Além da Ordem: Mais 12 Regras para a Vida
Regra 11: Não permita que você se torne ressentido, dissimulado ou arrogante
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
foi ensinado e o que decidimos, do ponto de vista pessoal, valorizar. Tudo
isso parece bom, mas uma abordagem rígida demais para entender o que
está diante de nós e o que devemos buscar pode nos cegar para o valor da
novidade, da criatividade e da mudança. Quando as estruturas que nos
guiam são apenas seguras, em vez de inflexíveis, nosso desejo de rotina e previsibilidade é atenuado pela curiosidade que nos atrai e nos faz apreciar
o que permanece fora de nossos esquemas conceituais. Quando essas
mesmas estruturas degeneram em um estado de estagnação, fugimos e
negamos a existência do que ainda não entendemos e do que ainda não
encontramos, e isso significa que nos tornamos incapazes de mudar quando
é preciso. Entender que as duas possibilidades existem é de crucial
importância para estabelecer o equilíbrio necessário na vida.
Poderíamos usar uma metáfora poética para representar os elementos da
experiência discutidos até agora (é assim que o mundo que estou
descrevendo costuma ser considerado). Imagine o reino do Dragão do Caos
como o céu noturno, estendendo-se infinitamente acima de você em uma
noite clara, representando o que permanecerá para sempre fora do seu
domínio de compreensão. Talvez você esteja em uma praia, olhando para
cima, perdido em contemplação e imaginação. Em seguida, você volta sua
atenção para o oceano — tão grande, à sua maneira, quanto o cosmos
estrelado, mas ainda assim tangível, manifesto e conhecível,
comparativamente falando. É a natureza. Não é mero potencial. O oceano
está lá, em toda sua incognoscibilidade, em vez de totalmente removido da
compreensão. Porém, ainda não foi domesticado; não foi trazido para o
domínio da ordem. E é lindo em seus mistérios. A lua reflete em sua
superfície; as ondas quebram em sua dança infinita e embalam seu sono;
você pode nadar em suas águas acolhedoras. Mas essa beleza tem um preço.
É melhor ficar atento aos tubarões. Às águas-vivas venenosas. À correnteza
que pode puxar você ou seus filhos para as profundezas. E às tempestades
que podem destruir sua aconchegante e acolhedora casa de praia.
Imagine, ainda, que a praia em que você está é a costa de uma ilha. Essa
ilha é a cultura. As pessoas vivem lá — talvez em harmonia e paz, sob o
comando de um governante benevolente; talvez em um inferno dilacerado
pela guerra de opressão, fome e privação. E isso é cultura: Rei Sábio ou
Tirano Autoritário. É de vital necessidade familiarizar-se com ambos os
personagens, assim como no caso da Rainha Má e da Deusa Benevolente, a
fim de assegurar o equilíbrio apropriado na atitude necessária para se
adaptar às vicissitudes da vida. A ênfase excessiva no Rei Sábio causa a
cegueira para a injustiça e o sofrimento desnecessário — consequências das
falhas inevitáveis em nossas estruturas sociais demasiadamente humanas. A
insistência exagerada no Tirano Autoritário significa falta de apreço pelas estruturas frequentemente frágeis que nos unem e nos protegem do caos
que, de outra forma, certamente reinaria.
Os sistemas ideológicos que tendemos a adotar — os sistemas que tanto
nos polarizam, nos aspectos político e pessoal, podem ser compreendidos à
luz da presente conceituação. São narrativas culturais que podem ser
equiparadas, de modo útil, a parasitas de uma subestrutura religiosa,
mitológica ou dramática mais fundamental — antiga, evoluída e
profundamente biológica em sua natureza. As ideologias assumem a
estrutura de uma história que é essencialmente religiosa, mas o fazem de
maneira incompleta, incluindo certos elementos de experiência ou
personagens eternos, enquanto ignoram outros. Não obstante, o poder
permanece na representação, pois o que está presente retém sua natureza
fundamentalmente mitológica/biológica — seu significado instintivo —,
mas os elementos ausentes significam que o que permanece, por mais
poderosa que seja sua expressão, é enviesado de uma forma que restringe
sua utilidade. Esse viés é desejável do ponto de vista subjetivo, pois
simplifica o que, de outra forma, seria complexo demais para entender, mas
é perigoso por causa de sua unilateralidade. Se uma parte do mundo estiver
ausente no mapa utilizado, você estará totalmente despreparado quando esse
elemento faltante se manifestar. Como podemos conservar as vantagens da
simplificação, sem cair na cegueira que a acompanha? A resposta deve ser
encontrada no diálogo constante entre tipos de pessoas genuinamente
diferentes.
Muito do que as pessoas acreditam no aspecto político — ideológico,
digamos — baseia-se em seu temperamento inato. Se suas emoções ou
motivações se inclinam para determinado espectro (e muito disso é uma
consequência da biologia), elas tendem a adotar, digamos, uma linha
conservadora ou liberal. Não é uma questão de opinião. Imagine, em vez
disso, que os animais têm um nicho — um lugar ou espaço que lhes
convém. Sua biologia é compatível com aquele lugar. Leões não vivem em
mar aberto e orcas não vagam pela savana africana. O animal e seu
ambiente são indissociáveis.
Os seres humanos são semelhantes, pelo menos no domínio da abstração.
No entanto, somos capazes de nos sentir à vontade em quase todos os
lugares, do ponto de vista geográfico, porque mudamos a geografia,
conforme necessário, bem como nosso próprio comportamento. Mas temos nichos perceptuais ou cognitivos. Os liberais, por exemplo, são fascinados
por novas ideias. As vantagens de ser atraído por novas ideias são óbvias.
Às vezes, os problemas exigem novas soluções, e são as pessoas que têm
prazer em novas concepções que as encontram. Essas pessoas também
tendem a não ser muito ordeiras.6 Talvez seja porque, quando uma pessoa é
dominada e impulsionada por novas ideias, e também inclinada a testá-las
ou implementá-las, ela precisa ser capaz de tolerar o caos intermediário
produzido entre o momento em que a velha ideia se desintegra e a nova
assume o controle. Os conservadores têm a vantagem e o problema opostos.
Desconfiam de novas ideias e não se sentem especialmente atraídos por
elas, em parte porque são menos sensíveis às possibilidades que essas ideias
podem proporcionar e mais preocupados com suas consequências
imprevisíveis. Afinal, só porque uma nova ideia resolve um problema não
significa que deixará de gerar outro, ou vários outros. Os conservadores
gostam que as coisas estejam onde deveriam estar, quando deveriam estar.
