A Rainha dos Funerais
Dezoito
Bem cedo na manhã seguinte, um Jeep branco parou na frente da Maples e
buzinou alto, acordando Richard. Esfregando os olhos, ele foi até a janela
do quarto e olhou para fora.
— São os amigos do Antony — disse ele à Fleur. — Devem estar indo
cedo para a Cornualha.
De repente, alguém bateu à porta e a voz de Antony foi ouvida.
— Pai? Nós estamos indo!
Richard abriu a porta e olhou para Antony e para Zara, de pé no patamar
da escada. Eles estavam vestidos de modo idêntico, com calça jeans e boné,
e os dois carregavam bolsas de viagem enormes e cheias.
— Certo — disse Richard. — Rumo à Cornualha. Vocês vão se
comportar, não vão?
— Claro que vamos — disse Antony, impaciente. — E, de qualquer
modo, a mãe da Xanthe vai estar lá.
— Eu sei — disse Richard. — Conversei com ela ontem. E falei sobre
algumas regras básicas.
— Pai! O que você disse?
— Nada de mais — disse Richard, sorrindo. — Só que vocês tinham
que tomar um banho de banheira gelado todo dia pela manhã, e depois ler
Shakespeare por uma hora...
— Pai!
— Tenho certeza de que vocês vão se divertir muito — disse Richard,
baixando a guarda. — E nós nos veremos aqui de novo na sexta.
Lá fora, o Jeep buzinou mais uma vez.
— Tudo bem — disse Antony. Ele olhou para Zara. — Bem, é melhor a
gente ir.
— Espero que Philippa fique bem — disse Zara.
— É. — Antony ergueu o olhar para Richard e mordeu o lábio. —
Espero que ela...
— Ela vai ficar bem — disse Richard de modo tranquilizador. — Não
se preocupem. Agora, andem, antes que a Xanthe comece aquele barulho
infernal de novo.
Ele observou os dois descerem a escada. Zara estava quase dobrando o
corpo todo para a frente com o peso da bolsa, e ele se perguntou por um
instante o que ela podia estar carregando. E, então, quando ouviu a porta da
casa se fechar, virou-se para Fleur.
— Eram o Antony e a Zara — disse ele, sem precisar. — Saindo a
caminho da Cornualha.
— Mmm. — Fleur, sonolenta, se virou, enrolando-se no edredom.
Richard ficou olhando para ela por algum tempo, e então respirou
fundo.
— Não sei a que horas você quer sair de casa — disse ele. — Levarei
você à estação. Me avise quando quiser.
— Está bem — disse Fleur. Ela abriu os olhos. — Você não se importa,
não é, Richard? Só preciso de um tempo para pensar.
— Claro que precisa — disse ele, forçando a voz para parecer animado.
— Entendo totalmente. Eu não esperaria que você tomasse uma decisão
sem pensar com calma.
Richard se sentou na cama e olhou para Fleur. Os braços dela estavam
repousados no travesseiro acima da cabeça; braços bonitos, como os de uma
bailarina. Ela havia fechado os olhos de novo, retornando ao doce sono da
manhã. Pela mente dele, passou a possibilidade de que ela o rejeitasse. E,
com essa ideia, surgiu uma pontada de dor, tão forte e aguda que quase o
deixou em pânico.
No andar de baixo, Gillian preparava um chá. Ela levantou a cabeça
quando Richard entrou na cozinha.
— Eu vi os dois saindo — disse ela. — Aquele rapaz, o Mex, estava
dirigindo. Espero que ele seja responsável.
— Tenho certeza de que é — disse Richard. Ele se sentou à mesa da
cozinha e olhou ao redor. — A casa fica muito silenciosa — disse ele. — Já
sinto falta da música alta.
Gillian sorriu e colocou uma caneca de chá na frente dele.
— O que vai acontecer com a Philippa? — perguntou ela. — Ela vai
sair do hospital hoje?
— Vai — disse Richard. — A menos que alguma coisa tenha acontecido
de ontem para hoje. Vou buscá-la agora de manhã.
— Vou com você — disse Gillian. — Se não tiver problema.
— Claro que não tem problema — disse Richard. — Aposto que ela
adoraria ver você. — Ele tomou um gole de chá, organizando os
pensamentos, e então ergueu o olhar. — Há outra coisa que preciso te
contar. Fleur vai a Londres passar uns dias lá.
