Acorrentadas
Capítulo 17
A Unidade de Análise Comportamental do FBI fervilhava de atividade com agentes a tentar localizar April. Agora todos sabiam que Riley sempre tivera razão. Peterson ainda estava vivo e continuava a constituir uma ameaça. O panfleto tinha eliminado qualquer réstia de ceticismo e alguns dos agentes pareciam até envergonhados como Riley julgava que deveriam estar.
A foto de Peterson e o esboço feito a partir da descrição de Brian encontravam-se lado a lado no panfleto. Ambas mostravam um homem de aspeto normal que não se destacaria da multidão, não fosse pela sua envergadura e queixo proeminente. A semelhança entre o esboço e a foto era inegável.
Riley desejava sentir-se vingada. Mas em vez disso, sentia-se absolutamente miserável.
Meredith entrou no seu gabinete, denotando sincera preocupação.
“Como se está a aguentar?” Perguntou a Riley.
Riley engoliu em seco. Não podia chorar. Tinha que se controlar.
“Sinto-me tão culpada,” Disse. “Faz sentido?”
“Não,” Respondeu Meredith. “Mas também nada faz sentido numa altura destas.”
Riley concordou. Meredith tinha toda a razão. Ela devia sabê-lo melhor do que ninguém. Mas depois de todos os anos passados como agente no terreno, nunca se encontrara naquela posição. Fora ameaçada, mas apenas observara aquele tipo de terror do exterior. Estas emoções eram completamente novas para ela.
“Tem novidades?” Perguntou Riley.
Meredith suspirou. “Nada de especial,” Disse. “Temos polícias a baterem a todas as portas do bairro do seu ex-marido com o panfleto. Até agora, ninguém reconheceu o Peterson.”
“E o carro?” Perguntou Riley.
“A polícia de Fredericksburg localizou o carro que o miúdo descreveu. O Peterson tinha-o roubado. Foi encontrado abandonado não muito tempo depois de dar boleia aos miúdos. Um vizinho do outro lado da rua disse que tinha reparado num Cadillac preto estacionado na entrada da casa do seu ex-marido. Provavelmente também foi roubado e estamos a tentar saber mais sobre este novo dado. Mas o vizinho não viu mais nada de relevante.”
O coração de Riley estava suspenso de cada palavra proferida por Meredith, mas não ouviu muito que a pudesse animar.
Meredith olhou para Riley por um momento e depois disse, “Não há nada que possa fazer aqui agora. Receio não conseguir convencê-la a ir para casa descansar.”
Riley abanou a cabeça.
“Ainda é cedo,” Disse.
Para além disso, sabia que não ia conseguir dormir até a April ser encontrada. E a UAC também não dormiria até o conseguir.
“Ok,” Disse Meredith. “Quando soubermos mais alguma coisa, informo-a.”
E saiu do gabinete de Riley. Riley olhou novamente para o panfleto. Lembrou-se da escolha de palavras de Meredith. Ele tinha dito “Quando soubermos mais alguma coisa.” Não tinha dito se. Riley tentou confortar-se com isso. É claro que ela sabia que Meredith tinha escolhido as palavras cuidadosamente. Será que ele tinha esperança de que a April fosse encontrada viva?
E foi então que ouviu uma voz familiar vinda da porta do seu gabinete.
“Riley.”
Virou-se e viu Bill.
“Já soube o que se passou,” Disse Bill.
Os olhos plenos de preocupação de Bill não mostravam qualquer resquício de fúria ou ressentimento. Fosse o que fosse que tivesse ocorrido de menos positivo entre eles recentemente, Riley sabia que desaparecera por completo perante a tragédia que viviam naquele momento.
Riley fez uma última tentativa para controlar as suas emoções. Mas foi então que lhe ocorreu que já não precisava de o fazer. O seu amigo estava de volta – um amigo que a compreendia melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.
As lágrimas iromperam abundantemente e Riley lançou-se nos braços de Bill.
“Bill, estás aqui, estás aqui.”
Soluçava descontroladamente enquanto Bill a embalava suavemente nos braços.
*
Bill conduzia o SUV. No banco do passageiro a seu lado, Riley carregava no colo uma shotgun Remington. Tinha solicitado a arma na UAC antes de partirem para D.C.
“Lembra-te que isso é uma arma SWAT,” Disse Bill. “O mais certo é entrevistarmos civis durante algum tempo.”
“Vou deixá-la no SUV por agora,” Respondeu Riley.
Bill sabia que tinha feito bem em ir ter com ela. A sua melhor amiga estava emocionalmente abalada e a precisar da sua presença. Abandonar a parceria que os unia num momento tão difícil, teria sido errado. Ele estava consciente que partir naquela noite podia significar o fim do seu frágil casamento, mas não podia deixar Riley partir sem ele.
Ela era brilhante, mas também podia ser imprudente. Estivera tão próxima de ser morta quando atacara sozinha no seu último caso e ele não podia permitir que isso voltasse a acontecer.