O lugar em que se deseja estar é ocupado sempre que as pessoas agem de
maneira convencional, responsável e previsível.
Os conservadores são necessários para manter as coisas como estão
quando tudo está funcionando e as mudanças podem ser perigosas. Os
liberais, em contrapartida, são necessários para mudar as coisas sempre que
não estão mais dando certo. Entretanto, não é uma tarefa fácil determinar
quando algo precisa ser preservado ou transformado. É por isso que temos a
política, se tivermos sorte, e o diálogo que a acompanha, em vez da guerra,
da tirania ou da submissão. É importante que discutamos feroz e
apaixonadamente sobre o valor relativo da estabilidade versus mudança,
para que possamos determinar quando cada uma é apropriada e em que
quantidade.
É de grande interesse notar que a diferença na crença política fundamental
parece determinar qual dos dois Grandes Pais são contemplados na
realidade fundamental. O liberal tem uma forte tendência a ver o mundo
como o Tirano Autoritário que suprime a Deusa Benevolente — como as
restrições arbitrárias da cultura morta que corrompem e oprimem cidadãos e
estrangeiros, ou como a estrutura militar-industrial da sociedade moderna
que ameaça Gaia, o planeta vivo, com poluição, extinção em massa ou
mudança climática. Esse ponto de vista é obviamente útil quando a cultura
se torna tirânica de verdade — e isso não é incomum. O conservador tende, ao contrário, a ver o mundo como o Rei Sábio (segurança de lugar, ordem e
previsibilidade) que subjuga, doma e disciplina a Rainha Má (a natureza
como desordem e caos). Isso também é evidentemente necessário. Por mais
belo que seja o mundo natural, devemos lembrar que está sempre
conspirando para nos esfomear, adoecer e matar, e que, se não tivéssemos o
escudo protetor constituído pela Cultura como Segurança, seríamos
devorados por animais selvagens, congelados por nevascas, debilitados pelo
calor do deserto e mortos de fome pelo fato de que a comida não se
manifesta por magia para o nosso deleite. Portanto, existem duas ideologias
diferentes — ambas estão “corretas”, mas cada uma conta apenas metade da
história.III
Para desenvolver uma visão equilibrada e adequada do mundo da
experiência, é necessário aceitar a realidade de ambos os elementos da
cultura. Aqueles com uma tendência conservadora, levados, por conta do
temperamento, a considerar o status quo como protetor, devem vir a
compreender que a mera ordem é insuficiente. Como o futuro e o presente
diferem do passado, o que funcionava antes não necessariamente funcionará
agora, e é preciso entender que a linha entre a estabilidade que nos foi
legada por nossos ancestrais e a tirania que pode, com facilidade, emergir
muda e se move com as transformações da existência. Da mesma forma,
entretanto, os tipos mais liberais, propensos a ver o Tirano Autoritário em
toda parte, devem trabalhar para desenvolver gratidão pelas estruturas
sociais e psicológicas de interpretação que continuamente nos protegem dos
terrores da natureza e do desconhecido absoluto. Para qualquer um de nós, é
difícil enxergar algo para o qual ficamos cegos pela natureza de nossa
personalidade. É por isso que devemos ouvir constantemente as pessoas que
diferem de nós e que, por causa dessa diferença, têm a capacidade de ver e
reagir de forma adequada ao que não podemos detectar.
O INDIVÍDUO: HERÓI E ADVERSÁRIO
Se o céu noturno é o caos, a natureza é o oceano e a cultura é a ilha, então o
indivíduo — herói e adversário — é um irmão em combate com seu gêmeo
no meio da ilha. Caos, tesouro e dragão têm seus elementos negativos e
positivos, assim como a Natureza — Rainha Má e Deusa (ou Mãe)
Benevolente — e a Cultura — Tirano Autoritário e Rei Sábio. Assim como o indivíduo. O elemento positivo é o aspecto heroico: a pessoa que pode se
sacrificar à natureza e barganhar com o destino de tal modo que reine a
benevolência; a pessoa que está acordada, alerta, atenta, comunicativa e que
tem responsabilidade, para que a parte tirânica do Estado fique sob controle;
e a pessoa que está ciente de suas próprias falhas e de sua propensão à
maleficência e à dissimulação, de forma que a orientação adequada seja
mantida. O elemento negativo é tudo que é desprezível e insignificante —
especialmente evidente em você mesmo, se for uma pessoa sensata, mas
também manifestado em algum grau por outras pessoas e (com mais
clareza) em histórias. São os irmãos antagônicos, uma ideia mitológica
muito antiga: o herói e o adversário. As representações arquetípicas dessas
duas forças, essas duas figuras personificadas, são Caim e Abel. Esse é um
nível de representação. Cristo e Satanás são um par que representa uma
dualidade ainda mais fundamental. Afinal, Caim e Abel são humanos (os
primeiros humanos, nascidos à maneira humana, pois Adão e Eva foram
criados diretamente por Deus). Cristo e Satanás são elementos da própria
eternidade personificada (deificada?).
Então, existe um herói e um adversário; um rei sábio e um tirano; uma
figura materna positiva e uma negativa; e o próprio caos. Essa é a estrutura
do mundo em seis personagens (o sétimo é o menos familiar caos, que pode
ser entendido como o local de nascimento definitivo de todos os outros). É
necessário entender que todos os sete existem e que são permanentes
existenciais — elementos de experiência contra os quais toda alma (rica,
pobre, abençoada, amaldiçoada, talentosa, estúpida, masculina e feminina)
deve, inevitavelmente, lutar. Essa é a vida — eles são a vida. O
conhecimento parcial de todo o elenco, consciente ou inconsciente, o deixa
indefeso, ingênuo, despreparado e propenso a ser tomado por ressentimento,
dissimulação e arrogância. Se não sabe que o tesouro é guardado por um
dragão; que a natureza, a bela natureza, pode mostrar as garras em um
piscar de olhos; que a sociedade pacífica, que você considera natural, é
constantemente ameaçada pelo autoritarismo e pela tirania; ou que, dentro
de si, há um adversário que pode desejar que todas essas transformações
negativas ocorram, então você é, primeiro, um acólito carente de uma
ideologia que lhe dará uma representação parcial e insuficiente da realidade;
e, segundo, alguém cego de uma forma perigosa, para si mesmo e para os
outros. Se for sábio, sua filosofia política abrangerá uma representação de
todos os sete, mesmo que você não possa articulá-la nesses termos. Devemos sempre dispor de bom senso suficiente para ter em mente, por
exemplo, que um grande predador se esconde sob o gelo fino de nossas
realidades construídas. Lembro-me de uma visão que tive uma vez sobre
minha filha, então muito jovem, retratando exatamente essa realidade. No
inverno, no Norte de Alberta, Canadá — onde, como disse, cresci —, houve
anos em que não tivemos neve mesmo semanas depois de os lagos
congelarem — a superfície lisa, límpida, dura como pedra, estéril e, ainda
assim, dotada de beleza e mistério. (Uma pedra arremessada sobre o lago
repicaria e ecoaria melodicamente ao deslizar por toda a superfície
escorregadia.) Imaginei minha filha, Mikhaila — um bebê vestindo apenas
uma fralda —, sentada, a certa distância de mim, diretamente no gelo.
