Acorrentadas
Capítulo 23
A multidão que acorrera ao funeral já dispersava quando Lucy reparou num homem jovem, baixo e magro, com uma postura bastante suspeita. Acabara de voltar costas ao túmulo e a expressão do seu rosto não demonstrava luto ou sofrimento. De cabeça baixa, mãos nos bolsos, até parecia estar a sorrir.
É ele, Pensou Lucy, excitada pela mera possibilidade. Tem que ser ele.
Permaneceu queda a observá-lo, vendo-o passar a apenas alguns metros de distância. O que lhe via no rosto era definitivamente um sorriso. Este homem estava a exultar, não a sofrer, Lucy tinha a certeza. Virou-se e começou a segui-lo.
De trás, podia ver os seus ombros a estremecerem ligeiramente – devido ao riso, não ao choro, sem dúvida. Deu passos mais largos para o apanhar, pensando cuidadosamente na forma como o ia confrontar. Pensou que o melhor era ser direta – identificar-se como agente do FBI e exigir respostas à suas perguntas. Se ele tentasse fugir, não iria muito longe – não com a polícia local ali em alerta máximo. Tirou o distintivo e desatou a correr.
Naquele exato momento, um casal de meia-idade dirigiu-se ao homem.
“Hugh!” Disse o homem mais velho.
“Como te estás a aguentar?” Perguntou por sua vez a mulher.
O homem mais novo virou-se para o casal, ainda a sorrir.
“Estou bem,” Disse. “Eu sei que é estranho, mas não consigo parar de pensar em como a tia Rosemary conseguia ser divertida. Lembram-se como ela costumava…”
A voz diluiu-se à medida que ele e o casal se afastavam de Lucy. Depois Lucy conseguiu vê-los a rir tristemente da história que o jovem tinha contado.
Guardou o distintivo. Fora um falso alarme. O homem mais jovem estava a sorrir com a recordação das memórias felizes que as pessoas costumam partilhar nos funerais. Estava feliz por não ter feito uma cena que a ridicularizaria.
“Vai ao funeral,” Dissera-lhe Riley. “Este pode ser do tipo que sente remorsos. Pode lá estar.” Mas se o assassino lá tivesse estado, ela não o tinha detetado. Voltou-se, olhando para a cena atrás de si.
A manhã estava solarenga e agradável. Os parentes mais próximos de Rosemary Pickens ainda estavam reunidos debaixo da tenda azul junto ao túmulo, aceitando condolências de inúmeros amigos e familiares. Outras pessoas afastavam-se em grupos.
Lucy apercebeu-se que tinha calculado mal as coisas. Numa cidade tão pequena, era de esperar um funeral pequeno, íntimo e, consequentemente, seria fácil detetar alguém que parecesse estranho ou deslocado. Mas enganara-se. Não tinha a noção da quantidade de pessoas que compareceriam. Reedsport era não só uma cidade onde todos se conheciam, mas também um lugar onde parecia que todos se preocupavam uns com os outros.
Regressou à tenda, olhando os montes de flores que cobriam e rodeavam o caixão. Cada planta ou bouquet teria que ser analisado na esperança de se encontrar um nome de um estranho que pudesse ter assassinado a mulher.
Felizmente, a polícia local recolheria os dados sobre as encomendas enviadas de fora. Mas Lucy queria percorrer pessoalmente as floristas locais e questioná-las sobre as suas entregas. Estava prestes a abandonar o túmulo quando reparou num jovem de pé ao lado do caixão – outro homem baixo e de fraca constituição que parecia ali estar sozinho. Tinha um aspeto singelo, um nariz largo e sobrancelhas pesadas.
Será que é ele? Questionou-se Lucy. Dirigiu-se a ele.