— Entendo — disse Gillian. Ela olhou para o rosto pálido e sério de
Richard. — Você não vai junto? – perguntou, hesitante.
— Não — disse ele. — Dessa vez, não. A Fleur... — Ele passou a mão
no rosto. — A Fleur precisa de um tempo sozinha. Para... pensar em
algumas coisas.
— Entendo — repetiu ela.
— Ela estará de volta no sábado — disse Richard.
— Ah, que bom — disse Gillian, animada. — Vai passar muito rápido.
— Richard sorriu sem energia e bebeu todo o chá. Gillian olhou para ele
ansiosamente. — Você acha que a Fleur gostaria de beber um pouco de chá?
— perguntou ela. — Vou subir daqui a pouco.
— Ela não quer chá — disse Richard, lembrando-se de repente. — Mas
perguntou se eu poderia levar o jornal The Times lá em cima para ela.
— The Times — disse Gillian, olhando ao redor. — Aqui está. Posso
levar para ela, se você quiser. — Ela pegou o jornal dobrado e olhou para
ele com curiosidade. — Fleur não costuma ler o jornal — disse ela. — Por
que será que ela o quer?
— Não sei — disse Richard, servindo-se de mais chá. — Não perguntei.
Às dez da manhã, Fleur estava pronta para sair.
— Vamos deixar você na estação — disse Richard, levando a mala dela
escada abaixo —, e então iremos ao hospital. — Ele fez uma pausa. — A
Philippa vai ficar triste por não te ver lá — acrescentou ele.
— É uma pena — disse Fleur. Ela olhou nos olhos de Richard. — Mas
realmente acho que não consigo...
— Não — disse ele, apressado. — Claro que não. Eu não deveria ter
dito nada.
— Você é um doce de homem — disse Fleur, e passou a mão pelo braço
dele. — E espero mesmo que a Philippa supere isso.
— Ela vai ficar bem — disse Gillian, entrando no hall. — Vamos
mantê-la em casa por um tempo; cuidar dela direito. Quando você voltar, ela provavelmente estará novinha em folha. — Ela olhou para Fleur. —
Você está muito elegante — disse ela — toda de preto.
— É uma cor muito útil para se usar em Londres — murmurou Fleur. —
Não mostra a sujeira da cidade.
— Você vai ficar na casa do seu amigo Johnny? — perguntou Gillian.
— Poderemos contatar você lá se houver alguma emergência com a Zara?
— Provavelmente não ficarei lá, não — disse Fleur. — Devo me
hospedar em um hotel. — Franziu o cenho de leve. — Ligo quando chegar
e deixo o número do telefone.
— Ótimo — disse Richard. Ele olhou para Gillian com hesitação. —
Bem, acho melhor irmos.
Ao saírem pela porta e começarem a andar pelo acesso de veículos,
Fleur olhou para trás, para a casa, admirando-a.
— É uma casa acolhedora, essa, não é? — disse ela, de repente. — Uma
casa aconchegante.
— Sim — disse Richard, animado. — Muito aconchegante. É... bem,
acho que é uma casa ótima para se ter como lar.
Fleur olhou nos olhos dele.
— Sim — disse ela, com delicadeza, e abriu a porta do carro. — Sim,
Richard, tenho certeza que sim.
***
Philippa estava sentada em seu leito quando Richard e Gillian chegaram.
Ela os observou atravessando a enfermaria e, automaticamente, tentou abrir
um sorriso largo para eles. Mas sua boca estava esquisita, e as bochechas,
rígidas. A sensação era de que nunca mais conseguiria sorrir; como se a
vergonha congelante que tomava seu corpo tivesse feito com que sua reação
natural fosse ficar paralisada.
Ela não achou que seria assim. Achou que estivesse cometendo o maior
ato romântico que existe; e que, quando acordasse, encontraria todo mundo
reunido ao redor do seu leito, contendo as lágrimas, acariciando sua mão e
prometendo tornar sua vida melhor. Em vez disso, acordou com uma série
de ataques humilhantes contra seu corpo, administrados por enfermeiras
com frases educadas nos lábios e desprezo nos olhos. Quando vira o rosto
arrasado do pai, algo dentro dela tinha se dobrado, e ela sentira vontade de
chorar. Exceto que, de repente, ela não conseguia mais chorar. A fonte das lágrimas eternas que havia dentro dela tinha secado; o pano de fundo de
fantasia romântica havia caído, e só havia sobrado algo frio e seco, como
pedra.