Debaixo dela, pude ver um peixe enorme, um tubarão-baleia (nessa
personificação, porém, um ser carnívoro) imóvel, à espreita sob o gelo,
atento e com a boca aberta. Isso é vida e morte, e o puro caos que destrói
nossas certezas arduamente conquistadas, mas é também a baleia que
engole o profeta e concede sabedoria e renascimento, quando não mata sua
presa.
E qual é a atitude apropriada do herói, digamos, em relação aos seis outros
personagens (supondo que, com esse último relato, já tenhamos tratado o
suficiente do caos)? Obviamente, devemos nos esforçar para preservar a
Natureza, de cuja benevolência dependemos em última instância para tudo
o que a vida requer. Mas também vale a pena notarmos e levarmos a sério o
fato de que a mesma Natureza está fazendo o possível para nos matar e que
temos todos os motivos para erigir as estruturas da forma como fazemos,
apesar de seus custos ambientais muitas vezes desastrosos.IV Algo
semelhante se aplica à cultura. Todos nós temos motivos para ser gratos,
principalmente, pela sabedoria e pela estrutura que nossos antepassados nos
legaram, a um grande custo. Isso não significa que esses benefícios sejam
distribuídos igualmente — porque não são e nunca serão —, assim como os
benefícios da Natureza não são distribuídos igualmente. Essa gratidão
também não justifica qualquer otimismo decorrente de uma cegueira
intencional em relação à natureza da sociedade. Como indivíduos — que
lutam, digamos, contra a tendência antagônica e o Tirano Autoritário
simultaneamente —, precisamos estar cientes do fato de que nossas
estruturas hierárquicas funcionais podem se tornar improdutivas, tirânicas e
cegas em um piscar de olhos. Temos a responsabilidade de garantir que elas
não se tornem injustas e corruptas e comecem a distribuir suas recompensas com base no poder ou no privilégio não meritocrático, em vez de na
competência. Devemos cuidar delas constantemente e ajustá-las com
cuidado para que permaneçam estáveis e dinâmicas o suficiente. Essa é uma
parcela fundamental de nossos papéis e de nossas responsabilidades como
pessoas que buscam corajosamente o bem. Em parte, conseguimos isso em
sistemas democráticos, expulsando os responsáveis regularmente e
substituindo-os por seus opostos ideológicos. Essa capacidade e
oportunidade constituem uma das conquistas fundamentais de uma
sociedade democrática. Na ausência da habilidade de escolher, com
regularidade, apenas os sábios e bons como líderes (e boa sorte em
encontrá-los), vale a pena eleger um bando cego para metade da realidade,
em um ciclo, e, no ciclo seguinte, outro bando cego para a metade restante.
Então, ao longo de cerca de uma década, pelo menos a maioria das
preocupações da sociedade é atendida em alguma medida razoável.
Acho que uma estratégia um tanto pessimista, mas também
eminentemente realista, está de acordo com a visão das pessoas que
fundaram o sistema norte-americano (e com as ações e as atitudes dos
ingleses e de outros democratas e parlamentares pioneiros, cujos sistemas,
em evolução gradual, estabeleceram a base para as reivindicações explícitas
feitas por esses fundadores). Eles não eram utópicos em seu ponto de vista
essencial. Acreditavam que as pessoas que inevitavelmente os sucederiam
seriam tão imperfeitas quanto eles e aqueles antes deles. O que você faz a
respeito disso, quando não está cego pela ideologia e vê o mundo e todos os
seus personagens dramáticos com clareza? Bem, você não espera a
perfeição infinita da humanidade nem direciona seu sistema para uma
utopia inatingível. Em vez disso, tenta projetar um sistema que pecadores
como você não possam danificar demais — de maneira irremediável demais
—, mesmo quando estão meio cegos e ressentidos. Tendo em vista que
minha orientação é conservadora, acredito na sabedoria dessa visão. Acho
que é uma forma mais adequada de ver as coisas. Não devemos ter
objetivos tão grandiosos. Podemos projetar sistemas que nos permitam um
mínimo de paz, segurança e liberdade e, talvez, a possibilidade de melhorias
graduais. Isso por si só é um milagre. Devemos ter a sabedoria para duvidar
de que produziremos alguma transformação positiva do indivíduo, da
sociedade e da natureza simultaneamente, em especial se essas melhorias
ocorrerem em consequência de nossa própria boa vontade pessoal intrínseca, que costuma ser bastante escassa (apesar de nossos protestos em
contrário).
RESSENTIMENTO
Por que você e outras pessoas acabam vítimas do ressentimento — aquele
terrível estado emocional híbrido, uma mistura de raiva e autopiedade,
mesclada, em vários graus, com narcisismo e desejo de vingança? Após
entender o mundo como um palco dramático e identificar os principais
atores, os motivos ficam claros. O ressentimento o acomete por causa do
desconhecido absoluto e seus terrores, porque a natureza conspira contra
você, porque você é uma vítima do elemento tirânico da cultura e por causa
da maleficência, sua e de outrem. Isso é motivo suficiente — não torna seu
ressentimento apropriado, mas certamente torna a emoção compreensível.
Nenhum desses problemas existenciais é trivial. Na verdade, eles são sérios
o bastante para que a pergunta real não seja “por que você está ressentido?”,
mas “por que nem todos estão ressentidos com tudo o tempo inteiro?”
Somos alvo de forças transpessoais incrivelmente poderosas e muitas vezes
malévolas. Há um terrível predador reptiliano, em termos metafóricos, que
o persegue o tempo todo, assim como o crocodilo com o tique-taque do
tempo ecoando do relógio em seu estômago persegue o covarde e tirânico
Capitão Gancho. E existe a própria natureza. Ela está decidida a acabar com
você, de inúmeras maneiras horríveis. Depois, há o elemento tirânico da
estrutura social, que o moldou — lhe ensinou, por assim dizer — e o
transformou na criatura quase civilizada e semiútil que você é, mas
aniquilou, ao mesmo tempo, uma enorme quantidade de força vital, ao
tentar fazê-lo se adequar a um padrão social. Você poderia ter sido muitas
coisas. Talvez algumas fossem mais do que você se tornou. Mas foi
diminuído e reduzido pela demanda de existência social.
