Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 14 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 18

Riley viu Bill a afastar-se. Voltou-se para o SUV, sentindo-se relutante em deixar a Remington ali. Mas carregar uma shotgun consigo àquela hora da noite, atrairia o tipo de atenção que não desejava. Naquele momento, o plano era procurar, não destruir.

Pelo menos não para já, Pensou Riley.

Agora era o momento de recuar a um ponto negro da sua memória, um lugar em que percebera o quão pouco sabia a respeito de Peterson.

Caminhou pelo terreno vazio. Tinha ali regressado apenas uma vez desde o seu cativeiro e fuga. E fora em plena luz do dia. Mas estava certa na altura de que descobrira o lugar que procurava. Agora seguia os mesmos passos que seguira nesse dia. Passado pouco tempo o seu instinto indicou-lhe que estava lá, em cima do exato local.

Inspirou pesadamente o ar da noite. Sim, era ali. Não havia a mais ligeira dúvida. Debaixo dos seus pés estava o local onde encontrara Marie num espaço escuro e sombrio. Ali fora capturada no momento em que libertava Marie. Ali sofrera dias de dor, tortura e humilhação.

Um sentimento de raiva apoderou-se dela. Parecia vir do chão e propagar-se pelos dedos e pés, subindo pelos tornozelos e pernas até ao abdómen e braços com o peito e cabeça prestes a rebentar. Por um momento, a casa parecia ter assumido uma presença real à sua volta.

Se ao menos ainda aqui estivesse, Pensou. Se ao menos ele estivesse aqui.

Com que prazer faria o que fizera então – espancá-lo até ficar inconsciente, abrir os tanques de gás propano, atirar um fósforo lá para dentro e ver a casa a arder e explodir.

Se ao menos pudesse ser a sua vida a estar em jogo e não a de April.

Ao virar-se na direção da rua, viu um vagabundo que parecia estar familiarizado com aquela parte da cidade. Abordou o homem e mostrou-lhe o panfleto.

“Viu este homem?” Perguntou.

O vagabundo respondeu sem hesitar.

“Sim, vi-o muitas vezes. É o tipo destas fotos – um tipo alto com um queixo grande. Vem cá quase todos os dias. Ainda esta manhã cá esteve. Eu estava ali sentado do outro lado da rua. Caminhava por aqui como sempre faz, parou no passeio mais ou menos no local onde você está, a olhar para o terreno. E depois foi para onde a senhora estava. Faz sempre isso. Fica ali a olhar para o chão, como você fez. Também diz qualquer coisa, mas nunca estou suficientemente perto para ouvir.”

Riley mal conseguia conter a excitação.

“Ele vem cá de carro?” Perguntou Riley.

O vagabundo coçou a cabeça. “Não que eu saiba.” Apontou para oeste. “Hoje seguiu naquela direção. Fico sempre a vê-lo ir embora porque me parece estranho. Vira sempre numa das ruas laterais. Talvez tenha um carro estacionado por perto ou talvez não. Não sei.”

“Obrigado, muito obrigado,” Agradeceu Riley. Colocou uma mão na sua mala para agarrar na carteira. Não era um procedimento muito profissional dar dinheiro a uma testemunha útil, mas ela não conseguia evitar. Deu ao homem uma nota de vinte dólares.

“Muito obrigado,” Disse o vagabundo. E afastou-se do local com o seu carrinho de compras.

Era tudo o que Riley podia fazer para evitar hiperventilar. Respirou fundo. Ele estivera mesmo ali. Talvez estivesse próximo agora. Talvez até vivesse por perto. Talvez estivesse próxima de encontrar April.

*

Após várias horas a caminhar sem parar, Riley ainda não encontrara nada. Absolutamente nada. Tinha calcorreado todas as ruas até Georgetown, abordando todas as pessoas que encontrava. Algumas pessoas reconheciam o homem do panfleto e duas até disseram que o tinham visto recentemente a conduzir um Cadillac. Mas ninguém com quem falara sabia onde ele estava.

Esperava que Bill se estivesse a sair melhor onde quer que estivesse naquele momento, mas duvidava.

O Peterson levou a melhor sobre mim, Pensou em desespero, virando-se para regressar ao SUV. Estou a fazer tudo mal.

Tornando tudo ainda mais difícil, começou a cair uma chuva miudinha. Dali a poucos segundos, transformou-se numa chuva persistente. Estava ensopada até aos ossos muito antes de chegar ao SUV. Ficara aliviada por ver que um bar mais à frente ainda estava aberto. Entrou e sentou-se ao balcão.

Enquanto o empregado do bar estava ocupado a atender outro cliente, Riley pensou no que ia pedir. Álcool estava fora de questão. Parara de beber desde que fizera aquela chamada ao Bill que quase destruira a sua relação. Aquele não era o momento para recomeçar.

Ou era?

Os olhos de Riley percorreram as filas de garrafas alinhadas contra o espelho no bar. O seu olhar pousou nas garrafas de bourbon. Era tão, mas tão fácil imaginar o sentimento reconfortante de uma golada áspera e quente a escorrer-lhe pela garganta abaixo. Também era fácil imaginar beber um, outro e mais outro…

E porque não, afinal de contas? Fizera tudo o que estava ao seu alcance. A situação era desesperante, pelo menos naquele preciso momento. Um pouco de whiskey era exatamente aquilo de que ela precisava para relaxar, de dar algum alívio aos seus nervos abalados.

