Adolpho Lutz: hanseníase
Apresentação Histórica/Historical Introduction
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
A Segunda Guerra Mundial foi um divisor de águas no tratamento da doença. O emprego dos compostos derivados da diamino-difenil-sulfona – Promin, da Parke Davis, Diazone, da Abbot, Sulphetrone, da Burroughs Wellcome -proporcionaria, desde fins da década de 1940, a cura de milhares de doentes internados que passariam a tratar-se em dispensários até a alta definitiva, ao cabo de alguns anos (Coutinho, 1957, p.321). Não cabe aqui esmiuçar a conjunção de fatores químico-farmacêuticos, sócio-econômicos e político-culturais que levaram à transformação dos leprosários e colônias de leprosos em instituições obsoletas, fadadas à ruína ou à transformação em momentos destinados a outros usos, até mesmo à preservação da memória de práticas médicas felizmente superadas. Mas caso o leitor encontre telas enferrujadas a revestir janelas e portas num desses estabelecimentos fantasmas, saberá agora que representam prosaicos vestígios das idéias que Adolpho Lutz tão tenazmente defendeu. Neste, como em muitos outros casos, o historiador não encontra o remate límpido que se supõe haver nas contendas da ciência, separando o erro da verdade com o vinho da água.
A figura 1 mostra um casal de hansenianos (Sebastião e Benedita),
de Rola Moça, Bambuí, Minas Gerais, em cujo rancho Souza Araújo
e equipe capturaram barbeiros (Triatoma infestans)
espontaneamente infectados com o bacilo de Hansen. Na figura 2
vê-se o Dr. Vandyck fichando o hanseniano J. A. Luz e sua filha, no
arraial da Mata, em São Gotardo, Minas Gerais, “em pleno foco da
lepra, de barbeiros e carrapatos”. Fotos de Souza Araújo (1943,
p.453a), de 13 e 18.12.1942.
Dez hansenianos selecionados para infecção do mosquito, em
condições naturais. Na foto tirada por Souza Araújo, em março de
1943, os doentes posam com o entomologista Oliveira Castro e o
guarda Otto, próximos a uma lagoa tributária do rio do Peixe. Aí, no
crepúsculo, foram capturados, nesses doentes, os primeiros
anofelinos, flebótomos e simuliídeos (borrachudos) infectados com o
bacilo da lepra (Souza Araújo, 1943b, p.170, fig. 5).
Adolpho Lutz e a filha, Berta Maria Júlia Lutz, na escadaria da
Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, quando ela tomou posse
como deputada federal, em julho de 1936 (BR. MN. Fundo Bertha
Lutz).
Notas
1 Embora se tenha adotado, no Brasil e em outros países, o termo hanseníase para designar a doença, de maneira a livrar suas vítimas dos estigmas associados à “lepra,” optamos pelo uso desta palavra porque era ela que tinha curso no período histórico examinado. A atitude moralmente correta, neste caso, implicaria um anacronismo inaceitável do ponto de vista historiográfico. Sobre as implicações atuais do uso de hanseníase, ver Oliveira et al. (2003).
2 Ver Danielssen & Boeck (1848). Heráclides Cesar de Souza Araújo preparou a edição comemorativa do centenário do Atlas de la lèpre par C. Danielssen e C. W. Boeck, Bergen en Norvèege, 1847 (Rio de Janeiro, 1946).
3 Obregon, 2000, p.266; Lutz, 1887. O trabalho de Hansen, publicado originalmente no Norsk Magazin for Laegevidenskaben (1874) foi reimpresso em 1955 pelo International Journal of Leprosy. ObregÓn é hoje uma das principais referências em história da lepra; publicou excelente livro a esse respeito (Medellin, 2002) e, mais recentemente, um artigo sobre a campanha contra a doença na Colômbia (2003).
4 O soro do médico colombiano Juan de Dios Carrasquila foi objeto de um parecer negativo de Adolpho Lutz, que o testou no Instituto Bacteriológico de São Paulo. A afirmação feita por ObregÓn (2000) de que a busca de uma vacina para lepra converteu-se no “programa quase exclusivo de investigação científica aceitável” não se aplica ao Brasil, não obstante essa busca fosse aqui intensa para a febre amarela.