Você também está preso a si mesmo, e isso não é fácil. Você procrastina, é
preguiçoso, mente e faz coisas perversas consigo mesmo e com outras
pessoas. Não é de admirar que se sinta uma vítima, considerando o que está
contra você: caos, a força bruta da natureza, a tirania da cultura e a
maleficência de sua própria natureza. Não é de admirar que possa se sentir
ressentido. E, com certeza, essas forças estão posicionadas contra algumas
pessoas de uma forma que parece muito mais séria, injusta, arbitrária,
contínua e imprevisível do que para outras. Como você poderia deixar de se sentir vitimizado e ressentido nessas condições? Na vida não há escassez da
brutalidade elementar.
Entretanto, há um problema com essa lógica, por mais inexorável que
possa parecer. O primeiro é que nem todo mundo de fato se considera uma
vítima e, em consequência, sucumbe ao ressentimento — e isso inclui uma
grande quantidade de pessoas que passaram por momentos muito difíceis
em suas vidas. Na verdade, em minha opinião, é razoável afirmar que,
muitas vezes, são as pessoas que tiveram momentos muito fáceis — as
mimadas e falsamente elevadas em sua autoestima — que adotam o papel
de vítima e a postura de ressentimento. Em contraposição, você pode
encontrar pessoas que, apesar de terem sido feridas além de qualquer
esperança de recuperação, não estão ressentidas e nunca se dignariam a se
apresentar como vítimas. Elas não são tão comuns, mas também não são tão
raras. Assim, o ressentimento não parece ser uma consequência inevitável
do próprio sofrimento. Outros fatores estão em jogo, além da inegável
tragédia da vida.
Talvez você — ou, de maneira igualmente trágica, alguém próximo —
contraia uma doença grave. Em tais circunstâncias, é típico fazer a pergunta
(a quem? Deus?): “Por que isso teve que acontecer comigo?” Ora, o que
você quer dizer? Preferiria que acontecesse a um amigo, vizinho ou até
mesmo um estranho aleatório? Certamente pode se sentir tentado a
disseminar o sofrimento que se abateu sobre você, mas essa resposta não
parece razoável ou uma escolha que uma pessoa boa, pensando com
clareza, faria, e com certeza isso não tornaria a situação mais justa. Para ser
honesto, a pergunta “por que eu?” constitui, em parte, uma reação
psicologicamente apropriada. Muitas vezes, se algo de ruim acontece, você
precisa se perguntar se fez algo no passado que aumentou a probabilidade
do terrível evento — como discutimos longamente —, pois é possível que
deva aprender algo que diminuiria as chances de sua recorrência. Mas, com
frequência, não é o que estamos fazendo. Geralmente, a pergunta “por que
isso teve que acontecer comigo?” contém um elemento de reprovação,
baseado em um sentimento de injustiça: “Existem todas essas pessoas más
no mundo, e elas parecem escapar impunes do mau comportamento” ou
“Tantas pessoas no mundo desfrutando de boa saúde, e parece injusto que
elas estejam nessa posição privilegiada quando eu não estou”. Isso significa
que, normalmente, a pergunta “por que eu?” está contaminada com um
sentimento de vitimização, indicando injustiça. Esse falso equívoco de que a experiência terrível que, de alguma forma, se abateu sobre você o
caracteriza de maneira singular — o pensamento de que é dirigido, em
especial, a você — é parte do que transforma a exposição à tragédia no
mesmo ressentimento que estamos discutindo.
O fato de que coisas infelizes estão acontecendo ou acontecerão com você
está embutido na própria estrutura da realidade. Não há dúvida de que
coisas horríveis acontecem, mas há um elemento de verdadeira
aleatoriedade nelas. Você pode pensar: “Isso é um consolo trivial e de pouca
ajuda.” Mas alguma apreciação pelo elemento aleatório pode ser útil, por
distanciar o elemento pessoal, e pode ajudá-lo a erguer algumas barreiras ao
desenvolvimento desse intenso ressentimento egoísta. Além disso, pode ser
de grande utilidade perceber que cada um dos aspectos negativos que
caracterizam a existência humana são equilibrados, em princípio, por sua
contraparte positiva.
Aprendi algo em meus anos como psicólogo clínico. Com frequência, vi
pessoas que foram feridas pela vida. Elas tinham seus motivos para se
sentirem ressentidas, e esses motivos muitas vezes estavam longe de ser
triviais. Eu propunha: “Vamos separar os seus problemas, embora muitos
deles sejam reais. Vamos tentar descobrir quais são sua culpa, porque
alguns deles serão. Outros, em contrapartida, são apenas a catástrofe da
vida. Vamos delinear isso com muito cuidado. Então, começaremos a fazer
com que você pratique a superação de tudo o que está trazendo para a
situação e que a torna ainda pior. Começaremos a traçar alguns planos
estratégicos sobre como você pode enfrentar as partes realmente trágicas de
sua vida, e faremos com que faça isso de maneira sincera, aberta e corajosa.
Então veremos o que acontece.”
As pessoas melhoraram. Mas nem sempre. Alguns de meus clientes
morreram. Ainda confrontando metade de seus problemas clínicos, eles
foram acometidos por um câncer repentino ou sofreram um acidente de
trânsito. Não há caminho certo, mesmo com a mais nobre das ações. A
arbitrariedade do mundo está sempre pronta, preparando-se para se
manifestar. Não há razão ou desculpa para ser estupidamente ingênuo ou
otimista. Porém, a maioria das pessoas melhorou. O incentivo as preparou
para enfrentar os problemas de frente, e esse confronto voluntário dissipou
parte de seu medo. Não porque as coisas ao redor delas se tornaram menos
perigosas, mas porque aquelas que enfrentavam o perigo se tornaram mais corajosas. É inacreditável como as pessoas podem se tornar fortes e
corajosas. É milagroso o tipo de carga que podem suportar quando a
assumem de modo deliberado. Sei que não podemos ter uma capacidade
infinita, mas também acredito que ela é, em certo sentido, ilimitada. Acho
que quanto mais o confronto voluntário é praticado, mais se pode suportar.
