Adolpho Lutz: hanseníase
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
visitou o Havaí na década de 1920 (1929, figura 25).
O projeto terapêutico de Adolpho Lutz
No relatório que apresentou à Assembléia Legislativa no começo de 1890, John Hancock Kimball informou que em Kalihi tudo funcionava
de maneira inteiramente satisfatória para o Conselho … Foi
selecionado pelo dr. Lutz e colocado sob tratamento e
cuidadosa observação um número limitado de pacientes, que
não deve exceder vinte, pacientes dispostos a obedecer às
regras e aos regulamentos necessários a seu governo. O dr.
Lutz tem total controle médico de todo o estabelecimento, com
suprimento ilimitado de medicamentos e utensílios para colocar
em prática seu plano de tratamento. (apud Corrêa, 1992, p.148)
No primeiro relatório a Kimball, em abril daquele ano, Lutz descreveu o estado dos vinte pacientes e os primeiros resultados que obtivera com sua terapêutica.
“A lepra é uma doença crônica, portanto requer um tratamento crônico, como a sífilis e a tuberculose,” escreveu. Inquérito recém-realizado pelas autoridades havaianas junto a leprologistas do mundo inteiro (Hawaii, Dept. of Foreign Affairs, 1886) mostrara que os resultados até então obtidos eram desanimadores. Não obstante isso, Lutz parecia convencido de que se iria conseguir a cura da doença, da mesma maneira como já se curava a sífilis, que acometia, aliás, grande proporção de seus pacientes (com relação à tuberculose, não havia tratamento eficaz; somente a recuperação espontânea facilitada por repouso, higiene e boa alimentação).
Naqueles três primeiros meses de trabalho, quase esgotara o suprimento de drogas que trouxera consigo da Alemanha, pois não havia encontrado o que necessitava com os droguistas que serviam ao Conselho. O tratamento vinha dando melhores resultados nos casos de lepra tuberculosa, especialmente no início da doença. Observara Lutz que as manchas eritematosas características de outras formas, tão parecidas com a psoríase e tão freqüentemente confundidas com ela, podiam ser eliminadas com o tratamento externo. Sua terapêutica revelava-se menos eficaz quando havia contraturas e atrofia musculares combinadas à anestesia. Tampouco chegara a resultados definidos nas hipertrofias do tecido conectivo similares à elefantíase: “É provável que alguns destes sintomas (sobretudo quando já duram muitos anos) não sejam passíveis de cura perfeita, já que certas mudanças anatômicas não permitirão uma restitutio ad integrum".
Os micróbios presentes nos tumores que se desenvolviam no corpo dos doentes provavelmente estavam inativos, mas não se podia afastar a possibilidade de que, com a reabsorção de material morto propiciada pelo uso da medicação externa, se estivesse devolvendo à circulação sangüínea microrganismos ativos. Por isso, Lutz dava prioridade ao tratamento geral. Seria tanto mais eficaz quanto mais precoce fosse o diagnóstico, o que requeria que os médicos do arquipélago aprendessem a detectar cedo a doença.
Entre as substâncias de uso interno, a principal era o óleo de chalmugra, extraído de sementes maduras de plantas nativas da região indo-malaia do gênero Hydnocarpus, família Flacourtiaceae. Livros milenares do budismo já mencionavam o consumo dessas plantas pelos leprosos. No Japão e na Índia, eram usadas muitos séculos antes de os ingleses, no século XIX, importarem esse conhecimento para a medicina acadêmica européia, que se encarregou de difundi-la por todas as suas províncias (Coutinho, 1957, p.319-21; Murray, 1910, p.864; Benchimol et al., 2003, p.361-96). Segundo Obregón (s.d., p.164-5), o óleo de chalmugra e seus derivados, administrados por via oral ou hipodérmica, foram os únicos tratamentos disponíveis e medianamente eficazes até a introdução em 1942 do Promin, um derivado da sulfona desenvolvido por Guy H. Faget.
Burlando os efeitos colaterais, sobretudo os enjôos, até chegar a 2,8 gramas, três vezes ao dia, ou doses ainda mais elevadas, Lutz vinha conseguindo manter seus pacientes com bom estado geral de saúde. Usara, também, o ácido ginocárdico, o princípio ativo do chalmugra, preparado pela Merck, até esgotar-se o estoque trazido da Alemanha.
Grãos diversos de plantas pertencentes ao grupo chalmugra (Em.
Perrot, Le Chaulmoogra; em Jeanselme, 1934, fig. 259, p. 630).
Durante a epidemia de febre amarela em Campinas, no ano anterior, Lutz usara abundantemente o salol, uma combinação dos ácidos salicílico e carbólico. Usara, também, com os mesmos objetivos, o salicilato de sódio, porém doses mais elevadas deste podiam causar efeitos colaterais desagradáveis e até alarmantes. Tidos como bons antissépticos e antitérmicos, eram empregados, internamente, contra o reumatismo articular e as infecções intestinais e urinárias; externamente, sob a forma de pó, eram usados em feridas de toda espécie. O salicilato de sódio (C H O Na), derivado do ácido 7 3 3 salicílico (o antepassado da aspirina), foi amplamente utilizado contra várias doenças infecciosas, inclusive a febre amarela (Benchimol, 1999). Lutz já testara um e outro medicamento em dois leprosos tratados em São Paulo. Com doses diárias de 6 a 8 gramas, obtivera a interrupção da febre e das erupções agudas, permanecendo ambos os pacientes com boa saúde nos seis meses seguintes. Aqueles ácidos deixavam entrever ação favorável na lepra “devido a sua ação anti-fermentativa no sangue”.
Carpotroche brasiliensis Endl., vulgarmente conhecida como
sapucainha, a chalmugra nativa do Brasil onde foi estudada como
antileprótica por Theodor Peckolt (1861-69). Prancha publicada
originalmente em Martius, Flora Brasiliensis (vol. 13, parte 1, fig. 88;
1841-1872), reproduzida em Souza Araújo (1946, v.1, estampa 28).
O creosoto vegetal, extraído da faia, gozava de elevada reputação no tratamento da consumpção, e vinha sendo recomendado contra a lepra. A parte mais ativa desse composto, o guaiacol, era usada no tratamento da tuberculose pulmonar e como antisséptico local. Lutz começara a gastar os 100 gramas do preparado puro que trouxera, mas não tinha ainda elementos para avaliar seu desempenho.
No tratamento sintomático das fortes dores neurálgicas, a antipirina vinha dando bons resultados.
Como era muito comum a combinação de lepra e sífilis no Havaí, Lutz administrava a seus pacientes iodo e mercúrio, não obstante muitos autores alertarem contra os efeitos tóxicos dessas substâncias. Estava particularmente atento à eficácia na lepra do iodeto de potassa, que usava para tratar sintomas terciários da sífilis. O ácido arsenioso não dera resultados favoráveis, e fora descartado.
