Adolpho Lutz: hanseníase
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“transportar e inocular o bacilo da lepra”. 31
Em relatório escrito no auge do saneamento do Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz pôs em evidência a lepra: 23 casos haviam sido notificados em 1904, e a doença estaria se alastrando pela cidade. Seu caráter crônico tornava inviáveis as internações nos hospitais de isolamento destinados às doenças infecciosas agudas; por isso, a “seqüestração” dos doentes devia ser feita em “colônias de leprosos,” onde, ao lado do indispensável tratamento, “encontrem os lázaros elementos necessários para aplicação de sua atividade ainda muito aproveitável”. Oswaldo Cruz (1905, p.67) cogitava em transformar o Lazareto da Ilha Grande na primeira dessas colônias, com “todos os elementos de conforto necessários, de acordo com os hábitos das diferentes classes sociais”.
A idéia de isolar os leprosos numa ilha, como em Molokai – ou como
já se fizera em Bom Jesus, ali mesmo na baía de Guanabara 32 -, foi apadrinhada por três médicos de São Paulo: Alberto Seabra e dois auxiliares de Adolpho Lutz no Instituto Bacteriológico, Ulysses Paranhos e Adolpho Lindenberg. No VI Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado naquele Estado, em setembro de 1907, apresentaram moção nesse sentido, que foi aprovada.
Em entrevista publicada em O Imparcial, em 3 de julho de 1913, quatro anos depois de deixar a direção da saúde pública, Oswaldo Cruz relançou o projeto de isolamento dos leprosos numa colônia agropecuária a ser criada na Ilha Grande. Suas advertências quanto ao perigo representado pelo alastramento da lepra, “a filha mais velha da Morte,” repercutiram no Senado, onde o representante de São Paulo, Francisco Glicério, apresentou emenda ao orçamento consignando 170:000$000 para aquele leprosário (Souza Araújo, 1956, p.117).
Em meados de 1915, foi criada uma comissão para o estudo da “mais terrível das epidemias que se vem desenvolvendo de maneira
espantosa nestes últimos tempos”.33 Tais figuras de linguagem superlativas guardam perfeita correspondência com o quadro descrito por Obregón para a Colômbia, no mesmo período. A identidade de discursos não significa, porém, que a lepra tenha desfrutado aqui da mesma importância que teve para a legitimação profissional dos médicos e sanitaristas daquele país.
Segundo Obregón (1996, p.172-3), ao aderirem ao movimento internacional em favor da criação de leprosários, os médicos colombianos exageraram a magnitude da lepra e disseminaram o pânico na população e entre as autoridades governamentais porque precisavam convencê-los, primeiro, de que as instituições de caridade eram incapazes de lidar com a doença; depois, que ela constituía problema sanitário muito mais grave do que se imaginava, passível de ser controlada somente por quem detinha as competências necessárias, os médicos. A “medicalização” da lepra foi, assim, uma dimensão preponderante da profissionalização da medicina na Colômbia. Suas lideranças desejavam forjar uma “medicina nacional,” voltada para as enfermidades locais, e desde então a Colômbia passou a ser vista como um dos principais cenários da lepra no mundo.
Embora tivesse a ver com determinada doença, considerada, daí em diante, como grande ameaça às populações urbanas, a mobilização contra a lepra no Brasil expressava movimento mais profundo de reorientação da agenda sanitária do país para as chamadas endemias rurais, criando-se, entre 1917 e 1920, novas bases jurídicas e institucionais para a execução de políticas na área (ver Hochman, 1998). Na agenda da saúde pública brasileira e na dinâmica sócio-profissional do campo médico local preponderavam, porém, a ancilostomíase, a doença de Chagas, a malária e a febre amarela.
Lepra, tuberculose e sífilis passaram à órbita das políticas públicas em saúde, sem deixarem de ser causas abraçadas pela filantropia e por organizações da sociedade civil, sobretudo a primeira doença, em nome da qual seriam desencadeadas grandes mobilizações em diversos estados brasileiros a partir do final da década de 1910.
Quando Oswaldo Cruz faleceu, em 11 de fevereiro de 1917, o instituto batizado com seu nome era o centro de gravidade de um grupo combativo de médicos que reivindicavam a modernização dos serviços sanitários do país. Suas lideranças principais eram Carlos Chagas, sucessor de Oswaldo Cruz na direção de Manguinhos – de 1918 até sua morte, em 1934 -, e Belisário Pena, publicista incansável, autor de veementes artigos e de Saneamento do Brasil, livro que marcaria época na saúde pública brasileira (Lima & Britto, 1996; Lima, 1999; Britto, 1995).
A Liga Pró-Saneamento, inaugurada na sede da Sociedade Nacional de Agricultura, em 11 de fevereiro de 1918 (primeiro aniversário da morte de Oswaldo Cruz), arregimentou grande número de médicos e intelectuais em torno de suas bandeiras: erradicar as endemias que travavam o desenvolvimento do país, e que requeriam uma política sanitária “científica” e centralizada, capaz de transpor os limites colocados pela autonomia dos estados e de resguardar as ações em saúde das influências clientelísticas dos potentados locais.
O bloco oligárquico no poder cedeu a algumas dessas reivindicações. Em 1o de maio de 1918, o presidente Wenceslau Brás, que cumpria os últimos meses de seu mandato, assinou decreto criando o Serviço de Profilaxia Rural, e concedeu a seu chefe, Belisário Pena, mil contos para instalar mais postos no Distrito Federal.
Ao invadir o Brasil no final daquele ano, a gripe espanhola potenciou o efeito habitualmente perturbador das dissidências entre oligarquias em épocas de sucessão presidencial. O candidato vitorioso Rodrigues Alves foi abatido pela gripe antes de tomar posse. Foi então eleito Epitácio Pessoa, da Paraíba, estado periférico ao chamado pacto do “café-com-leite” (São Paulo e Minas Gerais). Isso favoreceu a reivindicação de mais poder à saúde pública, em detrimento da autonomia dos estados. Em 22 de novembro de 1919, Epitácio Pessoa enviou ao Legislativo mensagem propondo a reforma dos serviços de saúde: “Crie-se um novo ministério ou mantenha-se a organização atual, o que é indispensável é ampliar a esfera da nossa defesa sanitária” (apud Hochman, 1998, p.23). Em janeiro de 1920, foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), no âmbito, ainda, do ministério mais político do governo, o da Justiça e Negócios Interiores. A nomeação de Chagas para o cargo de diretor, que exerceu até 1926, restabeleceu a ligação umbilical do Instituto Oswaldo Cruz com uma saúde pública mais autônoma e bem aparelhada.
Belisário Pena discursa na Liga Pró-Saneamento do Brasil
(DAD/COC/Fiocruz).
