela a desconfortável
lembrança de uma cozinha na Escócia na qual havia ficado tremendo de frio
durante toda uma temporada de caça, para, no fim, descobrir que o nobre
anfitrião, além de estar afundado em dívidas, a traía desde o início.
Malditos homens de classe alta, pensou ela, revoltada. Um bando de
fracassados que só a faziam perder tempo.
— Com licença — disse Gillian. — Preciso abrir esse armário.
Ela se abaixou, passando por Fleur, e surgiu com um ralador.
— Deixe-me ajudar — disse Fleur. — Tenho certeza de que há algo que
eu possa fazer.
— Vai ser mais fácil se eu fizer sozinha. — Os ombros de Gillian
estavam encurvados e ela se recusava a olhar nos olhos de Fleur, que
resolveu não insistir.
— Tudo bem — disse Fleur. — Bem, acho melhor eu subir e dar um
jeito numa coisinha aqui e outra ali. A que horas vamos à sede do clube?
— Ao meio-dia — disse Gillian, sem erguer o olhar.
Teria tempo suficiente, pensou Fleur, ao subir a escada. Sem Richard e
sem Antony na casa e com Gillian ralando coisas na cozinha, agora era a
oportunidade perfeita para investigar o que precisava. Ela atravessou o
corredor devagar, avaliando o preço de tudo mentalmente. O papel de
parede era sem graça, mas caro; os quadros eram sem graça e baratos.
Todos os quadros bons obviamente tinham sido expostos na sala de estar, no
andar de baixo, onde as visitas podiam vê-los. Emily Favour provavelmente
tinha sido o tipo de mulher que usava vestidos caros e lingeries baratas,
pensou Fleur.
Fleur passou direto pela porta do quarto dela e desceu um pequeno
lance de escada. O lado bom de se estar numa casa pela primeira vez era
que a pessoa sempre poderia alegar estar perdida. Principalmente porque o
tour guiado da noite anterior tinha sido muito vago. “Ali embaixo fica meu
escritório”, dissera Richard, apontando para a escada. E Fleur não titubeou,
apenas bocejou discretamente e disse: “Aquele vinho que tomamos me
deixou com sono!”
Agora, ela descia o lance de escada, determinada. Até que enfim estava
entrando em ação. Dentro daquele cômodo, poderia descobrir o tamanho do
potencial de Richard — saberia se ele valeria o esforço e quanto poderia
tirar dele. Poderia concluir logo se valia a pena esperar por um determinado momento no ano; se havia fatores específicos que ela deveria levar em
consideração. Fleur desconfiava que não. A vida financeira da maioria dos
homens era bem parecida. Eram os homens em si que se diferenciavam.
O foco nesse projeto a encheu de uma animação súbita, e ela sentiu o
coração bater mais forte ao levar a mão à maçaneta. Mas a porta não abriu.
Ela tentou de novo — mas não teve jeito. A porta do escritório estava
trancada.
Durante alguns segundos, Fleur olhou com raiva para os painéis brancos
e lustrosos da porta. Que tipo de homem trancava a porta do escritório na
própria casa? Ela tentou abrir mais uma vez. Estava mesmo trancada. Fleur
sentiu vontade de chutá-la. E, então, o autocontrole imperou. Não havia
motivo para se demorar ali e correr o risco de ser vista. Mais que depressa,
ela se virou, subiu os degraus, atravessou o corredor e entrou no quarto.
Sentou-se na cama e olhou contrariada para o reflexo no espelho. O que
faria agora? Aquela porta estava entre ela e todos os detalhes de que
precisava. Como poderia prosseguir sem a informação correta?
— Raios me partam — disse ela em voz alta. — Partam-me os raios.
Raios me partam.
Por fim, o som da própria voz a animou. Não era tão ruim assim. Ela
daria um jeito. Richard não poderia manter o escritório trancado o tempo
todo — e, se mantivesse, ela só precisaria encontrar a chave. Enquanto
isso... Fleur passou a mão distraidamente pelos cabelos. Enquanto isso, ela
poderia tomar um belo e demorado banho de banheira e lavar os cabelos.
Às onze e meia, Gillian veio subindo os degraus. Fleur pensou por um
instante, e, então, ainda de roupão, foi até o patamar da escada. Gillian seria
uma distração, na pior das hipóteses.
— Gillian, o que devo usar para ir à sede do clube? — perguntou ela.
Tentou atrair o olhar de Gillian para si. — Diga-me o que devo vestir.