5 “Relatório do movimento e estado do Hospital dos Lázaros precedido de algumas considerações acerca da morféia, seu tratamento e experiências que se fizeram nesse mesmo hospital no ano de 1869 pelo dr. João Pereira Lopes”. Contido em Lopes (1870) e parcialmente transcrito em Souza Araújo (1946, p.463-71).
6 Para descrição das plantas citadas, ver Cruls (1965).
7 Antes de completar a sua educação médica em Estrasburgo, em 1875, Paul Gerson Unna (1850-1929) cursou as universidades de Heidelberg e Leipzig. A tese de doutoramento sobre a histologia e história do desenvolvimento da epiderme humana foi precursora de abordagens muito originais no campo das doenças de pele. Em 1881, fundou uma clínica dermatológica privada que, três anos depois, foi transferida para instalações mais modernas em Eimsbüttel, um subúrbio de Hamburgo. A instituição logo atraiu grande número de estudantes da Alemanha e de outros países. Co-editor do Internationaler Atlas seltener Hautkrankheiten (Hamburg & Leipzig, 1889-1899), Unna pesquisou os processos bioquímicos da pele, e nela descobriu o Stratumgranulosum. Descreveu diversas doenças e introduziu terapias novas. O livro de histopatologia que publicou em 1884 consolidou seu prestígio como um dos mais importantes dermatologistas do mundo
(www.whonamedit.com/index.cfm). No próximo livro da Obra Completa de Adolpho Lutz, aprofundaremos a análise de sua relação com Unna e da inserção de ambos na dermatologia, especialidade médica que se instituía em diversos países.
8 Neumann era docente da Universidade de Heidelberg e agregado à Seemannskrankenhause (Casa de Saúde de Marinheiros) e ao Institut für Schiffs und Tropenkrankheiten (Instituto de Doenças Navais e Tropicais), em Hamburgo. No verão de 1904, faria uma viagem ao Brasil, com M. Otto, para estudar a febre amarela, publicando em seguida Studien überdas Gelbe Fieber in Brasilien (Leipzig, 1906).
9 “Relatório do dr. Lutz comunicado ao dr. Azevedo Lima”. Rio de Janeiro, 4.jul.1887. Em Azevedo Lima, 1887, p.24-32. Transcrito em Souza Araújo (1946, p.491-3).
10 Ver bibliografia de Adolpho Lutz, organizada por Herman Lent em Neiva (1941). Foi reimpressa, com correções e acréscimos, em História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 10, n.1, p.362- 409.
11 BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 255, maço 2.
12 Em 20 de setembro de 1884, inoculou Keanu, “friccionando-lhe, numa bolha de vesicatório no braço direito e na orelha, pus de uma úlcera leprosa. De uma menina de 9 anos, com lepra tuberosa, retirou um leproma, logo após um acesso febril … [que] foi introduzido numa incisão larga e profunda feita no antebraço esquerdo de Keanu, e aí fixado por cinco pontos de sutura … No segundo mês o inoculado sentiu dores reumatóides; logo em seguida começou o enfartamento dos nervos cubital e mediano do braço inoculado, durando do 5o o ao 8 mês … Em 25.set.1888 estava bem pronunciada a lepra tuberosa em Keanu, e ele foi removido para o leprosário de Molokai” (Souza Araújo, 3.set.1936). O segundo episódio rumoroso envolvendo Arning foi o exame e diagnóstico da lepra no padre Damien, de quem falaremos adiante.
13 Como no Brasil, os imigrantes chineses eram considerados pelos europeus e norte-americanos como racialmente inferiores, sujos, sexualmente promíscuos e portadores de outras características físicas e morais danosas à higiene pública (Obregón, 1996, p.165; Crosby, 1992, p.194; Gussow, 1989, p.96-7).
14 Carta de Emerson a Lutz, em 6.nov. 1888, parcialmente transcrita por Corrêa (1992, p.145-6).
15 Carta a Emerson, de 2.jun.1888. Segundo Marcelo Oswaldo Álvares Corrêa (1992, p.144), principal fonte sobre esse período da vida de Lutz, seu nome teria chegado ao conhecimento de Emerson por intermédio de H. W. Schmidt, cônsul da Suécia e Noruega, ligado, também, à empresa H. Hackfeld & Co. Em 5.maio.1888, Unna escreveu a Lutz de Paris. Encaminhava-lhe carta de Schmidt, tratando de sua ida ao Havaí, e deixava a Lutz inteira liberdade para decidir o que melhor lhe conviesse (BR.MN., Fundo Adolpho Lutz, pasta 252, maço 2). No começo de 1888, Emerson consultou o dr. Edward Arning para saber se não queria retomar suas investigações direcionadas agora para a terapêutica, mas este declinou, alegando que a doença estava sendo estudada por profissionais competentes em centros médicos europeus que ofereciam condições mais vantajosas do que o Havaí (Law, s.d., p.3; também hml.org/mmhc/mdindex/arning.html).