O Serviço de Medicamentos Oficiais, criado junto com o de Profilaxia Rural, em 1 o de maio de 1918, acarretou o fortalecimento da vertente industrial de Manguinhos. O objetivo principal daquele serviço, implantado também no Instituto Butantã, em São Paulo, era a preparação e distribuição da quinina. Além do profilático da malária, e do tártaro emético, usado no tratamento das leishmanioses, a seção de Química Aplicada do Instituto Oswaldo Cruz desenvolveu outros “medicamentos oficiais": em 1921, o sorosol para a sífilis; em 1924, os sais sódicos em cápsulas gelatinosas, e os ésteres de chalmugra para tratamento da lepra. A análise de óleos vegetais de espécies botânicas brasileiras resultou na preparação do óleo da planta Carpotroche brasiliensis, empregado por Souza Araújo no tratamento da mesma doença. Especificamente com relação a essa endemia – vista, talvez, como a mais ameaçadora para os centros urbanos – a entrevista de Oswaldo Cruz, ao ser divulgada em O Imparcial, em 3 de julho de 1913, desencadeou um movimento que envolveu todas as sociedades médicas do Rio de Janeiro. A organização da Comissão de Profilaxia da Lepra foi proposta pelos médicos baianos Belmiro Valverde e Juliano Moreira à Associação Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, que designou Paulo da Silva Araújo e Henrique de Beaurepaire Rohan Aragão para fazer parte dela também. A Academia Nacional de Medicina indicou Emilio Gomes, Alfredo Porto e Henrique Autran. Outros integrantes da Comissão foram Eduardo Rabello, Werneck Machado e Guedes de Mello, da Sociedade de Medicina e Cirurgia; Sampaio Vianna, Silva Araújo Filho e Oscar d'Ultra e Silva da Sociedade Médica dos Hospitais e, ainda, Fernando Terra, Juliano Moreira e Adolpho Lutz da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Carlos Pinto Seidl, diretor-geral da Saúde Pública, foi escolhido para presidir a Comissão e designou os relatores dos subgrupos formados para analisar aspectos específicos do problema da lepra no Brasil.
Os trabalhos prolongaram-se de 1915 a 1919, e deram origem a vários relatórios e pronunciamentos públicos, que Souza Araújo (1956) compilou e transcreveu, parcial ou integralmente. No decurso dos trabalhos, Silva Araújo e Valverde emitiram parecer sobre “Lepra e casamento;” Werneck Machado e Emilio Gomes, sobre “Lepra e profissão;” Adolpho Lutz e Henrique Aragão, sobre “Lepra e imigração;” Eduardo Rabello e Silva Araújo Filho estudaram as relações da doença com o “domicílio,” e Juliano Moreira e Fernando Terra, com o “isolamento”.
O levantamento de dados epidemiológicos seria a base da ofensiva profilática. Apesar dos adjetivos usados para qualificar a expansão da doença, o próprio Oswaldo Cruz admitira, na entrevista de 1913, que a saúde pública desconhecia a cifra real de leprosos existentes na capital federal e nos Estados.
Os debates que levariam à formulação de diretrizes para as ações adotadas pelo governo contra a lepra, a partir da década de 1920, trouxeram à tona a velha controvérsia entre hereditariedade e contágio. A hegemonia indiscutível do segundo partido foi desafiada por Adolpho Lutz, líder de uma terceira corrente que parece ter desfrutado, no Brasil, de visibilidade maior que em outras formações sociais. Embora fosse relator de um tema específico, seu prestígio como cientista e leprólogo asseguraram-lhe o privilégio de externar seu ponto de vista numa conferência, proferida em 5 de novembro de 1915, perante muitos médicos e estudantes de medicina. Lá esteve, também, o ministro da Justiça e Negócios Interiores, dr. Carlos Maximiliano, presidente honorário da Comissão de Profilaxia da Lepra.
O Jornal do Commercio (7.nov.1915) transcreveu, na íntegra, a conferência (parcialmente transcrita em Souza Araújo, 1956, p.124-7), e resumiu assim o ponto de vista do orador:
por exclusão dos outros insetos sugadores de sangue, como
veículos possíveis da lepra, deve ser indigitado como causa
única da transmissão desta moléstia o mosquito (seja o Culex
fatigans ou o Stegomyia fasciata), quando aspira, e tão
somente neste caso, o sangue dos leprosos nos períodos febris
de bacilemia.
Cioso de sua autoridade, Adolpho Lutz atribuía as intermináveis querelas sobre a transmissão da lepra a “idéias preconcebidas” e ao “conhecimento imperfeito da literatura e da própria moléstia, que na classe médica de todos os países formam a regra e não a exceção”. Os médicos brasileiros desconheciam o livro que considerava “verdadeira bíblia,” o Handbuch der Historisch-Geographischen Pathologie, escrito por August Hirsch (1817-1894), com “paciência
alemã”. 34 Desconheciam, também, os estudos veiculados nos últimos trinta e cinco anos (desde quando começara a estudar a lepra) no Monatshefte für Praktische Dermatologie e em periódicos similares relacionados às doenças de pele. Tais leituras os teriam capacitado a observar a lepra com os “próprios olhos” – comentário que trazia, nas entrelinhas, a crítica à dependência dos médicos a autores francófonos.
Lutz considerava falsa a dicotomia hereditariedade ou contágio. A lepra era, de fato, mais comum em certas famílias, mas isso não significava que fosse hereditária, “porque neste caso os descendentes não podiam adoecer antes dos ascendentes, o que é comuníssimo”. Aquela teoria não explicava a ocorrência de múltiplos casos em famílias em que os ascendentes não se tinham contaminado, ou por terem emigrado de regiões indenes, ou por não existir ainda a lepra no lugar onde adoeceriam os filhos e netos.
Na opinião de Lutz, a contagiosidade da doença fora uma noção que se difundira na Europa no tempo em que ela era freqüente e tendia a se expandir. Quando se tornara rara, prevalecendo somente casos importados, a teoria da hereditariedade passara a ser a explicação mais plausível para os doentes encontrados em poucas famílias.
Mas é só nessas circunstâncias que alguém se poderia lembrar
que a moléstia se mantinha só por via hereditária. Em outros
países onde a moléstia é freqüente, havendo ao mesmo tempo
muita imigração de países indenes, a afirmação é
completamente incompreensível. Tenho visto com certeza mais
de cem indivíduos de lugares indenes e já adultos que
apanharam a moléstia no Brasil ou em outro foco endêmico, e
isto prova também que a nacionalidade não dá uma
predisposição, porque os representantes de países indenes
adoecem em grande proporção. (Jornal do Commercio,
7.nov.1915)
Mas não eram os defensores da hereditariedade os principais adversários de Adolpho Lutz, e sim os partidários do contágio – entendido aqui como transmissão direta, de pessoa a pessoa -, que invariavelmente estribavam suas certezas num argumento histórico: a antigüidade da doença na Europa e seu declínio ou virtual desaparecimento graças ao isolamento dos doentes em leprosários. Para Lutz, era um equívoco supor que os doentes houvessem sido todos isolados. Muitos casos teriam passado despercebidos, em razão de características da doença – evolução lenta, localizações muitas vezes imprecisas – ou de esforços envidados pelas famílias para esconder seus doentes.