Duas outras substâncias faziam parte do arsenal terapêutico de Lutz: a hidraste e o veratro. Da hidraste, erva da família das ranunculáceas, utilizava-se sobretudo a espécie nativa na América do Norte (Hydrastis canadensis). Um dos alcalóides contidos em seu rizoma, a berberina, produzia fortes contrações no músculo uterino e por isso era usado contra hemorragias nesse órgão. Tinha ainda propriedades tônicas, antitérmicas e diuréticas. O veratro (Veratrum) provinha, também, de várias espécies de ervas da família das ranunculáceas que continham a veratrina combinada a outros alcalóides. Era muito usado como vomitivo e purgativo; externamente dava bons resultados em diversas doenças cutâneas (Littré & Gilbert, 1908).
Entre os medicamentos de uso externo, o principal era a crisarobina, extraída do pó de Goa, detrito vegetal encontrado nos troncos ocos de uma árvore brasileira, a angelim-araroba. A substância começara a ser usada no Brasil contra várias doenças de pele e logo fora adotada pelos dermatologistas europeus, tornando-se o medicamente externo soberano no tratamento da psoríase. Unna fora o primeiro a chamar a atenção de seus pares para o fato de que a crisarobina fazia desaparecer os tubérculos leprosos, sobretudo os antigos. Lutz julgava possível obter o mesmo resultado nas erupções da forma maculonervosa, especialmente nas manchas similares à psoríase. O ácido pirogálico (C H O ), obtido pela 12 6 6 destilação do ácido gálico, atuava de maneira parecida, porém mais lentamente. O uso externo de iodo e da hidroxilamina ainda estavam sub judice. Lutz tampouco estava convencido de que a estricnina, o ácido tânico e o ictiol tivessem valor específico para a lepra, como medicação externa, ainda que o último combatesse sintomas inflamatórios quando aplicado topicamente.
A crise
O projeto terapêutico de Adolpho Lutz, que parecia tão promissor, foi abortado alguns meses depois por uma crise que pôs a nu a corrosão daquele quadro idílico desenhado em fevereiro por Amy Fowler. Segundo Corrêa (1992, p.150-1), a crise eclodiu em agosto de 1890, quando Charles Kahalehili, hanseniano que trabalhava como administrador da Estação de Kalihi, foi punido por Amy por causa de “comentários malévolos que fazia junto aos demais pacientes sobre os quadros psicóticos que dois deles apresentavam, e que atribuía à medicação usada por Lutz”. Kahalehili recorreu ao Conselho de Saúde, que nomeou uma comissão de inquérito. Interpelado de forma agressiva, Lutz “repeliu altivamente a ofensa e mostrou que um simples pedido de informação teria esclarecido o assunto”. O médico brasileiro e a enfermeira inglesa demitiram-se, então, das funções que exerciam em Kalihi.
A versão de Bertha Lutz (Lutziana) é diferente. Seu pai teria tomado aquela decisão, como já haviam feito outros médicos, em virtude de “interferências de pessoas leigas”. Um homem branco, que se tinha amasiado com uma indígena, fora internado como leproso pelo irmão, um dos missionários que Lutz detestava, e que não tivera escrúpulos em recorrer àquele expediente para abafar o escândalo. Ao verificar que o amante da mulher indígena não sofria da doença, Lutz propôs ao Conselho de Saúde que lhe dessem alta. O missionário pressionou alguns membros, e quando o Conselho se reuniu, faltaram votos para que Lutz tivesse maioria. Indignado, pediu demissão e foi acompanhado nesse gesto por Amy Fowler.
O infeliz, irmão do missionário zeloso pela salvação de sua
alma e pela interdição de sua mésalliance, suicidou-se.
Apareceram, então, alguns dos grandes jornais dos Estados
Unidos, que foram pedir entrevista ao dr. Lutz. Este não
considerava de boa ética que o médico discutisse assuntos de
hospitais com a imprensa, de modo que se recusou a recebê-
los. Dona Amy Fowler, porém, deu as entrevistas e ficou o caso
todo esclarecido, como devia ser.
A orgulhosa carta de demissão de Adolpho Lutz ao Hawaiian Board of Health, em 3 de setembro de 1890, menos de um ano depois de chegar ao arquipélago, é transcrita na íntegra por Corrêa (1992, p.151). Parece confirmar a primeira versão dos fatos. Escrita em tom duro, não dava margem a negociações:
You will remember that in accepting my position with the Board
of Health, I was careful not to bind myself to any given time. As
my task could only be carried out if I found the necessary
support where I had the right to look for it, I desired to provide
for all emergencies. I am now satisfied by public facts that as a
body, you not only refuse that support, but show yourselves very
slow, if not absolutely reluctant to do even common justice,
sanctioning by your silence the disgraceful conduct of an inferior
employé. After that, I think it unnecessary to enter into the
numerous indiscretions and indelicacies, as well as the system
of spying and reporting which the President and the Agent of the
Board of Health seem to consider necessary to the fulfillment of
their duties; nobody familiar with the circumstances will be
astonished to learn that I refuse to go on exposing my life and
my health meeting with such unfair treatment. If I have not
resigned long ago, it is only because I would not have my
resignation misconstrued; the unanimous vote of sympathy from
all my patients satisfies me that my endeavours have been
recognized where I most cared that they should be. I shall
therefore give up my position as physician of the Kalihi Hospital
at the end of the month at the latest, presuming that this time
will suffice for my further arrangements. I expect retribution for
my expenses for drugs and instruments, brought for and sent for
from Europe, as well as of the sum stipulated as compensation
for my journey home.
Adolpho Lutz M. D.
É possível que os dois episódios, o da punição ao subalterno intrigante e o do missionário influente, estivessem interligados por uma teia mais complexa de eventos, inclusive as opiniões anticontagionistas que Lutz externaria em artigo sugestivamente intitulado “Leprophobia,” publicado no Journal of Cutaneous and Genito-Urinary Diseases (1892) e na Revista Medica de São Paulo (1898).
Na realidade, houve duas comissões de inquérito. Aquela indicada pelo Conselho de Saúde parece ter adotado posição ambígua, protelando a punição de Charles Kahalehili, que não apenas sabotava o tratamento de Lutz como espalhava boatos maledicentes sobre a relação do médico com a enfermeira. Indignada com o Conselho, especialmente quando soube que queria sua demissão,
Amy recorreu ao poder legislativo, que nomeou outra comissão.23 Os depoimentos tomados durante as três visitas que fizeram os parlamentares ao Kalihi Receiving Hospital – em 15, 16 e 18 de agosto de 1890 – mostram que havia, realmente, um imbróglio mais complexo por detrás daquela crise.
Na primeira sessão, além dos deputados e das testemunhas, estiveram presentes o senhor Carter, do Conselho de Saúde, C. B. Reynolds, agente do Conselho em Kalihi, com autoridade sobre Charles Kahalehili, e este, o manager de fato, ou luna na linguagem dos pacientes nativos. O repórter D. Logan taquigrafou as sessões.
