A Rainha dos Funerais

Sophie Kinsella · Capítulo 18 de 19

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A Rainha dos Funerais

Dezoito

 

 

Bem cedo na manhã seguinte, um Jeep branco parou na frente da Maples e

buzinou alto, acordando Richard. Esfregando os olhos, ele foi até a janela

do quarto e olhou para fora.

— São os amigos do Antony — disse ele à Fleur. — Devem estar indo

cedo para a Cornualha.

De repente, alguém bateu à porta e a voz de Antony foi ouvida.

— Pai? Nós estamos indo!

Richard abriu a porta e olhou para Antony e para Zara, de pé no patamar

da escada. Eles estavam vestidos de modo idêntico, com calça jeans e boné,

e os dois carregavam bolsas de viagem enormes e cheias.

— Certo — disse Richard. — Rumo à Cornualha. Vocês vão se

comportar, não vão?

— Claro que vamos — disse Antony, impaciente. — E, de qualquer

modo, a mãe da Xanthe vai estar lá.

— Eu sei — disse Richard. — Conversei com ela ontem. E falei sobre

algumas regras básicas.

— Pai! O que você disse?

— Nada de mais — disse Richard, sorrindo. — Só que vocês tinham

que tomar um banho de banheira gelado todo dia pela manhã, e depois ler

Shakespeare por uma hora...

— Pai!

— Tenho certeza de que vocês vão se divertir muito — disse Richard,

baixando a guarda. — E nós nos veremos aqui de novo na sexta.

Lá fora, o Jeep buzinou mais uma vez.

— Tudo bem — disse Antony. Ele olhou para Zara. — Bem, é melhor a

gente ir.

— Espero que Philippa fique bem — disse Zara.

— É. — Antony ergueu o olhar para Richard e mordeu o lábio. —

Espero que ela...

— Ela vai ficar bem — disse Richard de modo tranquilizador. — Não

se preocupem. Agora, andem, antes que a Xanthe comece aquele barulho

infernal de novo.

Ele observou os dois descerem a escada. Zara estava quase dobrando o

corpo todo para a frente com o peso da bolsa, e ele se perguntou por um

instante o que ela podia estar carregando. E, então, quando ouviu a porta da

casa se fechar, virou-se para Fleur.

— Eram o Antony e a Zara — disse ele, sem precisar. — Saindo a

caminho da Cornualha.

— Mmm. — Fleur, sonolenta, se virou, enrolando-se no edredom.

Richard ficou olhando para ela por algum tempo, e então respirou

fundo.

— Não sei a que horas você quer sair de casa — disse ele. — Levarei

você à estação. Me avise quando quiser.

— Está bem — disse Fleur. Ela abriu os olhos. — Você não se importa,

não é, Richard? Só preciso de um tempo para pensar.

— Claro que precisa — disse ele, forçando a voz para parecer animado.

— Entendo totalmente. Eu não esperaria que você tomasse uma decisão

sem pensar com calma.

Richard se sentou na cama e olhou para Fleur. Os braços dela estavam

repousados no travesseiro acima da cabeça; braços bonitos, como os de uma

bailarina. Ela havia fechado os olhos de novo, retornando ao doce sono da

manhã. Pela mente dele, passou a possibilidade de que ela o rejeitasse. E,

com essa ideia, surgiu uma pontada de dor, tão forte e aguda que quase o

deixou em pânico.

No andar de baixo, Gillian preparava um chá. Ela levantou a cabeça

quando Richard entrou na cozinha.

— Eu vi os dois saindo — disse ela. — Aquele rapaz, o Mex, estava

dirigindo. Espero que ele seja responsável.

— Tenho certeza de que é — disse Richard. Ele se sentou à mesa da

cozinha e olhou ao redor. — A casa fica muito silenciosa — disse ele. — Já

sinto falta da música alta.

Gillian sorriu e colocou uma caneca de chá na frente dele.

— O que vai acontecer com a Philippa? — perguntou ela. — Ela vai

sair do hospital hoje?

— Vai — disse Richard. — A menos que alguma coisa tenha acontecido

de ontem para hoje. Vou buscá-la agora de manhã.

— Vou com você — disse Gillian. — Se não tiver problema.

— Claro que não tem problema — disse Richard. — Aposto que ela

adoraria ver você. — Ele tomou um gole de chá, organizando os

pensamentos, e então ergueu o olhar. — Há outra coisa que preciso te

contar. Fleur vai a Londres passar uns dias lá.