Lutz não questionava o fato de que a lepra fosse transmissível sob certas condições que incluíam, necessariamente, a preexistência de casos, mas isso não provava o contágio direto. Apontava, então, diversas anomalias nessa teoria, muitas já assinaladas pelos partidários da hereditariedade. Indivíduos adoeciam sem ter convivido com leprosos. A incubação às vezes era curta, outras vezes demorada. Europeus regressavam a seus países com lepra adquirida no estrangeiro, e eram internados em hospitais públicos, mas não davam origem a focos. Paris, Viena e outras capitais do velho continente permaneciam indenes.
Lutz usou contra os adversários os repetidos fracassos das tentativas de transmissão do bacilo de Hansen ao homem e a animais, e a dificuldade de se obter culturas puras do microrganismo.
Tais anomalias combinadas ao caráter errático da infecção tornavam a lepra muito diferente de doenças contagiosas como a tuberculose e a sífilis, e impunham a analogia com outros processos infecciosos: a febre amarela, em primeiríssimo lugar, e também o tifo exantemático, a malária e a ancilostomíase, em que um caso dependia de outro, anterior, mas podendo a doença ser contraída sem que houvesse contato direto entre eles. Os estudos sobre a peste bubônica, relacionando-a à pulga que se hospedava no rato, tinham anulado a suposição de que doenças causadas por bactérias não se coadunavam com a transmissão por sugadores de sangue.
As características epidemiológicas da lepra implicavam, porém, a exclusão das espécies “ubiqüitárias,” como as pulgas e os percevejos, os acarídeos da sarna e outros insetos freqüentes nas cidades grandes. “Assim estamos reduzidos a dípteros
hematófagos” – concluía Lutz. 35
A experiência adquirida no Havaí e o conhecimento da literatura entomológica davam-lhe os elementos necessários para fechar o cerco sobre dois grupos: os culex e, em menor medida, os estegomia.
Na conferência de novembro de 1915, Lutz explicou que os primeiros europeus a pisar no Havaí foram uns espanhóis que naufragaram lá em 1749. Os marinheiros comandados pelo navegador inglês James Cook, que redescobriu o arquipélago em 1778, batizando-o de ilhas Sandwich, introduziram a sífilis e a gonorréia entre os nativos. Os primeiros casos de lepra só apareceram depois de 1840, em número a princípio muito pequeno, supondo Lutz que a origem da endemia tenha sido um único caso. Multiplicaram-se de tal modo que, em 1889, perto de 5% da população indígena fora acometida, estando já isolada 2,5% dela. Os estrangeiros tinham adoecido em proporção bem menor, cerca
de cinco por mil.36
No começo da década de 1820, assegurava Lutz, não havia ainda mosquitos no Havaí. O Culex fatigans teria sido introduzido em 1828, “ou mais cedo por um navio encalhado na praia”. O Stegomyia fasciata teria chegado depois. À época em que estivera no arquipélago, existiam apenas aquelas duas espécies, que haviam se tornando “abundantíssimas” em parte graças às extensas culturas aquáticas de taro (inhame) e arroz. Lutz suspeitava que os principais transmissores da lepra fossem os culex, tanto o fatigans existente no Havaí como espécies semelhantes encontradas em países frios. O papel dos Stegomyia era “mais incerto”. Os flebótomos, maruim, mosquitos-pólvora e mutucas, grupos inexistentes no Havaí, deviam ter papel secundário na transmissão da lepra.
Mosquitos: Culex pipiens (1); Aedes nemorosus (2); Stegomyia
fasciata (3) e Anopheles maculipennis (4). Séguy (1938, prancha X).
“Longamente aplaudida,” a conferência de Adolpho Lutz desencadeou acalorados debates, noticiados pela imprensa, durante, pelo menos, mais duas sessões da Comissão de Profilaxia da Lepra. Nenhum médico se levantou para defender a transmissão hereditária. Não obstante isso, reinterpretada à luz da eugenia como “predisposição,” ela foi subsumida no programa contagionista, como fator atuante em casos particulares da transmissão. Adolpho Lutz tinha partidários incondicionais como Henrique Aragão, também do Instituto Oswaldo Cruz, e Emílio Gomes, antigo bacteriologista da saúde pública carioca. A maioria dos integrantes da comissão não teve dificuldade em conciliar certas propostas dos partidários da transmissão culicidiana com as recomendações profiláticas duramente segregacionistas que decorriam da crença na contagiosidade quase ilimitada da lepra. Embora ninguém deixasse de derramar elogios à sabedoria de Lutz, tinha ele adversários decididos, Fernando Terra e especialmente Belmiro Valverde. O primeiro era diretor do Hospital dos Lázaros, catedrático de dermatologia na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Nascido em Alagoinhas, Bahia, em 1884, e falecido na cidade do Rio de Janeiro em 1963, Belmiro de Lima Valverde ficaria conhecido sobretudo pela militância na Ação Integralista Brasileira, na década de 1930. Seu nome começou a aparecer no noticiário político antes da revolução chefiada por Getúlio Vargas, quando combateu o governo Arthur Bernardes, o que o levou a exilar-se por um tempo na Europa. Diplomado em 1906 pela Faculdade de Medicina da Bahia, Valverde clinicou no Alto Amazonas e em 1912 mudou-se para Itápolis, no interior de São Paulo, onde o sogro era proprietário da Farmácia Italiana.
Na sessão de 30 de junho de 1913, a Academia Nacional de Medicina incluiu entre as questões a prêmio para o ano seguinte a “Profilaxia e tratamento da lepra”. Valverde concorreu com trabalho de igual título e obteve menção honrosa, em 4 de junho de 1914.
Em fevereiro do ano seguinte, mudou-se para o Distrito Federal. Por muitos anos, trabalharia como chefe do Serviço de Urologia da Policlínica do Rio de Janeiro. Em 1916, para obter a livre docência de higiene na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, defenderia tese sobre “Profilaxia da lepra” (editada pela Casa Mayença
Cruzeiro).37
Na Comissão de Profilaxia da Lepra o debate acalorou-se em 3 de dezembro, quando Lutz apresentou um “Aditivo” ao que dissera na conferência anterior, e Belmiro Valverde, a comunicação intitulada
“Transmissibilidade da lepra”. 38
Os contagionistas, tendo o médico baiano como principal porta-voz, lançaram contra Lutz a abundante casuística já utilizada por Hildebrand, Kalindero, Taché e outros autores contra os hereditaristas. Não hesitaram em retransmitir histórias ambientadas em lugares remotos, verdadeiros mitos, como o do menino europeu que brincava com um pequeno leproso em Bornéu, e, ao vê-lo picar o corpo anestesiado com uma faca, sem nada sentir, repetiu o gesto e adoeceu; ou a mãe leprosa, com lesões no seio, que transmitira a doença ao rosto do filho, ao amamentá-lo; ou ainda o carregador que contraíra a lepra ao ferir-se na espádua quando transportava o cadáver de um leproso. O renomado bacteriologista Victor Babes, uma das autoridades invocadas por Valverde, atribuía a escassez de casos entre médicos e enfermeiras às medidas que tomavam para evitar o contágio da lepra, indiscutível, ainda que menos flagrante do que em outras doenças.
