Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 17 de 19 · parte 2/3

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Antes de Dormir

Parte Três | Hoje

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Onde? — perguntou ele. Havia começado a levantar a voz, como se estivesse com raiva, embora eu não entendesse por que ele teria raiva. — Onde você andou anotando as coisas? Não entendo, Christine. Onde você andou anotando as coisas?

— Estou escrevendo em um caderno.

— Um caderno? — O jeito como ele disse aquilo pareceu tão trivial, como se eu estivesse usando o caderno para anotar listas de supermercado e números de telefone.

— Um diário — falei.

Ele transferiu o peso do corpo para a frente da cadeira, como se estivesse prestes a se levantar.

— Um diário? Há quanto tempo?

— Não sei ao certo. Umas duas semanas?

— Posso ver?

Eu sentia petulância e irritação. Estava determinada a não mostrá-lo a ele.

— Não — respondi. — Ainda não.

Ele ficou furioso.

— Onde está? Me mostre.

— Ben, é particular.

Ele atirou a palavra de volta para mim.

— Particular? Como assim, particular?

— Quero dizer privado. Não me sentiria à vontade se você o lesse.

— Por que não? — perguntou ele. — Você escreveu sobre mim?

— É claro que escrevi.

— O que você escreveu? O que você disse?

Como responder isso? Pensei em todas as maneiras como eu o traí. As coisas que contei ao Dr. Nash e que pensei a respeito dele.

O jeito como desconfiei do meu marido, as coisas que acreditei que ele seria capaz de fazer. Pensei nas mentiras que contei, nos dias em que fui ver o Dr. Nash — e Claire — sem lhe dizer nada.

— Muitas coisas, Ben. Escrevi muitas coisas.

— Mas por quê? Por que você andou anotando as coisas?

Eu não conseguia acreditar que ele precisava me fazer essa pergunta.

— Quero entender a minha vida — respondi. — Quero ser capaz de relacionar um dia ao outro, como você. Como todo mundo.

— Mas por quê? Você está infeliz? Não me ama mais? Não quer ficar comigo aqui?

A pergunta me exasperou. Por que ele achava que querer entender a minha vida fraturada significava que eu desejava mudá-la de algum modo?

— Não sei — falei. — O que é a felicidade? Estou feliz quando acordo, acho, embora, se hoje de manhã serve de termômetro, estou confusa. Mas não fico feliz quando olho para o espelho e vejo que sou 20 anos mais velha do que eu esperava, que tenho cabelos grisalhos e rugas ao redor dos olhos. Não fico feliz quando percebo que todos esses anos foram perdidos, arrancados de mim. Portanto, suponho que boa parte do tempo eu não esteja feliz, não. Mas não é sua culpa. Estou feliz com você. Amo você. Preciso de você.

Então ele se sentou ao meu lado. Sua voz se suavizou.

— Desculpe — disse ele. — Odeio o fato de tudo ter sido arruinado só por causa daquele acidente de carro.

Senti a raiva crescer dentro de mim mais uma vez, mas a reprimi. Eu não tinha o direito de ter raiva dele; ele não sabia o que eu havia descoberto e o que não.

— Ben — falei. — Eu sei o que aconteceu. Sei que não foi um acidente de carro. Sei que eu fui atacada.

Ele não se mexeu. Olhou para mim, com os olhos sem expressão. Achei que não tinha me ouvido, mas então ele disse:

— Que ataque?

Levantei a voz:

— Ben! Pare com isso! — Não consegui evitar. Eu tinha contado a ele que estava mantendo um diário, contado que estava juntando os detalhes da minha história, e contudo ali estava ele, ainda disposto a mentir para mim quando estava óbvio que eu sabia a verdade. — Pare de me dizer essas mentiras de merda! Eu sei que não houve acidente de carro nenhum. Sei o que aconteceu comigo.

Não tem por que tentar fingir que foi outra coisa. A negação não vai nos levar a lugar nenhum. Você precisa parar de mentir para mim!