Gillian deu de ombros.
— Não há regras. Qualquer traje elegante serve, acho.
— Isso é muito vago! Você vai ter que vir me ajudar a decidir. Venha!
— Fleur voltou para dentro do quarto e, depois de um segundo de hesitação,
Gillian a seguiu. — Minhas roupas mais elegantes são todas pretas — disse
Fleur. — Alguém no Clube de Golfe usa preto?
— Não — disse Gillian.
— Imaginei que não. — Fleur suspirou de um modo um pouco
dramático. — Eu não queria destoar do restante do pessoal. Posso ver o que
você vai usar?
— Não vou usar nada especial — disse Gillian com uma certa aspereza.
— Só um vestido azul.
— Azul! Espere aí... — Fleur vasculhou uma de suas malas. — Quer
isso emprestado? — Ela pegou uma longa echarpe de seda azul e a
posicionou sobre os ombros de Gillian. — Um tolo me deu isso. E eu lá
tenho cara de quem usa azul? — Ela revirou os olhos para Gillian e passou
a falar mais baixo. — Ele também parecia achar que eu vestia 38 e que
gostava de lingerie vermelha. — Fleur deu de ombros. — Fazer o quê?
Gillian olhou para Fleur sentindo o rosto corar. Algo que não lhe era
muito familiar estava acontecendo no fundo de sua garganta. A sensação era
um pouco como a de uma risada.
— Mas deve ficar perfeito em você — disse Fleur. — É da cor exata
dos seus olhos. Como eu queria ter olhos azuis! — Ela encarou Gillian, que
começou a sentir calor.
— Obrigada — disse Gillian, abruptamente. Olhou para a seda azul. —
Vou experimentar. Mas não sei se vai combinar com o vestido.
— Quer que eu vá te ajudar? Sei como arrumar essas coisas.
— Não! — Gillian quase gritou. Fleur a estava sufocando. Precisava
sair dali. — Vou lá trocar de roupa. E ver como fica. — Ela saiu apressada
do quarto.
Na segurança do próprio quarto, Gillian parou. Pegou a ponta da
echarpe e esfregou o tecido macio no rosto. Tinha um cheiro adocicado.
Como Fleur. Doce, macio e vibrante.
Gillian se sentou à penteadeira. A voz de Fleur ressoava em seus
ouvidos. Uma bolha de risada ainda ocupava o fundo de sua garganta.
Sentia-se animada; sem fôlego, quase “possuída”. Isso é charme, pensou, de
repente. A efusividade e os beijos das mulheres frias no Clube de Golfe não
eram charme de verdade. Emily tinha sido considerada uma mulher
charmosa, mas seus olhos eram frios e seu riso tilintante era piegas e sem
graça. Os olhos de Fleur eram calorosos e receptivos, e, quando ela ria,
fazia todo mundo querer rir também. Isso era charme de verdade. É claro
que Fleur não estava falando sério. Não queria ter olhos azuis, de verdade;
não precisava do conselho de Gillian, na verdade. Tampouco — Gillian
tinha certeza — não queria não destoar do restante do pessoal no clube de golfe. Mas, apenas por alguns segundos, ela havia feito Gillian se sentir
bem, querida e incluída. Ela nunca havia se sentido incluída.
A sede do clube em Greyworth tinha sido construída em estilo colonial
americano, com uma varanda de madeira grande que dava vista para o
campo de golfe de dezoito buracos.
— Esse é o bar? — perguntou Fleur, quando as duas chegaram.
Fleur olhou para as mesas e cadeiras; para os gins; para os rostos
corados e alegres.
— O bar fica ali dentro. Mas, no verão, todo mundo se senta do lado de
fora. É muito difícil conseguir uma mesa. — Gillian perscrutou o ambiente,
os olhos semicerrados. — Acho que todas estão ocupadas. — Ela suspirou.
— O que você gostaria de beber?
— Um Manhattan — disse Fleur.
Gillian olhou para ela, confusa.
— O que é isso?
— Eles vão saber.
— Bem... tudo bem, então.
— Espere um pouco — disse Fleur. Ela estendeu a mão para Gillian e
puxou as pontas da echarpe azul. — Você precisa ajeitar direito. Assim. Não
deixe que ela fique toda enrugada. Está bem?
Gillian deu de ombros.
— É tanto detalhe.
— Os detalhes tornam a coisa divertida — disse Fleur. — Como a risca
atrás da meia-calça. Você precisa verificá-la a cada cinco minutos.