Ela lambeu os lábios quando o pai e Gillian se aproximaram, respirou
fundo e disse um “oi” hesitante. Sua voz soou estranha e metálica.
— Oi, querida!
— Oi, Philippa. — Gillian sorriu alegre para ela. — Como você está?
— Muito melhor — disse Philippa devagar. A sensação era de que
estava falando outra língua.
— Você pode ir para casa hoje — disse seu pai. — A papelada da alta
está pronta.
— Que bom — disse Philippa. De repente, um pensamento lhe ocorreu.
— A Fleur está em casa?
— Não — respondeu seu pai. — A Fleur foi passar uns dias em
Londres.
— Entendi — disse Philippa. Um lampejo surdo de decepção percorreu
seu corpo, mas logo morreu. — Ela vai voltar? — perguntou,
educadamente.
— Sim — respondeu Gillian, antes que Richard pudesse dizer alguma
coisa. — Sim, claro que ela vai voltar.
No carro, muito pouco foi dito. Quando chegaram à casa, Gillian levou
tigelas de canja de galinha ao solário, e Richard se sentou em frente à
Philippa.
— Precisamos conversar sobre Lambert — disse ele, com cautela.
— Sim. — A voz de Philippa soou monótona.
— Você...
— Nunca mais quero ver a cara dele na minha frente.
Richard olhou para Philippa por muito tempo, e então para Gillian.
— Tudo bem — disse ele. — Bem, desde que você tenha certeza disso.
— Quero o divórcio — disse Philippa. — Está tudo acabado entre mim
e Lambert. — Ela tomou uma colherada de canja. — Que delícia.
— Caldo de galinha de verdade — disse Gillian. — Com certeza não
usam isso naquelas comidas prontas de caixinha.
— E você tem certeza de que não vai mudar de ideia? — insistiu
Richard.
— Sim — disse Philippa com calma. — Tenho certeza. — Ela se sentiu
libertada, como se estivesse jogando fora um monte de tralha indesejada. Sua mente estava limpa e leve; sua vida estava livre; ela poderia começar de
novo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Lambert chegou de táxi à Maples, levando
um buquê de cravos cor-de-rosa. Richard o recebeu à porta da casa e o
levou para a sala de estar.
— Philippa está descansando lá em cima — disse Richard. — Ela não
quer ver você.
— É uma pena — disse Lambert. — Trouxe isso para ela. — Ele
colocou as flores em uma mesa de canto, sentou-se no sofá e começou a
limpar o mostrador do relógio com a manga da camisa. — Imagino que
ainda esteja meio chateada — acrescentou.
— Ela está mais do que meio chateada — disse Richard, tentando
manter a voz firme. — Devo te dizer logo que ela vai pedir o divórcio.
— Divórcio? — Sem erguer o olhar, Lambert passou a mão pelos
cabelos, hesitante. — Você está brincando, não está?
— Não estou brincando — disse Richard. — Isso não é assunto para
brincadeiras.
Lambert ergueu o olhar e foi pego de surpresa pelos lábios contraídos de
Richard, pela hostilidade em seus olhos. Bem, Lambert, ele pensou, você
estragou tudo dessa vez, não foi? O que vai fazer agora? Pensou por um
momento e se levantou abruptamente.
— Richard, eu gostaria de pedir desculpas — disse ele, olhando para
Richard da forma mais sincera que conseguiu. — Não sei o que deu em
mim ontem. Bebi demais, provavelmente. — Ele arriscou um sorrisinho. —
Nunca foi minha intenção abusar da sua confiança, senhor.
— Lambert — começou Richard, irritado.
— A Philippa é uma garota muito nervosa — continuou Lambert. — Já
brigamos antes, mas tudo sempre passou. E tenho certeza de que dessa vez
também vai passar, se você nos der uma chance...
— Você teve sua chance! — rebateu Richard. — Você teve sua chance
quando entrou na igreja e prometeu amar e respeitar minha filha! — Sua
voz aumentou de volume. — Você amou a Philippa? Você a respeitou? Ou
você sempre a viu simplesmente como uma fonte de riqueza?
