Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 9 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 12

Riley parou na plataforma Amtrack. Ainda tinha dúvidas quanto ao que estava a fazer, apesar de ela a Lucy terem falado sobre isso mais do que uma vez. Ambas tinham a certeza de que mais nada iria acontecer ali em Reedsport. O assassino das correntes tinha atacado em duas cidades distintas e se voltasse a matar, o mais provével era suceder noutro local qualquer.

“Ainda não estou bem certa disto, Lucy,” Disse Riley. “Não costumo deixar um caso ainda a decorrer.”

“Tudo bem,” Respondeu Lucy algo exasperadamente. “Eu sei o que fazer. Entrevistar quem puder. Ir ao funeral, caso ele lá esteja. Verificar quem envia flores.”

Naquele momento, o revisor gritou, “Todos a bordo!”

Riley disse, “Se acontecer alguma importante acontecer, volto logo.”

“Vai,” Disse Lucy com firmeza.

“Obrigada,” Respondeu Riley.

O pequeno jato da UAC que as tinha trazido a Reedsport, tinha partido logo após a sua chegada, por isso, não era uma opção viável naquele momento. Lucy tinha-se oferecido para levar Riley a Albany para apanhar um avião para casa, mas Riley tinha escolhido ir de comboio. Levá-la-ia diretamente a Quantico, apenas com um transbordo em Nova Iorque. A viagem iria dar-lhe a oportunidade de passar os olhos pelos ficheiros e avaliar a mente de um assassino.

Subiu para a espaçosa carruagem de classe executiva e ocupou o seu lugar. Tinha duas grandes cadeiras por sua conta, dando-lhe espaço para estar à vontade. Olhou pela janela quando o comboio arrancou. Não viu Lucy. Riley sabia que ela tinha voltado diretamente para o trabalho.

Reclinou a cadeira e começou a descontrair. A vibração firme, suave e amigável do comboio, ajudou Riley a iniciar o processamento de informação com a sua habitual capacidade mental. Para começar, havia a questão do porquê o assassino não ter alimentado as vítimas. É claro que pretendia enfraquecê-las. Mas também lhe parecia que o assassino já tinha passado fome no passado e se sentia impelido a infligir o mesmo sofrimento aos outros.

Mas agora algo mais lhe ocorria. Alimentar as mulheres, seria reconhecer a sua humanidade e ao fazê-lo, correria o risco de sentir empatia por elas. Apenas lhe serviam como objetos, como símbolos do que sofrera ou o enfurecera no passado.

Riley respirou profundamente. Sim, começava a sentir-se ligada a ele – muito mais do que sentira em qualquer dos locais do crime.

Ele é humano, Pensou. Ele é demasiado humano.

Ele não era um qualquer sociopata frio e insensível. Ele era alguém capaz de sentir empatia e até de ser bondoso. E essas eram as qualidades que ele mais temia em si próprio, porque podiam muito bem ser a sua perdição.

Riley fechou os olhos. Conseguia sentir o imenso esforço empreendido por ele para suprimir as suas qualidades humanas. E fraco como era, durante quanto tempo mais conseguiria ele lidar com a tensão e o esforço de ser um assassino? Tudo o que sabia é que não tinha escolha.

Algo mais começou a fazer sentido a Riley. A chocante escalada do seu mais recente crime, com o corpo pendurado para que todos pudessem ver, não era apenas uma tentativa de chocar o mundo. Também era para seu próprio benefício. Ele tinha uma grande necessidade de convencer todos, incluindo ele próprio, que era bem mais selvagem do que aparentava ser.

Riley sabia que à medida que o seu desespero crescia, também os crimes se tornariam mais absurdamente cruéis. Ele não podia permitir-se a ele próprio apresentar a mais ínfima réstia de misericórdia ou humanidade. Tinha que dar o seu melhor para se transformar num monstro, transpondo até as suas próprias expetativas.

