Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 26 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 34

Riley foi acordada com Lucy a irromper pela porta do quarto.

“Liga a televisão!” Gritou Lucy.

Riley sentou-se. “O que é?” Perguntou. Viu que já era manhã. Ela e Bill tinham regressado de Albany na última noite. Na outra cama, April disse sonolentamente, “O que é que se passa?”

“Vou ligar a televisão,” Disse Lucy. Encontrou o comando e ligou-a. As primeiras palavras que Riley ouviu foram as do apresentador.

“Devemos avisar os nossos telespetadores que algumas das imagens que vão ver podem chocar os mais sensíveis.”

Riley viu de imediato que o apresentador tinha razão. A primeira imagem mostrava um corpo acorrentado a oscilar num ramo de árvore. Misericordiosamente o corpo estava virado de costas para a câmara.

O apresentador continuou, “Uma mulher foi brutalmente assassinada a noite passada e o corpo abandonado no Curtis Park em Albany. Parece tratar-se do último crime da série de ‘homicídios das correntes’ que aterrorizaram a área do Rio Hudson no decorrer dos útimos cinco anos. A identidade da vítima ainda não foi revelada…”

“Não,” Disse Riley. “Não pode ser. Ainda não.”

O ramo da árvore pendia sobre uma estrada e parecia o mesmo parque onde Carla Liston tinha sido raptada. O corpo pendente só podia ser de Carla Liston. Mas era demasiado cedo. Só a tinha levado há alguns dias.

Enquanto o apresentador continuava a falar, a câmara mostrou uma pequena multidão de curiosos que se juntara fora da área do crime. A situação era o pesadelo de qualquer investigador.

Agora o repórter na cena do crime falava com o homem que tinha descoberto o corpo algumas horas antes.

“Estava a conduzir no parque a caminho do trabalho,” Dizia o homem. “Quando o vi, quase estampei o carro. Depois pensei que fosse um boneco pendurado por algum engraçadinho. Mas depois olhei melhor e…”

Naquele momento, alguém bateu à porta do quarto. Enquanto Riley olhava para a televisão, Lucy foi à porta e deixou Bill entrar.

Disse, “Acabei de receber uma chamada de Harvey Dewhurst, o responsável do gabinete de Albany. Está a endoidecer. Aquele tipo chamou a imprensa antes de chamar a polícia.”

Bill continuou, “Quando a polícia soube, depreenderam logo que era o nosso caso e ligaram para o gabinete de campo. Mas na altura em que Dewhurst e os seus lá chegaram, a imprensa estava por todo o lado. E os curiosos também começaram a chegar.”

“Temos que ir para lá,” Disse Lucy.

Riley já estava fora da cama, à procura de roupa para vestir. Levou as coisas para a casa de banho e vestiu-se apressadamente. Não havia tempo para o pequeno-almoço. Talvez conseguissem pegar num café quando passassem pela sala de pequenos-almoços.

Quando saiu, Bill e Lucy já estavam na porta à espera.

“Temos que ir, April,” Disse Riley à filha. “Todos. Fica aqui sossegada.”

“É o vosso trabalho,” Respondeu April. “Vão, eu fico bem.”

*

Durante a viagem até ao Curtis Park, Riley ainda estava a tentar orientar ideias quanto ao que tinha acontecido.

“Não percebo o que se está a passar,” Disse. “Ele está a quebrar o seu próprio MO. É suposto ele manter estas vítimas cativas durante mais tempo. Durante semanas. Porque é que a matou tão rapidamente?”

Uma onda de desmotivação arrebatou-a.

“Pensava que teríamos mais tempo para encontrar Carla Liston,” Acrescentou com tristeza.

“Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance,” Disse Lucy do banco de trás.

Bill não dizia nada. Riley sabia que ele sentia o mesmo. Tantos anos depois a trabalharem juntos e nem sequer estavam ainda habituados a perder uma vítima. Era especialmente duro quando sentiam que estavam tão perto de apanhar o assassino.

