Acorrentadas
Capítulo 14
April encolheu-se ao ouvir os passos do homem por cima de si. Andava de um lado para o outro no chão de madeira a menos de trinta centímetros da sua cabeça, rindo para si próprio, de vez em quando rindo a bandeiras despregadas. Lutou para evitar gritar. O homem dissera-lhe que a matava se gritasse e ela tinha a certeza de que ele o faria.
April sabia que o homem que caminhava era Peterson. Tinha que ser ele. Como todos os outros, April duvidara da convicção da mãe de que Peterson ainda estava vivo. Ela tinha querido acreditar que o assassino que tinha capturado a mãe estava morto. Mas a verdade é que estava vivo e agora tinha-a capturado a ela.
Recordava-se com horror do pouco que a mãe lhe tinha contado a respeito dele, sobre como a tinha tratado enquanto prisioneira. Mas April estava ainda mais aterrorizada pelo que a mãe não lhe tinha contado. April tinha a certeza de que a mãe lhe tinha ocultado a verdade para lhe poupar sofrimento. Fazia sempre isso, mas agora April temia descobrir os horrores que lhe haviam sido escondidos.
Depois de várias horas em cativeiro, April ainda não fazia a mínima ideia do local onde se encontrava. Quando Peterson a arrastara para fora da carrinha, ela avistara uma pequena casa com uma grande varanda. Mas quando tempo estivera naquela carrinha? A que distância de casa se encontrava?
Quando ele a arrancara da mala, tirara a mordaça de fita adesiva da sua boca e ela tivera medo de gritar. Depois carregou-a no ombro para a casa, atirou-a para o chão, colocou uma barreira e deixou-a lá, amarrada nos pés e nas mãos. Ela tinha esperneado e torcido em pânico, mas as algemas de plástico eram sólidas.
Quando conseguiu parar de tremer, observou a sua prisão. O chão era de treliça de madeira. Ele tinha retirado uma parte para a colocar nesta jaula e recolacara tudo no lugar. April pensou que a treliça era feita de madeira frágil, mas não se atrevia a dar-lhe um pontapé. Não agora com Peterson a caminhar mesmo por cima dela.
April contorceu-se no minúsculo espaço. Conseguia sentar-se mas não conseguia colocar-se de pé. Inclinou-se contra a fundação da casa. Estava escuro debaixo do chão, mas percebia-se que ainda era de dia lá fora. Pelo que lhe era dado ver pelos intervalos da treliça, a casa parecia estar isolada. A terra à volta era nua, com exceção de algumas árvores raras. Nâo conseguia ver sinal de outras casas e não fazia ideia a que distância se encontrava de outro ser-humano.
O som dos seus passos e do seu riso estavam a tornar-se enlouquecedores.
Como é que pude ser tão estúpida? Pensou. Mas também tinha a noção de que a sua estupidez tinha começado mais cedo naquele mesmo dia. Ela tinha facilitado a sua própria captura. Quando ele se aproximara da porta de entrada da casa do pai, ela reconhecera-o de imediato. Era o condutor que lhe dera boleia a ela e a Brian alguns dias antes. Agora compreendia que ele a elegera como alvo há muito.
Quando viu a arma na sua mão, tentou fechar a porta da frente. Mas ele fora rápido, segurando-lhe no pulso e forçando-o dolorosamente atrás das costas. Manteve o braço dela preso e a arma encostada às costas enquanto caminhava no passeio. Por um momento, April estacara de medo, não para resistir. O homem ficara alarmado e fincou um pé num canteiro.
Será que alguém vai ver a pegada? Perguntou-se April. Será que alguém sequer sabe que eu desapareci?
Talvez pudesse ter aproveitado aquele momento e… Ter feito o quê? Atacado o homem? Tentado tirar-lhe a arma? Era uma piada pensar que ela o poderia ter dominado.