No início, foram lidas, uma a uma, as treze queixas contra Kahalehili registradas pela irmã Rose Gertrude, assim como as respostas do Conselho e as declarações do acusado, mas o taquígrafo limita-se a registrar os comentários pontuais da enfermeira inglesa, que confirma as queixas mas não nos permite saber qual era exatamente seu teor. Só a leitura integral dos depoimentos revela os conflitos em jogo.
Provocada pelos representantes do Conselhode Saúde, Rose Gertrude explica por que apelara à legislatura: “O sr. Carter e o sr. Waterhouse vieram investigar minhas queixas … depois … fui informada de que o sr. Damon procurou o bispo da Igreja Católica e deu a entender que o Conselho gostaria que eu me demitisse. Esta foi a única resposta que recebemos depois que este comitê esteve aqui”. Em outra passagem, afirma: “Considerei um insulto duvidarem de minha palavra e da palavra do doutor contra um homem como Charlie … Na Inglaterra, em qualquer hospital, se uma acusação fosse feita por uma enfermeira-chefe ou um médico contra um servente, ele seria demitido na hora” (Hawaii, Legislature of 1890, p.2, 7).
"Isso não é a Inglaterra” – protestou Carter. “Temos a obrigação de considerar os direitos deste havaiano. Por que vocês não reclamaram sobre estas coisas antes? Elas não estavam acontecendo já há algum tempo?”
Amy respondeu que o fizera, a Reynolds, que tomara o partido de Kahalehili, limitando-se a dizer: “Você não pode esperar muito de um nativo”. Ela teria falado também com o comissário britânico, mas não oficialmente (p.7-8).
As relações entre Amy e o presidente do Conselho, dr. Kimball, também estavam, havia algum tempo, mal paradas. A enfermeira inglesa teria dito a ele que os pacientes sentiam-se humilhados quando ele os exibia aos visitantes que trazia com freqüência a Kalihi. Kimball respondeu que conhecia melhor os havaianos do que ela, e Amy, que isso podia ser verdade, mas ela conhecia seu ofício. “Muito bem, já que a senhora tomou esta linha de conduta comigo,” lhe dissera Kimball, “hei de tratá-la como merece; quando vier aqui, vou ignorá-la”. E assim fez. Diz ela: “quando trazia visitantes, não dirigia a palavra a mim”. Durante os depoimentos, um dos pacientes, o reverendo Pahio, confirmou: “é muito vergonhoso; nós não gostamos de ser trazidos e exibidos para todo mundo” (p.22).
Os conflitos de competências tinham chegado a um ponto insustentável em Kalihi, e o próprio Carter fez questão de declarar que “a irmã e o doutor disseram-me, outro dia, que suas posições não estavam suficientemente definidas, e eu relatei o fato ao Conselho. Regulamentos estão sendo traçados no presente momento para designar a cada funcionário seu lugar” (p.8).
As queixas mais importantes diziam respeito às sabotagens de Kahalehili ao tratamento de Lutz, e à autoridade do médico e da enfermeira, sabotagens que contavam com a cumplicidade de membros do Conselho, e que punham a descoberto outros aspectos condenáveis da administração do hospital. Os pacientes viviam sob constante terror de serem mandados para Molokai, e os administradores – o luna e Reynolds – faziam chantagem com essa ameaça para obter favores pessoais e corvéias gratuitas de trabalho, mesmo de pacientes que estavam mal de saúde, e que Lutz e Amy queriam manter em repouso.
John Francisco, um dos pacientes chamados a depor, declarou que Charlie Kahalehili os tratava “de um jeito meio violento … Ele diz: ‘se você não for trabalhar você deve ir para Molokai’ … Trabalhei por quatro semanas, até que disse a ele: ‘se o governo quer que eu trabalhe tem que me dar roupas'”. Os parlamentares perguntaram se o Conselho não lhe fornecia tudo o que necessitava. “Recebi um cobertor e um colchão, só isso” – respondeu John Francisco. Ele confirmou a queixa de Amy de que o doente Mahiai fora forçado pelo luna a caiar cercas, apesar de estar febril e de Lutz haver ordenado que ficasse em repouso (p.10, 12).
Outra paciente do médico brasileiro, uma moça de saúde delicada chamada Luaka, disse que Charlie a obrigava a lavar suas roupas “sem nenhuma paga, e ele às vezes me diz que se eu não o fizer me manda para Molokai”. Certa vez, confessou, com ódio, que “queria limpar as manchas dos remédios do doutor que tinham sido esfregados em seu corpo” (p.12-3, 40).
O paciente Dreizehner deu um testemunho eloqüente a esse respeito: Kahalehili “era o patrão aqui, e quando dizia a qualquer um para ir trabalhar, ficavam todos com medo”. Citou o exemplo de Puniae, um carpinteiro canaca que fora incumbido de cuidar do acabamento da igreja:
Estou certo de que trabalhavam das seis da manhã às sete da
noite. Uma noite eu vinha passando e Puniae trabalhava bem
devagar. Perguntei por que ele não parava, e ele disse: “Não
podemos, senão Charlie nos manda para Molokai”. Disse-me
que o doutor lhe pedira para não trabalhar, e quando falou isso
com Charlie, este disse: “Não adianta, a igreja tem de ser
construída” … O homem está quase sempre doente, o doutor
tem que ficar enfaixando suas mãos e pés … Há um outro
homem doente lá, e eu direi algo por ele. Quando chegou aqui,
estava muito doente, e a irmã fez tudo por ele. Quando sentiu-
se um pouco melhor, teve de sair com a carreta para cavar
areia e terra, e ficava levantando e deitando o tempo todo …
acho que quando um homem está doente, trabalhar sob o sol e
depois entrar debaixo da água fria não é bom. Ele desapareceu
por um tempo e descobri que estava doente. Ficou deitado lá
por catorze dias … num colchão que não tem isso de espessura
(mostra), que não é maior que isso (mostra) para um homem de
seis pés de comprimento … Não falo por mim, mas por estas
outras pessoas. Entro no pátio e pergunto: onde conseguiram
isso ou aquilo, e é sempre com a irmã – pedaços de tabaco,
dinheiro etc. Nada tenho contra o sr. Reynolds … mas quando
as pessoas são retiradas de seus lares algo tem de ser feito por
elas. O que seria este lugar sem a irmã? … Ela queixou-se
comigo que tinha que fazer algo, que não agüentaria mais por
muito tempo, e eu disse, o que adianta, este país não tem mais
compaixão por um leproso do que por um cão. (p.27-9)
Essas acusações traziam a reboque uma falta grave em relação às normas aplicáveis ao isolamento dos pacientes, tanto de quem estava fora do hospital como entre suas partes, que teriam de ser estanques, mantendo os suspeitos separados dos doentes. Charlie, que era leproso, passava a maior parte do tempo do lado dos suspeitos, entre os quais se incluía a moça de quem extorquia a lavagem de suas roupas. Diversos depoentes acusaram-no de comer junto com estes pacientes, e uma das queixas da irmã Rose Gertrude dizia respeito até mesmo às suas freqüentes escapulidas para a cidade (p.8).
