Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 18 de 30

Páginas do PDF

Acorrentadas

Capítulo 22

De pé fora do SUV, Riley retirou a shotgunn Remington da caixa e pendurou a arma ao ombro. O peso da Remington soube-lhe bem. Depois tirou a Glock, verificou-a e colocou-a novamente no coldre. Pegou numa lanterna e colocou-a no bolso do casaco. A rua ali estava bem iluminada, mas podia vir a precisar dela.

Apesar de ainda estar a chover, atirou o guarda-chuva para dentro do carro. Queria ter ambas as mãos livres para o que pudesse acontecer de seguida. Não se importava de ficar molhada.

Estou pronta , Pensou, cerrando os dentes e fechando a porta do SUV com força.

Olhou em redor, mas não viu Bill que se tinha dirigido para o outro lado do estaleiro na esperança de encontrar um guarda-noturno. Riley não podia esperar por nada nem por ninguém naquele momento, mas tinha que o avisar sobre o que se estava a passar.

Pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem.

“Sei onde ele está. A oeste daqui. Despacha-te.”

Depois começou a pensar se Bill chegaria a tempo. Podia nem conseguir ler a mensagem de imediato se estivesse a falar com o guarda-noturno. Acrescentou outra mensagem.

“Casa isolada junto ao rio.”

Caminhou apressadamente à chuva deixando o estaleiro para trás. A estrada terminava num amplo campo aberto com árvores espalhadas aqui e ali. Ela sabia que encontraria o rio seguindo sempre em frente, mas ainda não o conseguia ver.

A única luz que avistava provinha de uma pequena casa do outro lado da estrada. Era ali. Ali era o covil de Peterson. Por aquilo que a rapariga lhe dissera há alguns minutos, não havia a mínima dúvida. Aproximou-se da casa cautelosamente com a Glock agora na mão.

Numa situação normal, o seu próximo passo seria bater à porta e anunciar que era do FBI, mas ali nada era normal. Peterson tinha a April algures. Antes de Riley o defrontar, precisava de descobrir onde estava a filha e libertá-la.

Aproximou-se ainda mais da entrada da casa e olhou para as suas fundações. Pensando na sua própria experiência, era expetável que Peterson tivesse a vítima num espaço exíguo debaixo da casa. Mas o que via era apenas uma fundação baixa de cimento sem qualquer abertura. Pensou que talvez pudesse haver um acesso por outro lado.

Riley moveu-se silenciosamente à volta da casa até encontrar uma varanda de madeira.

Tem que estar aqui por baixo, Pensou Riley.

Mas foi então que os seus olhos pousaram num pedaço partido de treliça no chão, mostrando uma abertura no local. Debruçou-se e usou a lanterna para espreitar o interior. Ninguém estava ali, apesar de ser percetíevl que o chão lamacento estava remexido. Alguém estivera ali recentemente. Tinha que ter sido April.

Mas onde estava ela? Tinha fugido ou o Peterson tinha-a tirado dali, planeando livrar-se dela?

A pulsação de Riley estava descontrolada. Já não se preocupando em ser vista ou ouvida, apressou-se na direção da varanda iluminada e da janela. Não conseguia ver ninguém lá dentro. Depois tentou a porta. Estava trancada. Partiu o vidro, destrancou-a e abriu-a, entrando na casa.

Com a Glock pronta para qualquer eventualidade, Riley começou a explorar a casa. Não demorou muito tempo. Depois de verificar que tinha um quarto, uma casa de banho, uma sala de estar e uma cozinha, percebeu que a casa estava vazia. Mas com as luzes ligadas, parecia que Peterson tinha saído apressadamente. Porquê?

Abriu a porta das traseiras e voltou à varanda. A chuva era mais leve agora. Apontando a lanterna para o quintal, viu algo novo – marcas de pneus profundas ziguezagueando para longe da casa em direção ao campo aberto. Dirigindo-se ao lugar onde as marcas se encontravam, viu pegadas de botas em cima de algumas dessas marcas. Parecia que alguém, provavelmente o Peterson, tinha seguido o carro a pé.

O que é que isto significa? Perguntou Riley a si mesma. O que poderia ter acontecido?