A expressão facial de Gillian ficou ainda mais melancólica.
— Bem, vou pegar as bebidas — disse ela. — A fila deve estar enorme.
— Quer ajuda? — perguntou Fleur.
— Não, é melhor você ficar aqui fora e esperar alguma mesa vagar.
Ela começou a andar em direção às portas de vidro que levavam ao bar.
Ao se aproximar delas, Gillian diminuiu um pouco o passo, levou as mãos
às pontas da echarpe e as ajeitou, discretamente.
Fleur abriu um sorrisinho. E, então, com movimentos lentos, ela se
virou e percorreu a varanda com o olhar. Estava ciente de que tinha
começado a atrair alguns olhares interessados. Golfistas do sexo masculino,
de rosto vermelho, inclinavam-se em direção aos amigos; golfistas do sexo
feminino, de olhar aguçado, cutucavam umas às outras.
Rapidamente, Fleur avaliou as mesas na varanda. Algumas tinham vista
para o campo de golfe, outras, não. Algumas tinham guarda-sóis, outras
não. A melhor delas ficava no canto, ela decidiu. Era grande e redonda, e só
havia dois homens sentados lá. Sem hesitar, Fleur se aproximou e sorriu
para o mais rechonchudo dos dois. Ele usava uma camisa de time, de um
amarelo bem forte, e já havia bebido metade da cerveja de sua caneca de
prata.
— Oi — disse ela. — Vocês dois estão sozinhos?
O homem rechonchudo ficou um pouco mais corado e pigarreou.
— Nossas esposas estão para chegar.
— Ah, sim. — Fleur começou a contar as cadeiras. — Será que ainda
teria lugar para mim e uma amiga? Ela só foi pegar nossas bebidas.
Os homens se entreolharam.
— A questão — continuou Fleur — é que eu gostaria muito de olhar
para o campo de golfe. — Ela começou a se inclinar em direção à mesa. —
É lindo, não é?
— Um dos melhores de Surrey — disse o homem mais magro,
rispidamente.
— Vejam só essas árvores! — disse Fleur, apontando. Os dois
acompanharam o olhar dela. Quando se viraram, ela já estava sentada em
uma das cadeiras vazias. — Vocês jogaram hoje? — perguntou ela.
— Veja bem — disse um dos homens, sem jeito. — Eu não quero
parecer...
— Vocês jogaram a Copa Banting? O que exatamente é a Copa
Banting?
— Você é sócia nova? Porque se for...
— Não sou sócia, não — disse Fleur.
— Não é sócia? Está com crachá de visitante?
— Não sei — disse Fleur vagamente.
— Isso é bem típico — disse o mais magro para o de camisa de time
amarela. — Não existe segurança nesse lugar. — Ele se virou para Fleur. —
Agora, veja bem, jovem, terei de pedir que...
— Jovem? — disse Fleur, sorrindo para ele. — Que gentil de sua parte.
Ele se levantou, irritado.
— Você está ciente de que esse é um clube particular e que invasores
serão processados? Agora, acho que o melhor a fazer é você e sua amiga...
— Ah, lá vem a Gillian — interrompeu Fleur. — Oi, Gillian. Esses
simpáticos senhores nos deixaram sentar à mesa deles.
— Oi, George — disse Gillian. — Aconteceu alguma coisa?
O silêncio imperou por um instante, durante o qual Fleur se virou
despreocupadamente. Uma conversa confusa e constrangida teve início
atrás dela. Os homens não tinham se dado conta de que a amiga de Fleur era
Gillian! Não tinham a menor ideia. Acharam que... Não, é claro que não
tinham achado. Bem, de qualquer modo... que mundo pequeno, não? Que
mundo pequeno. E ali estavam as bebidas.
— O meu é o Manhattan — disse Fleur, virando-se. — Meu nome é
Fleur Daxeny. Muito prazer.
— Alistair Lennox.
— George Tilling.
— Achei meu crachá de visitante — disse Fleur. — Querem ver?
Os dois começaram a murmurar, sem jeito.
— Qualquer amiga de Gillian... — começou um deles.
— Na verdade, sou mais amiga do Richard — disse Fleur.
— Uma amiga de longa data?
— Não, uma amiga recente.
Houve uma pausa, durante a qual um brilho de reconhecimento ficou
evidente nos olhos de George Tilling. Agora você se lembra, pensou Fleur.
Sou aquela fofoca que sua esposa estava tentando te contar enquanto você
lia o jornal. Agora se arrepende por não ter ouvido o que ela dizia com mais
atenção, não é mesmo? E abriu um sorrisinho para ele.