Ele parou de falar, a respiração pesada, e Lambert o encarou
ligeiramente em pânico, pesando as respostas em sua mente. Será que
Richard acreditaria se ele declarasse amor eterno por Philippa?
— Serei sincero com você, Richard — disse ele, por fim. — Sou apenas
humano. E um homem não consegue viver só de pão.
— Como ousa citar a Bíblia para cima de mim! — gritou Richard. —
Como ousa usar minha filha!
— Eu não a usei! — exclamou Lambert. — Tivemos um casamento
muito feliz!
— Você a desonrou, você a explorou, você a transformou de uma jovem
feliz em uma mulher emocionalmente desequilibrada.
— Pelo amor de Deus, ela sempre foi emocionalmente desequilibrada!
— respondeu Lambert, sentindo-se repentinamente injustiçado. — A
Philippa era problemática muito antes de eu conhecê-la! Então, não jogue
essa culpa para cima de mim também.
Por um instante, Richard olhou para ele sem palavras, e, de repente, se
virou.
— Nunca mais quero ver você — disse ele, baixinho. — Seu emprego
está rescindido sob os termos do seu contrato.
— Que termos?
— Improbidade grave — disse Richard com frieza. — Abuso de
confiança e falsificação de documentos.
— Vou me defender dessas acusações na Justiça!
— Se você se defender, com certeza vai perder; entretanto, é você quem
sabe. No que diz respeito ao divórcio — continuou Richard —, o advogado
de Philippa entrará em contato no momento oportuno. — Ele fez uma
pausa. — Quanto ao dinheiro...
Houve um momento de silêncio. Lambert se pegou inclinando-se um
pouco para a frente, tomado por uma esperança repentina.
— Vou reembolsar sua dívida num total de duzentos e cinquenta mil
libras. Não mais que isso. Em troca, você vai me garantir por escrito que
não vai tentar entrar em contato com a Philippa, exceto por meio de seu
advogado, e que vai considerar essa quantia um acordo total e final do
divórcio.
— Duzentos e cinquenta? — disse Lambert. — E o resto da minha
dívida?
— O resto da sua dívida, Lambert — disse Richard, com uma voz
levemente trêmula —, é problema seu.
— Duzentos e setenta e cinco — disse Lambert.
— Duzentos e cinquenta. Não mais que isso.
Houve uma longa pausa.
— Tudo bem — disse Lambert, por fim. — Certo, eu aceito. Fechado.
— Ele estendeu a mão, e, então, como Richard não aceitou apertar sua mão,
ele voltou a baixá-la. Ele olhou admirado para Richard. — Você é um
homem duro na queda, não é?
— Pedi que seu táxi aguardasse na frente da casa — disse Richard. Ele
olhou para o relógio. — Um trem sai às três. — Ele enfiou a mão no bolso.
— Aqui está o dinheiro da passagem. — Ele entregou um envelope a
Lambert, que hesitou, deu de ombros e o pegou.
Eles caminharam em silêncio até a porta de entrada da casa.
— Eu também sugiro — disse Richard, abrindo a porta —, que você
abdique da condição de sócio de Greyworth. Antes que seja convidado a
sair.
— Você está planejando arruinar a minha vida! — disse Lambert com
raiva. — Você vai me destruir!
— Duvido — disse Richard. — Pessoas como você nunca ficam
destruídas. São os outros que ficam. Aqueles que têm o azar de encontrar
você pelo caminho, aqueles que aceitam você em suas vidas; que são tolos o
suficiente para confiar em você.
Lambert olhou para ele em silêncio por um minuto, e então entrou no
táxi e se recostou. O taxista deu a partida.
— Me diga uma coisa — disse Richard, de repente. — Você algum dia
se importou de verdade com a Philippa? Ou foi tudo uma farsa?
Lambert franziu o rosto, pensativo.
— Às vezes eu até me sentia atraído por ela — disse Lambert. —
Quando ela se embonecava toda.
— Entendi — disse Richard. Ele respirou fundo. — Por favor, saia
daqui. Imediatamente.
Ele observou o táxi sair pelo acesso de veículos e desaparecer.
— Então ele foi embora? — Richard se virou e viu Gillian de pé na
porta de entrada. — Eu ouvi sua conversa com ele — continuou ela. — Se
serve de consolo, eu achei que você se saiu maravilhosamente bem.