O rolar constante do comboio estava a exercer em Riley um agradável efeito hipnótico. Riley não se apercebera que estava cansada, mas agora compreendia que estivera sob considerável tensão nos últimos dias. Fechou os olhos.

Quando Riley se aninhou no espaço húmido, a porta da sua prisão abriu-se e um feixe de chamas iluminou a escuridão. A luz branca cegou-a por um momento. A chama de gás propano fora a única coisa que vira naquele lugar horrível – à parte as aparições de Peterson.

Agora, o rosto do seu carrasco tomava forma novamente ao atormentá-la com a chama ciciante, forçando-a a afastar-se do seu calor extremo. Ela não conseguia discernir com exatidão o seu aspeto, mas a sua presença tornava-se cada vez mais familiar.

“Bem-vinda a casa,” Disse Peterson, alegremente.

“Isto não é a minha casa,” Respondeu Riley.

“É a única casa que mereces.”

Riley desejava conseguir afastar a chama e virá-la contra ele. Mas os seus movimentos eram demasiado hábeis e rápidos. Tudo o que conseguia fazer era baixar-se e afastar-se, tentando fugir à chama.

“Vou-te matar,” Disse Riley, em tom de desafio. “Quero que saibas isso.”

Peterson riu sombriamente.

“Bem-vinda a casa,” Disse novamente.

Riley acordou com o grito do revisor…

“Estação Penn!”

Era altura de mudar de comboio.

*

Ao conduzir para Fredericksburg naquela noite, Riley não parava de repetir para si própria: um monstro de casa vez.

O sonho com Peterson tinha-a abalado bastante, deixando-a perturbada no resto da viagem até Quantico. Mesmo assim, tinha conseguido adiantar algum trabalho. Tinha feito alguma pesquisa no seu portátil graças ao serviço de wi-fi do comboio, tendo-se ocupado intensamente das cópias de documentos e fotos do caso que tinha em sua posse. Tinha enviado por e-mail um relatório a Brent Meredith. Não tinha que passar pela UAC, por isso decidira ir diretamente para casa de Ryan onde April esperava por ela.

Riley lembrava a si própria que os monstros assumiam diversas formas. Naquele momento, queria focar-se num tipo de monstro diferente – a monstruosidade em que a sua vida pessoal se transformara. Talvez houvesse esperança em dominar este, de o modelar de forma a assumir uma forma mais agradável. Após muitos desgostos e rebeldia, April queria agora conversar com ela. Era um sinal positivo. Desta vez, Riley não ia desiludir a filha.

Para além disso, Riley estava bem consciente que tinha que efetuar algumas mudanças sérias na sua vida. Não valia a pena esperar por uma pausa entre casos. Raramente havia pausas e dificilmente haveria uma no futuro mais próximo.

Em primeiro lugar, devia mudar-se da sua pequena casa. O assalto de Peterson provara que era demasiado isolada e vulnerável. Quando a alugara, ela e Ryan tinham acabado de se separar e sentia-se financeiramente insegura. Aquele lugar fora de Fredericksburg era o que podia pagar e tinha servido para se afastar da sua antiga vida.

Mas o divórcio seria uma realidade em breve e Ryan concordara em pagar a pensão de alimentos da filha, ao contrário das contribuições erráticas que até agora lhe chegavam. Tinha-se tornado generoso, uma qualidade que Riley reconhecera como uma forma de ele se libertar de quaisquer outras responsabilidades no que dizia respeito à filha.

Para Riley, não havia problema. Ela podia ser feliz tendo a guarda total de April e ela queria desesperadamente ser uma boa mãe. Só tinha que descobrir como gerir as suas próprias responsabilidades melhor do que no passado.

Olhando pela janela do carro, Riley viu que conduzia entre filas de atraentes casas. Quando o rendimento suplementar se tornasse constante e previsível, podia pensar seriamente em arranjar uma nova casa para viver, talvez até comprar algo adequado na cidade. Seria bom ter vizinhos e a localização seria conveniente para a escola de April. E Fredericksburg era suficientemente grande para não ter que se preocupar em cruzar-se com Ryan.