Quando chegaram ao parque, Riley viu que as carrinhas das equipas de televisão estavam misturadas com veículos da polícia. A multidão fora da zona restrita era maior e as pessoas tiravam fotografias com os seus telemóveis. Ela e Lucy seguiram Bill à medida que ele rompia pela fita que demarcava a área. Mostraram os distintivos a dois polícias que estavam a dar o seu melhor para controlar a área.

Depois os três caminharam pela estrada na direção do local onde o corpo ainda estava pendurado à vista de todos. Riley conseguia agora ver que a vítima estava vestida com um colete-de-forças como tinha sucedido com as anteriores. E tal como sucedera com Rosemary Pickens em Reedsport, tinha sido pendurada a uma corda ligada a uma roldana.

Riley parou e observou, abalada pela audacidade da exibição. Eugene Fisk devia ali ter parado a carrinha antes do nascer do sol, trepou ao ramo, colocou a roldana no local, depois desceu e elevou o corpo de Carla Liston.

E tudo sem ser visto, Pensou Riley. Ele tinha não só sido ousado, como também tinha tido sorte.

Não se tratava de um armazém abandonado à beira de uma linha de caminho-de-ferro, mas uma estrada bastante frequentada que atravessava o parque da cidade. Com qualquer outro assassino em série, Riley partiria do princípio que ele se estava a tornar mais descarado, a gozar com as autoridades. Mas ela sabia que Eugene Fisk era um tipo de criatura diferente. O mais certo era tratar-se de um gesto de puro desespero. Mais uma vez pensou o que se estaria a passar na cabeça daquele maníaco.

O Agente Especial Harvey Dewhurst caminhou na sua direção. Era um homem de meia-idade e excesso de peso e naquele momento aparentava estar ansioso, com o rosto vermelho e a transpirar. Também estava zangado como o raio.

“Odeio quando estas merdas acontecem,” Disse Dewhurst. “Vocês lá por Quantico é que são os peritos. Digam-me o que devemos fazer para controlar os danos causados.”

“Antes de mais nada, o melhor é descerem-na,” Disse Bill.

Riley concordou. Ela pedira ao Chefe Alford para deixar o corpo de Rosemary Pickens pendurado antes de chegar à cena do crime, mas neste caso a situação era diferente. A polícia de Reedsport controlara melhor toda a cena do crime. Aqui, demasiadas fotos já tinham sido tiradas ao corpo. E ela e o resto do FBI no local já tinham visto tudo com atenção.

Dewhurst virou-se para o polícia local responsável.

“Diga ao seu pessoal para a descerem,” Disse. “E diga ao médico-legista para começar a trabalhar no corpo já.” Olhou em redor e acrescentou, “E tirem-me estes metediços daqui. Coloquem as fitas onde podem tirar fotos e abram alas para que o médico-legista consiga entrar com a carrinha.”

O polícia apressou-se a cumprir as ordens de Dewhurst.

“E agora?” Perguntou Dewhurst.

Riley pensou por um momento.

“Mais vale tirarmos partido da imprensa,” Disse. “Digam às estações de televisão que estamos à procura de uma carrinha de entregas Ford branca. Um pára-choques da frente está danificado e tem matrícula da Pensilvânia. A Agente Vargas pode fornecer-lhes uma foto da carrinha. Certifique-se que o público a vê.”

Depois Riley retirou da sua mala a fotografia de Eugene que o psiquiatra lhe tinha entregado.

“Nesta fotografia o suspeito era adolescente,” Explicou Riley. “Neste momento ele tem vinte a sete anos. Levem esta foto para o gabinete de campo e submetam-na ao programa de progressão de idade. Devemos conseguir obter uma boa imagem de como ele é neste momento. Depois certifiquem-se que chega à TV e à Internet.”

Pensou durante mais um momento e disse, “Não mencionem que o perpetrador sofre de gaguez. Isso irá ajudar a filtrar as chamadas.”

Naquele momento o médico-legista chamou Dewhurst, “É melhor verem uma coisa.” Ele encontrava-se ajoelhado junto ao corpo que já se encontrava no chão.

Riley, Bill e Lucy seguiram Dewhurst para ver o que o médico-legista indicava. Os olhos da mulher estavam abertos e o rosto denotava uma expressão de terror. O médico-legista apontou para a garganta.

