Acorrentadas
Capítulo 20
“Vire à esquerda daqui a quinze metros,” Dizia a voz de mulher do GPS.
Quando Bill ligou as luzes, Riley sentiu-se estranhamente confortada pela voz. A ideia de que alguém sabia para onde iam, aliviou-a um pouco do medo e pavor que dela se apoderavam.
Tentara descobrir o caminho com um mapa antes de se fazerem à estrada. Normalmente tinha jeito para decifrar mapas, mas a sua cabeça estava demasiado carregada de imagens terríveis de April em cativeiro e de Peterson a atormentá-la com o seu maçarico de gás propano. Não conseguia pensar com clareza, não conseguia delinear um trajeto viável. Bill tinha insistido em usar o GPS e agora aquela voz amigável estava a tratar de tudo.
Logo depois de virarem, o SUV atravessou uma ponte sobre o rio. Agora já estavam no nordeste.
“Estamos perto,” Disse Bill.
Mas perto do quê? Perguntou-se Riley.
Ainda estava muito escuro no exterior e a chuva caía agora pesada e firmemente. Não fazia ideia de como April estava, mas sabia que salvá-la não ia ser fácil. Pensou mais uma vez se ela e Bill não deviam chamar uma equipa SWAT. Ainda não sabiam se a morada que tinham obtido do suposto Bruce Staunton estava correta. Além disso, se estivesse, o melhor era não terem um pequeno exército a tumultuar o local. Podia ser o fim de April.
Se ainda não estivesse morta.
O mero pensamento era insuportável. Riley tinha que o afastar da sua cabeça. Não podia ser verdade. Ela não deixaria que fosse.
“Vire à direita. Chegou ao seu destino.”
“Raios,” Murmurou Bill.
Riley partilhava a sua desilusão. Não era uma casa, só uma loja de conveniência aberta toda a noite. A brilhante luz que irradiava do interior contrastava com a escuridão chuvosa do exterior. Bill estacionou o SUV e ambos saíram do veículo de guarda-chuvas abertos.
“Penso que não é um falhanço total,” Disse Riley. “Não é provável que nos tenha dado uma morada aleatória se não tivesse permanecido na área. Ele não está aqui, tenho a certeza. Mas acredito que já esteve. E penso que está na região. Ele gosta de gozar com as pessoas. Ele gosta de nos dar a entender que não tem medo de nós e que é mais inteligente que nós. Apesar de ter dado a morada, não é aqui que vive, mas perto daqui.”
Bill suspirou.
“Pelo menos está aberto,” Disse Bill. “Vamos entrar e fazer algumas perguntas.”
“Entra tu primeiro,” Disse Riley. “Quero dar uma olhadela aqui fora.”
“Ok,” Anuiu Bill. E entrou na loja.
Riley permaneceu no parque de estacionamento analisando a área. Viu que estavam num bairro de famílias de classe média com pequenas casas coladas umas às outras. Do outro lado da rua, o quarteirão era exclusivamente composto por casas em fila. Algumas casas estavam iluminadas àquela hora. Riley imaginou que quem trabalhava se preparava para ir para o trabalho.
Onde e como é que Peterson mantinha April numa área tão densamente habitada? Um bairro onde provavelmente todos se conheciam?
Isto não me soa bem, Pensou.
Ainda assim, os seus mais profundos instintos diziam-lhe que Peterson não os tinha enganado ao levá-los até ali – não completamente. Talvez fosse apenas um pensamento ilusório, mas Riley tinha a certeza de que Peterson tinha montado uma armadilha para ela e que ela se estava a aproximar cada vez mais de encontrar o seu covil. No final de contas, ele desejava confrontá-la.
Bill saiu da loja, a patinhar em poças de água ao caminhar na direção de Riley.
“O tipo da loja acha que reconhece a cara,” Disse. “Ele pensa que o viu num estaleiro de obras junto ao rio.”
Riley sentiu-se esperançada.
“Vamos até lá.”
Voltaram para o SUV.
“O tipo diz que esta rua leva-nos lá,” Acrescentou Bill.
À medida que avançavam, Riley ficou mais alerta. Aquela área parecia menos habitada e mais promissora. Devia ser fácil avistar uma casa abandonada – um lugar isolado onde ninguém pudesse ouvir os gritos de socorro desesperados de uma mulher.
Quando alcançaram a vedação que circundava o estaleiro, Riley disse, “Pára aqui.”
Bill parou o carro e saíram, abrindo os guarda-chuvas. Um grande sinal na vedação indicava a construção de um novo complexo de apartamentos. Apenas se vislumbravam algumas casas desabitadas por perto. A área lembrava a Riley o terreno onde ela própria estivera presa. Sentiu o coração acelerar.
“Penso que estamos perto,” Disse a Bill. “Isto aqui é muito mais isolado.”
Bill assentiu. “Não sei Riley. Parece assim à noite, mas olha para todo este equipamento. De dia estes terrenos devem estar repletos de trabalhadores de construção. Consegues ver algum lugar onde o Peterson possa estar escondido?”
Riley olhou em seu redor. Aquela parte do local estava iluminada, mas não conseguia ver ninguém por ali.
“Tem que haver um guarda-noturno algures por aqui,” Disse Bill. “Talvez nos possa ajudar.” Declarou. “Vamos dar a volta, pode ser que o encontremos do outro lado.”