— Entendo — disse Gillian. Ela olhou para o rosto pálido e sério de

Richard. — Você não vai junto? – perguntou, hesitante.

— Não — disse ele. — Dessa vez, não. A Fleur... — Ele passou a mão

no rosto. — A Fleur precisa de um tempo sozinha. Para... pensar em

algumas coisas.

— Entendo — repetiu ela.

— Ela estará de volta no sábado — disse Richard.

— Ah, que bom — disse Gillian, animada. — Vai passar muito rápido.

— Richard sorriu sem energia e bebeu todo o chá. Gillian olhou para ele

ansiosamente. — Você acha que a Fleur gostaria de beber um pouco de chá?

— perguntou ela. — Vou subir daqui a pouco.

— Ela não quer chá — disse Richard, lembrando-se de repente. — Mas

perguntou se eu poderia levar o jornal The Times lá em cima para ela.

— The Times — disse Gillian, olhando ao redor. — Aqui está. Posso

levar para ela, se você quiser. — Ela pegou o jornal dobrado e olhou para

ele com curiosidade. — Fleur não costuma ler o jornal — disse ela. — Por

que será que ela o quer?

— Não sei — disse Richard, servindo-se de mais chá. — Não perguntei.

Às dez da manhã, Fleur estava pronta para sair.

— Vamos deixar você na estação — disse Richard, levando a mala dela

escada abaixo —, e então iremos ao hospital. — Ele fez uma pausa. — A

Philippa vai ficar triste por não te ver lá — acrescentou ele.

— É uma pena — disse Fleur. Ela olhou nos olhos de Richard. — Mas

realmente acho que não consigo...

— Não — disse ele, apressado. — Claro que não. Eu não deveria ter

dito nada.

— Você é um doce de homem — disse Fleur, e passou a mão pelo braço

dele. — E espero mesmo que a Philippa supere isso.

— Ela vai ficar bem — disse Gillian, entrando no hall. — Vamos

mantê-la em casa por um tempo; cuidar dela direito. Quando você voltar, ela provavelmente estará novinha em folha. — Ela olhou para Fleur. —

Você está muito elegante — disse ela — toda de preto.

— É uma cor muito útil para se usar em Londres — murmurou Fleur. —

Não mostra a sujeira da cidade.

— Você vai ficar na casa do seu amigo Johnny? — perguntou Gillian.

— Poderemos contatar você lá se houver alguma emergência com a Zara?

— Provavelmente não ficarei lá, não — disse Fleur. — Devo me

hospedar em um hotel. — Franziu o cenho de leve. — Ligo quando chegar

e deixo o número do telefone.

— Ótimo — disse Richard. Ele olhou para Gillian com hesitação. —

Bem, acho melhor irmos.

Ao saírem pela porta e começarem a andar pelo acesso de veículos,

Fleur olhou para trás, para a casa, admirando-a.

— É uma casa acolhedora, essa, não é? — disse ela, de repente. — Uma

casa aconchegante.

— Sim — disse Richard, animado. — Muito aconchegante. É... bem,

acho que é uma casa ótima para se ter como lar.

Fleur olhou nos olhos dele.

— Sim — disse ela, com delicadeza, e abriu a porta do carro. — Sim,

Richard, tenho certeza que sim.

 

***

 

Philippa estava sentada em seu leito quando Richard e Gillian chegaram.

Ela os observou atravessando a enfermaria e, automaticamente, tentou abrir

um sorriso largo para eles. Mas sua boca estava esquisita, e as bochechas,

rígidas. A sensação era de que nunca mais conseguiria sorrir; como se a

vergonha congelante que tomava seu corpo tivesse feito com que sua reação

natural fosse ficar paralisada.

Ela não achou que seria assim. Achou que estivesse cometendo o maior

ato romântico que existe; e que, quando acordasse, encontraria todo mundo

reunido ao redor do seu leito, contendo as lágrimas, acariciando sua mão e

prometendo tornar sua vida melhor. Em vez disso, acordou com uma série

de ataques humilhantes contra seu corpo, administrados por enfermeiras

com frases educadas nos lábios e desprezo nos olhos. Quando vira o rosto

arrasado do pai, algo dentro dela tinha se dobrado, e ela sentira vontade de

chorar. Exceto que, de repente, ela não conseguia mais chorar. A fonte das lágrimas eternas que havia dentro dela tinha secado; o pano de fundo de

fantasia romântica havia caído, e só havia sobrado algo frio e seco, como

pedra.