Mas quando se aproximou o suficiente, viu lágrimas a correrem-lhe pelo rosto e a cara angustiada própria de um desgosto genuíno. Quando virou as costas ao caixão, retirou um lenço do bolso, assoou o nariz e limpou as lágrimas. Quando ergueu o olhar e viu Lucy, conseguiu sorrir solidariamente. Acenou-lhe e depois afastou-se. Lucy teve a certeza de que não podia ser a pessoa que procuravam. A sua dor era demasiado pungente, demasiado sincera.
Foi acometida por uma ponta de desilusão. Ainda não tinha feito nenhum progresso desde que Riley partira. Os locais ansiavam por ajudar, mas ninguém lhe tinha dado qualquer informação útil. Tinha seguido a pista de pormenores que as pessoas julgavam importantes – estranhos na cidade, veículos desconhecidos – mas eram todos becos sem saída.
Lucy tinha a certeza de que Riley diria que eliminar suspeitos e possibilidades era uma parte importante do seu trabalho.
Mas não é lá muito entusiasmante, Pensou Lucy.
*
Nessa mesma manhã, Lucy foi a três floristas da cidade. Nas duas primeiras, tinham perguntado por estranhos que tivessem comprado flores para o funeral, mas não tinha resultado em nada. As floristas conheciam todos os seus clientes.
Quando entrou na terceira loja, a mesma pareceu-lhe muito idêntica às que tinha visitado anteriormente – bem abastecida de flores e algo desarrumada depois de um dia de intenso negócio. Mas nos outros lugares, Lucy não tinha detetado qualquer satisfação pela subida das vendas. Aquelas floristas conheciam Rosemary Pickens e lamentavam a sua morte.
Uma mulher mais velha limpava uma agora vazia caixa de refrigeração.
“É a proprietária da loja?” Perguntou Lucy.
“Sim,” Respondeu a mulher com uma voz cansada.
Lucy mostrou o seu distintivo.
“Sou a Agente Especial Lucy Vargas,” Disse. “Estou a investigar o homicídio de Rosemary Pickens. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.”
“Claro,” Respondeu a mulher. “Como posso ajudá-la?”
“Estamos a tentar cobrir todas as hipóteses,” Disse Lucy. “Lembra-se de algo estranho relacionado com alguém que aqui tenha comprado flores para o funeral? Alguém pouco familiar, por exemplo.”
A mulher pensou durante alguns segundos.
“Houve um jovem que eu não reconheci,” Disse. “E havia qualquer coisa de estranho. Deixe-me pensar.”
Esfregou a testa com a mão.
“Um dia tão triste,” Declarou. “Estava tudo tão cheio esta manhã e eu corria de um lado para o outro. Até nem teria reparado nele mas destacou-se porque… sim, já me lembro. Gaguejava horrivelmente. Quase não conseguia falar.”
A mulher levou Lucy até ao balcão principal.
“Quando aqui chegou, já não havia quase nada na loja,” Disse a mulher. “Era-lhe tão difícil falar que escreveu. Venha, eu mostro-lhe.”
A mulher entregou a Lucy um dos cartões da loja. Nas costas do cartão, via-se escrito numa caligrafia impecavel e cuidada…
“Dê-me por favor algumas margaridas.”
A mulher disse, “Felizmente ainda tinha algumas margaridas por isso vendi-as a ele.”
Lucy tirou o bloco de notas para anotar a informação.
“Pode descrevê-lo?” Perguntou.
A mulher franziu o sobrolho, fazendo um esforço para se lembrar.
“Não consigo,” Disse. “Só me lembro de que era jovem e não muito alto. E claro, do gaguejar.”
“Tente, por favor,” Pediu Lucy.
A mulher pensou durante mais algum tempo.
“Peço desculpa, mas tive tantos clientes hoje que não lhe prestei muita atenção. E também não sou grande coisa a memorizar rostos. Só me lembro que ele não conseguia dizer o que queria dizer por isso dei-lhe um cartão e uma caneta para escrever.”
Lucy conseguiu ocultar a sua desilusão.
“Queria levar o cartão,” Disse. “Pode fornecer algum tipo de prova.”