16 No próximo livro desta coleção, dedicado à dermatologia e micologia, analisaremos o significado desse congresso tanto para Lutz como para as especialidades médico-biológicas a que ele se vinculava.
17 A colônia de Molokai teve como médicos-diretores os drs. N. B. Emerson (1879), C. Neilson (1880-1881), G. L. Fitch (1882-1884), A. St. M. Mouritz (1884-1887), C. A. Peterson (1888), S. B. Swift (1889-1892) e E. Oliver (1892-1902) (Souza Araújo, 1929, p.83).
18 Em visita a Honolulu, em janeiro de 1885, o padre Damien escaldou a perna e o pé. O médico que o examinou, dr. George Trousseau, verificou que não tinha sensibilidade naqueles membros. O dr. Edward Arning foi chamado e aplicou forte corrente elétrica através de uma agulha de platina fincada na perna do padre, que nada sentiu, confirmando-se a morte do nervo peroneal e de suas ramificações, provocada pelo mal de Hansen. O clérigo recusou-se a ser tratado por Arning no hospital de Kakaako. Fonte: hml.org/mmhc/mdindex/arning.html (acesso em fev.2003). A esse respeito ver também Obregón, 2002; Huenermann, 1953.
19 Law (s.d., p.1). Baseando-se, ao que parece, no diário da irmã Leopoldina Burns, essa autora afirma que Amy tornou-se católica para ganhar a confiança dos pacientes, ingressando na Ordem Terceira de São Domingos somente às vésperas de deixar a Inglaterra.
20 Também em Albuquerque (1950, p.11-2) lê-se que a viagem pelos Estados Unidos teve características de um “cortejo triunfal”.
21 Os demais integrantes do Conselho eram L. A. Thurston e S. M. Damon, que ela qualifica como “excelências,” e W. E. Rowell e J. T. Waterhouse, que trata como “honoráveis;” Potter era um simples squire.
22 Nascido no estado de Maine, em 9.jul.1832, Kimball graduou-se em medicina pela Harvard Medical School em 1857, e serviu na Guerra Civil norte-americana (1861-1865) como cirurgião do exército da União. Acompanhado da filha, chegou ao Havaí em 11.jun.1882. Em outubro, foi nomeado médico do governo no distrito de Hilo, onde permaneceu até maio de 1888. Prestou serviços também a quatro grandes propriedades rurais da região. Transferido para Honolulu, ficou responsável pelo dispensário da capital até janeiro de 1890, quando assumiu a presidência do Conselho de Saúde. Renunciou ao cargo depois da crise envolvendo Adolpho Lutz e Amy Fowler, que relataremos adiante, retornando aos Estados Unidos no início de 1891. Faleceu em Bridgton, em 20.jun.1902 (hml.org/mmhc/mdindex/arning.html, acesso em 7.mar.2004).
23 Seus componentes eram John W. Kalua (presidente), A. P. Paehaole, H. G. Grabbe, W. M. H. Halstead e T. R. Lucas. A última visita da comissão do Conselho de Saúde, da qual faziam parte J. O. Carter e Waterhouse, ocorrera dias antes da primeira visita da comissão do legislativo. Hawaii. Legislature of 1890. Select Committee on Complaint of Rose Gertrude in regard to Kalihi Hospital.
24 Legislature of 1890 (p.40-2). Era assinado por Kalua, Paehaole, Crabbe e Halstead. No “relatório da minoria,” Lucas endossou as conclusões do grupo, mas propôs que Kahalehili permanecesse no hospital sob a autoridade de Lutz e Rose Gertrude, e que Reynolds fosse mantido no cargo (p.43). Entre os depoimentos tomados pela comissão encontram-se indícios de que talvez fosse verdadeira a história contada por Bertha Lutz a respeito do amante da mulher indígena internado pelo irmão, que não seria um sacerdote, mas o próprio Carter, do Conselho de Saúde.