Não sei qual é o limite máximo para isso.V
As pessoas não apenas se sentem encorajadas, para que, de uma
perspectiva psicológica, possam afastar o horror e o ressentimento, mas
também se tornam mais capazes. Não apenas estão lutando, de uma
perspectiva espiritual, com o fardo existencial da vida de maneira mais
eficaz, digamos, mas também começam a ser pessoas melhores no mundo.
Em seus próprios corações, elas começam a reprimir a maleficência e o
ressentimento, que tornam o horror do mundo ainda mais sombrio do que
deveria ser. Elas se tornam mais honestas. São amigas melhores. Fazem
escolhas de carreira mais produtivas e significativas. Começam a mirar
mais alto. Assim, podem resistir melhor, em termos psicológicos, mas
também reduzem o volume do que elas e os outros ao redor devem
enfrentar. Então, enfrentam menos sofrimento desnecessário, tal como suas
famílias. Talvez a mesma coisa comece a acontecer com suas comunidades.
E, então, há a outra metade da história: o tesouro que o dragão acumula; o
elemento benevolente da natureza; a segurança e o abrigo fornecidos pela
sociedade e pela cultura; e a força do indivíduo. Essas são suas armas em
tempos de dificuldade. E são tão reais, e talvez tenham poder suficiente, de
modo que seu uso pleno fornecerá os meios para resistir quando a vida
desmoronar. A questão é: você pode organizar a estrutura da realidade de
forma que encontre o tesouro, que o aspecto positivo da natureza sorria para
você, que você seja governado pelo rei sábio e desempenhe o papel de
herói? A esperança é que possa se comportar de maneira a inclinar as coisas
nessa direção. É tudo o que temos — e é muito melhor do que nada. Se
enfrentar o sofrimento e a maleficência, e se o fizer com sinceridade e
coragem, você e sua família serão mais fortes e o mundo será um lugar
melhor. A alternativa a isso é o ressentimento, e ele piora tudo.
DISSIMULAÇÃO E ARROGÂNCIA
Parece haver duas grandes formas de dissimulação: os pecados por
comissão, as coisas que você faz sabendo muito bem que são erradas; e os
pecados por omissão, coisas que você simplesmente deixa passar — sabe
que deveria fazer, dizer ou prestar atenção, mas não o faz. Talvez seu
parceiro de negócios esteja trapaceando na contabilidade e você decida que
não fará uma auditoria; talvez feche os olhos para o próprio mau
comportamento; talvez deixe de investigar as transgressões de uma criança,
um adolescente ou de seu cônjuge em sua casa. Você apenas deixa para lá.
O que motiva esse tipo de dissimulação? Mentimos abertamente — o
pecado por comissão — sabendo muito bem que estamos fazendo isso, em
teoria, com o objetivo de facilitar as coisas para nós mesmos,
independentemente do efeito sobre os outros. Tentamos fazer o mundo girar
a nosso próprio favor. Obter uma vantagem. Esforçamo-nos para evitar uma
punição justa — muitas vezes, passando-a para outras pessoas. Em
alternativa (e talvez de forma mais sutil), escolhemos cometer o pecado por
omissão, acreditando que o que estamos evitando simplesmente
desaparecerá — um acontecimento raro. Sacrificamos o futuro pelo
presente, sofrendo ataques de nossa consciência indignada, mas, mesmo
assim, seguimos adiante, de modo inflexível e teimoso.
Então, como as pessoas justificam a ação de distorcer a estrutura da
realidade, à custa de outrem ou mesmo de seus “eus” futuros, para um
benefício presente? É uma motivação claramente enraizada no
ressentimento. As mentiras são justificadas pela crença, oculta no fundo da
alma ressentida, de que os terrores do mundo são dirigidos especificamente
ao sofredor que tenta justificar sua mentira. Todavia, para entender de
verdade por que praticamos a dissimulação, é preciso incluir a arrogância,
bem como o ressentimento, na discussão. Não fica claro se esses estados
mentais são capazes de existir na ausência um do outro. Eles são cúmplices,
por assim dizer.
OS PECADOS POR COMISSÃO
O primeiro conluio entre dissimulação e arrogância pode ser considerado a
negação ou a rejeição da relação entre divindade, verdade e bondade. Nos
primeiros capítulos de Gênesis, a partir da ordem, Deus cria o caos
habitável por meio do Logos,a Palavra: coragem, amor e verdade. A coragem, podemos dizer, é a vontade de Deus de confrontar o nada que
precedeu o Ser, talvez do mesmo tipo de quando conseguimos nos erguer da
pobreza e do nada para prosperar, ou reconstruir nossa vida quando ela foi
reduzida ao caos por desastre e catástrofe. O amor é o objetivo final — o
desejo de criar o melhor que pode ser criado. Ele fornece o mesmo tipo de
superestrutura para o Ser, talvez, que o desejo de um lar pacífico e
harmonioso fornece quando permite que a verdade seja falada. A Palavra
que Deus usa para confrontar o nada é a Verdade, e essa verdade cria. Mas
não apenas cria: parece criar o Bem — o melhor que o amor poderia exigir.
Não é à toa que Deus insiste tanto que toda a sua criação é boa. A
arrogância e a dissimulação se unem para se opor à ideia de que a verdade
corajosa dirigida ao amor cria o Bem, e para substituí-la pela ideia de que
qualquer capricho, grande ou pequeno, tem o direito e a oportunidade de se
revelar para propósitos que são, ao contrário, estreitos e egoístas.
A segunda forma de arrogância que possibilita a dissimulação está
relacionada à suposição do poder da própria divindade. Alguém que mente,
por meio de ação, inação, palavras ou silêncio, fez uma escolha de qual
elemento do vir a ser (qual elemento do caos ainda não formado, mas
potencial) se manifestará ou não. Isso significa que o indivíduo dissimulado
assumiu a responsabilidade de alterar a própria estrutura da realidade. E a
troco de quê? De um desejo baseado na ideia de que qualquer falsidade
egoísta conjurada pelo ato de dissimulação será melhor do que a realidade
que teria ocorrido se a verdade tivesse sido decretada ou falada. O
mentiroso age acreditando que o mundo falso que ele traz à existência,
mesmo que temporariamente, servirá melhor a seus próprios interesses do
que a alternativa. Essa é a arrogância de quem acredita que pode alterar a
estrutura da realidade por meio da pretensão e escapar impune. Não está
claro como qualquer uma dessas crenças poderia ser sustentada, se elas
fossem pensadas com cuidado (o que implica, é claro, que em geral não
são). Primeiro, o próprio transgressor saberá que não se pode confiar nas
palavras ou ações dele, e então, na medida em que o amor-próprio genuíno
depende dessa verdade, as palavras e os atos enganosos inevitavelmente
minarão a personalidade do mentiroso. No mínimo, ele não estará vivendo
no mundo real, ou no mesmo mundo que as outras pessoas, e, portanto, será
mais fraco do que teria sido se tivesse aprendido o verdadeiro em vez de
substituí-lo pelo falso. Segundo, para acreditar genuinamente que “vai se
safar”, o mentiroso carrega consigo a crença de que é mais inteligente do que todos — ou seja, todos que não o notarão (e talvez essa crença abranja
Deus, o Criador, de forma explícita ou implícita). Talvez ele consiga
escapar com uma, duas ou dez mentiras, cada vez mais graves, e se encoraje
pelo sucesso. No entanto, sempre que for bem-sucedido, sua arrogância
aumentará, pois o sucesso é recompensador e inspirará esforços para repetir
e até aumentar essa recompensa. Isso inevitavelmente motivará mentiras
maiores e mais arriscadas, cada uma associada a uma queda maior das
alturas do orgulho. A estratégia parece impraticável — um ciclo de
feedback positivo projetado para arrastar aqueles que se aprisionam nele
cada vez mais para baixo, cada vez mais rápido.