O empregado do bar colocou-se à sua frente.

“O que vai beber?” Perguntou.

Riley não respondeu.

“Última hipótese daqui a cinco minutos,” Disse o empregado.

Riley pensou naquilo. Dali a cinco minutos podia estar a beber muito whiskey. Ainda assim, ela resistia. A April estava não sabia onde, nas garras de um monstro. O que é que ela pensava que estava a fazer sequer a pensar em tomar uma bebida?

Um homem alto de aspeto rude inclinou-se no bar ao lado de Riley. Estava demasiado perto para o seu gosto.

“Então, senhorita,” Disse. “O que vai querer? Eu pago.”

A última coisa de que precisava naquele momento era de um idiota a atirar-se a ela.

“Eu não bebo,” Disse num tom de voz duro.

Sentiu-se aliviada com o som das suas próprias palavras. Estava dito e Riley sentia-se bem com a sua decisão.

O homem riu. “Não diga que não gosta antes de experimentar,” Disse.

Riley sorriu afetadamente. Quem é que aquele tipo pensava que ela era? Será que pensava que ela nunca tinha bebido na vida? Talvez à fraca luz do lugar ele não conseguisse ver-lhe o rosto cansado. Ou talvez estivesse demasiado bêbedo para ver como devia de ser.

“Dê-me uma soda,” Pediu Riley.

O empregado do bar encolheu os ombros na direção do homem. “A senhora quer uma soda,” Disse. Abriu o frigorífico de aço inoxidável, tirou uma garrafa e abriu-a.

“Faz como entenderes, puta,” Disse o homem.

Uma fúria cresceu dentro de Riley.

“O que é que disse?” Perguntou.

Mas o homem já se afastava dela em direção à porta. Chamou um amigo que estava sozinho numa mesa.

“Bora Red. Vão fechar.”

O amigo levantou-se e os dois homens saíram do bar.

A tentar combater a sua raiva, Riley pagou a soda. Bebeu-a de um gole diretamente da garrafa. Deixou uns trocos de gorjeta.

“Obrigado,” Disse ao empregado. O bar estava vazio e ela fora a última a sair. Quando saiu porta fora, ficou aliviada por ver que a chuva tinha parado. Mas a noite ainda estava escura e sombria, e devia voltar a chover em breve.

Quando a porta do bar se fechou atrás dela, sentiu uma mão forte a prender-lhe o braço e ouviu uma áspera voz familiar.

“Olá, senhorita.”

Riley voltou-se para encarar o homem lascivo. Sentiu a raiva a borbulhar dentro de si.

“Peço desculpa pelo pequeno arrufo que tivemos lá dentro,” Disse o homem. “Que dizes se nos beijarmos e fizermos as pazes? Depois logo se vê o que acontece.”

Riley recuou, mas outro braço envolveu-lhe o pescoço por trás. O amigo do homem também lá estava à espera.

“Não faças barulho e pode ser que não te magoes demasiado,” Disse o homem atrás dela.

Todo o corpo de Riley se retesou de pura fúria. Era uma fúria irracional – fúria contra assassinos, raptores e tipos como aqueles que pensavam que podiam fazer o que quisessem.

Bateu com o cotovelo no plexo solar do homem atrás dela e o joelho foi diretamente contra os testículos do outro. Ambos os homens se contorceram com dores. Sacou da sua Glock e acenou-a. Mas não os queria matar. Só queria espancá-los até ficarem inertes numa poça de sangue, tal como fizera ao Peterson quando escapara das suas garras.

Deslizou a pistola no rosto do homem que primeiro a tinha abordado. Depois deu meia-volta e deu um murro na cara do outro homem. Ela sentiu e ouviu a cana do nariz do homem partir-se.

Depois disso, tudo surgiu de forma natural, uma profundamente satisfatória sequência de pontapés e socos. Quando parou, ambos os homens estavam caídos no passeio, gemendo de dor.

Riley, incapaz de parar o seu fluxo de raiva, o seu desejo de vingança, inclinou-se e encostou a sua Glock à cabeça do primeiro homem. Retirou a patilha de segurança com um clique.

O homem olhou para cima com os olhos dilatados de terror e, de repente, urinou nas calças.

“Por favor,” Lamuriou-se. “Não me mate.”

Era patético.

Riley sabia que era ilegal o que estava a fazer, apontar uma arma a um civil desarmado; ela sabia que era imoral também, apesar do que ele tinha feito. Estava a ir longe demais.

No entanto, não conseguia parar. E ajoelhou-se, sentiu a mão a tremer de raiva e por um momento, pensou que o iria matar. Tentou impedir-se, mas travava-se dentro dela uma batalha épica. Havia demasiados demónios e poucas saídas.

Por fim, Riley colocou a Glock no coldre, sentindo a sua fúria desvanecer. Devia prender aqueles tipos? Não, demoraria demasiado tempo e tinha coisas mais importantes a fazer.

“Se volto a ver a vossa cara,” Murmurou. “Mato-vos.”

Ali ficou de pé e os homens desataram a fugir horrorizados, não olhando nunca para trás.