Mas não podia ficar ali inerte a tentar compreender o que teria sucedido. Colocou a Glock no coldre e tirou a shotgun do ombro, segurando-a com o braço direito. Se estava prestes a defrontar Peterson, esta era a sua arma de eleição. Mesmo estando escuro, se tivesse uma ideia por muito difusa que fosse do local ele se encontrava, não teria dúvidas em disparar e atingi-lo.

Caminhou apressadamente ao longo do rasto lamacento de marcas mescladas. Atravessavam o campo erraticamente como se para evitar bater nas poucas árvores ali existentes.

Por fim, viu uma luz mais à frente. Ao aproximar-se, viu que era o único farolim que restava do Cadillac que tinha embatido contra uma árvore. A porta do lado do condutor estava aberta e não havia ninguém no interior do veículo.

O farolim apontava para a borda do rio. Tinha chegado ao rio. Na margem mais à sua frente, alguém acenava uma lanterna. Desligou a sua própria lanterna e pô-la no bolso.

Depois ouviu a voz soluçante de April.

“Por favor, por favor!”

“Demasiado tarde, espertalhona,” Sibilou uma voz familiar de homem. “Deixa-te de pieguices!”

“April!” Gritou Riley.

O nome saiu-lhe antes de sequer ter tempo para pensar. Fora um erro. Tinha acabado de anunciar a Peterson a sua presença. O fator surpresa já não estava do seu lado.

Riley avançou e quase tropeçou numa descida acentuada logo atrás da árvore. Segurou-se e a luz proveniente do carro, permitiu-lhe ver Peterson com clareza. Estava com os pés mergulhados no rio. A poucos metros de distância dele, April estava parcialmente submersa na água, atada de mãos e pés.

Riley compreendeu que Peterson também a conseguia ver. Carregando a shotgun, desceu cuidadosamente a encosta na sua direção. Ele ergueu uma pistola e apontou-a a April.

Ali estava ela, a poucos metros do homem que lhe assombrara os sonhos não conseguindo evitar que o coração batesse ensurdecedoramente.

“Nem penses,” Disse Peterson. “Um passo e acabou-se,”

Se ela tocasse na shotgun, Peterson mataria April antes de ela conseguir disparar.

“Baixa a arma,” Ordenou.

Riley engoliu em seco. Não podia fazer mais nada. A vida de April estava em jogo.

Deteve-se e colocou a shotgun no chão à beira da água.

Então Peterson imediatamente apontou a arma a ela e premiu o gatilho.

Riley preparou-se para o impacto.

Mas nada aconteceu. A arma de Peterson estava encravada ou descarregada.

Riley sabia que tinha apenas uma fração de segundo para agir.

Pegou na faca que tinha tirado ao miúdo. Abriu-a e atirou-se às águas pouco profundas do rio na sua direção.

Apontou ao plexo solar – aquele lugar macio onde atingi-lo seria mais fácil. Mas escorregou no rio lamacento e a lâmina penetrou entre duas costelas. E lá ficou.

Peterson rosnou de dor e afastou-se. A faca estava cravada no seu peito, escorregando das mãos de Riley.

De repente, Peterson impulsionou-se de novo para a frente antes de Riley conseguir reequilibrar-se e escorregou na lama. Caiu de costas na água gélida.

Um momento mais tarde, antes de o conseguir alcançar, viu as suas enormes mãos a envolverem-lhe o pescoço e sentiu a cabeça a ser empurrada para debaixo de água.

Riley sentiu o seu mundo desaparecer. Sem conseguir respirar, esperneou e pontapeou, sentindo a vida a abandoná-la. Que coisa horrível, pensou, morrer aqui, neste rio, ser estrangulada a poucos passos da minha filha.

Pensar na filha fê-la não desistir. April. Riley não ia permitir que Peterson a matasse ali. Porque a sua morte significaria a morte de April.

Riley redobrou esforços, lutando como um peixe selvagem, até conseguir finalmente erguer um joelho por entre as pernas de Peterson. Fora um golpe suficientemente poderoso para deitar qualquer outro homem por terra.