A terceira forma de arrogância subjacente à dissimulação tem a ver com a
crença de que o ato de dissimulação (que, como já discutimos, distorce a
estrutura da realidade), poderosamente, se manterá por conta própria, sem
ser revelado e destruído conforme a própria realidade se endireita e se
reforma, como é inevitável. Essa é a arrogância por trás da crença do
mentiroso de que a mentira alterou para sempre a forma do mundo, de
modo que agora a vida no mundo pode ser conduzida como se essa mentira
fosse, de certa maneira, real. Mas a realidade é muito complicada e quase
tudo, ao que parece, está interligado. É muito difícil, por exemplo, fazer
com que as consequências de um caso de adultério parem de se espalhar. As
pessoas são vistas. As línguas se tornam ferinas. Mais mentiras são
inventadas e devem ser validadas para explicar o tempo gasto no caso em
questão. Os vestígios permanecem. O afeto dentro do relacionamento
começa a ser substituído por ódio ou desprezo (em especial se a pessoa
traída for genuinamente boa, o que inviabiliza qualquer desculpa para as
ações pecaminosas cometidas contra ela).
A quarta forma de arrogância que justifica a dissimulação tem a ver com
um senso distorcido de justiça, muitas vezes provocado pelo ressentimento.
As pessoas empregam a dissimulação neste quarto conjunto de
circunstâncias porque ficam ressentidas e zangadas com suas posições de
vitimização no inferno e na tragédia do mundo. Essa reação é inteiramente
compreensível, embora não menos perigosa por causa disso. A lógica é
simples e até mesmo convincente, sobretudo no caso de pessoas que foram
realmente feridas: “Posso fazer o que quero, pois fui tratado com injustiça.”
Esse raciocínio pode ser visto como simples justiça, embora seja raro que as
pessoas enganadas ou vítimas das mentiras sejam as responsáveis pelo
tratamento injusto usado para justificar a inverdade. A arrogância está em acreditar que o tratamento injusto foi pessoal, do ponto de vista existencial,
em vez de uma parte já esperada da própria existência, dados seus
desconhecidos perigos naturais, sociais e individuais. Se você foi vítima do
que parece ser uma piada cósmica maligna, por que não deveria fazer o que
está ao seu alcance para consertar um pouco a situação? Entretanto, essa
linha de raciocínio só piora a vida. Se a sua justificativa para o mau
comportamento é que a vida foi má, então a lógica para continuar a se
comportar mal não pode ser adotar um padrão de ação cuja única
consequência é torná-la ainda pior.
OS PECADOS POR OMISSÃO
Existem vários motivos para você permanecer inerte quando algo que sabe
ser terrível e errado está acontecendo e não faz nada (incluindo o que sabe
que deveria ter feito) para intervir. O primeiro deles é o niilismo. A relação
entre niilismo e orgulho pode não ser óbvia de imediato (e a relação de
ambos com os pecados por omissão pode ser ainda menos óbvia). Mas a
atitude niilista é de certeza: tudo é sem sentido ou até mesmo negativo. É
um julgamento, uma conclusão — e é um pecado de orgulho, na minha
opinião. Acho que estamos devidamente presos à humildade por um senso
razoável de nossa própria ignorância, para não corrermos o risco terrível de
condenar a estrutura da existência.
Outro motivo para o pecado por omissão? A afirmação de que é
justificável seguir o caminho fácil. Isso significa viver de modo que a
verdadeira responsabilidade por qualquer coisa importante nunca recaia
sobre seus ombros. E você pode pensar que isso é perfeitamente aceitável:
“Por que eu deveria despender esforço e risco extra quando alguém já se
prontificou; buscou a responsabilidade de forma ativa; ou simplesmente não
foi sofisticado o suficiente para escapar quando ela foi ao seu encontro?”
Mas todos devem ter sua vez — tanto para receber os benefícios da
interação social quanto para assumir a responsabilidade por garantir que tal
interação continue sendo possível. Crianças que não aprendem isso aos 3
anos não conseguem fazer amigos, e há bons motivos para tanto. Elas não
sabem participar de um jogo que pode se sustentar ao longo do tempo —
exatamente o que é uma amizade (assim como a atitude que contribui para
bons superiores, colegas e subordinados em uma organização empresarial).
Considere também, de modo crítico, a suposição de que é de alguma
forma aceitável ou mesmo sábio passar despercebido sem pagar suas contas
integralmente. Esta é outra variante do julgamento da existência. “Não
importa se eu seguir o caminho fácil” começa com “não importa”, e isso é o
Ser, julgado e condenado, com um toque a mais. A segunda parte da
declaração, “se eu seguir o caminho fácil”, é uma maldição autoimposta. Se
aceita seu ônus nas tarefas árduas, as pessoas aprendem a confiar em você;
e você aprende a confiar em si mesmo e se aprimora em fazer coisas
difíceis. Tudo isso é positivo. Caso contrário, ficará na mesma posição da
criança cujos pais teimam em fazer tudo por ela: destituída da capacidade
de superar as dificuldades/os desafios da vida. A declaração “Não importa
se eu seguir o caminho fácil” só é verdadeira se, na personalidade do
declarante, não houver qualquer elemento que se sinta compelido a atender
ao chamado da verdadeira aventura. E a pessoa que evita o destino,
recuando quando solicitada a dar um passo à frente, também priva todos os
outros das vantagens que poderiam ter surgido em seu caminho, caso
tivesse decidido ser tudo o que poderia ser, em vez de escolher o caminho
mais fácil.