Ele se levantou. Parecia enorme, assomando sobre mim, bloqueando minha visão.

— Quem lhe contou? — insistiu ele. — Quem? Foi aquela piranha da Claire? Ela andou dando com a língua naqueles dentes feios dela, contando mentiras para você? Metendo o bedelho onde não foi chamada?

— Ben... — comecei.

— Ela sempre me odiou. Faria qualquer coisa para me envenenar contra você. Qualquer coisa! Ela está mentindo, meu amor. Está mentindo!

— Não foi a Claire — falei. Abaixei a cabeça. — Foi outra pessoa.

— Quem? — berrou ele. — Quem?

— Ando consultando um médico — sussurrei. — Nós conversamos. Ele me contou.

Ele ficou perfeitamente imóvel, a não ser pelo polegar da mão direita, que agora fazia círculos lentos nos nós dos dedos da esquerda. Eu sentia o calor do seu corpo, ouvia sua respiração vagarosa, contendo o ar, soltando-o. Quando ele falou, sua voz era tão baixa que me esforcei para entender as palavras.

— O que quer dizer com “um médico”?

— O nome dele é Dr. Nash. Pelo jeito, ele entrou em contato comigo há algumas semanas. — Na hora em que disse isso, tive a impressão de não estar contando a minha própria história, mas a de outra pessoa.

— Dizendo o quê?

Tentei lembrar. Teria eu escrito sobre nossa primeira conversa?

— Não sei — falei. — Acho que não anotei o que ele disse.

— E ele incentivou você a anotar as coisas?

— Sim.

— Por quê? — perguntou ele.

— Quero melhorar, Ben.

— E está dando certo? O que vocês dois andam fazendo? Ele está lhe dando medicamentos?

— Não — respondi. — Fizemos alguns testes, alguns exercícios.

Fiz um exame de escaneamento cerebral...

O polegar parou de se mexer. Ele se virou para me encarar.

— Escaneamento? — O tom da sua voz aumentou novamente.

— Sim. Uma ressonância magnética. Ele disse que talvez pudesse ajudar. Isso não existia quando fiquei doente. Ou pelo menos não era um exame tão sofisticado quanto hoje...

— Onde? Onde você fez esses testes? Me diga!

Eu estava começando a ficar confusa.

— No consultório dele — respondi. — Em Londres. A ressonância foi lá também. Não me lembro exatamente.

— Como você vai até lá? Como alguém como você consegue ir ao consultório de um médico? — A voz dele estava nasalada e

urgente agora. — Como?

Tentei falar calmamente.

— Ele vem me apanhar aqui — expliquei. — E me leva de carro para...

A decepção lampejou em seu rosto, depois a raiva. Eu nunca desejei que a conversa fosse para esse lado, nunca foi minha intenção que ela se tornasse difícil.

Eu precisava tentar explicar as coisas para ele.

— Ben... — comecei.

O que aconteceu em seguida não foi o que eu estava esperando.

Um gemido embotado começou a se erguer da garganta de Ben, de algum lugar no fundo. Ele aumentou rapidamente até que, incapaz de contê-lo por mais tempo, ele soltou um grito agudo terrível, como o de unhas raspando vidro.

— Ben! — exclamei. — Qual é o problema?

Ele se virou, cambaleando, desviando o rosto de mim. Fiquei com medo que ele estivesse tendo algum tipo de ataque. Levantei-me e estendi a mão para que ele a segurasse.

— Ben! — repeti, mas ele ignorou, apoiando-se contra a parede.

Quando virou o rosto de novo para mim, ele estava carmesim, os olhos arregalados. Vi saliva reunida nos cantos da sua boca. Parecia que ele tinha colocado algum tipo de máscara grotesca, tão distorcidas estavam suas feições.

— Sua idiota, filha da puta — disse ele, vindo na minha direção.

Me encolhi. O rosto dele estava a centímetros de distância do meu.