Os autores citados pelos adversários de Lutz davam grande importância aos casos induzidos pela vacinação antivariólica, braço a braço. Esta fora, também, a hipótese subjacente à experiência de Arning com o prisioneiro Keanu. Na opinião de Scheube, médico alemão elogiado anteriormente por Lutz, a antivariólica exercera influência considerável na disseminação da lepra no arquipélago havaiano. Segundo Babes, não acometia os habitantes das Índias Britânicas porque eles recusavam a vacina.
Um terceiro conjunto de evidências dizia respeito à transmissão por fomites, em especial as roupas infectadas. Valverde relatou casos observados por ele próprio no Amazonas, por Ross na Índia, e ainda por Manson, Nbabes, Scheube, Hansen, Lorand e Looft, casos que punham em evidência as lavadeiras como profissionais particularmente vulneráveis à lepra.
Aquela casuística, que Lutz considerou “sem grande valor,” trouxe à baila divergências quanto ao diagnóstico e, sobretudo, ao papel das lesões na disseminação da doença. Para os contagionistas, a secreção das úlceras e as mucosidades nasais eram as principais fontes de difusão dos bacilos infecciosos, sendo o nariz a sede das lesões iniciais da lepra, o que revigorava antigas e apavorantes idéias sobre o contágio pelo ar.
Para Lutz, os bacilos eliminados em grande número das mucosas e da pele ulcerada perdiam sua vitalidade no ambiente: “Se fossem todos vivos e capazes de infectar, diretamente, as causas de contágio deviam ser abundantíssimas, o que não se dá. Deviam também ser observados em toda a parte”. Pondo em dúvida a experiência clínica de seus adversários, afirmou que a lepra começava, geralmente,
com uma mancha hiperêmica, mais ou menos infiltrada …
Tenho visto um número regular desses casos, que para a maior
parte dos médicos são completamente desconhecidos … no
dorso do pé ou da mão ou no rosto, de preferência na testa,
sendo esta localização bastante freqüente. Nestes casos, a
mucosa nasal não costuma ainda ser afetada, nem se encontra
qualquer outra localização nas mucosas, como deveria ser o
caso se a moléstia se propagasse como a sífilis. De outro lado,
essas localizações combinam absolutamente com o que se
devia esperar em caso de transmissão pelos mosquitos, fato
que sempre me impressionou, já no princípio dos meus estudos
sobre o assunto. (Jornal do Commercio, 6.dez.1915) Segundo Henrique Aragão (apud Souza Araújo, 1956, p.137-41), principal paladino de Lutz naquela controvérsia, cerca de uma centena de inoculações experimentais teriam demonstrado que os germes existentes nos nódulos, ulcerações e em outros pontos do organismo dos leprosos eram destituídos de capacidade infectante. Em compensação, vários autores, não necessariamente identificados com a transmissão por insetos, tinham reconhecido a importância dos surtos febris na propagação da doença. Os microrganismos que apareciam, então, no sangue dos doentes possuíam comprovada virulência. Assim, os hematófagos encontravam ocasião propícia para se infectarem durante os surtos febris, quando a bacilemia era facilmente demonstrável pelo processo de Beurmann e Gougerot. O leproso achava-se, então, em condições similares à do amarelento, nos dias em que se tornava capaz de infectar o Stegomyia fasciata, ou do pestoso, no período
septicêmico, quando a pulga ingeria o bacilo de Yersin.39
Os contagionistas denunciavam, com razão, a falta de dados experimentais que comprovassem o papel dos mosquitos como transmissores do bacilo de Hansen, crítica que nem Lutz nem Aragão podiam negar.
Na opinião deste, a presença de bacilos no tubo digestivo de insetos hematófagos que tinham picado leprosos seria fato “amplamente demonstrado”. Cardoso Fontes, pesquisador, também, de Manguinhos, e Emilio Gomes tinham encontrado bacilos acidorresistentes muito semelhantes aos da lepra no tubo digestivo de mosquitos recém-capturados em quartos do Hospital dos Lázaros (apud Souza Araújo, p.138). Mas Adolpho Lutz reconhecia que aquilo era incomum, e a multiplicação dos microrganismos nos mosquitos, um fato ainda não demonstrado. Lutz e Aragão atribuíam os insucessos de muitos pesquisadores às suas tentativas de infectar mosquitos, fazendo-os picar nódulos leprosos e doentes não febricitantes. Declarou Lutz:
Já tive ocasião de verificar em tempos anteriores que, como
regra geral, os mosquitos picando em tubérculos leprosos não
ingerem bacilos, mas não podem deixar de fazê-lo quando
picam indivíduos em período febril, com bacilos no sangue. Os
casos prestáveis são bastante raros, e a experiência com o
Culex fatigans, que só pica em liberdade, é difícil.
Provavelmente só uma pequena proporção de mosquitos se
infecta e destes, talvez, só uma fração pequena chegue a
transmitir bacilos. Não fosse assim, a infecção devia ser muito
mais comum, e a demonstração, mais fácil. (Jornal do
Commercio, 7.nov.1915)
A argumentação de Lutz e Aragão – como a de Rochard, quinze anos antes – estribava-se, sobretudo, em aspectos epidemiológicos da lepra, e eles inclusive convertiam as anomalias observadas em laboratório em fatos condizentes com a propagação da doença:
a transmissão pela picada de mosquito contaminado não pode
ser freqüente. Isto, todavia, é precisamente uma das condições
necessárias, porque, se não fosse assim, teríamos epidemias
agudas … Seria, então, preciso examinar milheiros de
mosquitos para encontrar o exemplar com poder infectante.
(Jornal do Commercio, 6.dez.1915, apud Souza Araújo, 1956,
p.130)
A julgar pelas comunicações dos contagionistas, poucos investigadores tinham obtido provas experimentais contrárias à transmissão por mosquitos: seus resultados não eram conclusivos ou não excluíam o papel de outros sugadores de sangue. Valverde referiu-se a uma comissão dinamarquesa integrada por Ehlers, With, Verdier e Bourret, que estudara a transmissão da lepra nas Antilhas, e concluíra que só raramente bacilos de Hansen eram encontrados no tubo digestivo de mosquitos. Valverde citou, ainda, pesquisas de John Lindsay, na divisa do Brasil com o Paraguai: a lepra seria aí mais infecciosa do que a tuberculose pulmonar, fato que o médico inglês atribuía aos domicílios insalubres. Lindsay encontrara grande quantidade de percevejos nas camas e paredes, supondo que desempenhassem, na transmissão da lepra, papel tão importante quanto a superlotação e a falta de ar e luz nas habitações.
Não obstante fosse intransigente contagionista, Valverde admitia a intervenção de insetos, especialmente as moscas, que eram, comprovadamente, transmissoras do bacilo da tuberculose, muito parecido com o de Hansen. Citou, também, experiências de Marchoux, que teria infectado ratos expondo-os a moscas alimentadas com polpa de tubérculos leprosos.
