Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 17 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 21

Pode até não ter que me matar, Pensou April. Talvez eu morra de qualquer das formas.

A escuridão era total debaixo do chão de madeira. A chuva batia no assoalho acima dela e pingava pelas frinchas. Chovia há horas e o chão debaixo dela transformara-se em lama. Apesar de ser uma quente noite de Agosto, estava ensopada e tremia. Para além de que estava com muita fome e sede.

Depois da noite cair, Peterson tinha-se esgueirado para perto dela várias vezes, a segurar um prato de comida enquanto acenava o maçarico de gás propano para a avisar de que não se podia aproximar. Rira-se cruelmente das suas inúteis tentativas para apanhar comida com os seus dois pulsos presos.

Agora sabia exatamente o tipo de tortura que a mãe tinha suportado sob o seu jugo. Mas a mãe tinha fugido. Conseguiria ela fazer o mesmo?

Pelo menos a chuva mantinha-o afastado por agora. Tinha estado em casa durante algum tempo e April não o tinha ouvido. Talvez estivesse a dormir. Talvez agora fosse a sua oportunidade de tentar fugir.

As mãos e pés de April estavam dormentes outra vez das algemas de plástico. Como fizera muitas vezes antes, esfregou e torceu os tornozelos e pulsos para que o sangue circulasse. Após um momento de agudo e frio formigueiro, começou a sentir novamente a presença dos membros dormentes.

Rebolou na lama em direção ao quadrado de treliça que ele abria e fechava sempre. Não conseguia ver no escuro, mas sabia exatamente onde estava – num canto do piso distante da casa.

Empurrou a treliça com os pés. Era demasiado sólida naquele local. Peterson devia ter ganchos e parufusos a prendê-la. Não ia conseguir retirá-los de dentro, não com as mãos presas.

Ainda incapaz de ver o que quer que fosse, rebolou para a casa até embater contra uma fundação de cimento. Pensou que a treliça seria mais frágil onde estava aplicada contra a casa. Tateou as suas arestas, na tentativa de descobrir exatamente onde estava pregada a um grosso poste de madeira ao lado da casa. Depois esticou-se e empurrou o canto superior com os pés.

Suspirou quando sentiu a treliça ceder ligeiramente. Era mais solta ali!

Empurrou novamente. Não se mexeu muito, mas April ouviu um som distinto de madeira a chiar. Ficou paralisada de medo. Peterson conseguiria ouvi-la na casa? Como poderia não a ouvir? No estado de exaustão e medo em que se encontrava, o ruído parecia-lhe quase ensurdecedor.

O que é que ele faria se ouvisse e descobrisse que ela estava a tentar fugir? Fosse o que fosse, não podia ser muito pior do que planeara fazer-lhe.

Permaneceu imóvel e apurou o ouvido. Não ouviu passos. Talvez ele não tivesse ouvido nada.

De qualquer das formas, agora teria que ser mais silenciosa. Pressionou aquele canto com as pontas dos pulsos, devagar e cuidadosamente, esperando conseguir empurrar os pregos aos poucos. Sentia um ligeiro movimento a cada empurrão. Depois um prego soltou-se completamente.

Ela continuou a empurrar e os outros pregos também se soltaram, um de cada vez. A cada empurrão emitiam alarmantes ruídos. Não havia forma de o fazer silenciosamente.

Finalmente, toda a secção quadrada de treliça cedeu e caiu no chão. Agora já conseguia sair – se ele não tivesse ouvido o último estrondo. Mas para onde iria e como?

Rastejando na lama como uma lagarta, juntando os joelhos e mãos e esticando-os para fora, conseguiu esgaravatar o caminho até ao exterior. Conseguiu passar no pedaço de treliça sem se magoar pelos pregos. Dali, a cada movimento o seu rosto embatia no chão, raspando na relva lamacenta. Pensou que a sua cara estaria a sangrar – e os pulsos e tornozelos também. Mas não havia nada que pudesse fazer.