A questão nevrálgica era a oposição feita ao tratamento de Adolpho Lutz por aquele personagem que, na opinião de vários depoentes, agia à maneira de um kahuna, um curandeiro. Amy acusou-o de falar “contra o doutor e contra mim … Que o doutor não sabia como curar os pacientes e … que um paciente ficou louco por causa dos remédios que eu administrei” (p.3).
Vários pacientes confirmaram. “Ouvi Charlie dizer que era inútil tomar os remédios, e que era melhor rezar e jejuar,” declarou a senhora Johnson. Miss Harper também ouvira de Kahalehili que os remédios de Lutz tinham feito um homem ficar louco. O reverendo Pahio afirmou que
ele não tinha nenhuma confiança na medicina do doutor … o
que ele dizia levou muita gente a não tomar os remédios … ele
agia como a maioria dos kahunas havaianos ao espargir água
sobre essa garota Haliimaile (ela foi para Molokai). Charlie veio
a mim e pediu-me uma Bíblia … ele nunca fez nada com a
Bíblia exceto esse negócio da água … A garota parecia estar
fora de si, como se estivesse possuída por um espírito, e ele
agia como se quisesse expulsar o espírito dela, como faz um
kahuna. (p.14-5, 19-20)
O homem que teria ficado louco por causa de Lutz era um ilhéu de Fiji que vivia do lado dos suspeitos, e que acabou morrendo. Segundo John Franscico, “ele ficava quieto à noite, mas se Charlie entrasse, ficava muito violento”. O luna fizera-o “sair para o sol embora soubesse que era contra as ordens do doutor, e que o paciente estava quase morrendo”. John Francisco tomava conta dele na noite em que teve um de seus acessos e se pôs a gritar.
A irmã … telefonou para o dr. Lutz … [que] ficou aqui a noite
toda e deu-lhe remédio para que se aquietasse. Uma noite,
duas noites depois, eu estava no quarto do doente. Entrou
Charlie com dois rolos de corda e um par de algemas … a irmã
apareceu e perguntou o que ele pretendia fazer com aquilo.
Reynolds interveio e perguntou à enfermeira inglesa: “Não é verdade que ele apanhou uma tesoura e precisaram intervir três ou quatro homens para sossegá-lo? “Não,” respondeu ela, “eu o fiz sair com meus próprios recursos de persuasão, não é verdade, John?” (p.4, 10).
O incidente é relatado por Bertha Lutz para ilustrar a coragem da mãe:
Certo dia, um doente, desesperado com a separação da família,
resolveu suicidar-se. Apoderou-se de uma tesoura longa que
Lutz usava para cortar papéis e trancou-se num quarto. A irmã
Rosa Gertrudes chegou perto da porta e disse: “Meu filho, você
tirou a minha tesoura?”. “Sim, resolvi me suicidar.” Ela retrucou:
“Mas não, você não pode fazer isso. Sua família vai ficar muito
triste. Você vai me entregar essa tesoura. Estou precisando
dela. Estou cortando papéis”. “Então, a senhora entre aqui no
quarto, e eu lhe darei a tesoura.”
Todos insistiram com que não se atrevesse, mas ela abriu
calmamente a porta e entrou. O doente pegou a tesoura pela
ponta e ofereceu-a à enfermeira, que agradeceu e saiu. O
incidente estava terminado. (Lutziana)
Os depoimentos tomados pela comissão parlamentar indicavam que o tratamento de Lutz vinha fazendo sucesso entre os pacientes de Kalihi. Pahio declarou:
Eu agora posso mostrar-lhes por que tenho fé na medicina do
doutor. Considero que era um dos piores pacientes que havia
nesta área – minha testa estava coberta de protuberâncias, os
lóbulos de minhas orelhas estavam aumentados, meu rosto,
todo intumescido, meus braços, numa condição horrível …
vocês vêem em que condição estou hoje. Por isso deposito a
mais implícita confiança nos remédios do doutor.
O reverendo assegurou que vários outros pacientes tinham melhorado: “O doutor … transferiu-os para a área dos suspeitos, de modo que possa liberá-los assim que estiverem curados” (Hawaii, Legislature of 1890, p.21).
O relatório de quatro dos cinco membros da comissão parlamentar24 concluiu que as acusações contra Charles Kahalehili eram verdadeiras. Na última visita ao hospital, chamaram todos os pacientes e perguntaram a cada um, em separado, como eram tratados por ele e se queriam que continuasse como agente do Conselho. Ouviram um unânime “não”. Recomendaram, então, que deixasse de ter qualquer ingerência na administração do hospital. Como agira sempre conforme as instruções ou com a conivência de Reynolds, consideraram os parlamentares que ele tampouco era pessoa adequada para servir ali como agente do Conselho de Saúde.
A partir das evidências colhidas, foi provado … que o dr. Lutz é
indiscutivelmente o único em condições de dirigir o tratamento
médico das pessoas afetadas por esta doença … Foi
demonstrado … que o hospital todo tem grande confiança em
seu tratamento, e a comissão acredita que se não forem
colocados obstáculos à sua ação, ele poderá ter sucesso na
cura de alguns dos casos … já que muitos deles apresentam
notáveis melhoras.
A comissão constatou, também, que os pacientes tinham “grande confiança na irmã Rose Gertrude que … toma conta deles como faria uma mãe com o filho, e eles a amam e respeitam”. Lutz deveria ter plena autoridade sobre os pacientes, e a irmã Rose Gertrude, total controle sobre o hospital, sob a supervisão direta do Conselho de Saúde. A comissão recomendou, ainda, que este contratasse duas equipes de serventes e enfermeiras, uma para tomar conta dos suspeitos, somente, a outra para cuidar dos casos avançados e confirmados.
Kimball deixou a presidência do Conselho de Saúde, e em 10 de setembro de 1890, seu sucessor, dr. David Dayton, pediu a Lutz e Amy que reconsiderassem sua decisão de deixar Kalihi, mas eles não quiseram permanecer.