Adolpho Lutz, que a princípio descartara os insetos ubiqüitários, retrocedeu na segunda conferência: “Não há nenhuma objeção a incluir outros dípteros hematófagos entre os transmissores facultativos da lepra, mas há uma indicação formal para os
mosquitos”. 40
Como vimos, os Culex fatigans e pipiens eram os principais mosquitos incriminados por Lutz, que não excluía os estegomia e outras espécies domésticas: “Quanto aos simulídeos, flebótomos, mosquitos pólvora etc., só se pode dizer que não podem ser os únicos transmissores”. Durante os debates, Lutz admitiu que os simulídeos poderiam explicar a ocorrência da lepra em lugares onde supostamente inexistiam os culicídeos, como os Alpes, a Noruega e a Irlanda – cenários freqüentes da casuística contagionista – advertindo, porém, que esses sugadores de sangue, “muito comuns em regiões montanhosas, mas desconhecidos na maior parte das
cidades grandes … só podem ter uma importância local”. 41
A distribuição geográfica dos mosquitos foi o tema mais candente da controvérsia com os contagionistas. Na argumentação de Lutz e seus aliados, o modo “caprichoso” de propagação da lepra e a ausência de epidemias ou de endemicidade em regiões visitadas por leprosos tornavam inevitável a mediação dos mosquitos. Para os contagionistas, cumpria função retórica análoga o argumento de que os mosquitos assinalados por Adolpho Lutz inexistiam em regiões onde a lepra era endêmica.
Nesse terreno, ele levava vantagem. Era um entomologista reconhecidamente competente, muito respeitado, até mesmo pelas poucas autoridades estrangeiras de que se valiam os contagionistas. Mas sendo a entomologia médica uma disciplina ainda recente – mal completara duas décadas de existência -, o estudo comparativo da distribuição da lepra e dos mosquitos resultava impreciso. Por mais virtuoso que fosse Lutz, nunca haveria perfeita sobreposição entre as duas cartas geográficas. Além disso, ou talvez por causa disso, a pluralidade de hipotéticos hospedeiros que o bacilo de Hansen teria nas diferentes regiões do globo constituía outro fator perturbador de sua teoria.
Para sustentá-la, Adolpho Lutz, o intransigente defensor dos fatos seguros proporcionados pelo laboratório, o homem que tinha o ‘precisamente’ como cacoete de linguagem, não teve outro recurso senão usar argumentos de autoridade para tentar decidir aquela disputa em seu favor.
Valverde (apud Souza Araújo, 1956, p.132-4) admitiu não ter nenhuma familiaridade com a entomologia médica e “folheou os mestres” para ver se respaldavam a teoria de Lutz. Consultou Giles e, especialmente, a monografia sobre os culicídeos ou mosquitos de Frederick Vincent Theobald, e verificou que o Culex fatigans não existia na Europa, apenas certos Culex de países frios e o Stegomyia fasciata. Para o norte da África, Valverde encontrou apenas a descrição dos Culex pipiens e maculiventris (Argélia) e do Culex pusillus (Egito). “Do Stegomyia fasciata nem notícia! Como explicar, pois, a transmissão da lepra nesses países? … Terá a lepra ainda mais esta curiosidade … a de ser a única doença que se propaga por uma imensidade de mosquitos…?”
A Ásia adequava-se menos ainda à teoria de Lutz. Na parte central do continente, “não há uma única variedade de Culex, nem de Stegomyia, pondo Theobald um ponto de interrogação … [na] existência do Culex cuspius!". Na Nova Zelândia existiam os Culex albirostris, pervigilans, aussoralis e iracundus, mas não o fatigans nem o Stegomyia fasciata. Na ilha da Madeira, foco antigo de lepra, fora encontrado apenas o Culex longiareolatus.
No Brasil, também, Valverde assinalava fatos que contradiziam a teoria de Lutz. O Amazonas seria o mais infestado por mosquitos, mas estava classificado entre os Estados em que a lepra era de fraca intensidade, “não se podendo de longe sequer estabelecer comparações… [com] São Paulo e Minas, os dois principais focos brasileiros, onde os mosquitos existem em quantidade incalculavelmente inferior”.
A polêmica com os contagionistas, nesse terreno, foi sustentada especialmente por Aragão, que criticou a pouca familiaridade de Valverde com os autores que citara, e o fato de não ter recorrido a outras fontes, igualmente valiosas:
quando Theobald não cita a existência de um dado mosquito
em certa localidade, não significa que ele aí não existia, e, tão-
somente se pode disso deduzir que eles ainda não foram
colecionados nesses lugares ou existem citados em outros
trabalhos desconhecidos de Theobald, na ocasião da feitura de
sua obra … Ainda mais, no próprio Theobald … se encontram
referências à existência de Stegomyia e Culex fatigans em
pontos onde sua presença foi negada … como, por exemplo, no
norte da África, Egito, em várias localidades da China etc.
Negar-se a existência do Stegomyia na África é absurdo,
porquanto esse continente é o berço de origem dessa espécie
que ulteriormente se tornou cosmopolita … O que também
existe no Theobald, e aqui deve ser referido, é que esse notável
e competentíssimo especialista em mosquitos por tal modo
considera e preza o valor do dr. Lutz, que adotou integralmente
em seu livro a classificação do nosso patrício. (apud Souza
Araújo, 1956, p.140)42
Os defensores da teoria culicidiana reiteraram insistentemente as analogias com a febre amarela, comparando não apenas os mecanismos de transmissão de ambas as doenças como os estilos de pensamento e conduta dos adversários da teoria de Finlay e de Lutz. A princípio, vigorou no debate de 1915 a mesma irredutibilidade que havia caracterizado, em 1903, o confronto entre partidários da transmissão da febre amarela exclusivamente pelo Stegomyia fasciata, e os “não convencidos,” que admitiam a inclusão do mosquito numa rede mais vasta de percursos
envolvendo o contágio direto por fomites.43 Não obstante sustentasse com firmeza suas idéias sobre a transmissão da lepra, Lutz optou por não se antagonizar com os contagionistas no plano prático da profilaxia. Além de não dispor do cacife que possuía Oswaldo Cruz no começo do século, tinha-o agora como adversário, silencioso mas muito influente.
No relatório sobre “Lepra e imigração” (apud Souza Araújo, 1956, p.151-2), Lutz e Aragão propuseram um regime condescendente, que contrastava com os rígidos dispositivos de proteção em vigor em Nova York e outros portos norte-americanos, dispositivos que os sanitaristas brasileiros queriam ver aplicados aos imigrantes que desembarcavam no Brasil. Os dois cientistas de Manguinhos consideravam que o perigo da importação de novos casos de lepra era diminuto: equivalia, mais ou menos, a “trazer corujas para Atenas,” já que no Brasil a doença encontrava melhores condições para se propagar do que nos países de origem da maioria dos imigrantes; “qualquer medida vexatória, chamaria naturalmente represálias, além de produzir impressões muitos desfavoráveis, que convém evitar”.