Quando saiu completamente da sua prisão, sentou-se e olhou à sua volta. Tudo estava sossegado e chovia com intensidade. Apenas uma luz a brilhar de uma janela refletia o cromado do grande carro negro estacionado a alguns metros de distância. No quintal mais próximo, apenas avistava alguns arbustos. Conseguia vislumbrar a sombra de algumas árvores um pouco mais ao longe, mas não via nada para lá das árvores – nem ruas, nem janelas iluminadas. Não havia sinal de carros a circular em qualquer direção.

Um soluço subiu-lhe à garganta. Estava sozinha e não sabia como obteria ajuda. Cerrou os dentes e reprimiu o choro. Pensou na mãe e tentou imaginar o que ela faria, mas a sua imaginação não encontrava respostas fáceis.

Mas a mãe não desistiria. Essa era a única coisa de que tinha a certeza. A mãe nunca desistia de um problema. Na verdade, ocorreu-lhe que a mãe nunca tinha desistido dela.

April sabia que tinha que se afastar o suficiente para encontrar alguém que a ajudasse. Alguém que pudesse ligar à mãe, que trouxesse uma equipa SWAT para destruir o monstro e libertar April. Por um momento, imaginou inúmeras armas a disparar, resolvendo a situação de uma vez por todas.

Mas não havia nenhuma equipa SWAT à mão e ela tinha que continuar a afastar-se. Não interessava para onde ia, desde que fosse para longe daquela casa, para longe de Peterson.

Decidiu que era mais fácil, mais rápido e menos doloroso rebolar por isso, deitou-se e começou a rebolar.

E foi então que uma luz brilhante perfurou a escuridão. April ficou paralisada e viu que a luz da entrada da casa se tinha ligado. A porta abriu-se e Peterson saiu. O coração de April batia descontroladamente.

Ouviu-me , Pensou. Mas o homem não estava a olhar como se estivesse à sua procura.

Espalmou-se contra o chão, tentando ficar o mais invisível possível. Mas como não podia ele vê-la? Apenas alguns arbustos podiam escudá-la do olhar do psicopata.

Contudo, a noite estava muito escura e ainda chovia. Ela mal respirava quando ele desceu os degraus.

Para sua surpresa, passou ao lado dela, a poucos metros de distância. Entrou no carro, ligou as luzes e deu à chave. Por um momento, April ousou ter esperança. Se ele se fosse embora, dava-lhe tempo para fugir.

Mas então abriu novamente a porta do carro e saiu. Fechou a porta. April estava sufocada de medo. Talvez a tivesse visto. Não, voltara diretamente para casa. Aparentemente tinha-se esquecido de alguma coisa.

Ocorreu a April um novo plano de fuga. Peterson deixara o carro a funcionar.

Se ao menos ela conseguisse roubá-lo e ir-se embora! Mas como é que conseguiria fazer isso? Estava de pés e mãos atados.

Mas tinha que tentar. Rebolou até chegar ao carro. Depois ergueu-se e abriu a porta do condutor. Sentou-se no assento e ficou por momentos a observar o pára-brisas inundado de água da chuva. De repente, aquela parecia-lhe uma ideia completamente louca. Não só estava atada, como nunca tinha conduzido um carro na vida. Nem sequer sabia como ligar o limpa pára-brisas.

Mas não tinha escolha. Peterson regressaria a qualquer momento. Não era completamente ignorante no que dizia respeito a carros.

“Tu consegues fazer isto,” Disse para si mesma.

Conseguiu soltar o travão de mão e colocar o carro em andamento. Para seu espanto, começou a avançar de imediato. Travou com os dois pés atados e o carro parou abruptamente.

Como é que vou fazer isto? Pensou.

Colocou as mãos atadas em cima do volante, na esperança de ver suficientemente bem para evitar obstáculos. Depois tirou os pés do travão e carregou no acelerador. O carro avançou e continuou a andar.

Através da chuva, conseguia ver formas de árvores a surgir. Guinando freneticamente, conseguiu evitar bater. Não fazia ideia para onde se estava a dirigir.

Em poucos segundos, passara as árvores e avançava num campo aberto. Continuou a carregar no acelerador para o carro continuar a avançar.