A forma final dos pecados por omissão está associada à falta de fé em si
mesmo — talvez na humanidade em geral — por causa da natureza
fundamental da vulnerabilidade humana. Há uma cena no livro de Gênesis
em que os olhos de Adão e Eva foram abertos, e eles percebem que estão
vulneráveis e nus — parte integrante da autoconsciência. Ao mesmo tempo,
desenvolvem o conhecimento do bem e do mal. Esses dois acontecimentos
coincidem porque não é possível ferir outras pessoas de forma eficaz até
que você saiba como pode ser ferido. E você não sabe que pode se
machucar até que esteja quase plenamente autoconsciente; até que entenda
que pode sofrer uma dor terrível; até que compreenda que pode ser morto;
até que perceba os limites do seu ser. E, assim que souber de tudo isso, terá
ciência de sua própria nudez e poderá aplicar o conhecimento dessa
vulnerabilidade com intenção malévola a outras pessoas. E então você
entende o Bem e o Mal e tem capacidade para ambos.
Quando, mais tarde, Adão é chamado para explicar seu comportamento —
comer do fruto proibido —, ele culpa a mulher pelo seu doloroso
autoconhecimento, e Deus por fazê-la, afirmando: “A mulher que tu me
deste para estar comigo, ela me deu da árvore e eu comi” (Gênesis 3:12). A
recusa do primeiro homem em assumir a responsabilidade por suas ações está associada ao ressentimento (por sua aquisição dolorosa de
conhecimento), à dissimulação (pois sabe que fez uma escolha livre,
independentemente do comportamento da esposa) e à arrogância (ele ousa
culpar Deus e a mulher que a divindade criou). Adão escolhe o caminho
mais fácil — assim como você faria se dissesse a si mesmo: “Não preciso
discutir com minha esposa. Não tenho que enfrentar meu chefe tirânico.
Não preciso viver de acordo com o que acredito ser verdade. Posso me safar
evitando minhas responsabilidades.” Parte disso é inércia e covardia, mas
parte também é motivada por um profundo sentimento de descrença em sua
capacidade pessoal. Assim como Adão, você sabe que está nu. Está
intimamente consciente de suas falhas e vulnerabilidades, e a fé em si
mesmo se dissolve. Isso é compreensível, mas não é útil nem, em última
análise, desculpável.
O PERIGO EXISTENCIAL DA ARROGÂNCIA E
DA DISSIMULAÇÃO
Como declara Provérbios 9:10: “O temor do SENHOR é o princípio da
sabedoria, e o conhecimento do santo é o entendimento.” A conexão entre a
dissimulação e o mais profundo dos instintos orientadores pode ser
entendida à luz dessa declaração. Se você compreender que a dissimulação
corrompe e distorce a função do instinto mais fundamental que o orienta nas
dificuldades da vida, essa perspectiva deve assustá-lo o suficiente para que
permaneça cuidadoso no que diz e faz. Uma pessoa sincera pode confiar em
seu senso inato de significado e verdade como um guia insuspeito para as
escolhas que devem ser feitas ao longo dos dias, semanas e anos da vida.
Mas existe uma regra que se aplica — a mesma regra que os programadores
de computador bem conhecem: “Entra lixo, sai lixo.” Ao agir com
dissimulação (principalmente consigo mesmo), ao mentir, você começa a
distorcer os mecanismos que guiam o instinto que o orienta. Esse instinto é
um guia inconsciente, por isso funciona sob o seu sistema cognitivo, em
especial depois que se torna habitual. Se você reconectar os mecanismos
inconscientes que o sustentam às suposições derivadas de algo que sabe ser
irreal, seu instinto fundamental o levará a lugares que não deveria ir, na
mesma proporção em que ele foi corrompido. Poucas coisas são mais
assustadoras do que a possibilidade de chegar a um ponto de crise em sua vida, que exigirá todas as faculdades de que dispõe para tomar a decisão
adequada, apenas para descobrir que se contaminou com a mentira e não
pode mais confiar no seu próprio julgamento. Boa sorte para você, porque
nada além da sorte servirá para salvá-lo.
Há um pecado definido por Cristo como imperdoável de uma forma um
tanto misteriosa: “E quem falar uma palavra contra o Filho do homem, isso
lhe será perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será
perdoado, nem neste mundo, nem no mundo vindouro” (Mateus 12:32). São
Paulo, um dos fundadores do cristianismo, esclareceu essa afirmação ao
associar a Terceira Pessoa da Trindade à consciência: “Eu digo a verdade
em Cristo, eu não minto; a minha consciência também me dá testemunho no
Espírito Santo” (Romanos 9:1). A consciência nada mais é do que o
compartilhamento de conhecimento moral consigo mesmo. A dissimulação
exige a recusa voluntária de obedecer às ordens da consciência e ameaça
contaminar essa função vital. Não há como escapar ileso dessa corrupção.
Isso é válido até no sentido neurológico. As drogas de dependência
geralmente são caracterizadas por seus impactos no neurotransmissor
dopamina, aumentando seus efeitos de alguma forma. Essencialmente, a
dopamina produz o prazer associado à esperança ou à possibilidade. Além
disso, seu cérebro está programado de modo que, se você fizer algo de bom
(e, portanto, produzir um efeito de dopamina), as suas partes que
desempenharam um papel no ato em questão se tornam mais fortes, mais
dominantes, mais capazes de inibir a função de outras partes do seu ser.
Assim, o uso continuado de uma droga viciante fomenta o crescimento do
que pode ser precisamente conceituado como um monstro vivo na psique do
usuário — e a atenção e a intenção desse monstro são totalmente devotadas
ao efeito da droga. Ele quer uma coisa e vem armado com toda uma
filosofia sobre por que essa única coisa deve ser considerada de importância
primária.
Imagine que você está se recuperando, fragilmente, do vício. Algo dá
errado em sua vida. O ressentimento emerge. Você pensa: “Ah, que se
dane!”, e esse pensamento é o evento inicial que leva à recaída na droga e à
experiência do subsequente pico de dopamina. Em consequência, os
pequenos circuitos que formulam o pensamento “que se dane” tornam-se
mais poderosos do que as partes da psique do viciado que podem estar
motivando a recusa em usar a droga. “Que se dane” é uma filosofia
multifacetada. Significa “vale a pena sacrificar qualquer coisa por isso”. Significa “quem se importa com a minha vida? Ela não vale nada mesmo”.
Significa “não me importo se tiver que mentir para as pessoas que me
amam — meus pais, minha esposa e meus filhos —, afinal, que diferença
faz? O que eu quero é a droga”. Não é fácil se recuperar disso.