Ela lambeu os lábios quando o pai e Gillian se aproximaram, respirou

fundo e disse um “oi” hesitante. Sua voz soou estranha e metálica.

— Oi, querida!

— Oi, Philippa. — Gillian sorriu alegre para ela. — Como você está?

— Muito melhor — disse Philippa devagar. A sensação era de que

estava falando outra língua.

— Você pode ir para casa hoje — disse seu pai. — A papelada da alta

está pronta.

— Que bom — disse Philippa. De repente, um pensamento lhe ocorreu.

— A Fleur está em casa?

— Não — respondeu seu pai. — A Fleur foi passar uns dias em

Londres.

— Entendi — disse Philippa. Um lampejo surdo de decepção percorreu

seu corpo, mas logo morreu. — Ela vai voltar? — perguntou,

educadamente.

— Sim — respondeu Gillian, antes que Richard pudesse dizer alguma

coisa. — Sim, claro que ela vai voltar.

No carro, muito pouco foi dito. Quando chegaram à casa, Gillian levou

tigelas de canja de galinha ao solário, e Richard se sentou em frente à

Philippa.

— Precisamos conversar sobre Lambert — disse ele, com cautela.

— Sim. — A voz de Philippa soou monótona.

— Você...

— Nunca mais quero ver a cara dele na minha frente.

Richard olhou para Philippa por muito tempo, e então para Gillian.

— Tudo bem — disse ele. — Bem, desde que você tenha certeza disso.

— Quero o divórcio — disse Philippa. — Está tudo acabado entre mim

e Lambert. — Ela tomou uma colherada de canja. — Que delícia.

— Caldo de galinha de verdade — disse Gillian. — Com certeza não

usam isso naquelas comidas prontas de caixinha.

— E você tem certeza de que não vai mudar de ideia? — insistiu

Richard.

— Sim — disse Philippa com calma. — Tenho certeza. — Ela se sentiu

libertada, como se estivesse jogando fora um monte de tralha indesejada. Sua mente estava limpa e leve; sua vida estava livre; ela poderia começar de

novo.

 

Mais tarde, naquele mesmo dia, Lambert chegou de táxi à Maples, levando

um buquê de cravos cor-de-rosa. Richard o recebeu à porta da casa e o

levou para a sala de estar.

— Philippa está descansando lá em cima — disse Richard. — Ela não

quer ver você.

— É uma pena — disse Lambert. — Trouxe isso para ela. — Ele

colocou as flores em uma mesa de canto, sentou-se no sofá e começou a

limpar o mostrador do relógio com a manga da camisa. — Imagino que

ainda esteja meio chateada — acrescentou.

— Ela está mais do que meio chateada — disse Richard, tentando

manter a voz firme. — Devo te dizer logo que ela vai pedir o divórcio.

— Divórcio? — Sem erguer o olhar, Lambert passou a mão pelos

cabelos, hesitante. — Você está brincando, não está?

— Não estou brincando — disse Richard. — Isso não é assunto para

brincadeiras.

Lambert ergueu o olhar e foi pego de surpresa pelos lábios contraídos de

Richard, pela hostilidade em seus olhos. Bem, Lambert, ele pensou, você

estragou tudo dessa vez, não foi? O que vai fazer agora? Pensou por um

momento e se levantou abruptamente.

— Richard, eu gostaria de pedir desculpas — disse ele, olhando para

Richard da forma mais sincera que conseguiu. — Não sei o que deu em

mim ontem. Bebi demais, provavelmente. — Ele arriscou um sorrisinho. —

Nunca foi minha intenção abusar da sua confiança, senhor.

— Lambert — começou Richard, irritado.

— A Philippa é uma garota muito nervosa — continuou Lambert. — Já

brigamos antes, mas tudo sempre passou. E tenho certeza de que dessa vez

também vai passar, se você nos der uma chance...

— Você teve sua chance! — rebateu Richard. — Você teve sua chance

quando entrou na igreja e prometeu amar e respeitar minha filha! — Sua

voz aumentou de volume. — Você amou a Philippa? Você a respeitou? Ou

você sempre a viu simplesmente como uma fonte de riqueza?