Naquele exato momento, Riley ouviu algo semelhante a vozes de crianças. Era um som assustador àquela hora, no escuro e à chuva. Virou-se e viu um grupo de miúdos debaixo de um toldo no estaleiro.
“Vai lá,” Disse Riley a Bill. “Eu vou falar com estes miúdos.”
Bill afastou-se e Riley abordou o grupo de adolescentes. Eram sete, um grupo bem variado composto por negros e brancos, rapazes e raparigas. Tentavam parecer-se com gangsters e patifes na forma como se vestiam e como fumavam cigarros. Também detetou o cheiro a erva.
Riley retirou o panfleto com as fotos de Peterson da mala. Mostrou-o aos miúdos quando se aproximou.
“Algum de vocês já viu este homem?” Perguntou.
Um dos miúdos pavoneou-se na sua direção. Parecia ser o mais velho e parecia considerar-se o líder do grupo. Riley reparou que fez um sinal silencioso ao miúdo maior que começou a andar à sua volta. Riley sabia que tinha que estar atenta àquele matulão.
“E quem és tu, uma mulher polícia?” Perguntou o miúdo mais velho.
Riley mostrou o distintivo.
“Bem me parecia,” Disse o rapaz com uma careta. “O que te faz pensar que vamos falar com uma chui?”
“Uma rapariga inocente desapareceu,” Disse Riley. “Está presa próxima daqui por um psicopata. Provavelmente está a ser torturada. Vai ser morta em breve se não a encontrarmos.”
Aproximou a foto do miúdo que a abordara.
“Viste-o?” Perguntou Riley.
O rapaz escarneceu outra vez. “Se tivesse, porque é que havia de te dizer?”
“O melhor é não falares com ela dessa maneira, Mayshon,” Disse uma rapariga negra mais nova. “Provavelmente não está sozinha.”
O rapaz riu acidamente.
“E depois?” Disse. “Não fizemos nada de errado.”
Riley reparou que o rapaz fez um ligeiro aceno com a cabeça e soube de imediato que era um sinal para o rapaz maior que estava atrás dela.
Riley girou e apanhou o rapaz maior pelo pulso no exato momento em que erguia uma faca na sua direção. Agarrou-lhe no braço e torceu-o com força enquanto o puxava para trás das costas. Sabia que o podia partir facilmente.
E contudo, apesar do quanto ele a poderia ter magoado, ela não o queria magoar. Ele era grande e forte, mas ainda era um miúdo.
Ele largou a faca e gemeu de agonia, contorcendo-se, incapaz de se libertar.
Os outros miúdos ficaram especados de olhos muito abertos, a observar a cena em pânico e surpreendidos.
“Eu não ia fazer nada!” Gritou o miúdo grande. “Não me parta o braço!”
Riley estava em brasa. Só pensava no que aquele miúdo podia ter feito a outra pessoa que não tivesse os atributos dela.
“Podia prender-te por isso,” Disse-lhe Riley ao ouvido. “Por muito, muito tempo.”
O miúdo gemeu enquanto os outros dispersavam. Alguns limitaram-se a fugir.
“Peço desculpa, senhora!” Gemeu. “Nunca mais volto a fazer o mesmo.”
Riley finalmente suspirou e libertou-o. Tinha que lembrar-se a si própria de que este não era o inimigo que ela perseguia – e que em algumas ocasiões, a misericórdia era a maior dádiva que se podia conceder a alguém. Tinha que a conceder enquanto podia porque não sabia se lhe restaria alguma para o homem que tinha raptado a filha.
Quando libertou o rapaz, ele correu e fugiu, e Riley baixou-se e apanhou a faca. Riley olhou para o líder, o único que tinha restado e que parecia demasiado assustado para fugir.
“Desaparece da minha vista,” Rosnou Riley.
O rapaz finalmente fugiu.
Quando Riley viu que se tinham ido embora, guardou a faca. Ouviu um ruído e ficou surpreendida ao ver que a rapariga que tinha falado tinha ficado para trás. Emergiu das sombras e fitou Riley com uma expressão de assombro.
“Isso foi fixe,” Disse. “Nunca tinha visto uma mulher a fazer uma coisa dessas. Não lhes ligue, são uns anormais. Quem é essa rapariga de que falava?”
“É a minha filha,” Disse Riley. “Tem catorze anos.”
Riley percebeu que as suas palavras a tinham tocado. Imaginou que a rapariga teria a idade de April.
“Eu vi-o – o homem das fotos,” Disse. “Acho que vive aqui perto.”
Apontou.
“Por ali, depois das construções, quase ao pé do rio. Não é longe. É uma casa pequena, a única ali. Da última vez que o vi, conduzia um grande Cadillac.”
O coração de Riley começou a bater descompassadamente. Começou a caminhar naquela direção.
“Vem,” Disse à rapariga. “Mostra-me.”
Mas a miúda não se mexeu.
“Nã-ã,” Disse. “Fico aqui. A última vez que me aproximei daquele lugar, apontou-me uma arma.”
Sem dizer mais uma palavra, começou a caminhar na direção da paragem de autocarro. Parou a meio do caminho e virou-se para Riley.
“É um filho da puta mau,” Gritou.
“Eu sei,” Sussurrou Riley para si.
Voltou ao SUV para pegar numa lanterna e na Remington. Tinha a certeza que ia precisar dela.