25 Esses trabalhos são examinados em detalhes no próximo livro da Obra Completa de Adolpho Lutz, concernente à dermatologia e micologia.
26 Os argumentos alinhavados pela autora provêm de trabalhos diversos de Lutz produzidos ulteriormente. Apresentados desta forma, não deixam claro que observações e hipóteses surgiram no Havaí, e como germinou e amadureceu a teoria que iria sustentar tão decididamente a partir da década de 1910.
27 Aragão, 1915, apud Souza Araújo, 1956, p.137 e Obregón (2002). De Henri Leloir, encontramos apenas Leçons sur la syphilis, professées à lhôpital Saint-Sauveur (Paris, 1886). Em documento do Arquivo Adolpho Lutz ('Transmissão da lepra por mosquitos,” caixa 19, pasta 74), Bertha Lutz anotou referências aparentemente extraídas de Edvard Ehlers, ‘Transmissibilité de la lèpre par les insectes succeurs de sang (parasites lectulaires),” in II Lepre Konferenz Mitteilungen u. Verhandlungen III, p.25-38. Na relação consta trabalho de Leloir intitulado Traité pratique et théorique de la lèpre (1886). Figuram ainda Ashmead (nada além do nome do autor); Baldomero Sommer, “La lèpre en Argentine,” Semaine Médicale, 1898; artigos com títulos não especificados de Blanchard (ver bibliografia); Arning (Archiv. F. Dermat. U. Syph., 1891); Scott (British Medical Journal, 18.8-29.set.1900); Noc (Annales d'Hygiene et de Médecine Coloniale, juil.-sept. 1903, p.481; janv.-mars 1904, p.11). Mais detalhadas são as referências a Chosky, autor de Report on Leprosy and the homeless Lepers Asylum Matunga at Bombay (1901); Hallopeau, “Leçons cliniques de l'hôpital St. Louis,” Bulletin del'Academie de Médecine, juil. 1901; Chantemesse (mesma publicação, mesma sessão, 30.jul.01); Pierre Cazamian, Archives de Médecine Navale, dec.1904, p.452); Goodhue, Indian Medical Gazette, Aug. 1906 e Journal of Tropical Medicine, 15.set.1906; Marchoux et Bouret, Annales de l'Institut Pasteur, 19, 1908, p.389 e Bulletin de la Societé de Pathologie Exotique, 1908, p.288; Laveran (mesmo periódico, mesma sessão).
28 Encontra-se um bom verbete sobre Blanchard em
www.pasteur.fr/infosci/archives/f-bio.html. Ver também Brumpt (13.fev.1910) e Linossier (15.fev.1919).
29 Provavelmente O mosquito como agente da propagação da febre amarela, de Emílio Ribas (1901), que transcreve nota manuscrita por Adolpho Lutz. Este deve ter enviado alguns de seus trabalhos sobre lepra porque o francês, espantado, comentou (1.out.1905): "J'ignorais que vous eussiez déjà signalé le rôle des Insectes comme agents d'infection dans la lépre. Si mon livre a une seconde édition, je ne manquerai pas de signalerce fait intéressant. Je suis ravi de me trouver d ‘accord avec vous sur ce point. Je suis de plus en plus convaincu que c'est la seule interprétation raisonnable" (BR.MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 255, maço 1).
30 O relatório apresentado em 28.jul.1897 a Emílio Ribas, diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, contém os resultados da análise do material que recebeu da Colômbia pouco antes da viagem que Lutz fez a Montevidéu para assistir à conferência em que Giuseppe Sanarelli anunciara a descoberta do bacilo icteróide, o suposto agente da febre amarela (Benchimol, 1999). Eram dez vidros com o rótulo “Instituto Carrasquilla – Suero antileproso – Bogotá – Plaza de los Mártires”. Com a ajuda de Arthur Mendonça, Lutz verificou que todos continham bacilos semelhantes ao coli, um bacilo maior e cocos. Injetaram o soro num cachorro “sem notar outros fenômenos que um pouco de tumefação local”. Lutz considerou seu emprego “contra-indicado por conter vários organismos … A respeito de suas ações terapêuticas … podemos dizer que o pouco que achamos na literatura não fornece a menor base científica para justificar qualquer esperança deste lado. Parece tratar-se apenas de um trabalho sem critério ou uma especulação comercial (BR.MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 12, maço 1). O soro de Carrasquilla teve grande aceitação na Colômbia, concedendo-lhe o governo daquele país um instituto para que prosseguisse com suas investigações. Preparado com sangue de pacientes portadores da doença, recebeu críticas da comunidade científica internacional, inclusive de vários participantes do Congresso realizado em Berlim, que argumentaram que “o bacilo de Hansen não se encontrava presente no sangue dos pacientes” (Obregón, 2002, p.194-6).