Ele parou de falar, a respiração pesada, e Lambert o encarou

ligeiramente em pânico, pesando as respostas em sua mente. Será que

Richard acreditaria se ele declarasse amor eterno por Philippa?

— Serei sincero com você, Richard — disse ele, por fim. — Sou apenas

humano. E um homem não consegue viver só de pão.

— Como ousa citar a Bíblia para cima de mim! — gritou Richard. —

Como ousa usar minha filha!

— Eu não a usei! — exclamou Lambert. — Tivemos um casamento

muito feliz!

— Você a desonrou, você a explorou, você a transformou de uma jovem

feliz em uma mulher emocionalmente desequilibrada.

— Pelo amor de Deus, ela sempre foi emocionalmente desequilibrada!

— respondeu Lambert, sentindo-se repentinamente injustiçado. — A

Philippa era problemática muito antes de eu conhecê-la! Então, não jogue

essa culpa para cima de mim também.

Por um instante, Richard olhou para ele sem palavras, e, de repente, se

virou.

— Nunca mais quero ver você — disse ele, baixinho. — Seu emprego

está rescindido sob os termos do seu contrato.

— Que termos?

— Improbidade grave — disse Richard com frieza. — Abuso de

confiança e falsificação de documentos.

— Vou me defender dessas acusações na Justiça!

— Se você se defender, com certeza vai perder; entretanto, é você quem

sabe. No que diz respeito ao divórcio — continuou Richard —, o advogado

de Philippa entrará em contato no momento oportuno. — Ele fez uma

pausa. — Quanto ao dinheiro...

Houve um momento de silêncio. Lambert se pegou inclinando-se um

pouco para a frente, tomado por uma esperança repentina.

— Vou reembolsar sua dívida num total de duzentos e cinquenta mil

libras. Não mais que isso. Em troca, você vai me garantir por escrito que

não vai tentar entrar em contato com a Philippa, exceto por meio de seu

advogado, e que vai considerar essa quantia um acordo total e final do

divórcio.

— Duzentos e cinquenta? — disse Lambert. — E o resto da minha

dívida?

— O resto da sua dívida, Lambert — disse Richard, com uma voz

levemente trêmula —, é problema seu.

— Duzentos e setenta e cinco — disse Lambert.

— Duzentos e cinquenta. Não mais que isso.

Houve uma longa pausa.

— Tudo bem — disse Lambert, por fim. — Certo, eu aceito. Fechado.

— Ele estendeu a mão, e, então, como Richard não aceitou apertar sua mão,

ele voltou a baixá-la. Ele olhou admirado para Richard. — Você é um

homem duro na queda, não é?

— Pedi que seu táxi aguardasse na frente da casa — disse Richard. Ele

olhou para o relógio. — Um trem sai às três. — Ele enfiou a mão no bolso.

— Aqui está o dinheiro da passagem. — Ele entregou um envelope a

Lambert, que hesitou, deu de ombros e o pegou.

Eles caminharam em silêncio até a porta de entrada da casa.

— Eu também sugiro — disse Richard, abrindo a porta —, que você

abdique da condição de sócio de Greyworth. Antes que seja convidado a

sair.

— Você está planejando arruinar a minha vida! — disse Lambert com

raiva. — Você vai me destruir!

— Duvido — disse Richard. — Pessoas como você nunca ficam

destruídas. São os outros que ficam. Aqueles que têm o azar de encontrar

você pelo caminho, aqueles que aceitam você em suas vidas; que são tolos o

suficiente para confiar em você.

Lambert olhou para ele em silêncio por um minuto, e então entrou no

táxi e se recostou. O taxista deu a partida.

— Me diga uma coisa — disse Richard, de repente. — Você algum dia

se importou de verdade com a Philippa? Ou foi tudo uma farsa?

Lambert franziu o rosto, pensativo.

— Às vezes eu até me sentia atraído por ela — disse Lambert. —

Quando ela se embonecava toda.

— Entendi — disse Richard. Ele respirou fundo. — Por favor, saia

daqui. Imediatamente.

Ele observou o táxi sair pelo acesso de veículos e desaparecer.

— Então ele foi embora? — Richard se virou e viu Gillian de pé na

porta de entrada. — Eu ouvi sua conversa com ele — continuou ela. — Se

serve de consolo, eu achei que você se saiu maravilhosamente bem.