“A garganta foi cortada,” Disse, “e creio que foi assim que matou as outras vítimas. Mas vejam. Não houve muito sangramento.”

Virou-se e encarou-os. “Não foi a causa da morte. Desta vez, primeiro o pescoço foi partido.”

Bill olhou para Riley surpreendido.

“Outra alteração no MO,” Disse-lhe. “O que é se passa com este tipo?”

“Não sei porque é que ele está a mudar tão rapidamente,” Disse Riley. “Não parece o tipo de assassino que mudasse. Mas sei a quem devemos recorrer.”

CAPÍTULO 35

Riley encontrava-se mais uma vez em Sing Sing. Esperava que fosse uma decisão acertada. Bill estava com ela, apesar de a ter acompanhado algo relutantemente, insistindo que se tratava de um desvio à investigação. Mas no fundo, Riley sentia que Shane Hatcher teria algo de importante a dizer sobre aquilo.

“Espero que saibas o que estás a fazer,” Resmungou Bill quando o guarda os conduziu à sala de visitas – a mesma sala bege onde Riley se encontrara com Shane Hatcher há poucos dias.

Mal se sentaram na mesa, Hatcher foi conduzido à sala por dois guardas. Sentou-se à sua frente e durante um interminável momento olhou para Bill por cima dos seus óculos de leitura. Depois voltou-se para Riley.

“Vejo que desta vez trouxe um amigo consigo,” Comentou.

“Este é o Agente Especial Bill Jeffreys de Quantico,” Disse Riley. “Veio para Albany para se juntar à investigação.”

Hatcher lá estava sentado com aquele sorriso inescrutável já familiar no rosto rígido. Mais uma vez olhou para Bill da forma que tinha observado Riley da última vez – medindo-o, imaginando o que o movia.

Riley sabia que apesar de – ou talvez por esse motivo – estar preso há muito tempo, Hatcher era um observador astucioso da natureza humana. Pensou no que estaria a pensar sobre Bill naquele momento.

“Não precisam de me dizer porque é que estão aqui,” Disse Hatcher. “Vi tudo na televisão. Uma cena e tanto. Calculei que regressaria.”

Abanou a cabeça desaprovadoramente.

“Todos aqueles abutres lá fora – jornalistas, curiosos, executivos de TV enlouquecidos por cotas. Não é de endoidecer uma pessoa? Uma coisa boa deste lugar é que não temos que lidar com esse tipo de barbaridade. Claro que também temos os nossos tipos de barbaridade, mas realmente, eu prefiro-a. É como digo a toda a gente aqui, a liberdade é sobrestimada. E acreditam em mim? Nunca.”

Riley ouviu Bill a bufar. Ela própria achava um pouco estranho ouvir este tipo de moralismo da parte de alguém que matara várias pessoas. Mas lembrou-se a si própria que Shane Hatcher não era um monstro qualquer. Pensou que mesmo que tivesse que falar com ele todos os dias durante vários anos, ele conseguiria sempre surpreendê-la – e talvez também assustá-la.

“Estava certo em relação a tudo,” Disse Riley. “O perpetrador foi torturado quando era criança. A mãe acorrentava-o, foi criado num orfanato – molestado por outros miúdos e também pelas freiras que deviam tomar conta dele.”

“Que mais descobriram?” Perguntou Hatcher.

“Mata desde criança,” Continuou Riley. “Cortou a garganta da própria mãe quando tinha dez anos. Foi institucionalizado durante vários anos, mas conseguiu convencer toda a gente que estava bem, incluindo o médico. É por isso que está livre neste momento.”

Hatcher anuiu conscientemente.

“Algo está diferente agora, não é?” Perguntou. “Ele mudou o seu modus operandi. É por isso que querem falar comigo.”

Riley viu que Bill se inclinava para a frente e estava mais atento agora. O seu parceiro podia ser desdenhoso, mas não tinha problemas em reconhecer as fontes de informação que lhe pareciam potencialmente valiosas.

“Este tipo está a agir mais rapidamente agora,” Disse Bill. “Ele não está a manter as vítimas vivas durante tanto tempo.”