— Nem tanto — disse Richard. Ele passou a mão no rosto, cansado. —
Sabe, ele nem se arrependeu do comportamento dele.
— Não faz sentido esperar que pessoas assim se arrependam — disse
Gillian, surpreendentemente. — Temos que tirá-las de nossa vida o mais
rápido que pudermos e nos esquecermos dela. Sem ficar remoendo muito.
— Imagino que você tenha razão — disse Richard. — Mas, no
momento, não consigo não ficar remoendo. Estou muito amargurado. — Ele
balançou a cabeça e caminhou devagar de volta para dentro de casa. —
Como está a Philippa?
— Ah, está bem — disse Gillian, dando uns passos em direção a ele. —
Ela vai ficar bem.
Gillian colocou a mão no braço dele e, por alguns instantes, os dois
ficaram em silêncio.
— Sinto falta da Fleur — disse Richard. — Estou com saudade dela. —
Suspirou. — Ela viajou hoje de manhã, e já estou com saudade.
— Eu também — disse Gillian. Ela apertou o braço dele para
demonstrar apoio. — Mas Fleur logo vai estar de volta. Talvez ela telefone
hoje à noite.
— Ela não vai telefonar — disse Richard. Ele engoliu em seco. — Pedi
a Fleur em casamento ontem à noite. Por isso ela foi para Londres. Ela quis
pensar a respeito.
— Entendi — disse Gillian.
— Agora, pensando bem, como eu queria não ter dito nada — falou
Richard. Ele levantou a cabeça. — Gillian, e se ela disser não?
— Ela não vai dizer não — disse Gillian. — Tenho certeza de que não
vai dizer não.
— Mas pode ser que diga!
— E pode ser que diga sim — disse Gillian. — Pense nisso apenas.
Pode ser que ela diga sim.
Naquela noite, quando Philippa foi dormir, e os dois ficaram na sala de estar
tomando café, Gillian disse a Richard de repente:
— Não coloque a Fleur num pedestal.
— O quê? — Richard olhou para Gillian, surpreso, e ela corou.
— Perdão — disse ela. — Eu não deveria falar coisas assim para você.
— Bobagem — disse Richard. — Você pode dizer o que quiser para
mim. — Ele franziu a testa, pensativo. — Mas não sei bem o que quer dizer.
— Deixa para lá — disse Gillian.
— Não! Gillian, já nos conhecemos há tempo suficiente para sermos
sinceros. — Ele se inclinou para a frente e olhou para ela com seriedade. —
Diga o que está pensando. O que quer dizer com pedestal?
— Você achava que a Emily era perfeita — disse Gillian, sendo bem
direta. — Agora, acha que a Fleur é perfeita.
Richard riu.
— Eu não acho a Fleur perfeita... — Ele hesitou e corou de leve.
— Acha, sim! — disse Gillian. — Você acha que ela é perfeita! Mas
ninguém é perfeito. — Ela pensou por um segundo. — Um dia, você vai
descobrir algo sobre a Fleur que não sabia. Ou que não percebeu. Assim
como aconteceu com a Emily. — Ela mordeu o lábio. — E pode ser que não
seja uma coisa boa. Mas não quer dizer que Fleur não seja uma boa pessoa.
Richard ficou olhando para ela.
— Gillian, você está tentando me contar alguma coisa? Alguma coisa
sobre a Fleur?
— Não! — disse Gillian. — Não seja bobo. — Ela olhou seriamente
para Richard. — É só que não quero ver você se decepcionar de novo. E se
começar com expectativas realistas, talvez... — Ela pigarreou, sem jeito. —
Talvez tenha mais chance de ser feliz.
— Você está dizendo que eu idealizo as coisas — disse Richard,
devagar.
— Bem, sim, acho que estou. — Gillian franziu o cenho, envergonhada.
— Mas, quem sou eu, certo? — Ela pousou a xícara de café fazendo
barulho e se levantou. — O dia foi longo.
— Você tem razão — disse Richard, de repente. — Gillian, você me
entende totalmente.
— É que conheço você há muito tempo — disse ela.
— Mas nunca conversamos desse jeito antes! Você nunca tinha me dado
conselhos!
— Eu não achava apropriado. — Gillian corou.
Richard a observou caminhar até a porta.
— Queria que tivesse achado.