“Fala comigo,” Disse Bill. “Sobre o Peterson. Descobriste mais alguma coisa desde que o apanhámos?”
“Ele está a mudar Bill,” Disse Riley.
“Como?”
“É difícil explicar com exatidão.”
Após um breve silêncio, Bill falou novamente. “Riley, detesto ter que te pedir para te lembrares. Mas pensa nas coisas que ele te disse quando te capturou. Alguma coisa relevante de que te recordes?”
“Ele disse-me uma vez, ‘Não fazes o meu género,’” Recordou-se Riley.
“Hmm, ok, não fazias o género dele,” Disse Bill. “Disse mais alguma coisa?”
“Sim, disse qualquer coisa do tipo, ‘Mas gosto de ti de qualquer das formas. Estás a abrir os meus horizontes.’”
“O que achas que ele queria dizer com isso?”
“Há tanta coisa que não sabemos a respeito dele,” Disse Riley. “Ninguém sabe ao certo quantas mulheres ele torturou e matou. As únicas de que temos conhecimento são as últimas encontradas em campas rasas. O mais provável é haver mais que ninguém descobriu.”
“Certo,” Disse Bill. “E as mulheres que encontrámos eram obviamente ricas. A primeira era casada com um psiquiatra. A segunda com um editor de jornal. A terceira era casada com um investidor do ramo imobiliário. A quarta com um tubarão de uma grande empresa. Por último, a Marie, uma advogada de Georgetown. É óbvio que isto começou como uma coisa de classe. Possivelmente vem de uma família pobre e ressentia-se disso. Tinha sobretudo ressentimentos contra mulheres endinheiradas.”
Riley concordou. “Fazia-o sentir-se fragilizado,” Disse. “Então lançou-se numa cruzada de vingança, escolhendo mulheres que representavam tudo aquilo que ele odiava. Também eram mulheres que não estavam ao alcance de um homem da sua condição social. Talvez a sua primeira vítima fosse uma mulher rica que tivesse rejeitado os seus avanços românticos. Talvez tivesse fantasiado que era um revolucionário por conta própria. A sua raiva tinha uma componente sexual, apesar da violação nunca ter feito parte do seu MO.”
“Estás a fazer uma abordagem completamente nova,” Disse Bill. “Continua.”
“E tornou-se muito bom naquilo que fazia,” Continuou Riley. “A julgar pelas fotos que temos dele, ele será o tipo de sujeito que se mistura em qualquer lugar. E o último carro que roubou é um Cadillac. Com as roupas e adereços certos, conseguirá fazer-se passar por rico. Pode ter convivido com as mulheres, até andado ou dormido com algumas delas. O que interessava era aquilo que elas representavam – o tipo de riqueza e privilégio pelo qual se sentia enganado.”
Bill emitiu o habitual som de quando algo lhe ocorria.
“Riley, é isso,” Disse. “Tu não fazes o género dele – não és uma profissional rica, nem uma dona de casa casada com alguém rico, não és o tipo de troféu que ele procurara até então. Mas mesmo assim gostava de ti. E isso apanhou-o de surpresa. Ele percebeu que aquela coisa da classe já não lhe interessava. Ele não era um cavaleiro solitário a lutar em prol dos oprimidos. Ele fazia o que fazia por puro sadismo – pela alegria de infligir dor e terror.”
“É isso mesmo, Bill,” Disse Riley. “Ele não é um assassino em série normal. Ele pode mudar. É adaptável. Por isso tem sido tão difícil apanhá-lo.”
“Esperemos que isso esteja prestes a mudar,” Sentenciou Bill.
Naquele preciso momento, chegaram ao seu destino – um bloco de casas arruinadas. Estava escuro no decrépito bairro e ainda mais porque a iluminação pública tinha luzes desligadas. Tudo o que restava da casa onde Peterson detivera Riley era um terreno vazio. A explosão tinha destruído a casa que Peterson ocupara. As duas casas vazias dos lados tinham sido de tal forma danificadas que haviam sido de imediato demolidas.
Bill parou o SUV e estacionou. Disse, “Queres chamar a polícia de D.C.? Podem cobrir mais terreno, fazendo perguntas às pessoas.”
“Não,” Respondeu Riley. “Se a busca se tornar tão óbvia, ele vai assustar-se e desaparece. Vamos fazer isto sozinhos durante algum tempo. Temos duas chaves de carro por isso podemos separar-nos. Tu vais para leste e eu para oeste.”
“Ok,” Concordou Bill. “Mas ligas-me se alguma coisa acontecer, qualquer coisa.”
Observou Riley a dirigir-se para o terreno vazio onde tinha estado refém de Peterson. Bill sabia que Riley tinha que defrontar os seus demónios ali.
Bill dirigiu-se para o fundo da rua, determinado em encontrar alguma pista, alguma resposta que indicasse onde é que Peterson tinha a filha de Riley. E Bill sabia que se encontrasse o homem primeiro, ele próprio mataria o monstro.