Continuou a passar em revista tudo o que acontecera. O carro de Peterson estava parado ao lado da casa do pai. Era um carro mais recente e sofisticado do que aquele em que lhe dera boleia. A mala já estava aberta quando encaminhou April para ela.
Estremeceu só de pensar o que ele fizera de seguida. Ainda a apontar-lhe uma arma, obrigou-a a amordaçar-se a si própria com fita adesiva e a atar os seus próprios pulsos com algemas de plástico. A indignidade daquilo tornava o horror ainda mais insuportável.
Agora sentia-se vagamente envergonhada.
Não devia ter colaborado, Pensou. Fui uma cobarde.
Mas o que aconteceria se ela tivesse recusado atar-se e amordaçar-se? O mais certo era Peterson a ter morto logo ali. O pai, tão absorvido no trabalho, tão perdido no seu pequenino mundo, poderia nem ouvir o tiro. Seria a pobre da Gabriela a encontrar o seu corpo quando voltasse das compras.
Lutara quando ele atara os seus tornozelos. Depois disso, ficara completamente indefesa.
Agora doía-lhe o corpo todo da viagem acidentada na mala e da luta que empreendera para se soltar. Também tinha fome e estava cansada. Lutara contra os gritos e soluços que sentia querer subirem-lhe pela garganta. Ela sabia que Peterson a mataria se fizesse o que quer que fosse para atrair a atenção. E ela não podia desperdiçar energias. Tinha que permanecer alerta, estar atenta, não perder a mais ínfima das oportunidades.
De repente, ocorreu-lhe algo – algo semelhante a esperança. A mãe estaria de volta naquele dia. Até já poderia estar em Fredericksburg. Se assim fosse, ela saberia que April estava desaparecida.
Peterson agora ria-se mais alto e o bater dos seus pés soava a uma estranha dança. April não se conseguiu manter mais tempo calada.
“A minha mãe vai-me encontrar!” Gritou. “E quando me encontrar, vai-te matar!”
Os sons por cima de April cessaram. Por um momento, o silêncio dominou o espaço. Depois surgiu outra risadinha calma.
“Tenho a certeza de que ela virá à tua procura,” Disse ele. “Estou a contar com isso.”
O som das suas passadas alterou-se. Desta vez, descia os degraus do alpendre. Ela estremeceu com medo. Depois ele soltou um pedaço de treliça e olhou pela abertura. Entrou, olhou maliciosamente para April, segurando algum tipo de cilindro de metal nas mãos.
O que era? Um extintor? O que fazia ele com um extintor nas mãos?
De repente, surgiu uma chama branca. Agora ela sabia de que se tratava. Era um maçarico de gás propano. A mãe tinha mencionado o maçarico. Mas não tinha dito a April o que ele lhe tinha feito com aquilo.
“Vem cá, coisa linda,” Disse Peterson.
Rastejou até ela, ondeando a chama à sua frente. Ela inclinou-se mais para trás.
“Vem cá e eu derreto-te essas algemas,” Disse ele.
April não conseguia mexer-se. Estava paralisada pelo medo.
“Estás com medo da chama?” Perguntou. “A tua mãe também tinha. Bem. Espera só até estares bem e com fome. Talvez então fiques mais corajosa. Logo vemos.”
April pressionou a boca contra os punhos cerrados para se impedir de gritar.
Peterson desligou o maçarico e saiu, fechando a abertura atrás dele. April ouvira-o a regressar ao piso de cima. Ouvira-o a entrar em casa e a fechar a porta.
Deveria gritar naquele momento? Não, era demasiado perigoso e além disso, tinha a certeza de que ninguém a iria ouvir.
Apercebeu-se que começava a escurecer lá fora. Como seria depois da luz desaparecer? O que é que ele lhe faria? Um medo avassalador apoderou-se dela.
Mãe, Rezou em silêncio. Peço-te. És tudo o que tenho neste mundo. Encontra-me.