Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 29 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 39

Riley sentia que algo estava prestes a acontecer. Não sabia porque sentia aquilo. Tinham escolhido a rota com base em algumas escassas informações. Bill ia a conduzir e os três encaminhavam-se para sul de Albany.

Depois da fuga de Eugene Fisk do cemitério no dia anterior, o público respondia aos pedidos de informação com mais chamadas do que nunca. Agentes de campo tinham-se espalhado em todas as direções na tentativa de seguir alguma pista que parecesse remotamente plausível. Tinham ocorrido vários avistamentos nas autoestradas a sul de Albany e Bill, Riley e Lucy tinham decidido ir nessa direção.

“Estamos a que distância de Callaway?” Perguntou Lucy.

Riley virou-se e viu que Lucy olhava para um SMS. Devia ser alguma atualização do gabinete de Albany.

“Acabámos de passar uma saída para Callaway,” Disse Bill.

“Temos que voltar e ir nessa direção,” Disse Lucy.

Sem fazer mais perguntas, Bill abrandou o carro e virou. Lucy explicou então a dica que recebera.

“Um homem de Callaway disse que um tipo maluco saiu de nenhures para o meio da estrada. Era uma carrinha de entregas branca de uma empresa chamada June’s Flowers. O homem viu bem o condutor. Jura que é o nosso homem e que se dirigiu para a velha marina. Todos na cidade foram avisados para não se aproximarem do local.”

O coração de Riley acelerou. Sim, era isso. Tinha a certeza que era isso. O nome da empresa não a surpreendeu. Toda a gente no QG em Albany tinha a certeza que ele já devia ter camuflado a carrinha.

“Lucy, responde à mensagem e diz que vamos a caminho,” Disse Bill, virando no local por onde passara há pouco. “O mais certo é precisarmos de reforços. Riley, vê no GPS para onde vamos.”

Riley olhou para um mapa no telemóvel. Ficou contente com o que viu.

“Estamos na estrada certa,” Disse. “Passa por Callaway e depois vai direta à marina. Termina num cul-de-sac. Se Eugene Fisk foi para lá, esta estrada é a única saída.”

Bill carregou no acelerador e soaram as sirenes.

Abrandou quando entraram em Callaway. Alguns habitantes de olhar ansioso estavam no passeio observando o carro passar. Do outro lado da cidade, a polícia local tinha montado um bloqueio de estrada. Bill mostrou o distintivo do FBI e deixaram-no passar. Acelerou novamente e em poucos minutos, avistaram a marina.

Bill parou o carro e desligou a sirene.

O coração de Riley batia mais depressa. Ali estava, estacionada ao lado de um guindaste ferrugento – uma carrinha branca decorada com flores e ostentando o nome da empresa June’s Flowers. Os três agentes saíram da viatura e dirigiram-se à carrinha. Bill chegou primeiro e abriu a porta das traseiras.

Uma mulher estava encolhida no chão, presa com um colete-de-forças e correntes. Os seus olhos abriram-se e gemeu audivelmente pela corrente que lhe atravessava o rosto e amordaçava a boca.

Está viva, Pensou Riley, aliviada. Tinham chegado a tempo.

Mas não havia sinal de Eugene Fisk.

“Lucy, trata da mulher,” Disse Riley. “Eu e o Bill vamos procurá-lo.”

Riley contornou a carrinha para ver a costa, mas parou ao ouvir a voz de Bill.

“Riley!”

Ela voltou-se e encarou-o. Os seus olhos encontraram os de Riley com uma expressão determinada e solidária.

“Este tipo não é o Peterson,” Disse Bill.

Por um momento, Riley não compreendeu o que é que ele queria dizer.

“O quê?” Perguntou.

Bill estreitou os olhos e disse muito lentamente, “Ele não é o Peterson.”

Num momento de lucidez, Riley compreendeu perfeitamente o que ele queria dizer. O seu uso de força contra Peterson tinha roçado a vingança. Mas o Bureau não tinha levantado ondas – não depois de tudo o que sofrera às mãos de Peterson. Esta situação era diferente. Deviam capturar e entregar Eugene Fisk vivo.

Este tipo de comunicação instantânea era uma das coisas mais valiosas no trabalho com Bill. Sentira a falta disso quando estavam de candeias às avessas.

“Percebo,” Disse-lhe.

Com as armas nas mãos, Riley e Bill circundaram a carrinha. No terreno elevado, ajuntamentos de árvores podiam facilmente esconder o assassino. Riley tinha a certeza que estavam muito próximos. Moveu-se cuidadosamente na direção das árvores para a esquerda. Bill foi para a direita.

Riley percebera que o assassino não estava onde o procurava quando ouviu a voz de Lucy, “Estou a vê-lo!”

Riley virou-se e viu que Lucy se afastava da carrinha. Tinha sacado a arma e corria na direção do cais. O horrível homenzinho estava a apenas alguns metros de distância na velha estrutura.

“Pare!” Gritou Lucy com a arma erguida. “Coloque as mãos onde as veja!”

Eugene parou e virou-se, as mãos levantadas acima da cabeça. Numa das mãos tinha várias correntes.

Riley sacou a sua própria arma e caminhou na sua direção. Sentiu-se aliviada. Isto is acabar facilmente e sem violência. O que acontecera com Peterson não ia acontecer ali.