No caso da imigração subvencionada, o Estado tinha a obrigação de excluir pessoas cujos antecedentes de saúde física e psíquica fossem “defeituosos,” mas sem que isso implicasse a adoção de medidas humilhantes. Antes de conceder passagem livre, poderia exigir atestado fornecido por médico ou autoridade do lugar de origem do imigrante, ou pelo médico de bordo, ou até mesmo uma “declaração formal do chefe de família,” mas isso antes do desembarque, já que, em tempos normais, o Estado não poderia submeter os passageiros a um exame físico rigoroso:
às companhias também não convém repatriar casos que sejam
reconhecidos apenas no fim da viagem. Assim o leproso está
em perigo de ficar uma espécie de judeu errante e seria
conveniente considerar o que se deve fazer com doentes
nessas condições. O mais simples seria consentir que
embarquem em certos vapores, onde tenha um médico, mas
pequeno número de passageiros, ocupando durante a viagem
um pequeno hospital de isolamento, protegido por tela de
arame, e submetendo-se depois de sua chegada às
determinações das autoridades sanitárias locais. Se para estes
casos não se mostra alguma condescendência, sempre
procurarão esconder a sua moléstia.
O parecer de Lutz e Aragão tratava, também, da imigração terrestre. Os países vizinhos não ofereciam grande perigo porque, com exceção da Colômbia, o número de doentes não devia ser maior que no Brasil. Um atestado fornecido pelos viajantes à higiene e à alfândega seria precaução suficiente, a ser aplicada também aos “patrícios que desejam mudar-se de um lugar para outro, porque o número deles deve ser muitas vezes maior”. Tal atestado teria “um certo efeito moral e permite responsabilizar as pessoas que deliberadamente fizerem declarações falsas”.
Já vimos que Adolpho Lutz considerava o isolamento dos leprosos uma medida ineficaz e cruel. Durante os debates, chegou a indagar aos adversários por que não pediam medidas de seqüestração igualmente rigorosas para as vítimas da tuberculose ou de outras doenças cuja transmissão se fazia pelos processos erroneamente atribuídos à lepra (Souza Araújo, 1956, p.130-1). Em Microfísica do poder, Foucault (1984, p.88-9) estabelece instigante distinção entre os dois grandes modelos de organização sanitária que teriam imperado no Ocidente até fins do século XIX: aquele suscitado pela lepra, extensivo aos loucos e malfeitores, da exclusão do espaço comum, em nome de sua purificação, e o modelo aplicado à peste e a outras doenças infectocontagiosas, da internação ou fixação dos indivíduos nas casas, hospitais e outros nichos do espaço urbano, para que este pudesse ser meticulosamente esquadrinhado, e os indivíduos, eficientemente vigiados. A política proposta por Oswaldo Cruz para os portadores do bacilo da tuberculose, em 1907, quando considerou vitoriosa a campanha contra a febre amarela, foi uma versão draconiana do segundo modelo, rejeitada pelo governo (ver a respeito Benchimol, 1990, p.49-50; Nascimento, 1999; Bertolli Filho, 2001).
Apesar de propor para a lepra um terceiro modelo de organização sanitária, relacionado à irrupção, em fins do século XIX, dos hospedeiros intermediários na trama formada por homens, coisas e micróbios, Adolpho Lutz, pragmaticamente, admitiu que o isolamento dificultaria a disseminação da doença se os leprosários ficassem distantes de outras habitações, em ambientes desfavoráveis aos mosquitos:
Não é possível subtrair-se à obrigação de juntar a profilaxia
contra os mosquitos a toda tentativa de isolamento, porque não
se deve sacrificar a liberdade dos indivíduos, sem dar o máximo
de garantia para um resultado prático desse sacrifício … Deixo
a satisfação duvidosa de combater a nova orientação à classe
daqueles que procuram conservar a febre amarela entre nós,
combatendo a profilaxia contra os mosquitos e que quererão
repetir esta oposição em outra questão não menos importante.
(apud Souza Araújo, 1956, p.130)
Expressando a opinião da maioria dos integrantes da Comissão de Profilaxia da Lepra, Juliano Moreira e Paulo da Silva Araújo propuseram que ela patrocinasse as experiências necessárias para confirmar as afirmações de Lutz, e que incluísse a proteção contra o mosquito entre as medidas de profilaxia projetadas, mas sem deixar de colocar em prática, com urgência, as idéias “universalmente adotadas” do contágio direto, da notificação obrigatória, das desinfecções e do isolamento ou exclusão dos doentes (p.128).
As “Conclusões aconselhadas pela Comissão de Prophylaxia da
Lepra para servir de base a um projeto de lei"44 compunham-se de onze itens vazados no espírito do programa contagionista aprovado pelos congressos internacionais de Berlim (1897) e Bergen (1909), com exceção do item IV, que estabelecia a necessidade de “efetivar com todo o rigor, nos casos dos indivíduos sujeitos ao isolamento domiciliar, e nas leprosarias e asilos ou nas vilas e colônias, a profilaxia culicidiana, isto é, o conjunto de medidas eficientes contra os mosquitos capazes de veiculação da lepra”.
A Conferência Americana de Lepra realizada no Rio de Janeiro, em outubro de 1922, em meio às comemorações do centenário da independência do Brasil, parece ter mantido essa orientação, mas Lutz (1921) já não encontrou aí o apoio que obtivera em 1915. Ainda sem provas experimentais conclusivas, defrontar-se-ia com maior número de opositores, sobressaindo entre eles, ainda, Belmiro Valverde, que declarou:
Vários têm sido os agentes incriminados como transmissores
da lepra, ácaros, percevejos, pulgas, moscas, mosquitos etc. …
os adeptos do contágio direto admitem que os ectoparasitos
possam, mecanicamente, transportar os germes da lepra, como
acontece com outras doenças e como o simples bom senso
está a indicar. Entretanto, os que supõem a lepra transmitirse
por vinculação indireta são dogmáticos … como sucede entre
nós com o Dr. Adolpho Lutz, que apesar de se ocupar desses
assuntos há 40 anos, ainda não pôde trazer a mais ligeira
documentação demonstradora do acerto de suas idéias. Ainda
agora, no seio da Conferência da Lepra, quando se esperava
do Dr. Lutz algum trabalho … em socorro de sua teoria, já
derrotada pela crítica, o ilustre sábio limitou-se a reafirmar sem
uma prova, sem um só fato, sem uma única palavra nova, que o
mosquito é o transmissor da lepra, muito embora não se
sentisse mais nas suas asserções aquele entusiasmo primitivo
de 1915, quando o grande cientista lançou, com minúcias, a
grande circulação, o fruto amadurecido do seu raciocínio.
(Jornal do Commercio, out.1922)
Lutz não está só: hematófagos como
transmissores da lepra (1920-1950)
A crítica era procedente. Apesar disso, Adolpho Lutz não arredou pé de sua teoria, e sustentou-a, com argumentos não muito diferentes daqueles empregados em 1915, no 2° Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Syphiligrafia realizado em outubro de 1921 em Montevidéu, à mesma época em que o Departamento Nacional de Saúde Pública, recém-criado, iniciava a ofensiva segregacionista contra os doentes através da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas.