Os eventos que os levaram a isso podem ser inscritos num quadro mais amplo de tensões envolvendo as autoridades sanitárias e a população que estava sujeita àquela lei draconiana de 1865, que redundou na segregação de milhares de portadores ou supostos portadores do bacilo de Hansen. Em 1885, a transferência de filhos de leprosos de Molokai para Honolulu levara um pai desesperado a assassinar dois policiais e a ferir um terceiro. Numa aldeia chamada Kailua, em 1890, Kealoha reagiu a tiros contra os policiais que foram buscá-lo. Segundo Mouritz, entre 1865 e 1895 houve pelo menos uma dúzia de episódios similares. À época em que Lutz e Amy estiveram no arquipélago, a ‘limpeza’ da ilha do Havaí fora consumada e resultara na reclusão de cerca de 400 pessoas. Um xerife quis fazer o mesmo na ilha de Kauai, mas quando ele dava caça aos leprosos da aldeia de Kalalu, armado até os dentes, um canaca chamado Koolai o fuzilou e fugiu. O governo mandou 25 soldados em seu encalço. Koolai emboscou-se num vale com uma Winchester e bastante munição e pôs seus perseguidores a correr. Nunca foi preso, mas consta que morreu da doença cinco anos depois. O episódio mais grave ocorreu em julho de 1893, e ficou conhecido como “a guerra dos leprosos em Kauai”. Numa conjuntura de guerra civil latente, que resultaria na deposição, em 1894, da rainha Lydia Liliuokalani (2.9.1838 – 11.11.1917) pelos estrangeiros que queriam a anexação do arquipélago aos Estados Unidos, o Conselho de Saúde ordenou a destruição de um aldeamento de leprosos no vale Kalalaul, onde eram alimentados e protegidos por parentes e amigos (Souza Araújo, 1929, p.96-7).
Moça Hula usando malei lei, cerca de 1908. Foto de Ray Jerome Baker. Em Hoefer, Hans Joannes. Havaí. Ed. Apa Productions. USA,
1985, p.298.
A bonança
Até setembro de 1890, Amy residiu no hospital, e Lutz, no centro da cidade. Bertha, a primogênita que gerariam alguns anos depois, recorda-se da mãe a lhe contar que
quando ia fazer compras em Honolulu, todo o mundo a
conhecia e os comerciantes a recebiam muito bem, mas todos
lhe pediam fervorosamente que não tocasse nas mercadorias.
Abriam as fazendas, mostravam tudo o que quisesse ver, mas
não queriam nem por nada que ela tocasse no que ia comprar,
se não depois de comprado e embrulhado. (Lutziana)
Segundo Bertha Lutz, o que aproximou a irmã Rose Gertrude do médico brasileiro foi o destemor ao contágio e a conseqüente e afetuosa proximidade com os pacientes. Os outros médicos
não escondiam seu receio ao examinar os leprosos, ao passo
que ele os tratava com toda a naturalidade, com a máxima
bondade, como se fossem pacientes comuns ou pessoas
amigas suas. Ela seguiu-lhe logo o exemplo, e durante o tempo
em que esteve no ... hospital de leprosos, nunca evitou o
contato com eles e nunca contraiu a doença. Tal situação, de
grande coragem de um e outro, não podia deixar de aproximá-
los. (Corrêa, 1992, p.150)
Como vimos, a amizade deu pasto às maledicências espalhadas por Kahalehili e outros integrantes da administração sanitária, sobretudo o hábito que adquiriram de fazer longos passeios a cavalo nas horas vagas, quando Amy usava trajes seculares em lugar do hábito religioso (Law, s.d., p.4). Dreizehner, um dos pacientes que depuseram perante a comissão parlamentar, fez a esse respeito um comentário interessante: “A irmã queixa-se de que foi insultada, e ela foi insultada. Agora, há um homem da América do Sul que viu que ela necessitava de ajuda, e a tem ajudado – ele tem estado atrás dela o todo o tempo, igualzinho a um cão” (Hawaii. Legislature of 1890, p.29).
Em sua clínica particular, Lutz atendia principalmente europeus residentes em Honolulu, “entre os quais muitos portugueses”. Fez ótimas relações com uma família alemã e com um chinês que exercia grande autoridade sobre a comunidade estrangeira. A enfermeira inglesa passou também a freqüentar esse círculo de pessoas que não tinham medo de se relacionar com quem convivia com os leprosos. Segundo Bertha Lutz, eles mantinham boas relações com a elite nativa. Ilustra isso com um bilhete da rainha do Havaí Kapiolani enviado a Lutz quando uma das jovens de sua corte foi examinada por ele. Teria escrito: “tenho grande receio de já saber qual vai ser o seu diagnóstico”. E, de fato, a menina estava leprosa. “Minha mãe contava da extrema gentileza da rainha, de como ela lhe dava, de vez em quando, algumas plantas, que minha mãe não conhecia da Inglaterra, para cultivar em seu pequeno jardim.” (Lutziana).
As únicas personagens com quem Adolpho Lutz não se dava bem eram os missionários
que estavam procurando converter os canacas, mas que com
eles faziam negócios que reputava pouco honestos, como
trocar grandes trechos de terra por pequenas amostras de
fazenda, punindo-os por pequenas infrações. O dr. Lutz
costumava dizer que algumas das grandes fortunas das
famílias célebres do arquipélago tinham origens que não eram
boas de examinar… (Lutziana)
A crise que relatamos aproximou o médico brasileiro e a enfermeira inglesa, apesar de terem idéias antagônicas quanto à religião. Mas a formalidade germânica de Lutz e o pudor daquela moça educada à luz de rígidos padrões vitorianos impediram que dessem vazão aos sentimentos e desejos que acalentavam um pelo outro, e que certamente transluziam pelas máscaras com que desempenhavam seus papéis cotidianos. A convite daquele chinês influente em Honolulu, senhor Liu, Amy foi passar uma temporada na casa onde residia com sua família depois que deixou Kalihi e enquanto aguardava a viagem de regresso à Inglaterra. Dias antes de embarcar, o jovem médico brasileiro pediu-a em casamento. De acordo com a narrativa de Bertha Lutz (Lutziana), foi celebrado em 19 de abril de 1891, em Honolulu, na casa daquela família, em bucólico altar erguido no jardim e enfeitado com grinaldas de flores em que sobressaía o alvor dos copos-de-leite. Segundo os documentos consultados por Corrêa (1992, p.149-50), Lutz e Amy casaram-se em 11 de abril, na residência de H. M. Schmidt – provavelmente, o chefe da família alemã que abrigara Lutz – em cerimônia simples celebrada por um pastor da Igreja da União Central de Honolulu, assinando como testemunhas o próprio Schmidt, J. Ena e G. Woodhouse, cônsul inglês.
Bilhete escrito pela rainha do Havaí a Adolpho Lutz, em 4.4.1890:
Caro doutor Lutz. Senhor. Faria o grande obséquio de examinar
Hahünaib Kaauwai [?] para ver se apresenta sinais da lepra, e se
algo puder ser feito pela pobre menina, por favor informe-me por
intermédio do portador. S. M. Rainha Kapiolani. Palácio iolani”
(BR.MN. Fundo Adolpho Lutz. Caixa 22, pasta 255).