— Há quanto tempo isso está acontecendo?

— Eu...

— Diga! Diga, sua vadia! Quanto tempo?

— Não está acontecendo nada! — exclamei. O medo se avolumou dentro de mim, aumentando. Rolou suavemente pela superfície e depois afundou. — Nada! — repeti. Senti o cheiro de comida no hálito dele. Carne e cebolas. O cuspe voou, atingindo meu rosto, meus lábios. Senti o gosto da sua raiva quente e úmida.

— Você está dormindo com ele. Não minta para mim.

A parte de trás das minhas pernas pressionava contra a borda do sofá e eu tentei me movimentar ao longo dele, para me afastar de Ben, mas ele agarrou meus ombros e os sacudiu.

— Você sempre foi assim — disse ele. — Piranha, mentirosa e burra. Não sei o que me fez pensar que você seria diferente comigo. O que você andou fazendo, hein? Saindo por aí enquanto estou no trabalho? Ou é aqui mesmo que você está dando para ele?

Ou quem sabe num carro, estacionado no meio do mato?

Senti as mãos dele me apertarem com força, os dedos e as unhas se enterrarem na minha pele mesmo através do algodão da minha blusa.

— Você está me machucando! — gritei, esperando chocá-lo para que ele esquecesse a raiva. — Ben! Pare!

Ele parou de tremer e relaxou o aperto uma fração. Não parecia possível que o homem que agarrava meus ombros, no rosto uma mistura de ira e ódio, pudesse ser o mesmo homem que escrevera a carta que Claire havia me dado. Como podíamos ter chegado a esse nível de desconfiança? Quanta falta de comunicação deve ter sido necessária para nos trazer até aqui?

— Não estou dormindo com ele — falei. — Ele está me ajudando. Me ajudando a melhorar para que eu possa viver uma vida normal. Aqui, com você. Você não quer isso?

Os olhos dele começaram a dardejar pela sala.

— Ben? — repeti. — Fale comigo! — Ele congelou. — Você não quer que eu melhore? Não é isso o que você sempre quis, sempre esperou? — Ele começou a balançar a cabeça, agitando-a de um lado para o outro. — Eu sei que é — continuei. — Sei que é isso o que você sempre quis esse tempo todo. — Lágrimas quentes desciam pelas minhas faces, mas eu falava apesar delas, a voz se fraturando em soluços. Ele continuava me segurando, mas agora suavemente, e pousei as mãos sobre as dele.

— Eu me encontrei com Claire — falei. — Ela me deu a sua carta. Eu a li, Ben. Depois de todos esses anos. Eu a li.

Há uma mancha aqui, na página. Tinta, misturada com água em uma mancha que parece uma estrela. Eu devia estar chorando enquanto escrevia.

Continuei lendo.

Não sei o que eu esperava que acontecesse. Talvez eu achasse que ele iria cair nos meus braços, soluçando de alívio, e ficaríamos ali de pé, um abraçando o outro silenciosamente pelo tempo que levasse para que pudéssemos relaxar, sentirmos nosso caminho de volta um para o outro. E então nós nos sentaríamos e teríamos uma conversa séria. Talvez eu subisse as escadas para apanhar a carta que Claire tinha me dado, e nós a leríamos juntos e começaríamos o lento processo de reconstruir nossas vidas com base na verdade.

Em vez disso, houve um instante em que absolutamente nada

parecia se mover e estava tudo em silêncio. Não havia nenhum som de respiração, nem de trânsito na rua. Eu não ouvi nem mesmo o tique-taque do relógio. Era como se a vida houvesse sido suspensa, pairando no vértice entre um estado e outro.

E então acabou. Ben se afastou de mim. Achei que ele iria me beijar, mas em vez disso notei uma mancha pelo canto do olho e minha cabeça foi atingida de lado. A dor se irradiou a partir da minha mandíbula. Caí, vi o sofá vindo na minha direção, e a minha nuca bateu contra algo duro e agudo. Berrei. Veio outro golpe e depois mais um. Fechei os olhos, esperando pelo seguinte — mas não houve. Em vez disso ouvi passos se afastando e uma porta batendo.

