Acorrentadas

Blake Pierce · Capítulo 23 de 30

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Acorrentadas

Capítulo 30

Afinal talvez tenhamos sorte, pensou Riley. Talvez a enfermeira se tivesse lembrado de algo que lhes permitisse ter uma ideia de onde começar a procurar Carla Liston. Talvez encontrassem este estranho assassino das correntes antes de assassinar a mulher que tinha em seu poder.

Quando ela e Bill chegaram ao gabinete de campo, Lucy e Myra Cortese já estavam à sua espera na sala de reuniões. A mulher elegante e de cabelo escuro não se encontrava agora com o uniforme de enfermeira vestido. Parecia cansada. Sem dúvida que não dormira muito desde que a amiga desaparecera. Mas também parecia ansiosa por ajudar.

“Peço desculpa por não vos ter conseguido ajudar mais da última vez que falámos,” Disse Myra quando Bill e Riley se sentaram à mesa. “Estava despedaçada. Estava em choque. Não conseguia pensar em nada com clareza. Agora penso recordar-me de mais coisas. Pelo menos parece que algumas memórias começam a surgir.”

“Agradecemos a sua ajuda,” Disse Bill. “Tudo aquilo de que se lembre pode ser uma grande ajuda.”

Riley percebeu que Bill estava preparado para fazer algumas perguntas. Riley abanou-lhe a cabeça e gesticulou discretamente em direção a Lucy. Riley preferia que Lucy emprestasse a sua sensibilidade e habilidade a esta entrevista. Bill percebeu a mensagem, anuiu e não disse nada.

“Não sei bem por onde começar,” Disse Myra. “Lembro-me de pormenores mas não sei quais importam. Achei que devia vir e tentar novamente.”

“Tudo bem,” Disse Lucy. “Vamos conversando. Comecemos pelo centro comercial. Você e Carla estavam a fazer compras depois de terem saído do trabalho e…”

“Na verdade não foi bem assim,” Explicou Myra. “Não estávamos mesmo a fazer compras. Há um pequeno café de que gostamos no centro comercial. Vamos lá quase todos os dias depois de fecharmos a clínica. Parámos ali para tomar um cappuccino e conversar sobre tudo menos trabalho.”

Riley sentiu-se esperançada. Conseguia perceber pelo tom de voz de Myra de que estava mais assertiva do que na última entrevista.

“Muito bem,” Disse Lucy. “Espero que não se importe se lhe fizermos algumas das perguntas que colocámos da outra vez.”

“De maneira nenhuma.”

Lucy olhava para ela com uma expressão paciente e agradável.

“No café, reparou em algo estranho?” Perguntou Lucy. “Alguém que se destacasse? Algum funcionário ou cliente?”

Myra parou para pensar.

“Não,” Respondeu. “Jenna era a empregada habitual. E não havia muita gente no café. Havia um casal idoso numa mesa próxima. E uma mulher que eu e a Carla conhecemos estava noutra mesa, uma boa amiga. Um casal jovem… um grupo de raparigas… penso que não estava lá mais ninguém.”

“A que horas saíram?” Perguntou Lucy.

“Penso que perto das nove,” Disse Myra. Saímos do centro comercial para o parque de estacionamento. Não era muito longe.”

Lucy deu uma palmadinha na mão da mulher.

“No caminho pelo centro comercial lembra-se de algo relevante?” Perguntou Lucy.

Myra fechou os olhos.

“Havia um homem,” Disse. “Era alto, pesado, ruivo e tinha barba. Olhou para mim. Pensei que se estivesse a atirar a mim e não gostei.”

Riley considerou aquele pormenor encorajador. Era evidente que o homem que ela descrevia não encaixava no perfil que procuravam, mas se tivesse olhado bem para o assassino, podia lembrar-se dele e descrevê-lo.

“Muito bem,” Disse Lucy. “E quando entraram?”

“Só havia – pessoas, a maior parte delas a dirigirem-se aos seus carros como nós. Havia muitos adolescentes. Ninguém se destacava.”

Os olhos da mulher ainda estavam fechados. Lucy não a pressionou com mais perguntas durante alguns segundos. Riley perecebeu porquê. Era melhor permitir que a mulher recuperasse as memórias, as deixasse voltar lentamente à superfície.

“E veículos?” Perguntou Lucy por fim. “Nomeie aqueles de que se recordar.”

“Bem, estávamos estacionadas ao lado de um carro desportivo.” Parou novamente e depois continuou, “Havia uma pickup à frente do carro da Carla. Tinha uma pequena caravana. Havia um grande SUV do lado oposto ao nosso.”

Riley começou a tirar notas. Não era possível que o assassino conduzisse um SUV ou uma caravana.

Depois Myra disse,”Oh, lembro-me de uma carrinha branca. Saiu exatamente quando nós saímos. Era uma carrinha de entregas, daquelas sem vidros nas laterais.”

Lucy encolheu a mão, parecia chocada.

“Oh meu Deus,” Disse Lucy.

Riley ficou sobressaltada com a súbita perda de compostura de Lucy. Myra abriu os olhos, também surpreendida.