O casal permaneceu em Honolulu por pouco mais de um ano, até meados de 1892. Lutz manteve a clínica particular, e continuou a tratar alguns leprosos em Kalihi e Molokai, recusando, porém, os insistentes convites que o Conselho de Saúde lhe fazia para que reassumisse seu posto. Amy manteve contato com pessoas que conhecera em Kalihi depois que foram mandadas para Molokai. Em 1891, usou parte do dinheiro que lhe fora enviado da Inglaterra para construir uma biblioteca em Kalaupapa batizada com o nome de Beretania Hall (Law, s.d., p.5).
Uma das distrações prediletas de Adolpho Lutz era excursionar pelas ilhas para estudar sua flora e fauna, e é possível que Amy participasse dessas excursões. Em Monatshefte für Praktische Dermatologie (set.1891-ago.1892), o médico brasileiro publicou importantes trabalhos sob forma epistolar, prosseguindo a correspondência no segundo semestre de 1892, quando o casal se transferiu para São Francisco, na Califórnia. Numa das cartas, descreveu, pela primeira vez, as nodosidades justarticulares, que depois seriam estudadas por Jeanselme “como novidade” (Neiva, 1941, p.iv; Portugal, 1944), sendo hoje conhecidas como
nodosidades de Lutz-Jeanselme. 25
Casamento de Adolpho Lutz com Amy Marie Gertrude Fowler, em
11 de abril de 1891, em Honolulu, Havaí. Acervo do instituto Adolfo
Lutz.
Um bonde da The Hawaii Tramways Company, em 1890, parado
diante de Aliiolaní Hale na Kíng Street, em Honolulu (Hoefer, 1985,
p.49).
Residência do honorável C. R. Bishop, provavelmente o dono do
banco onde Amy Lutz depositava seu dinheiro (Whitney, 1890).
No Havaí, Adolpho Lutz deu prosseguimento às investigações sobre as verminoses de humanos e animais domésticos. Os biógrafos dão grande ênfase aos trabalhos sobre a fascíola hepática e seus transmissores, que o levaram a estudar os caramujos que viviam nas diferentes partes das ilhas onde havia criação de carneiros. Esses estudos iriam prepará-lo para o que Deane considera (1955, p.80) sua maior contribuição à zoologia médica no Brasil: “suas magistrais pesquisas sobre o Schistosoma mansoni e os moluscos responsáveis pela propagação da esquistossomose,” pesquisas iniciadas na década de 1910, no Instituto Oswaldo Cruz.
Albuquerque (1992, p.13) situa no Havaí os fundamentos de outra descoberta importante realizada posteriormente por Adolpho Lutz: a verificação de que plantas armazenadoras de água serviam de hábitat para pequenos crustáceos. Isso direcionaria depois sua atenção para o hábitat do transmissor da malária silvestre.
Segundo o texto da Comissão do Centenário do cientista (1956, p.9), foi também naquele arquipélago que iniciou as observações entomológicas que embasariam sua atuação posterior como sanitarista. Veremos que já formulava a hipótese da transmissão da lepra por mosquitos. De acordo com Albuquerque (1950, p.13-4), tal convicção iria se fortalecer no decorrer dos anos, mas a partir das
seguintes observações feitas no Havaí:26
Vista de baía próxima a Onomea, Havaí (Whitney, 1890).
Embora nunca se houvesse furtado ao contato direto com os
leprosos não contraíra a moléstia, não se tendo também
contagiado a jovem enfermeira, em cujos braços carinhosos
muitos deles atravessaram os portais da vida para a morte.
Entretanto, entre os enfermos que ingressaram no leprosário,
muitos jamais haviam sequer visto um outro morfético. Tempos
houvera mesmo, e não muito remotos, em que nem a lepra nem
os mosquitos existiam em Havaí. A linguagem indígena não
possuía termo que designasse nem lepra, nem mosquito,
apelidando a morféia de ‘doença chinesa', pois esta só
aparecera com a vinda dos chineses e a cultura do arroz por
eles estabelecida. Esta cultura era feita, como de costume, em
valas com água para a constante irrigação, onde os mosquitos,
também procedentes do estrangeiro, encontraram um excelente
micro-hábitat.
Adolpho Lutz e a teoria da transmissão da lepra
por mosquitos
A primeira especulação de Lutz sobre o papel de insetos sugadores de sangue encontra-se em “Estudos sobre lepra,” escritos em Limeira, em 18851886, e publicados em seguida à primeira estada na clínica de Unna, no Monatshefte für Praktische Dermatologie (1887). Ao descrever as lesões primárias da lepra nervosa, que poderiam representar “a porta de entrada da infecção,” considerou “um fato impressionante que a primeira localização … se efetue quase sempre nas partes do corpo que se mantêm descobertas e expostas às picadas de insetos e outros traumatismos” (p.549).
Na parte relativa à transmissão da doença, analisava as inconsistências da teoria da hereditariedade e, apesar de já estar fascinado pelo bacilo de Hansen, assumia posição divergente daquela seguida pelos adeptos do novo paradigma microbiano:
com a observação que tenho da doença, não hesito em
declarar a lepra menos contagiosa do que a tuberculose, e em
taxar a expulsão sumária dos leprosos do seio da sociedade …
não só de desumana, como pouco eficaz, e ainda mais, de
incoerente: e isso porque nem a lepra oferece maior perigo para
a vida do próximo que a tuberculose, nem apresenta
perspectivas mais sombrias quanto à cura.
A infecção de cada novo caso exigia a preexistência de outro, num espaço determinado, mas “as condições necessárias para a ocorrência do novo caso são de tal maneira complexas e peculiares que só raramente estarão preenchidas na vizinhança imediata dos leprosos”.
Lutz via a lepra com olhos de parasitologista, propondo uma analogia com a ancilostomíase, tema do estudo que publicava em Leipzig, à mesma época. Como a lepra, pressupunha a existência de outros casos, mas
quem habita um país onde ocorra o ancilóstomo pode contrair a
doença por meio de água lamacenta, sem jamais se ter
aproximado de um doente, enquanto o convívio com doentes
poderá ser completamente inócuo, com a condição de rigoroso
asseio quanto à água potável e os dejetos.
Lutz considerava a lepra “doença dificilmente transmissível, na qual só muito raramente será demonstrável uma transmissão direta e em que, por isso mesmo, a infecção pelo convívio familiar desempenha apenas um papel subalterno”. Em sua opinião, a transmissão congênita desempenhava papel “completamente insignificante;” a morbidade mantinha-se “principalmente pela ocorrência esporádica de novos casos no seio de famílias até então poupadas”.
Depois que se aprendera a distinguir a lepra de outras doenças dermatológicas parecidas – como a micose fungóide, a psoríase, o rinoscleroma, as erisipelas etc. -, já não eram comunicados casos de novas infecções em países indenes, mesmo quando visitados por vítimas do mal de Hansen, fato que depunha, também, contra a idéia do contágio direto: “só eu cheguei a ter conhecimento de cerca de dez leprosos que partiram para a Alemanha no decurso destes últimos anos”.