— Você sabia que tem sido alvo de muita fofoca? — perguntou Alec,
quando chegaram ao décimo sétimo buraco.
Richard sorriu discretamente e pegou o taco.
— Fiquei sabendo. — Ele olhou para o velho amigo; todo
compreensivo e preocupado. — O que você não percebe é que ser alvo de
fofoca é bem divertido, na verdade.
— Isso não é brincadeira — disse Alec. Seu sotaque escocês ficava cada
vez mais pronunciado, como sempre acontecia quando estava ansioso. —
Estão dizendo... — Ele parou de falar.
— O que estão dizendo? — Richard ergueu a mão. — Deixe-me jogar
primeiro.
Sem hesitar, ele bateu com o taco de golfe na bola, que entrou num
buraco a três metros de distância.
— Bela tacada — disse Alec, automaticamente. — Você está jogando
bem hoje.
— O que estão dizendo? Vamos, Alec, desembuche.
Alec fez uma pausa. Uma expressão de pesar tomou conta de seu rosto.
— Estão dizendo que se você continuar com essa mulher, pode ser que
não seja indicado para capitão, no fim das contas.
Richard comprimiu os lábios.
— Compreendo — disse ele. — E alguma dessas pessoas chegou a
conhecer de fato “essa mulher”, como você disse de modo tão charmoso?
— Acho que Eleanor tem dito...
— Eleanor viu Fleur uma vez, brevemente, num restaurante de Londres.
Não é certo que ela...
— Certo e errado não entram nessa equação. Você sabe disso. Se o
clube se opuser a Fleur...
— E por que se oporiam?
— Bem... Ela é bem diferente da Emily, não é?
Richard conhecia Alec desde os sete anos e nunca tinha sentido vontade
de agredi-lo. Mas, agora, sentia vontade de partir para cima dele; de todos
eles. Observou, em silêncio, enquanto Alec segurava o taco, sentindo as
mãos se fecharem e a mandíbula se contrair. Quando a bola entrou no
buraco, finalmente, Alec olhou para cima e encontrou o olhar tenso de
Richard.
— Veja — disse ele, em tom de desculpa. — Pode ser que você não se
importe com o que o clube pensa. Mas... bem, não é só o clube. Estou
preocupado por você. Admita: Fleur parece ter tomado conta da sua vida.
— Ele recolocou a bandeira e os dois começaram a caminhar lentamente em
direção ao décimo oitavo buraco.
— Você está preocupado por mim — repetiu Richard. — E com o que
exatamente está preocupado? Com a possibilidade de eu estar me divertindo
demais? Com a possibilidade de eu estar mais feliz agora do que em
qualquer outro momento da minha vida?
— Richard...
— Bem, o que é, então?
— Acho que só tenho medo que você se machuque. — Alec desviou o
olhar, constrangido.
— Meu Deus — disse Richard. — Estamos começando a ser francos
um com o outro.
— Você sabe o que eu quero dizer.
— Tudo que sei é que estou feliz, Fleur está feliz, e o resto de vocês
deveria cuidar da própria vida.
— Mas você mergulhou de cabeça...
— Sim, mergulhei de cabeça. E sabe de uma coisa? Descobri que
mergulhar de cabeça é a melhor maneira de se viver.
Eles tinham chegado ao pino. Richard tirou a bola do bolso e olhou
diretamente para Alec.
— Você já mergulhou de cabeça em alguma coisa na vida? — Alec
ficou em silêncio. — Foi o que pensei. Bem, sabe, talvez devesse tentar.
Richard colocou a bola no pino e, com a mandíbula tensa, ensaiou
alguns movimentos com o taco. O décimo oitavo buraco era distante e
difícil, contornando um pequeno lago à direita. Richard e Alec sempre
concordaram que era mais seguro jogar ao redor do lago do que arriscar
perder uma bola na água. Mas, hoje, sem olhar para Alec, Richard bateu na
bola com firmeza para a direita, bem em direção ao lago. Os dois
observaram em silêncio quando a bolinha sobrevoou a superfície da água e
pousou com segurança na parte lisa do campo.
— Acho... que você conseguiu — disse Alec, baixinho.
— Sim — disse Richard. Não parecia surpreso. — Consegui. Você
provavelmente conseguiria também.
— Acho que eu não tentaria.
— Pois bem — disse Richard. — Talvez essa seja a diferença entre nós.