Num ressalto mais duro, a porta do condutor abriu-se. Não a tinha fechado suficientemente bem, mas podia alcançá-la e fechá-la novamente. Não tinha o cinto de segurança e estava em perigo de ser atirada para fora do veículo ao ressaltar na terra dura.

Um ressalto fez com que carregasse com demasiada força no acelerador e o carro lançou-se para a frente. Por um momento, parecia estar suspenso no ar. Depois embateu no chão e deslizou para a frente. Os faróis permitiram-lhe ver uma grande árvore à sua frente, mas já era tarde de mais para travar. Quando o carro embateu na árvore, o airbag abriu-se à sua frente, protegendo-a.

April ficou atordoada por um momento e sentiu o sabor do sangue nos lábios. Percebeu que o motor do carro já não trabalhava e fumo saía debaixo do capô esmagado. Um farol ainda brilhava à frente. Saiu do carro mas caiu, rebolou por uma encosta abaixo e caiu na água. Conseguiu sentar-se e olhar à sua volta.

Percebeu que estava na borda do rio. Através da chuva, apercebeu-se da existência de luzes na margem oposta. Não parecia muito longe, mas quão profunda era a água?

*

Raio da miúda! Pensou Peterson quando avançava pela chuva. Tinha uma lanterna numa mão e uma arma noutra.

A lanterna é que fora a culpada. Há apenas alguns momentos atrás, entrara no carro e estava pronto para sair. Já era altura de abandonar aquele carro e roubar outro. Talvez algo que desse menos nas vistas. Uma noite chuvosa como aquela era perfeita para fazer as duas coisas sem ser notado.

E além disso, a rapariga estava completamente indefesa, reduzida a uma poça molhada de medo informe debaixo do piso de madeira.

Mas pouco antes de meter a primeira lembrou-se que ia precisar de uma lanterna. Abrira o porta-luvas e vira que não a tinha deixado lá. Estava em casa. Praguejou. Gostava de pensar em si próprio como alguém mais organizado.

Apressou-se de volta a casa, ainda despreocupado e sem pressas. Quando encontrou a lanterna ligou-a e apercebeu-se que as pilhas estavam gastas. Teve que procurar novas pilhas numa gaveta da cozinha e mal as tinha colocado na lanterna quando ouviu o ruído de um carro.

Saiu disparado de casa a tempo de ver um carro a ziguezaguear por entre as árvores próximas e a desaparecer no meio da escuridão.

Mal podia acreditar no que estava a acontecer. Com a lanterna a iluminar o local, percebeu que um pedaço de treliça estava partida e abandonada na lama. Foi aí que compreendeu que a miúda tinha fugido e levado o carro.

Muito parecida com a mãe, Pensou. Demasiado parecida com a mãe.

Mas ter-se-ia ela soltado das algemas de plástico? Se tinha, saberia conduzir? Era demasiado jovem para ter carta de condução, mas talvez tivesse aprendido. Se sim, podia ir a caminho de qualquer lugar.

Mas ao seguir as marcas de pneu frescas e lamacentas, duvidou. A sua condução era errática, como se não conseguisse controlar o veículo. Não, mesmo que conseguisse conduzir ainda estava atada. Não podia ir longe. Devia ter estampado o carro num instante. Bastava-lhe seguir o rasto. Apanhá-la-ia não tardava nada.

Peterson estava zangado e frustrado. Tinha estragado tudo. A mãe estaria possivelmente naquele momento a localizá-los e podia chegar a qualquer momento. Ele contara com isso. Esperara tornar a morte da miúda dramática e dolorosa – uma punição adequada para a mulher que o tinha contrariado. Ela ficaria tão destroçada com o horror e a culpa que imploraria para que ele a matasse também. E ele teria todo o gosto em fazer-lhe a vontade.

Mas agora tudo estava descontrolado e caótico. E ele odiava isso.

Quando viu o carro danificado mais à frente, só desejou que a rapariga não tivesse morrido no acidente. Colocou o dedo no gatilho da arma.

Acabaram-se os jogos, Decidiu. Chegou a altura de a matar.