Para explicar as peculiaridades da transmissão indireta, admitia, em caráter ainda hipotético, que o sangue ou as excreções das mucosas do doente, contendo o agente infeccioso, requeressem “um período de maturação em temperatura mais baixa para desenvolver sua capacidade de transmissão (por exemplo, por meio de esporos ou formas de resistência, ou por outra fase de um ciclo evolutivo), ou então … que seja indispensável uma inoculação direta vulnerante (por exemplo, por meio de insetos que picam)”.
No final do trabalho escrito em Limeira e publicado na Alemanha, em 1887, acrescentou a seguinte observação: “No isolamento em que me encontro, fui obrigado a renunciar por completo à possibilidade de levar em conta pormenorizadamente a bibliografia existente”. Não tivera acesso ao novo livro de Leloir, “e só por um acaso recebi a resenha do mesmo escrita por Unna … Vejo com satisfação que coincidem muitas das nossas observações, e tenho a esperança de que o leitor queira dar às repetições involuntárias o valor de corroborações”.
Henry Leloir (1886) parece ter sido um dos primeiros a cogitar na transmissão do “vírus” leproso por mosquitos. Edward Arning, não obstante fosse autor de experiência crucial em favor do contágio da lepra, teria, como Lutz, correlacionado, em 1891, o aparecimento mais ou menos concomitante da doença e dos mosquitos nas ilhas havaianas. A mais importante referência aí talvez seja Mouritz: em fevereiro de 1885, examinou 178 kokuas que viviam entre os leprosos em Molokai e não encontrou sinais da doença; um ano depois, dezessete tinham sintomas de lepra. Mouritz levantou a hipótese de que fosse inoculável em fissuras da pele e das mucosas externas possivelmente por picadas de insetos ou pela presença de ectoparasitos, como o da sarna (Souza Araújo, 1929, p.65).
Halloppeau, Chantemesse, Sommer, Leboeuf, Noc, Scott, Joly, Blanchard e, um pouco mais tarde, os colombianos Juan de Dios Carrasquilla e Guillermo Muñoz Rivas são outros nomes associados à teoria da veiculação da lepra “por artrópodes, especialmente
acarianos e insetos, salientando-se dentre estes, os mosquitos”.27
Entre os nomes citados, destacamos o do médico e parasitologista Raphael Blanchard, que parece ter sido o ‘Manson’ da medicina
tropical francesa. 28 Atuava no ápice da rede que interligava zoológos e parasitologistas do mundo inteiro, cada vez mais voltados para temas de relevância médica (a esse respeito, ver Sanjad, 2003, p.85-111; Caponi, 2003, p.113-49). Foi um dos fundadores e secretário-geral (1876 a 1900) da Société Zoologique de France. Com Alphonse Milne-Edwards, organizou os congressos internacionais de zoologia – o primeiro em 1889, os seguintes a cada três anos -, que sacramentaram regras mais precisas para a nomenclatura zoológica. Blanchard presidiu a Comissão Internacional Permanente da Nomenclatura Zoológica a partir de 1898, ano em que criou os Archives de Parasitologie. Em 1902, fundou ainda o Institut de Médecine Coloniale, com o objetivo de proporcionar formação em parasitologia aos médicos franceses e estrangeiros que atuavam nos chamados ‘países quentes'.
Raphael Blanchard (1857-1919) (Olpp, 1932, S44).
Teve grande repercussão a opinião externada por ele em 1900 e em 1901, no Bulletin de lAcademie de Médecine e nos Archives de Parasitologie, de que a lepra podia ser inoculada pelos mosquitos, não apenas nos países quentes, onde era endêmica, mas até em Paris, que devia se armar contra aqueles novos inimigos da salubridade pública. Em 1905, Blanchard publicou Les moustiques: Histoire naturelle et médicale, um dos tratados fundadores da entomologia médica, onde apresentava, nas palavras de Lutz (1939, p.477), “excelente sumário dos argumentos a favor da transmissão culicidiana da lepra”. O parasitologista francês discorria aí sobre o lugar dos mosquitos na classificação zoológica, sua morfologia e anatomia, seus hábitos e metamorfoses, gêneros e espécies. No capítulo V, antes de apresentar as medidas de profilaxia contra os mosquitos, analisava seu papel comprovado como transmissores da malária, febre amarela e filariose e seu papel “presumido” na veiculação de outras doenças: não apenas a lepra (p.543-5), mas também o, a dengue, a peste, a úlcera dos países quentes, a verruga, a pinta, a febre ondulante e uma epizootia eqüina do sul da África.
O II Congresso Internacional de Lepra, realizado em Bergen, em 1909, aprovou recomendação feita pela delegação britânica de que era desejável a elucidação do problema da transmissão da lepra por insetos (conclusão VI citada por Souza Araújo, 1952, p.1). Vários leprólogos já vinham examinando mosquitos que tinham picado morféticos, e em alguns encontravam bacilos acidorresistentes. Outros faziam experiências com picadas de mosquitos, sem obter resultados convincentes. Segundo Adolpho Lutz (1939, p.476), isso acontecia porque as experiências não eram “conduzidas por métodos rigorosos … Além de outras falhas, não foi tomado em consideração o intervalo necessário à incubação do germe no corpo do mosquito”.
Em carta enviada a Lutz, em junho de 1905, Blanchard pedia a indicação dos estudos que publicara sobre a transmissão da lepra pelos mosquitos, desculpando-se pelo fato de que "les travaux publiés au Brésil nous sont malheureusement peu accessibles ici". Embora a estada no Havaí houvesse reforçado a convicção de Lutz de que a hipótese culicidiana era a mais adequada para explicar o modo de transmissão da lepra, “não podendo apresentar provas positivas,” nada publicara a respeito: “apenas … encarreguei, na ocasião de um congresso, o professor Unna, de chamar, de minha parte, a atenção dos leprólogos sobre o assunto” (apud Souza Araújo, 1956, p.130). O zoólogo e bacteriologista brasileiro enviou mosquitos para a coleção entomológica de Blanchard, “qui ne comptait pour ainsi dire aucun type sud-américain‘. Enviou também
uma brochura sobre a febre amarela. 29
Durante o tempo em que Adolpho Lutz esteve à frente do Instituto Bacteriológico de São Paulo (1893 a 1908), a lepra foi objeto de estudos epidemiológicos e laboratoriais, mas permaneceu em segundo plano perante outras questões mais candentes para a saúde pública do Estado, como a difteria, a febre tifóide, o cólera e as disenterias amebianas e bacilares, a peste bubônica, a malária e a febre amarela. Na verdade, no tocante à lepra, são bem magros os resultados colhidos por Lutz, de acordo com os relatórios escritos por ele durante aqueles anos. Em 1893, como diretor interino ainda, repetiu as experiências que já fizera no laboratório de Unna, em Hamburgo, e no Hospital dos Lázaros, no Rio de Janeiro: as tentativas de cultivar o bacilo de Hansen deram resultados igualmente frustrantes (ver Lutz, 1895, p.207-8).