31 Art. 145, título II, “Profilaxia geral das moléstia infectuosas,” em Barbosa & Rezende (1909, p.1000).
32 Em 1817, a ilha das Enxadas, que servia como depósito de pólvora, abrigou temporariamente os doentes transferidos do leprosário existente no bairro de São Cristóvão. Os doentes foram depois para a ilha de Bom Jesus, até a conclusão das obras do Hospital dos Lázaros, em 1850. Outra ilha, a de Boa Viagem, em Niterói, sediou um lazareto para marinheiros vitimados por doenças infectocontagiosas. Criado em 1810, após a transferência da corte portuguesa para o Brasil, era mantido por diárias fornecidas pelos navios mercantes que atracavam na baía de Guanabara (Kushnir, 2002; Sarthou, 1964).
33 Palavras de Emílio Gomes na sessão de 22.jul.1915 da Academia Nacional de Medicina, publicadas nos Annaes da agremiação (t.81, p.161) e reproduzidas por Souza Araújo (1956, p.123).
34 Hannaway (1993) elege duas obras como balizas fundamentais da geografia médica na Alemanha: a de Leonhard Ludwig Finke, publicada em 1792-1795, e os dois volumes que Hirsch publicou na década de 1860, às vésperas da revolução pastoriana. O médico alemão compilou aí quantidade surpreendente de dados sobre a distribuição e os tipos de doenças em diferentes períodos e regiões do mundo e sobre a relação entre as doenças e o ambiente em que viviam suas vítimas.
35 Entre os defensores da transmissão da lepra por pulgas figurava Juan de Dios Carrasquilla, que sustentou essa teoria no Terceiro Congresso Científico Latino-americano, realizado no Rio de Janeiro em 1905. Em 1947, outro médico colombiano, Guillermo Muñoz Rivas, teria seu trabalho sobre a transmissão da lepra por pulgas premiado no Brasil pela Academia Nacional de Medicina. Dando continuidade aos estudos de Carrasquilla, Muñoz Rivas realizou vários experimentos com pulgas do homem e do cão, e constatou que os bacilos da lepra eram conservados no tubo digestivo desses insetos por até 76 horas (Obregón, 2002, p.173, 317).
36 Lutz atribuía a discrepância ao uso do mosquiteiro. Nenhum branco dormia sem ele, e mesmo de dia os pós de piretro eram amplamente usados. Já os indígenas não tinham aquele hábito. “De outro lado os canacas gostam muito da água e não se pode acusar a falta de limpeza, sempre invocada para escurecer os problemas da transmissão das moléstias” (Jornal do Commercio, 7.nov.1915).
37 Souza Araújo (1956, p.219, 303, 305, 332); Coutinho et al. (2001, v.5, p.5890-2).
38 As comunicações de Lutz foram publicadas no Jornal do Commercio, 6.dez.1915, e no Diario Official, 15.dez.1915, p.901-6; a de Valverde saiu em O Brazil-Medico, 1.v., 1924, p.233-6, 1924. Estas comunicações estão transcritas em Souza Araújo (1956, p.129-31, 131-7, 141-4).
39 Em 3.dez.1915, Valverde questionou a analogia entre os processos de transmissão da lepra e da febre amarela. “Ora, se um único caso de febre amarela, tendo apenas o poder infectante durante 3 dias é suficiente para produzir uma pandemia, como se poderá admitir que a lepra, com período febril tão prolongado … se transmita de maneira tão lenta e caprichosa? Pela quantidade de leprosos espalhados pelo mundo e pela quantidade de mosquitos também nele existente, a ser real essa teoria, o mundo estaria transformado num imenso leprosário…” (apud Souza Araújo, 1956, p.132). O golpe mais sério contra esse aspecto da teoria de Lutz foi desferido por um cientista do Instituto Oswaldo Cruz, o leprologista Souza Araújo (jun.1946, p.6): depois de examinar o sangue venoso de dezenas de doentes que freqüentaram seu consultório no Instituto entre 1927 e 1929, provou que “todo leproso lepromatoso está constantemente em estado de bacilemia, contrariando a noção clássica defendida … por Ad. Lutz, de que tal bacilemia só existe durante os surtos febris”.