A realização da Conferência Americana de Lepra foi proposta no Congresso de Montevidéu. “Problemas que se ligan al estúdio de la lepra” (1922) reúne as comunicações apresentadas por Adolpho Lutz em ambos os eventos. A sessão solene de abertura da Conferência, presidida pelo ministro das Relações Exteriores, teve lugar dia 8 de outubro no salão de festas do pavilhão da Exposição
Nacional.45 Os trabalhos, de 9 a 14 daquele mês, realizaram-se no salão nobre da Academia Nacional de Medicina, falando Lutz na sessão noturna do dia 13. Ele era um dos membros da comissão organizadora da conferência, presidida por Carlos Chagas. Valverde era um dos três presidentes honorários (Souza Araújo, 1956, p.364-72).
Não obstante o ponto de vista de Lutz ter sido defendido, novamente, por Emílio Gomes, as conclusões finais do Congresso foram inteiramente moldadas pela preocupação de disseminar nos estados brasileiros e no continente americano o “combate ao contágio… elemento decisivo na campanha contra a lepra;” a única concessão às idéias de Lutz estava na recomendação de que as providências de ordem técnica atendessem às “diversas doutrinas em litígio relativas à transmissão da doença”.
Para demonstrar que o Departamento Nacional de Saúde Pública iria colocar em prática as diretrizes recomendadas a outras nações sul-americanas, Carlos Chagas e o presidente da República, Epitácio Pessoa, colocaram a pedra fundamental do “leprosário federal” em Jacarepaguá, então zona rural da cidade do Rio de Janeiro. Na casa que seria a sede do Leprosário de Curupaiti, o DNSP ofereceu uma mesa de doces aos congressistas, jornalistas e
demais convidados.46
O ministro de Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema, e
outras personalidades, por ocasião de lançamento da pedra
fundamental do pavilhão da colônia Curupaiti para hansenianos, em
26 de dezembro de 1935 (FGV CPDOC, Arquivo Gustavo
Capanema, GC foto 080).
O prêmio conferido pela Academia Nacional de Medicina em 1921 à monografia de Belmiro Valverde sobre “Profilaxia e Tratamento da Lepra,” publicada no mesmo ano como Lepra no Brasil, representou um endosso de parte importante da elite médica da capital às teses contagionistas que ele vinha defendendo com tanto ardor desde 1915.
No âmbito da Academia, a lepra foi tema de grandes debates entre 1921 e 1930, reencenando-se ali a controvérsia entre Valverde e o fiel porta-voz de Lutz, Emílio Gomes. Vários acadêmicos conciliavam a teoria do contágio com a possível transmissão por mosquitos ou outros insetos hematófagos. Entre os ‘ecléticos’ sobressaíam Parreiras Horta, Henrique Autran, Alfredo Augusto da
Matta 47 e Eduardo Rabello, que em 1925 sucederia Fernando Terra como catedrático de dermatologia na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e como presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Mas uma outra controvérsia sobrepôs-se aos debates sobre a teoria de Adolpho Lutz quando Belisário Penna, outro futuro militante do integralismo, em conferência sobre “O problema da lepra no Brasil,” proferida na Academia, em 1926, arvorou-se em defensor de uma política intransigente de confinamento dos portadores do mal de Hansen em colônias e leprosários, criticando as concessões feitas ao isolamento domiciliar nas resoluções aprovadas até então em todos os fóruns nacionais que haviam debatido o problema. Declarou Penna:
A lepra não é doença dos países civilizados, nem dos
selvagens. Entre os selvagens não há lepra. Ela é característica
e simbólica dos países em estado de semi-civilização. Ora, o
Brasil tem a pretensão de ser um país civilizado e grita todo dia,
e faz barulho na Liga das Nações. Precisa, portanto, mostrar
que o é de fato … Não precisamos sair da capital para
encontrarmos leprosos por toda parte. Vi um leproso …
tomando banho no Posto 6 de Copacabana, no meio de toda
gente, e todos se acomodavam. Conheço um vendedor de
jornais leproso … Assim é por toda parte … Não é possível
continuarmos assim; torna-se necessário pôr uma barreira a
essa avalanche que vai dominando todo o país. (apud Souza
Araújo, 1956, p.417)
Como mostra Monteiro (2003, p.95-121), após a revolução de 1930, a facção que advogava o isolamento compulsório, sem concessões, das vítimas do mal de Hansen assumiu o comando das políticas de saúde nesse setor, não apenas em São Paulo como em outros estados da federação.
Mapa publicado em Souza Araújo (1937).
Na contracorrente dessa tendência, Lutz continuou a pregar sua convicção de que a doença era transmitida por mosquitos e, portanto, não contagiosa. O Boletim da influente associação constituída por senhoras da alta sociedade paulista em 1926 – a Sociedade de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra -, publicou, em março de 1932, palestra feita pelo cientista na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Ele voltou a defender seu ponto de vista na conferência realizada no Rio de Janeiro, em setembro-outubro de 1933, para a unificação e uniformização da campanha contra a lepra em todo o território nacional, conferência que contou com a participação de autoridades do governo e de delegados de ligas e sociedades existentes em diversos estados brasileiros. A comunicação de Lutz foi publicada em edição dominical de dois importantes jornais cariocas: Jornal do Commercio e Jornal do Brasil (1.out.1933).
Três anos depois, Lutz publicou em alemão, português e inglês uma revisão da literatura sobre a transmissão da lepra, que foi objeto de
resenhas em revistas médicas francesas e italianas. 48 Recebeu cartas em apoio a suas idéias de diversas partes do mundo. De Jesus M. Gomes, por exemplo, médico de uma cidade de Goa chamada Guindolim; ou do dr. Peskchowsky, diretor do Leprosário Experimental e Clínico de Krasnodar, na União Soviética, responsável pelas investigações epidemiológicas sobre a doença na zona compreendida entre o Mar de Azov e o Mar Negro. Ao Congresso Internacional do Cairo (21 a 28 de março de 1938), Adolpho Lutz enviou comunicação intitulada “No control of leprosy
without anti-mosquito campaign”. 49 A doença foi, ainda, o tema dos dois últimos trabalhos do cientista que, já completamente cego, teve de ditá-los à sobrinha. “A transmissão da lepra pelos mosquitos e a sua profilaxia,” lido no sétimo Congresso da Pan American Medical Association, em 1938, foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em novembro do ano seguinte; as “Regras indispensáveis de prophylaxia anticulicidiana sugeridas ao Serviço
Sanitário do Estado de S. Paulo” permaneceram inéditas. 50
As recomendações profiláticas feitas por Lutz, sobretudo no primeiro artigo (1939), eram bem mais detalhadas agora, e destinavam-se sobretudo a “aqueles que não admitem o mosquito como único meio de transmissão da morféia”. Aí podiam estar incluídos não apenas contagionistas transigentes como médicos e investigadores que julgavam possível a intervenção de outros vetores, como a mosca hematófaga Musca sorbens Wied (Lamborn, 1937).
Envelope que continha a carta endereçada ao “Instituto Adolpho
Krutz” pelo dr. Peskchowsky, diretor do Leprosario Experimental e
Clínico de Krasnodar, na União Soviética, recebida por Adolpho Lutz
em 22.6.1937 (BR.MN. Fundo Adolpho Lutz. Caixa 22, pasta 255).