Lucy entrou no cais, concentrada em Eugene. Mas após alguns passos, uma tábua podre partiu-se debaixo dela e Lucy caiu.

“Raios!”

Eugene moveu-se com a mesma destreza e velocidade que mostrara no cemitério. De imediato se acercou de Lucy e a segurou. Embrulhou a corrente à volta do seu pescoço com uma das mãos. Com a outra mão pegou na navalha que tinha guardada no bolso. Abriu-a e encostou-a à garganta de Lucy. O seu rosto contorceu-se de dor.

Eugene tentava desesperadamente falar.

“Largu… Largu…”

Riley sabia que ele lhe tentava dizer para largar a arma. Mas ela não estava pronta para o fazer.

Lucy gritou de dor quando Eugene a puxou da tábua solta. Obrigou-a a caminhar em frente ao longo do cais de volta à margem. Parecia ter o tornozelo partido.

“Deixe… Deixem-me…”

Riley compreendeu. O assassino das correntes queria levar Lucy para a carrinha como refém e sair dali sem o molestarem.

Ouviu a voz de Bill.

“Calma, calma,” Dizia a Eugene. “Não pode sair daqui. Sabe disso.”

Mas Riley viu que nem ela nem Bill tinham um ponto de tiro viável. O corpo de Lucy era um eficaz escudo.

“Deixe… Deixem-me…” Disse Eugene mais uma vez. Agora estava na margem e recuava para a carrinha com Lucy como refém.

Bill estava ao lado de Riley com a Glock erguida.

Riley tentou avaliar a situação. De uma coisa tinha a certeza. Eugene Fisk não estava a fazer bluff com aquela navalha. Já cortara outras gargantas e fá-lo-ia outra vez se Riley ou Bill agissem de forma impensada.

Shane Hatcher tinha acertado em cheio.

É bem capaz de matar um de vocês antes de dar por terminada a sua missão.

Riley olhou de relance para Bill.

“Baixa a arma Bill,” Disse.

Bill olhou para ela surpreendido. Mas depois baixou a arma.

Riley seguiu o exemplo e colocou a sua própria arma no chão.

“Vou colocar a minha arma no chão, Eugene,” Disse. “Pode libertá-la. Podemos acabar isto pacificamente.”

Mas Eugene abanava a cabeça.

“N…não,” Gaguejou. Ainda estava determiando a fugir com Lucy como refém. Continuou a arrastar Lucy para a carrinha.

Riley olhou-lhe diretamente nos olhos. Ele também a fitou, incapaz de desviar o olhar, como se estivesse hipnotizado. Os seus olhos era pequenos e brilhantes, mas Riley viu neles mundos terríveis – mundos de sofrimento infantil e humilhação adulta, de dor física e psicológica, e insondável autoaversão.

“Ele não é o Peterson,” Tinha dito Bill apenas há alguns minutos atrás.

Agora Riley sabia que Bill tinha mais razão do que imaginara.

Eugene Fisk era o monstro mais digno de pena com que já se deparara. E ela podia transformar isso numa vantagem.

Quando Eugene Fisk recuava arrastando Lucy consigo, Riley caminhou lentamente na mesma direção.

“Sei sobre as tuas correntes, Eugene,” Disse Riley com uma voz solidária. “Eu também as ouço. Não estás sozinho. Não és a única pessoa que as ouve. Eu também as ouço.”

Eugene parou. Agora parecia combalido. Riley estava a chegar a ele. Ela sabia que sim.

Lembrou-se de outra coisa que Shane Hatcher tinha dito.

“Ele está ferido onde mais dói – na sua alma.”

E eu estou a sondar essa ferida, Compreendeu Riley.

“Não ouves o que elas estão a dizer agora, Eugene – as correntes?” Continuou Riley. “Estão a dizer que acabou. Desiludeste-as, falhaste pela última vez e elas não querem mais saber de ti. Acabou. As correntes estão a dizê-lo. Eu ouço-as. E tu também.”

Aqueles pequenos olhos estavam maiores agora. Encheram-se de lágrimas.

“As correntes não querem que leves esta mulher,” Disse Riley. “Ela não é aquilo que elas querem.”

Eugene anuiu.

“Tu sabes o que é que as correntes querem,” Disse Riley.

Eugene assentiu novamente.

Depois cortou a própria garganta com a navalha, profundamente, de um lado ao outro.

Riley ouviu o seu próprio grito ecoar no rio.

Eugene caiu ao chão com a garganta cortada, em total agonia. Lucy estava ensopada no seu sangue, mas estava livre agora. Também ela caiu, mas rebolou para longe do assassino ferido.

Riley tentou socorrer Eugene. As mãos tentando estancar o sangue, tentando conter o sopro último que fugia daquele corpo atormentado. Não valia a pena. Não havia nada que pudesse fazer. Os olhos de Eugene estavam muito abertos, receosos e hesitantes, sumidos. Em poucos segundos, parou de estremecer e Riley soube que estava morto.

Bill estava ao seu lado. Agachou-se e tentou ajudá-la a levantar-se.

“Vamos,” Disse Bill. “Temos que tratar da mulher.”

Mas Riley não se conseguia levantar.

“Matei-o,” Disse.

“Fizeste o que tinhas a fazer,” Disse Bill.

“Não,” Disse Riley. “Eu matei-o.”

Chorou e soluçou enquanto o som das sirenes preenchia o ar.