Riley acrescentou, “E não matou esta última vítima da mesma forma que matou as outras. Cortou-lhe a garganta, mas só quando já estava morta.”

“Qual foi a causa da morte?” Perguntou Hatcher.

“Pescoço partido,” Disse Bill.

Hatcher piscou os olhos com interesse.

“Posso dizer-vos com toda a certeza que ele não teve a intenção de fazer isso. Foi um acidente. O cortar a garganta – é uma parte do seu ritual, não a pode alterar, não deliberadamente. Por isso o fez depois, mas não resultou para ele. Ele está a perder o controlo. Agora vai agir ainda mais rapidamente, vai tentar reganhar o seu equilíbrio. Mas não consegue. Nada resultará para ele. Nada vai correr bem. Vai cometer erros.”

Hatcher parou e pensou por um momento.

“Não subestimem o poder da sua psicose. Ele não faz o que faz para obter algum tipo de vantagem, como dinheiro ou estatuto. Não é uma vingança. E definitivamente não o faz pelo entusiasmo. Este homem é absolutamente conduzido por algo que não compreende. Pode até não querer fazer o que está a fazer.”

Riley percebeu que pensava da mesma forma desde o início.

“Ele sente remorsos,” Disse ela.

“É isso mesmo. Ele sente-se imensamente culpado. E a única forma que lhe ocorre de se absolver de toda aquela culpa é…”

Hatcher gesticulou para Riley concluir o seu pensamento.

“Continuar a matar,” Disse Riley. “Para apaziguar os demónios que o impelem.”

Hatcher anuiu e sorriu. “Miúda esperta. Não faz sentido, mas ele é assim. O seu desespero está a avolumar-se e isso pode dar-vos alguma vantagem. Ele não vai desaparecer, não se vai esconder. Não por muito tempo.”

Hatcher tamborilou com os dedos e acrescentou com um sorriso quase impercetível, “Se o conseguem apanhar antes que volte a matar – bem, isso já depende de vocês. Ainda bem que é o vosso trabalho, não o meu. Outra coisa que não faz parte da vida aqui na Grande Casa.”

De repente, Hatcher gritou, “Guarda, acho que já terminámos.”

Riley ficou sobressaltada. Queria fazer mais algumas perguntas. Era óbvio que Hatcher tinha outros planos e ela sabia que mais valia não contrariá-lo. Além disso, dissera-lhes muito em pouco tempo.

Hatcher acrescentou ainda dirigindo-se a Riley e Bill.

“Mais uma coisa,” Disse tranquilamente. “Pressinto uma tensão existente entre vocês os dois. Ultrapassem isso. Não estou a dizer que foram feitos um para o outro. Se calhar não estão destinados a ficar juntos. Mas podem fazer coisas boas quando estão juntos. E isso interessa mais a longo prazo do que tudo o resto.”

Hatcher olhou para Bill com atenção, depois apontou para a aliança de casamento no seu dedo e disse, “E esqueça tentar consertar as coisas com a sua mulher. Não é possível. Ela nunca vai compreender a vida que escolheu. Ou que o escolheu a si.”

Riley viu a expressão de choque de Bill.

Depois Hatcher virou-se para Riley e disse, “E você. Pare de lutar contra isso.”

Riley esteve quase a perguntar, “Lutar contra o quê?”

Mas não, tinha que ter cuidado em aceitar conselhos pessoais de um assassino. Isso não podia ser saudável.

Nem que ele tivesse razão, Pensou. E o mais certo é ter.

“Oh, e mais uma coisa,” Disse Hatcher. “Vocês os dois são tal e qual todos os polícias e investigadores que já conheci. Não façam o habitual com este tipo.”

E agora a voz de Hatcher assumiu uma certa urgência.

“Ele está ferido onde mais dói – na sua alma. Não há nada mais perigoso do que um animal ferido. Tenham cuidado. Não se desleixem como ele se está a desleixar.”

Hatcher levantou-se da cadeira e sorriu novamente.

“É bem capaz de matar um de vocês antes de dar por terminada a sua missão.”