— As coisas eram diferentes antes. Tudo era diferente.
— Antes da Fleur.
Gillian assentiu, sorrindo discretamente.
— Isso mesmo.
Na sexta-feira, Fleur ainda não tinha telefonado. Gillian e Richard andavam
de um lado para o outro da casa como dois cães nervosos enquanto, do lado
de fora, o céu pairava acima deles em uma massa úmida e cinzenta. No meio da manhã, começou a chover; alguns minutos depois, o Jeep branco
parou na frente da casa, descarregando Antony e Zara numa onda de
gritinhos e risadas.
— Contem tudo! — exclamou Richard, desejando ser distraído de seus
pensamentos. — Vocês se divertiram?
— Foi excelente — disse Zara. — Apesar de a Xanthe Forrester ter
aproximadamente um neurônio apenas.
— Fomos fazer trilha — disse Antony —, e acabamos perdidos... — Ele
olhou nos olhos de Zara e os dois começaram a rir.
— E bebemos cidra — disse Zara, quando conseguiu parar de rir.
— Você bebeu cidra — retrucou Antony. — O resto de nós bebeu
cerveja. — Ele começou a rir de novo. — Zara, imita o sotaque da
Cornualha!
— Não consigo!
— Consegue, sim!
— Não tenho contexto — disse Zara. — Preciso de contexto.
Richard olhou para Gillian.
— Bem, parece que foi tudo ótimo — disse Richard. — Mas acho que
vou ter uma conversinha com a Sra. Forrester mais tarde.
— Onde está a Fleur? — perguntou Zara, largando a mochila no chão,
fazendo barulho.
— Foi passar uns dias em Londres — disse Richard. — Mas deve voltar
amanhã.
— Londres? — perguntou Zara. — O que ela foi fazer em Londres?
— Ah, nada de mais. Não sei bem, para ser sincero.
— Ela não te contou?
— Não entrou em detalhes. — Richard sorriu para ela. — Agora, o que
acham de tomarmos chocolate quente?
— Tá — disse Zara, distraidamente. — Só vou ver uma coisinha.
Sem olhar para trás, ela saiu correndo escada acima, atravessou o
corredor e entrou no quarto de Fleur. Ali, ela parou, respirou fundo e, com o
coração aos pulos, abriu as portas do guarda-roupa.
Todos os tailleurs pretos de Fleur tinham sido levados.
— Ai, não — disse Zara, em voz alta. — Ah, não, por favor. — Uma
dor atingiu seu peito como uma martelada. — Por favor, não. — Suas
pernas começaram a tremer e ela se sentou no chão. — Não, por favor — murmurou, cobrindo a cabeça com as mãos. — Por favor, não. Por favor,
não. Não dessa vez. Fleur, por favor, não. Por favor.
Na hora do jantar, a tensão na casa já tinha alcançado níveis estratosféricos.
Zara encarava seu prato, sem comer; Richard tentava esconder o
nervosismo com uma série de piadas das quais ninguém ria; Gillian batia os
pratos e repreendeu Antony quando ele derrubou uma colher no chão.
Philippa deu três garfadas, e avisou que terminaria de comer no quarto.
Depois, os outros se sentaram na sala de estar para assistir a um filme na
televisão que todos já tinham visto. Quando terminou, ninguém disse nada;
ninguém foi dormir. O programa seguinte começou e os olhos de todos
permaneceram grudados na tela. Não queremos deixar uns aos outros,
pensou Zara. Não queremos ir para a cama. Não queremos ficar sozinhos.
Quando Antony bocejou e começou a mexer as pernas na poltrona, ela
sentiu uma onda de pânico.
— Vou dormir — disse ele, por fim. — Boa noite, pessoal.
— Também vou — disse Zara, e o acompanhou.
Na escada, ela o puxou para perto de seu corpo.
— Me deixa dormir na sua cama hoje? — sussurrou ela.
— Como assim? Você quer trocar de cama comigo? — perguntou ele,
confuso.
— Não — disse Zara, insistente. — Quero dormir com você. Só quero...
— Ela hesitou. — Só não quero ficar sozinha, tá?
— Ah, tudo bem — disse Antony, devagar. — Tudo bem! — Seus olhos
brilharam. — Mas e se alguém descobrir?
— Não se preocupe — disse Zara. — Ninguém vai chegar nem perto da
gente.