A lepra só voltou a ser mencionada no relatório concernente a 1898, em que Lutz dava muita ênfase a acontecimentos relacionados à consolidação da medicina tropical na Inglaterra e na Alemanha. O cientista saudava a inauguração da escola de medicina tropical em Londres, e a iminente criação de outra em Liverpool, assim como o lançamento do Journal of Tropical Medicine, editado na capital inglesa por James Coultie e W. J. Simpson. Lutz rejubilava-se com a publicação de dois “excelentes” tratados, o de Manson sobre Tropical diseases (1898) e o de Botto Scheube (1853-1923), Die Krankheiten der warmen Länder (1898). Referia-se, ainda, à seção para doenças tropicais inaugurada na 66a reunião da British Medical Association, realizada em Edimburgo, em julho daquele ano. Entre as comunicações apresentadas então sobressaíra a de Manson relativa às investigações de Ronald Ross, tendentes “a aprovar a teoria de que os mosquitos têm um papel importante na propagação da malária”. Robert Koch organizara uma expedição a vários países para investigar a transmissão daquela doença, que vinha sendo estudada tanto por Lutz e sua equipe, em São Paulo, como por Francisco Fajardo, Oswaldo Cruz e alguns outros bacteriologistas do Rio de Janeiro (Benchimol, 1999).
O Primeiro Congresso Internacional sobre Lepra, realizado em Berlim, em outubro de 1897, é incluído entre os eventos relacionados à instituição da medicina tropical e ao fortalecimento de uma medicina fundamentada em “observações exatas” proporcionadas pelas ciências naturais.
Lutz lamentava que o governo de São Paulo não o tivesse enviado, nem a outro delegado, a esse Congresso. A transmissão de doenças por insetos hematófagos era a idéia-força que lhe servia de pedra de toque para avaliar as comunicações apresentadas em Berlim, “geralmente de pouco alcance”. Saíra fortalecido o bacilo de Hansen e enfraquecida a teoria da transmissão hereditária da lepra, observava o cientista. O soro desenvolvido pelo colombiano Juan de Dios Carrasquilla, já reprovado nos testes feitos no Instituto
Bacteriológico de São Paulo,30 teria encontrado “raros partidários,” e ainda assim Lutz lastimava que aquela assembléia “não condenasse de um modo mais enérgico estes silogismos absurdos e observações sem critério” (Lutz, 1898a, p.5-6). Naquele relatório, Lutz não aludiu à transmissão da doença por mosquitos, mas é ela, certamente, que inspira o comentário de que, em Berlim, “o perigo do contágio [foi] um tanto exagerado pelos que menos observaram a moléstia” (p.5).
O resumo dos trabalhos realizados no Instituto Bacteriológico de São Paulo, de 1892 a 1906, condensa em alguns parágrafos as experiências relacionadas à “morféia": motivara apenas três autópsias durante todo aquele período, número que contrasta com as muitas dezenas feitas para esclarecer as doenças já mencionadas, que haviam grassado epidemicamente no Estado. Embora não conseguisse cultivar o bacilo da lepra, Lutz não via dificuldade nas provas laboratoriais destinadas a corroborar os exames clínicos: fizera vinte em soldados da Força Pública. O bacilo de Hansen era facilmente encontrado no
suco dos tubérculos e nas ulcerações da mucosa nasal, como
também nos gânglios linfáticos correspondendo à região
afetada. Pela sua forma e o modo de reagir à coloração só
pode ser confundido com o bacilo de Koch; mas esta confusão
torna-se quase impossível em vista da sintomatologia diferente
das duas moléstias como também pelo agrupamento
característico dos bacilos de Hansen. (Lutz, Revista Medica de
São Paulo, 28.fev.1907, p.81)
O relatório que citamos é o único que alude a estudos sobre a veiculação desse germe por mosquitos: Lutz verificara que não passava ao estômago dos insetos, mesmo quando a picada se dava nos próprios tubérculos: “O contrário deve se dar nos períodos febris, quando os bacilos circulam no sangue, mas faltou ocasião para verificar este fato” (p.81).
Em 1901-1902, Adolpho Lutz arquitetou a repetição, em São Paulo, das experiências que acabara de fazer em Cuba a comissão norte-americana chefiada por Walter Reed para provar a teoria de Carlos Juan Finlay, da transmissão da febre amarela pelo Stegomyia fasciata, atual Aedes aegypti. O objetivo de Lutz e de Emilio Ribas, diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, era conquistar para a nova estratégia profilática os médicos e leigos que acreditavam na etiologia miasmática e, sobretudo, nos bacilos e fungos incriminados por Domingos Freire, Giuseppe Sanarelli e outros caçadores do micróbio da febre amarela. A demonstração encenada por Lutz e Ribas ajudou a desobstruir o caminho para a campanha contra o Stegomyia fasciata conduzida por Oswaldo Cruz na cidade do Rio de Janeiro, em 1903-1905, em meio a outras ações sanitárias e urbanísticas destinadas a ‘regenerar’ e ‘civilizar’ a capital brasileira (Abreu, 1987; Benchimol, 1992).
Novos edifícios em construção em 1908, à época em que Adolpho
Lutz se transferiu para o Instituto Soroterápico Federal que, em
março daquele ano, passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz
(DAD/COC/Fiocruz).
Depois que se transferiu para o Instituto Oswaldo Cruz, em 1908, Adolpho Lutz, que já vinha estudando os transmissores da febre amarela e da malária, retomou as investigações sobre os insetos hematófagos que pudessem hospedar o microrganismo da lepra. A doença ascendia na hierarquia de preocupações sanitárias, e em Manguinhos Lutz encontrou o tempo e as facilidades laboratoriais para retomar uma linha de investigação que permanecera sufocada sob as pesadas rotinas da saúde pública paulista. Tudo indica que seus resultados foram inconclusivos. Ainda assim, pela primeira vez, sustentou publicamente, com muita ênfase, a teoria da transmissão da lepra por mosquitos, empenhando nessa campanha seus magros resultados experimentais e todo o peso de sua autoridade científica.
A controvérsia de 1915 e seus desdobramentos
A lepra figurava entre as doenças de notificação compulsória – ao lado, entre outras, da febre amarela, peste bubônica, cólera, varíola e difteria – no Regulamento Sanitário elaborado por Oswaldo Cruz após ter sido nomeado diretor-geral de Saúde Pública, em 1903. Apesar do pressuposto contagionista subjacente àquela determinação, por influência, talvez, de Lutz, as “Instruções particulares relativas a cada uma das moléstias de notificação compulsória” consideravam que “os mosquitos e outros insetos parasitas do homem (pulgas, percevejos etc.)” eram suspeitos de