Ao se envolver em dissimulação com habitualidade, você constrói uma
estrutura muito parecida com aquela que perpetua o vício, em especial
quando consegue se safar, mesmo que brevemente. O sucesso da mentira é
recompensador — e, se os riscos forem altos e você não for pego, essa
recompensa do sucesso pode ser intensa. Em seu cérebro, isso reforça o
desenvolvimento do mecanismo neural que compreende a estrutura de todo
o sistema de dissimulação. Com o sucesso contínuo, pelo menos no curto
prazo, esse mecanismo começa a funcionar com automatismo crescente —
e passa a agir, de maneira arrogante, sabendo que pode escapar impune. Isso
é mais óbvio para os pecados por comissão; mas é igualmente perigoso e
verdadeiro para o que você poderia saber, mas se recusa — os pecados por
omissão. Essa é a arrogância de acreditar que aquilo que sabe é suficiente
(independentemente das evidências que se acumulam ao seu redor, na forma
de sofrimento — fácil e arquetipicamente atribuído, digamos, à estrutura da
realidade e à aparente insuficiência de Deus).
O LUGAR EM QUE VOCÊ DEVERIA ESTAR
Faz parte de nossa capacidade individual enfrentar o potencial do futuro e
transformá-lo na atualidade do presente. A maneira como determinamos no
que o mundo se transforma é uma consequência das nossas escolhas éticas e
conscientes. Acordamos de manhã e enfrentamos o dia, com todas as suas
possibilidades e terrores. Traçamos um curso, tomando decisões para
melhor ou para pior. Compreendemos muito bem que podemos fazer o mal
e trazer coisas terríveis ao Ser. Mas também sabemos que podemos fazer
coisas boas, até mesmo excelentes. Temos a melhor chance de sucesso se
agirmos adequadamente, como consequência de sermos verdadeiros,
responsáveis, gratos e humildes.
A atitude certa em relação ao horror da existência — a alternativa ao
ressentimento, à dissimulação e à arrogância — é a suposição de que existe
o suficiente de você, da sociedade e do mundo para justificar a existência.
Isso é fé em si mesmo, em seu próximo e na própria estrutura da existência: a crença de que existe o suficiente para enfrentar a existência e transformar
sua vida da melhor forma possível. Talvez você pudesse viver de uma forma
cuja nobreza, cuja grandeza e cujo significado intrínseco fossem
importantes o bastante para que conseguisse tolerar os elementos negativos
da existência sem se tornar amargo a ponto de transformar tudo ao seu redor
em algo semelhante ao inferno.
É claro que somos oprimidos pela incerteza fundamental do Ser. É claro
que a natureza nos mata de maneiras injustas e dolorosas. É claro que
nossas sociedades tendem à tirania e nossas psiques individuais, ao mal.
Entretanto, isso não significa que não podemos ser bons, que nossas
sociedades não podem ser justas e que o mundo natural não pode girar a
nosso favor. E se pudéssemos restringir nossa maleficência um pouco mais,
servir e transformar nossas instituições com mais responsabilidade e ser
menos ressentidos? Só Deus sabe qual pode ser o limite final para isso.
Quão melhores as coisas poderiam se tornar se todos evitássemos a tentação
de deformar, ativa ou passivamente, a estrutura da existência? E se
substituíssemos a raiva para com as vicissitudes do Ser pela gratidão e a
verdade? Se todos nós fizéssemos isso, com um propósito diligente e
contínuo, não teríamos uma melhor chance de manter sob controle os
elementos do “eu”, da existência e da natureza que se manifestam de forma
tão destrutiva e cruel, e que nos motivam a nos virar contra o mundo?
Não permita que você se torne ressentido, dissimulado ou arrogante.
I É possível, de fato, remover todo o cérebro de uma gata — para citar um exemplo comum da literatura científica —, exceto o hipotálamo e a medula espinhal, e a gata ainda poderá viver em relativa normalidade, desde que seu ambiente seja razoavelmente limitado. Mais do que isso, ela entra em estado de hiperexploração. Na minha opinião, algo muito impressionante. Pense nisto: se você remover cirurgicamente 95% do cérebro de uma gata, ela não conseguirá parar de explorar. O normal seria presumir que um gato basicamente sem cérebro ficaria sentado ali, mas não é isso que acontece. A parte curiosa do cérebro ainda estará lá.
II Burns, R. 1994. 50 poemas. RJ, Relume-Dumará. Poema “A um camundongo — Ao revirá-lo no seu ninho com o arado” — originalmente publicado em 1786. (N. da T.)
III Estou ciente, é claro, de que os conservadores também tendem a se opor a um Estado amplo, o que parece contradizer o ponto fundamental que estou defendendo. Mas, nas democracias ocidentais, isso ocorre principalmente porque a crença que os conservadores manifestam na cultura se baseia mais nas verdades eternas da Constituição e nos elementos mais permanentes do governo (ou seja, Cultura com “C” maiúsculo) do que nos caprichos variáveis e imprevisíveis demais de quem quer que possa ser eleito no presente, seja conservador, seja liberal. De maneira análoga, nas mesmas democracias, os liberais tendem a buscar no governo a solução dos problemas que os preocupam, mas isso porque acreditam mais no dinamismo da atual safra de políticos (em especial, porém não exclusivamente, se eles próprios são liberais) e menos nas verdades eternas da estrutura subjacente.
IV Há pouca dúvida de que criamos um pouco de bagunça “não natural” durante o processo (outra ideia ideológica, baseada na visão unilateral da Natureza como vítima de nossa pilhagem e ganância), mas não fazemos isso por motivos triviais. É por essa razão que tenho alguma simpatia pela humanidade, bem como pelos indivíduos que compõem a massa da humanidade, e é por essa razão que não consigo encontrar meios em meu coração para perdoar aqueles que dizem coisas tolas como “o planeta estaria melhor se não houvesse pessoas nele”. Esse é o elemento genocida do éthos ambientalista radical, e é uma consequência de uma ideologia que vê apenas o Adversário, o Tirano Autoritário e a Mãe Benevolente como os principais atores do ser. É algo horrível de se ver, se pensarmos com mais profundidade.
V Se eu não disse antes, com certeza posso dizê-lo agora: senti e continuo sentindo uma profunda admiração pela absoluta coragem e dignidade que minha esposa, por exemplo, manifestou diante de suas provações nos primeiros seis meses de 2019, após ser diagnosticada com câncer terminal (e talvez curada). Sinto vergonha também… porque não estou absolutamente convencido de que poderia ter feito o mesmo.