A florista entregou-lhe o cartão, pedindo desculpa por não ter sido mais útil. Lucy agradeceu-lhe e saiu da loja, guardando o cartão na mala. Colocou-o no bloco de notas enquanto se encaminhava para o carro estacionado a alguns quarteirões de distância.
Agora sentia-se mais motivada. Parecia bastante provável que o comprador das margaridas fosse o assassino. O cartão podia conter impressões digitais e a caligrafia podia revelar alguma coisa. E é claro que agora sabia algo mais.
Ele gagueja, Pensou. Pelo menos é algo em que se pode trabalhar.
Tinha estacionado o carro a alguns quarteirões de distância. Enquanto caminhava nessa direção, pegou no telemóvel. Queria ligar a Riley para lhe contar os últimos desenvolvimentos e pedir-lhe a opinião.
Quando chegou à esquina e virou para atravessar a rua, sobressaltou-se ao ver uma carrinha branca a circular muito próximo dela. O sol refletido no vidro escondia o rosto do condutor. Lucy parou na curva para o deixar passar.
De repente, a carrinha acelerou brusca e velozmente.
Alarmada, Lucy tirou uma foto com o telemóvel.
O que se passa com aquele? Pensou. A carrinha deu uma última curva e desapareceu.
Lucy pensou em ligar à polícia local e fazer queixa daquele condutor imprudente. Mas refletiu melhor e afastou essa possibilidade considerando que a carrinha não tinha provocado estragos. Até podia nem ter circulado tão depressa. Lucy é que se tinha assustado com a repentina aceleração da viatura.
Quando atravessou a rua e chegou ao carro, sentou-se e fez a chamada para a UAC.
“Daqui Agente Especial Lucy Vargas,” Disse a uma rececionista. “Estou a trabalhar no caso de um assassino em série em Reedsport, Nova Iorque. Ligue-me por favor ao gabinete da Agente Riley Paige,” Solicitou.
“A Agente Paige não está na UAC neste momento.”
“Não há problema,” Disse Lucy. “Ligo-lhe para o telemóvel pessoal.”
De repente, voz da mulher assumiu um tom diferente.
“Não faça isso Agente Vargas,” Disse. “A Agente Paige não deve ser incomodada.”
“O que é que se passa?” Perguntou Lucy. “A Riley foi ferida?”
“Lamento, mas não estou autorizada a revelar mais nada.”
“Estamos a trabalhar juntas num caso. Tenho que saber se ela está bem,”
“Aguarde um momento.”
Após um breve silêncio, a voz de Brent Meredith surgiu do outro lado da linha.
“Agente Vargas?”
“Sim. A Riley está bem?”
“Ela está bem. A filha foi raptada, mas já acabou.”
“A April raptada? Meu Deus!”
“Enontraram-na. A Agente Paige e o Agente Jeffreys vêm a caminho com a miúda.”
Lucy estava sem palavras. “Está bem,” Disse. “Obrigado por me dizer.”
“Será informada de tudo mais tarde. Mais alguma coisa?”
“Eu…” Lucy tentou lembrar-se do motivo pelo qual tinha telefonado. “Tenho algo que pode ser uma prova neste caso.”
“Vou pô-la em contacto com o laboratório de peritagem.”
“Obrigado,”
Lucy estava distraída enquanto falava com o técnico do laboratório. “Tenho um cartão com a caligrafia do suspeito,” Disse. “Possivelmente com impressões digitais. Vou levá-lo agora à polícia local. Vão verificar se há impressões e eu envio-vos aquilo que eles encontrarem.”
“Mais alguma coisa?” Perguntou o técnico.
“É possível que o suspeito seja gago,” Disse Lucy.
O técnico do laboratório disse que tomaria nota desse facto e a chamada terminou.
Lucy colocou o telemóvel novamente na mala sem que se voltasse a lembrar da foto que acabara de tirar.