A perspetiva de criar April sozinha trouxe-lhe à mente outra questão. Riley não podia fugir ao facto de que passava muito tempo longe de casa. Precisava de alguém que a ajudasse a tomar conta da sua filha.

Gabriela era a escolha óbvia. Ela e April gostavam muito uma da outra, e April não colocaria qualquer objeção em tê-la por perto.

Será que Gabriela concordaria em mudar-se se tivesse um quarto e casa de banho só para si? Ou pelo menos ficar lá em casa quando Riley estivesse fora durante alguns dias? Riley tomou nota mental para discutir isso com Gabriela logo que surgisse a oportunidade.

Quando Riley chegou ao seu destino, estacionou o carro em frente à casa. Quando saiu do carro e caminhou para a porta da entrada, tocou à campainha como de costume desde que se mudara. Gabriela veio à porta com um olhar ansioso.

“Señora Riley!” Exclamou. “Sabe onde está a April?”

CAPÍTULO 13

O choque sacudiu o corpo de Riley.

“A April não está cá?!” Perguntou.

“Esteve, mas agora não está,” Disse Gabriela. “Vente! Entre!”

Riley entrou e Gabriela fechou a porta.

“Ela estava em casa quando fui à tienda buscar compras,” Explicou Gabriela. “Quando voltei, já não estava cá. Disse ao Señor Ryan e ele disse-me para não me preocupar. Mas mesmo assim fico preocupada. Não disse que ia sair. Não percebo.”

A preocupação de Riley aumentou.

“Onde está o Ryan?” Perguntou.

“A jantar.”

Gabriela conduziu Riley à sala de jantar. Ryan estava sentado à mesa, a comer e a falar ao telemóvel em simultâneo. Outro lugar estava colocado na mesa, mas não tinha sido utilizado. Gabriela começou a levantar a mesa nervosamente.

“Está tudo bem,” Disse Ryan a quem quer que estivesse do outro lado da linha – um cliente, supôs Riley. “Estarei aí às nove. Trataremos de tudo esta noite.”

Terminou a chamada e olhou para Riley surpreendido.

“Não te esperava hoje,” Disse. “Pensava que tinhas um caso em Nova Iorque. Como está a correr?”

“Onde está a April?” Perguntou Riley.

“Como é que eu hei-de saber?” Respondeu Ryan com um encolher de ombros aborrecido. “Está com uma das telhas dela. Sai a ti, não a mim. Achas que me diz alguma coisa?”

Riley ignorou o tom acusatório do ex-marido.

“Onde estiveste hoje?” Perguntou Riley.

“Não que tenha que te dizer o que fiz,” Respondeu Ryan. “Mas estive lá em cima o dia todo a trabalhar no meu gabinete. Não saí de casa desde manhã. Mal saí do gabinete. Estive ocupado.”

“A April regressou da escola?”

Ryan terminou a refeição e pousou o guardanapo.

“Sim, e discutimos. Nem me perguntes porquê. Eu próprio não percebi. Mandei-a para o quarto e disse-lhe para não sair de lá enquanto não estivesse pronta para pedir desculpa. Pensava que lá estava até a Gabriela ir ao meu gabinete e ter-me dito que não estava em casa.”

Ryan levantou-se e começou a afastar-se.

“Tenho que me preparar para ir ter com um cliente,” Disse. “É muito mais importante do que isto, acredita em mim – sobretudo porque esperas que eu seja generoso com a pensão. Sinceramente, não percebo porque é que tu e a Gabriela estão em pânico. A miúda foi arejar e volta quando lhe apetecer.”

Riley colocou-se à frente de Ryan, bloqueando-lhe a passagem.

“Ela não foi arejar,” Disse Riley. “Ela disse que queria conversar comigo e eu enviei-lhe uma mensagem a dizer que ia regressar. Ela estava à minha espera. Ela não teria saído de casa.”

“Bem, aparentemente foi exatamente isso que ela fez,” Declarou Ryan. “Se calhar está em tua casa neste momento.”