— Nem tanto — disse Richard. Ele passou a mão no rosto, cansado. —

Sabe, ele nem se arrependeu do comportamento dele.

— Não faz sentido esperar que pessoas assim se arrependam — disse

Gillian, surpreendentemente. — Temos que tirá-las de nossa vida o mais

rápido que pudermos e nos esquecermos dela. Sem ficar remoendo muito.

— Imagino que você tenha razão — disse Richard. — Mas, no

momento, não consigo não ficar remoendo. Estou muito amargurado. — Ele

balançou a cabeça e caminhou devagar de volta para dentro de casa. —

Como está a Philippa?

— Ah, está bem — disse Gillian, dando uns passos em direção a ele. —

Ela vai ficar bem.

Gillian colocou a mão no braço dele e, por alguns instantes, os dois

ficaram em silêncio.

— Sinto falta da Fleur — disse Richard. — Estou com saudade dela. —

Suspirou. — Ela viajou hoje de manhã, e já estou com saudade.

— Eu também — disse Gillian. Ela apertou o braço dele para

demonstrar apoio. — Mas Fleur logo vai estar de volta. Talvez ela telefone

hoje à noite.

— Ela não vai telefonar — disse Richard. Ele engoliu em seco. — Pedi

a Fleur em casamento ontem à noite. Por isso ela foi para Londres. Ela quis

pensar a respeito.

— Entendi — disse Gillian.

— Agora, pensando bem, como eu queria não ter dito nada — falou

Richard. Ele levantou a cabeça. — Gillian, e se ela disser não?

— Ela não vai dizer não — disse Gillian. — Tenho certeza de que não

vai dizer não.

— Mas pode ser que diga!

— E pode ser que diga sim — disse Gillian. — Pense nisso apenas.

Pode ser que ela diga sim.

 

Naquela noite, quando Philippa foi dormir, e os dois ficaram na sala de estar

tomando café, Gillian disse a Richard de repente:

— Não coloque a Fleur num pedestal.

— O quê? — Richard olhou para Gillian, surpreso, e ela corou.

— Perdão — disse ela. — Eu não deveria falar coisas assim para você.

— Bobagem — disse Richard. — Você pode dizer o que quiser para

mim. — Ele franziu a testa, pensativo. — Mas não sei bem o que quer dizer.

— Deixa para lá — disse Gillian.

— Não! Gillian, já nos conhecemos há tempo suficiente para sermos

sinceros. — Ele se inclinou para a frente e olhou para ela com seriedade. —

Diga o que está pensando. O que quer dizer com pedestal?

— Você achava que a Emily era perfeita — disse Gillian, sendo bem

direta. — Agora, acha que a Fleur é perfeita.

Richard riu.

— Eu não acho a Fleur perfeita... — Ele hesitou e corou de leve.

— Acha, sim! — disse Gillian. — Você acha que ela é perfeita! Mas

ninguém é perfeito. — Ela pensou por um segundo. — Um dia, você vai

descobrir algo sobre a Fleur que não sabia. Ou que não percebeu. Assim

como aconteceu com a Emily. — Ela mordeu o lábio. — E pode ser que não

seja uma coisa boa. Mas não quer dizer que Fleur não seja uma boa pessoa.

Richard ficou olhando para ela.

— Gillian, você está tentando me contar alguma coisa? Alguma coisa

sobre a Fleur?

— Não! — disse Gillian. — Não seja bobo. — Ela olhou seriamente

para Richard. — É só que não quero ver você se decepcionar de novo. E se

começar com expectativas realistas, talvez... — Ela pigarreou, sem jeito. —

Talvez tenha mais chance de ser feliz.

— Você está dizendo que eu idealizo as coisas — disse Richard,

devagar.

— Bem, sim, acho que estou. — Gillian franziu o cenho, envergonhada.

— Mas, quem sou eu, certo? — Ela pousou a xícara de café fazendo

barulho e se levantou. — O dia foi longo.

— Você tem razão — disse Richard, de repente. — Gillian, você me

entende totalmente.

— É que conheço você há muito tempo — disse ela.

— Mas nunca conversamos desse jeito antes! Você nunca tinha me dado

conselhos!

— Eu não achava apropriado. — Gillian corou.

Richard a observou caminhar até a porta.

— Queria que tivesse achado.