Abri os olhos e inspirei com raiva. O carpete se afastava de mim, agora na vertical. Um prato quebrado estava perto da minha cabeça e o molho se derramava no chão, encharcando o carpete.

Ervilhas tinham sido pisoteadas para dentro da trama do tapete, bem como a salsicha semidevorada. A porta de entrada se escancarou, depois bateu com força. Passos na trilha. Ben havia saído.

Suspirei. Fechei os olhos. Não posso dormir, pensei. Não posso.

Abri os olhos de novo. Rodopios negros à distância e o cheiro de carne. Engoli e senti o gosto de sangue.

O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?

Esperei para ter certeza de que ele havia ido embora, depois subi as escadas e encontrei meu diário. O sangue pingava do meu lábio cortado sobre o carpete. Não sei o que acabou de acontecer.

Não sei onde meu marido está, nem se ele irá voltar, nem se quero que ele volte.

Mas preciso que volte. Sem ele, não posso viver.

Tenho medo. Quero ver Claire.

Paro de ler e minhas mãos se dirigem à minha testa. Está dolorida. O

hematoma que vi de manhã, aquele que cobri com maquiagem. Ben tinha me batido. Olho para a data de novo. “Sexta-feira, 23 de novembro.” Isso foi há uma semana. Uma semana que passei acreditando que estava tudo bem.

Eu me levanto para me olhar no espelho. Continua lá. Uma contusão azulada. Prova de que o que escrevi era verdade. Imagino as mentiras que contei a mim mesma para explicar meu ferimento, ou as mentiras que ele me contou.

Mas agora sei a verdade. Olho para as páginas na minha mão e me dou conta. “Ele queria que eu as encontrasse.” Ele sabe que, mesmo que eu as leia hoje, eu as terei esquecido amanhã.

De repente eu o ouço subindo as escadas e, quase pela primeira vez, percebo completamente que estou aqui, neste quarto de hotel. Com Ben.

Com o homem que me bateu. Ouço sua chave na fechadura.

Preciso saber o que aconteceu, portanto enfio as páginas embaixo do travesseiro e deito na cama. Quando ele entra no quarto, fecho os olhos.

— Você está bem, querida? — pergunta ele. — Está acordada?

Abro os olhos. Ele está de pé à porta, com uma garrafa na mão.

— Só consegui cava — diz ele. — Tudo bem?

Ele coloca a garrafa sobre a penteadeira e me beija.

— Acho que vou tomar uma chuveirada — sussurra ele. Entra no banheiro e gira as torneiras.

Depois que ele fecha a porta, retiro as páginas. Não tenho muito tempo

— com certeza ele não vai demorar mais que cinco minutos — portanto preciso ler o mais rápido que puder. Meus olhos passam como um raio pela página, sem sequer registrar as palavras mas vendo o suficiente.

Isso foi horas atrás. Fiquei sentada no corredor escuro da nossa casa vazia, com uma folha de papel em uma das mãos e um telefone na outra. Tinta sobre o papel. Um número manchado.

Ninguém atendeu, apenas o toque incessante. Teria ela ligado a secretária eletrônica, ou a memória estaria cheia? Tento de novo. E

de novo. Já passei por isso antes. Meu tempo é circular. Claire não está aqui para me ajudar.

Olhei na minha bolsa e encontrei o telefone que o Dr. Nash me deu.

É tarde, pensei. Ele não vai estar no trabalho. Vai estar com a namorada, fazendo seja lá o que os dois fazem à noite. Seja lá o que duas pessoas normais fazem. Não tenho ideia do que seja.

Seu telefone residencial estava anotado na frente do meu diário.