Riley foi acometida por uma súbita esperança. Seria possível April ter pensado que se encontrariam em casa? Estaria a filha à sua espera em casa?

Riley pegou no telemóvel e ligou para o seu número fixo. Ouviu a sua gravação no atendedor de chamadas e após o sinal disse, “April, se estás aí, atende. Voltei para estar contigo.”

Não houve resposta.

Depois tentou ligar para o telemóvel de April. Quando ouviu a mensagem de voz de April, não conseguiu evitar gritar. “April, se estás aí atende. Onde estás? Estou assustada, liga-me agora.”

Riley terminou a chamada e ficou de pé a olhar absorta para o telemóvel na mão.

“Ela vai ligar quando lhe apetecer,” Disse Ryan. “Agora, se não te importas…”

Tentou empurrar Riley, mas ela não lhe deu passagem.

“Não vais a lado nenhum,” Disse Riley.

“Tenho que ir ter com um cliente, Riley.”

A voz de Riley tremia de fúria e medo mal contidos.

“Também é tua filha,” Declarou.

Riley voltou-se e viu Gabriela parada à porta da cozinha, abalada e horrorizada.

“Gabriela, a que horas saiu para ir às compras?” Perguntou Riley.

“Penso que por voltas das três,” Respondeu Gabriela. “A porta do quarto da April estava aberta e ela estava lá dentro. Quando regressei, já não estava em casa e dei conhecimento ao Señor Ryan.”

Riley virou-se novamente para Ryan. A sua expressão ainda era de despreocupação. Riley não compreendia como é que ele não tinha a noção da gravidade da situação.

“Alguém tocou à porta esta tarde?” Perguntou Riley.

“Não sei. Como já disse, estive todo o dia no meu gabinete,” Disse Ryan.

“Pensa, Ryan. Ouviste a campainha hoje?”

Ryan pensou por um momento.

“Penso que tocou uma vez à tarde. Sim, ouvi um carro parar e depois a campainha tocar. Foi depois de mandar a April para o quarto. Estou certo que a Gabriela foi ver quem era.”

Riley voltou-se para a empregada.

“Gabriela, foste abrir a porta a alguém hoje?”

“Não ouvi a campainha todo o dia.”

Riley agora estremeceu alarmada. Voltou-se para Ryan.

“A Gabriela não foi à porta,” Disse-lhe ferozmente. “Estava na rua a fazer compras. A April foi à porta e desapareceu desde essa altura. Neste momento, já pode estar desparecida há quatro horas. A Gabriela avisou-te e tu não quiseste saber.”

Ryan começava agora a ficar preocupado.

“Ouve, estás a fazer uma tempestade num copo de água,” Disse. “Se calhar era o namorado. Deve ter vindo até cá e ela foi com ele. Quando voltar vou castigá-la a sério. Já o devias ter feito há muito tempo.”

Riley lembrou-se do momento em que apanhara April e o namorado a fumar erva no quintal.

“Já conheceste o namorado dela?” Disparou Riley. “Chama-se Brian e tem catorze ou quinze anos. Não conduz. Não era ele e não era nenhum dos seus amigos. Ela não tem amigos que conduzam. Meu Deus, Ryan, será que não sabes nada acerca da tua filha?”

Riley não esperou pela resposta. Empurrou Ryan para passar e dirigiu-se ao quarto de April. Ryan e Gabriela seguiram-na. Como Gabriela tinha dito, a porta do quarto estava aberta. O quarto apresentava a confusão de sempre.

Mais uma vez Riley ligou para o telemóvel de April. Desta vez, o seu coração quase parou quando lhe pareceu ouvir um zumbido na cama.

Afastou algumas roupas espalhadas em cima da cama e aí sim, o coração caiu-lhe aos pés.

Estava ali.

Riley pegou no telemóvel que vibrava e olhou horrorizada para ele.

April não tinha o telemóvel consigo.

E isso apenas podia ter um significado.

April fora levada.