Mas para sua surpresa, Peterson nem se mexeu. A sua força afrouxou por um momento, mas depois começou a apertar com o dobro da força.

Riley sabia que ia morrer ali. Dera o melhor de si e não fora suficiente para acabar com aquele monstro.

De repente, Riley viu uma figura a movimentar-se com rapidez por cima de si; a sua visão estava obscurecida pela água que corria e de início pensou se seria um anjo que se aproximava para a levar.

Mas depois percebeu o que era: April. Tinha encontrado a shotgun de Riley e segurava-a de forma estranha entre os pulsos atados. Só conseguia agarrar no cano. Riley constatou com espanto que April, apesar de ter os pés atados e não conseguir andar, se aproximava de Peterson rastejando. Quando se aproximou o suficiente, ergueu a shotgun o mais alto que conseguiu e baixou-a com força.

Um ruído audível até debaixo de água chegou a Riley quando o cano da shotgun embateu na têmpora de Peterson com uma força surpreendente.

E pela primeira vez, Peterson libertou o seu pescoço, tropeçando para trás.

Riley sentou-se de imediato, respirando golfadas de ar. Limpou a água dos olhos a tempo de ver Peterson recuar, agarrando a cabeça com uma expressão de raiva e dor, até por fim cair de joelhos. April ficou ali, parecendo pasmada com o que tinha acabado de fazer e olhando em pânico para a shotgun inerte no leito do rio. Devia ter escorregado das suas mãos. E Riley viu horrorizada a corrente a alcançá-la e a levá-la para longe.

Peterson soltou o rugido de um animal ferido quando atacou April. Atirou-a ao chão, virou-a e agarrou-lhe no cabelo por trás. Com ambas as mãos, empurrou-lhe a cabeça para debaixo de água. April não conseguia levantar a cabeça, à mercê daquela força bruta e Riley sabia que se não interviesse, dali a momentos a filha estaria morta.

Ultrapassando o choque, Riley ergueu-se olhando para o leito do rio. Agarrou numa pedra e atirou-se a Peterson com uma fúria de mãe.

Riley sentiu o contacto da pedra na cabeça do monstro. Bateu com força suficiente para o tirar de cima de April que agora procurava respirar. Riley ficara aliviada por ver que a filha ainda estava viva.

E agora Riley não podia dar a Peterson a hipótese de recuperar. Saltou para cima dele antes que se conseguisse levantar.

Ele vacilou, exibindo uma fração da força que demonstrara há poucos segundos atrás, fraco, olhos perdidos, encarando-a vagamente quando Riley se atirou para cima dele. Riley ergueu a pedra com ambas as mãos e manteve-a imóvel, tremendo. Ali estava ele, em carne e osso, o demónio que a assolara todas aquelas noites.

Sorriu para ela, um sorriso demoníaco.

“Não vais fazê-lo,” Disse, com sangue a escorrer pela boca. “Se o fizeres vais ficar marcada para sempre.”

Riley respirou fundo e lembrou-se de todas as torturas a que a tinha sujeito a ela e a todas as outras mulheres, da tortura à filha – e então libertou todo o seu ódio e baixou a pedra com toda a força que tinha. Era como libertar os seus demónios pessoais, como libertar um peso que carregava às costas.

O rio ficou rubro de sangue e Peterson ali ficou de olhos abertos, sem vida, com a água ondulante a cobrir-lhe o rosto. Desta vez, estava mesmo morto.

“Mãe,” Disse April.

Riley permanecia ajoelhada em cima de Peterson, sem a noção do tempo decorrido. Voltou-se e viu April a seu lado. Ela chorava, segurando-a na mão.

“Mão,” Disse. “Ele está morto.”

Riley olhou para Peterson e mal conseguia acreditar.

Está morto.

Momentos depois apareceu Bill. Abrandou quando se aproximava, baixando a arma lentamente, olhando para a cena com descrença e horror, demasiado estarrecido para proferir uma palavra sequer.

Atrás dele, Riley vislumbrou rastos laranja no céu. Já não faltava muito para o sol raiar. E no entanto, não parecia possível que o sol voltasse a nascer neste mundo.

E contudo nasceu, nasceu mesmo.