40 Jornal do Commercio, 6.dez.1915, apud Souza Araújo, 1956, p.131. Em outro trecho desta segunda conferência, Lutz observou: “É somente nestes últimos anos que aparecem trabalhos experimentais sobre este assunto e os autores destes geralmente desanimaram, logo que encontraram as primeiras dificuldades com relação ao papel dos mosquitos … por isso caíram no erro de acusar de preferência as moscas e os percevejos, sem contemplar que estes nunca podiam explicar o modo caprichoso da propagação” (p.130). Encontra-se boa revisão da expressiva literatura sobre a transmissão da lepra por moscas em Lamborn (1937).
41 Lutz incriminava “o Culex fatigansou ‘quinquefasciatus', segundo querem os americanos, e o seu correspondente o pipiens; vindo em segundo plano o Stegomyia calopus, de distribuição mais restrita” (Aragão, apud Souza Araújo, 1956, p.139). De acordo com Consoli & Oliveira (1994, p.139), o Culex quinquefasciatus [Say, 1823] foi por muito tempo conhecido como Culex fatigans ou Culex pipiens fatigans: “É considerado trópico-cosmopolita. Ocorre, basicamente, nas porções meridionais da Ásia, na África, nas Américas e na Oceania”. Mosquito doméstico, constitui “uma praga para os moradores das áreas menos frias dos continentes supracitados. Ocorre … em maior quantidade nos aglomerados humanos, dentro das cidades e vilas rurais, tornando-se raro à medida que as habitações vão se afastando umas das outras … ataca exatamente no horário destinado ao repouso, após a jornada de trabalho ou estudo”.
42 O interesse de Lutz pelos mosquitos fez com formasse representativa coleção com o apoio de coletores em diferentes pontos do Brasil (ver bR.MN.Fundo Adolpho Lutz, pasta 216). Dedicou-se entusiasticamente ao estudo taxonômico do grupo, tendo como um dos seus principais interlocutores Frederick Theobald, entomólogo encarregado pelo Museu Britânico de escrever monografia sobre os mosquitos do mundo. Theobald utilizou as descrições de Lutz sobre os mosquitos coletados no Brasil. Durante cinco anos, mantiveram correspondência sobre as características das espécies que estudavam (Sá, 2002).
43 Sobre os debates no Quinto Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado no Rio de Janeiro, em meados de 1903, ver Benchimol (1999). “Eu bem sei que as idéias novas são sempre recebidas com uma certa prevenção, até certo ponto muito aceitável,” declarou Aragão em dezembro de 1915 (apud Souza Araújo, 1956, p.137); “daí porém a se lhe fazer uma cerrada oposição … não levando em conta a autoridade de quem as apresenta, vai uma grande distância. Infelizmente é o que parece que se vai tendendo a fazer em torno da doutrina culicidiana da lepra, com a repetição das campanhas já anteriormente feitas à teoria culicidiana do impaludismo e da febre amarela, e de um modo geral, a todas as hipóteses de propagação de moléstias por um hospedeiro intermediário”.
44 Apresentado por Emilio Gomes à Academia Nacional de Medicina e publicado em seu Boletim, v.2, 1919, p.738-40; apud Souza Araújo, v.III, p.159.
45 Realizada no âmbito das celebrações do centenário da Independência do Brasil, no Pavilhão das Festas da Exposição Nacional, a Conferência contou com a participação de delegados da Argentina, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Estados Unidos, Guatemala, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela ("Conferência Americana de Lepra,” Jornal do Commercio, 10.out.1922).
46 Souza Araújo (1956, p.365, 369, 371-2). A comunicação de Emílio Gomes, transcrita aí (p.368-71), foi publicada em O Brazil-Medico (ano XXXVI, v.II, 28.out.1922, p.252); as conclusões finais da conferência constam da mesma edição desse periódico (p.276). A comunicação de Lutz (1922) não é reproduzida por Souza Araújo nem mereceu destaque na imprensa, não obstante tenha causado “sensação” na platéia que aplaudiu, na mesma noite, telegrama do dr. Samuel Libânio comunicando a colocação da pedra fundamental do leprosário Santa Isabel, em Belo Horizonte.