— As coisas eram diferentes antes. Tudo era diferente.

— Antes da Fleur.

Gillian assentiu, sorrindo discretamente.

— Isso mesmo.

 

Na sexta-feira, Fleur ainda não tinha telefonado. Gillian e Richard andavam

de um lado para o outro da casa como dois cães nervosos enquanto, do lado

de fora, o céu pairava acima deles em uma massa úmida e cinzenta. No meio da manhã, começou a chover; alguns minutos depois, o Jeep branco

parou na frente da casa, descarregando Antony e Zara numa onda de

gritinhos e risadas.

— Contem tudo! — exclamou Richard, desejando ser distraído de seus

pensamentos. — Vocês se divertiram?

— Foi excelente — disse Zara. — Apesar de a Xanthe Forrester ter

aproximadamente um neurônio apenas.

— Fomos fazer trilha — disse Antony —, e acabamos perdidos... — Ele

olhou nos olhos de Zara e os dois começaram a rir.

— E bebemos cidra — disse Zara, quando conseguiu parar de rir.

— Você bebeu cidra — retrucou Antony. — O resto de nós bebeu

cerveja. — Ele começou a rir de novo. — Zara, imita o sotaque da

Cornualha!

— Não consigo!

— Consegue, sim!

— Não tenho contexto — disse Zara. — Preciso de contexto.

Richard olhou para Gillian.

— Bem, parece que foi tudo ótimo — disse Richard. — Mas acho que

vou ter uma conversinha com a Sra. Forrester mais tarde.

— Onde está a Fleur? — perguntou Zara, largando a mochila no chão,

fazendo barulho.

— Foi passar uns dias em Londres — disse Richard. — Mas deve voltar

amanhã.

— Londres? — perguntou Zara. — O que ela foi fazer em Londres?

— Ah, nada de mais. Não sei bem, para ser sincero.

— Ela não te contou?

— Não entrou em detalhes. — Richard sorriu para ela. — Agora, o que

acham de tomarmos chocolate quente?

— Tá — disse Zara, distraidamente. — Só vou ver uma coisinha.

Sem olhar para trás, ela saiu correndo escada acima, atravessou o

corredor e entrou no quarto de Fleur. Ali, ela parou, respirou fundo e, com o

coração aos pulos, abriu as portas do guarda-roupa.

Todos os tailleurs pretos de Fleur tinham sido levados.

— Ai, não — disse Zara, em voz alta. — Ah, não, por favor. — Uma

dor atingiu seu peito como uma martelada. — Por favor, não. — Suas

pernas começaram a tremer e ela se sentou no chão. — Não, por favor — murmurou, cobrindo a cabeça com as mãos. — Por favor, não. Por favor,

não. Não dessa vez. Fleur, por favor, não. Por favor.

 

Na hora do jantar, a tensão na casa já tinha alcançado níveis estratosféricos.

Zara encarava seu prato, sem comer; Richard tentava esconder o

nervosismo com uma série de piadas das quais ninguém ria; Gillian batia os

pratos e repreendeu Antony quando ele derrubou uma colher no chão.

Philippa deu três garfadas, e avisou que terminaria de comer no quarto.

Depois, os outros se sentaram na sala de estar para assistir a um filme na

televisão que todos já tinham visto. Quando terminou, ninguém disse nada;

ninguém foi dormir. O programa seguinte começou e os olhos de todos

permaneceram grudados na tela. Não queremos deixar uns aos outros,

pensou Zara. Não queremos ir para a cama. Não queremos ficar sozinhos.

Quando Antony bocejou e começou a mexer as pernas na poltrona, ela

sentiu uma onda de pânico.

— Vou dormir — disse ele, por fim. — Boa noite, pessoal.

— Também vou — disse Zara, e o acompanhou.

Na escada, ela o puxou para perto de seu corpo.

— Me deixa dormir na sua cama hoje? — sussurrou ela.

— Como assim? Você quer trocar de cama comigo? — perguntou ele,

confuso.

— Não — disse Zara, insistente. — Quero dormir com você. Só quero...

— Ela hesitou. — Só não quero ficar sozinha, tá?

— Ah, tudo bem — disse Antony, devagar. — Tudo bem! — Seus olhos

brilharam. — Mas e se alguém descobrir?

— Não se preocupe — disse Zara. — Ninguém vai chegar nem perto da

gente.