Nos leprosários haveria pelo menos uma pessoa fazendo incessante profilaxia anticulicidiana; os maiores manteriam em seus quadros um entomologista ou médico com qualificação para criar as larvas encontradas nas enfermarias e alojamentos, e para determinar as espécies e descrevê-las nos relatórios periódicos do estabelecimento. Nas regiões onde existia a lepra, era indispensável um estudo completo da fauna local de dípteros e hematófagos para orientar a profilaxia anticulicidiana, que era “sempre útil, prescindindo de justificação”.
Logotipo da Associação Protetora dos Morféticos usada na capa do
livro escrito por Emílio Ribas (1917) com “respostas às indagações
feitas pela Associação … com o fim de obter dados para a
humanitária solução do urgente problema do mal de São Lázaro”.
A anamnese dos doentes devia colher informações concernentes à sua relação com os mosquitos nos lugares onde provavelmente houvessem adquirido a infecção. Os febris e aqueles cuja doença progredia rapidamente seriam isolados em enfermarias providas de telas. As habitações de leprosos também seriam revestidas de tela, tendo-se o cuidado de evitar cantos escuros, pinturas sombrias e outros “esconderijos” para os mosquitos. Ainda que os de hábitos domésticos fossem os maiores suspeitos, os leprosários seriam construídos em lugares não infestados por espécies de brejo ou silvestres.
No artigo publicado em novembro de 1939, Lutz detalhou, também, como nunca fizera antes, as experiências destinadas a provar sua teoria:
O mosquito noturno comum, Culex quinquefasciatus, é
especialmente suspeito de transmitir a lepra, mas não se presta
muito bem para experiências porque só pica às escuras.
Stegomyia não convém usar por várias razões. É preferível
aproveitar espécies que picam facilmente… por exemplo, as
espécies dos gêneros Mansonia, Taeniorhynchus e
Ianthinosoma. A mais fácil de obter é Culex, hoje Ochlerotatus
scapularis, abundante nos jardins arborizados.
Os mosquitos “seriam” – ou eram51 – infectados com várias espécies de microrganismos, não apenas “do gênero Coccothrix (1886), nome que tem a prioridade sobre Mycobacterium,” como diversas “raças” do bacilo da tuberculose – sobretudo aquelas relacionadas à tuberculose bovina e aviária – e o bacilo de Stefansky, que produzia em ratos uma doença muito parecida com a
lepra humana.52
BR.MN. Fundo Adolpho Lutz. Caixa 22, pasta 255.
Lutz recomendava o uso de culturas desses microrganismos misturadas com sangue fresco desfibrinado ou mel diluído para infectar os mosquitos. Também poderiam sugar diretamente os germes no homem e nos animais portadores da doença, mas este método não dava bons resultados. Convinha usar, nesse caso, homens ou animais cujos processos patológicos fossem recentes e estivessem em rápida progressão, apresentando febre e conseqüente circulação de bacilos no sangue.
Já há muitos anos fiz algumas experiências, aplicando os
mosquitos nos tubérculos leprosos que estão sempre cheios de
bacilos acidorresistentes, formando geralmente aglomerações
em zoogléia. Nas minhas experiências os bacilos
acidorresistentes não foram encontrados nos mosquitos. Outros
observadores, porém, parecem ter sido mais bem-sucedidos.
Hoje atribuo pouca importância ao resultado negativo, porque
considero as formas acidorresistentes, embora cômodas para o
diagnóstico, como fases ulteriores, pouco ativas.53
Para Lutz, a primeira questão a determinar após a infecção do mosquito era o tempo que os bacilos viviam em seu corpo. Os espécimes infectados deviam ser conservados vivos por algum tempo, “de preferência completamente às escuras,” para dar tempo à incubação do germe. Se ele não desaparecesse logo dos órgãos internos, poderiam esses mosquitos servir às inoculações em animais e às culturas tentadas em períodos sucessivos. Em animais, deviam ser inoculados as glândulas salivares e o corpo, procurando-se obter alguma lesão: os porquinhos-da-Índia e os coelhos eram suscetíveis a diversas formas de tuberculose; os ratos, ao bacilo de Stefansky, e os macacos, à lepra humana:
experimenta-se com picadas, que podem ser repetidas, ou por
inoculações com mosquitos triturados em pouco líquido. Estes
podem ser lavados em álcool e chamuscados ligeiramente para
desinfetar as partes externas. Por este processo também
podem ser inoculados meios nutritivos apropriados.
Convém repetir estas experiências com a maior freqüência
possível na esperança de obter um ou outro resultado positivo.
Bastará obter resultados positivos com um só destes germes
para demonstrar a possibilidade da transmissão das espécies
de Coccothrix pelos mosquitos.
Adolpho Lutz faleceu em 6 de outubro de 1940, poucas semanas antes de completar 85 anos. Seu programa de pesquisas foi executado por Heraclides-Cesar de Souza Araújo, chefe do Laboratório de Leprologia do Instituto Oswaldo Cruz, e Gustavo M. de Oliveira Castro, entomologista daquele instituto, que já havia publicado diversos trabalhos em colaboração com Lutz. Em nota prévia publicada com José Mariano, em 1945, Oliveira Castro apresentou os resultados das experiências feitas com dezenas de voluntários humanos para verificar se os estiletes bucais de mosquitos contaminados seriam capazes de infectar os tecidos no ato da picada. Os voluntários eram todos leprosos “negativos,” isto é, “abacilíferos, com a maior parte da pele sã e resistentes a reinfecções”. Com base nos resultados das experiências que esses e outros investigadores executaram ao longo da década de 1940, com culicídeos (mosquitos), ixodídeos (carrapatos), pediculídeos (piolhos), cimicídeos (percevejos), pulicídeos (pulgas) e triatomíneos (subfamília de insetos hemípteros, que inclui o transmissor da Doença de Chagas), Souza Araújo (1953, 1952) chegou à conclusão de que qualquer hematófago podia transmitir a lepra, sob certas condições, sendo, portanto, recomendável que a saúde pública estendesse o programa de dedetização em curso contra o
vetor da malária aos focos rurais e suburbanos do mal de Hansen. 54 O leprologista de Manguinhos sustentou essa tese no X Congresso Brasileiro de Higiene, realizado em Belo Horizonte, em outubro de 1952, e no V Congresso Internacional de Medicina Tropical e Malária, que teve lugar em Istambul, em agosto-setembro de 1953. As idéias de Adolpho Lutz foram defendidas perante outras audiências por sua filha, Bertha Lutz. Durante os 17 meses em que exerceu o mandato de deputada pela legenda do Partido Autonomista do Distrito Federal, representando a Liga Eleitoral Independente, advogou o combate ao mosquito como parte das medidas de profilaxia da lepra. Apresentou, também, à mesa da Câmara dos Deputados requerimento solicitando informações sobre as medidas anticulicidianas tomadas nos leprosários e hospitais de isolamento que vinham sendo criados em diversos pontos do país (Benchimol & Sá, jan.-abr. 2003, p.203-50).