“É importante?” Perguntou. “Sabe, penso que vi novamente uma carrinha branca quando a Carla parou para me deixar. Não sei se era a mesma.”

Lucy procurava o seu telemóvel. Depois mostrou uma foto a Myra.

“Parecia-se com esta?” Perguntou.

“Sim, parecia,” Respondeu Myra. “Tenho a certeza que a do centro comercial se parecia com essa.”

Lucy empalideceu e começou a tremer.

“Myra, está a ser uma grande ajuda,” Disse com a voz tremente. “Pode esperar aqui um momento enquanto falo a sós com os meus colegas?”

“Claro,” Disse Myra.

Lucy levantou-se e Riley e Bill seguiram-na para o exterior da sala.

“Meu Deus,” Disse Lucy. “Acho que lixei tudo.”

“O que foi?” Perguntou Riley.

Lucy andava de um lado para o outro.

“Em Reedsport, depois do funeral de Rosemary Pickens, eu estava a caminhar na rua e uma carrinha branca aproximou-se de mim. Demasiado, pensei na altura.”

Mostrou a Bill e Riley a foto que tinha no telemóvel.

“Depois acelerou e desapareceu e eu tirei esta foto. Não pensei mais nisto – até agora. Devia ser ele. Perdi-o. Deixei-o fugir.”

Riley sentiu uma ponta de desilusão. Tinha sido a primeira coisa estúpida que vira Lucy fazer. Mas Bill parecia não encarar as coisas da mesma forma.

“Calma,” Disse a Lucy. “Ainda não temos a certeza se a carrinha que viste era aquela de que Myra se lembra. Há montes de carrinhas brancas por aí. Pode ter sido apenas uma coincidência.”

Riley duvidava. A julgar pela sua expressão angustiada, também Lucy.

“Tenho que resolver isto,” Disse Lucy. “Tenho que endireitar as coisas. Tenho que falar com o Paul, o técnico. Ele pode entrar em contacto com o centro comercial, verificar as fotos da segurança.”

*

Pouco depois de terem agradecido a Myra Cortese pela sua ajuda e deixarem-na ir para casa, Riley, Bill e Lucy encontravam-se no laboratório, à espera do que Paul Nooney conseguisse desencantar. Para já, sabiam que a carrinha da foto de Lucy era uma Ford com cerca de dez anos. Não tinha letras nas partes laterais nem qualquer outro tipo de identificação, apesar da pintura já ter conhecido melhores dias.

Agora o técnico informático estava à procura das imagens da câmara de segurança para uma identificação.

“Já está,” Disse Paul. “Vejam.”

Riley juntou-se a Bill e Lucy atrás de Paul. Sem dúvida que a câmara tinha apanhado as traseiras de uma carrinha Ford branca a sair do parque de estacionamento.

“Como é que podemos ter a certeza de que é o mesmo veículo?” Perguntou Bill.

Lucy colocou a foto que tinha no telemóvel ao lado da imagem no computador.

“Aqui podem ver que a pintura está arranhada no mesmo sítio. Não há dúvida de que é a mesma carrinha. Fiz mesmo asneira. Mas pelo menos temos um plano claro da matrícula. É uma matrícula da Pensilvânia. Paul, quanto tempo demoras a localizar o proprietário?”

“Dá-me só um minuto,” Disse Paul e voltou ao trabalho.

Riley pegu em Bill pelo braço e afastaram-se um pouco de Lucy.

“Estou tão desiludida com ela Bill,” Disse Riley com a voz sumida para Lucy não ouvir. “Pensava que era melhor.”

“Vá lá Riley,” Disse Bill. “Não me digas que não fizeste a tua dose de asneiras quando eras novata. Podes ter a certeza que eu fiz. E mesmo que tenha falhado, não falhou completamente. Acabou por juntar as peças no fim.”

Riley sabia que Bill tinha razão. Tinha quase sempre razão e às vezes isso aborrecia-a. Virou-se e viu que Lucy estava com um aspeto miserável.

Riley aproximou-se dela e disse, “Não faz mal.”

“Faz sim,” Ripostou Lucy.

E naquele preciso momento, Paul chamou-os.

“Cá está. Deixem-me mostrar-vos.”

Reuniram-se todos atrás de Paul e olharam por cima do seu ombro. A foto de segurança ainda estava no ecrã, ao lado de alguns documentos da DGV.

“O registo está caducado,” Disse. “Expirou há anos. O autocolante com a data na foto parece atual, mas suspeito que seja falsificado. O nome e morada do registo também aparece em cartas de condução. Ainda está no mesmo local. Chama-se Walter Sattler e ainda vive em Hoxeyville, Pensilvânia. Fica logo do outro lado da fronteira do estado, a umas duas horas de distância.”

A foto da carta de condução mostrava um rosto magro e arrapazado. O homem tinha 1,70 m de altura e trinta e três anos.

“Tem que ser ele,” Disse Bill. “Vamos pedir um mandato e apanhá-lo.”

Riley anuiu.

“Ainda podemos ir a tempo de salvar Carla.”