47 Em artigo publicado em 1929, esse membro correspondente da Academia, que era professor de higiene das escolas de Farmácia e Agronomia de Manaus, faz um inventário dos animais que poderiam ser transmissores da lepra, inclusive os ratos, e, sem negar suas convicções contagionistas, afirma que os dados experimentais não tinham sancionado ainda esses “contagiantes indiretos,” mas convinha tomar medidas de defesa.
48 “A transmissão da lepra e suas indicações profiláticas,” publicado em maio de 1936, em português e inglês, nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, é o resumo de outro artigo, mais extenso, publicado em alemão, em junho, nos Annaes da Academia Brasileira de Sciencias. Foi reimpresso no Boletim da Campanha contra a Lepra (maio-jun. 1936).
49 Texto datilografado inédito, 7p. (BR.MN. Fundo Adolpho Lutz pasta 254, maço 5).
50 BR.MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 254, maço 4, junto com correspondência entre Bertha Lutz e Paula Souza a respeito dessa contribuição de Lutz.
51 Hesitamos quanto ao tempo verbal a empregar: o futuro do pretérito denota sugestões endereçadas a outros pesquisadores, mas este certamente era o protocolo das experiências que Lutz vinha realizando, o que justificaria o emprego do pretérito imperfeito.
52 A lepra do rato foi descrita em 1902 por ocasião de uma campanha de desratização conduzida na Ucrânia e, no ano seguinte, Stefansky incriminou o Bacillus der Rattenlepra como seu agente. A doença do rato, encontrada em 1903 no Reino Unido e, em seguida, na maior parte dos países, apresentava tamanhas analogias clínicas e anatomopatológicas com a lepra do homem que, durante muitos anos, aquele bacilo foi assimilado à Mycobacterium leprae. Baseando-se em argumentos morfológicos, principalmente, Marchoux e Sorel propuseram em 1912 ("Recherches sur la lèpre", Annales de I(Institut Pasteur, v.26, p.675-700) que fosse denominado Mycobacterium lepraemurium. Posteriormente, análises antigênicas e de biologia molecular confirmaram que o agente da doença dos ratos pertence a uma espécie diferente do microrganismo da lepra humana. O bacilo de Stefansky, que causa também a “lepra do gato” (síndrome granulomatosa lepróide canina), caiu, então, em sinonímia. List of Bacterial names with Standing in Nomenclature (www.bacterio.cict.fr/bacdico/mm/lepraemurium.html, verbete criado em 7.jun.1998, com última modificação feita em 23.jan.2002).
53 “Acidorresistência” é uma propriedade das Mycobacteria estabelecida por Paul Ehrlich em 1882. Os bacilos da tuberculose e da lepra são difíceis de pigmentar, mas quando tingidos com violeta de genciana e saturados numa solução de anilina em água, resistem à descoloração por ácidos minerais. Tal particularidade chegou a ser o método principal para diferenciá-los de outros microrganismos (Obregón, 2002, p.34).
54 Os drs. Henrique Aragão e Herman Lent, protozoologista e entomologista do IOC, e Ruy Noronha Miranda, diretor do Leprosário de S. Roque, no Paraná, colaboraram com essas experiências. Ver também referência a trabalhos do colombiano Guillermo Muñoz Rivas sobre a transmissão da lepra por pulgas na nota 35. Na comunicação de 1952, Souza Araújo cita experiências de E. Montestruc e R. Blache (1951), na Martinica; Guillermo Muñoz Rivas (1946), na Colômbia; e Celso S. C. Rossel (1947, 1946), no IOC; refere-se também a observações e materiais enviados ao Laboratório de Leprologia, em Manguinhos, por médicos atuantes em diversos leprosários do Brasil, todos convencidos do papel dos hematófagos na transmissão da doença: Max Rudolph, clínico em Estrela do Sul (MG); Paulo Cerqueira, da Colônia de Santa Isabel; J. A. Soares, leprologista do Espírito Santo; e os drs. Orestes Dioniz e Josefino Aleixo, que visitaram com Souza Araújo leprosos residentes em Bambuí (MG), às vésperas de ser fundado ali o Centro de Estudos e Profilaxia da Moléstia de Chagas (nov. 1943). Sobre o assunto ver ainda Souza Araújo (1941; 1942a e b, 1943a, b e c; 1944 a e b); Oliveira Castro & Mariano (1944) e Rossell (1947, 1946).
Referências bibliográficas
Fontes manuscritas
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