Tocou e tocou, depois silêncio. Não havia voz gravada para me informar que houve um erro, nenhum convite a deixar mensagem. Tentei de novo. Mesma coisa. O número do seu consultório agora era o único que eu tinha.

Fiquei ali sentada por algum tempo. Impotente. Olhando para a porta de entrada, meio que esperando que a figura ensombreada de Ben aparecesse no vidro jateado e inserisse a chave na fechadura, meio que temendo isso.

Ao fim, não pude esperar mais. Subi as escadas e me despi, depois deitei na cama e escrevi isto. A casa continua vazia. Daqui a pouco fecharei este caderno e o esconderei, depois apagarei a luz e irei dormir.

E então vou esquecer, e este diário vai ser a única coisa que restará.

Olho para a página seguinte com pavor, temendo encontrá-la em branco, mas não está.

Segunda-feira, 26 de novembro

Ele me bateu na sexta. Dois dias sem escrever nada. Durante todo esse tempo, teria eu acreditado que estava tudo bem?

Meu rosto está machucado e dolorido. Com certeza eu devo ter percebido que algo não estava certo... não é?

Hoje ele falou que eu levei um tombo. O maior clichê da história e eu acreditei. Por que não acreditaria? Ele já tinha me explicado quem eu era, e quem ele era, e como eu havia acordado em uma casa estranha, décadas mais velha do que acreditava ser, então por que eu questionaria o motivo do meu olho machucado e inchado, do meu lábio cortado?

E assim segui normalmente o meu dia. Eu o beijei quando ele saiu para trabalhar. Limpei as coisas do nosso café da manhã.

Preparei um banho de imersão.

E então vim para cá, encontrei este diário e soube a verdade.

Uma lacuna. Percebo que não mencionei o Dr. Nash. Teria ele me abandonado? Será que eu encontrara o diário sem a ajuda dele?

Mais tarde, liguei para Claire. O telefone que Ben me deu não funcionava — a bateria provavelmente estava descarregada, pensei

— e portanto usei o que o Dr. Nash tinha me dado. Ninguém atendeu, por isso fiquei sentada na sala de estar. Não conseguia relaxar. Apanhei revistas, coloquei-as novamente de lado. Liguei a televisão e passei meia hora olhando para a tela, sem prestar atenção no que estava passado. Olhei para meu diário, incapaz de me concentrar, incapaz de escrever. Tentei o número de Claire mais uma vez, várias vezes, sempre escutando a mesma mensagem pedindo para eu deixar a minha. Foi só depois do almoço que ela atendeu.

— Chrissy — disse ela. — Como você está? — Ouvi Toby ao fundo, brincando.

— Tudo bem — respondi, embora não estivesse.

— Eu ia ligar para você — disse ela. — Me sinto péssima, e é apenas segunda-feira!

Segunda-feira. Dias não significavam nada para mim; cada um deles se dissolvia, indistinguível daquele que o havia precedido.

— Preciso ver você — falei. — Você pode vir até aqui?

Ela pareceu surpresa.

— Até a sua casa?

— Sim — respondi. — Por favor? Preciso falar com você.

— Está tudo bem, Chrissy? Você leu a carta?

Respirei fundo, e minha voz baixou para um sussurro.

— Ben me bateu.

Ouvi um engasgo de surpresa.

— O quê?

— Na outra noite. Estou machucada. Ele me disse que eu levei um tombo, mas eu havia anotado que ele me bateu.

— Chrissy, é impossível Ben bater em você. Ele simplesmente é incapaz disso.

A dúvida me inundou. Seria possível que eu tivesse inventado tudo?

— Mas eu escrevi no meu diário — retruquei.

Ela não disse nada por um momento, e depois:

— Mas por que você acha que ele bateu em você?

Levei as mãos ao rosto, senti a carne inchada ao redor dos olhos. Senti um lampejo de raiva. Era óbvio que ela não acreditava em mim.

Pensei no que eu havia escrito.

— Eu contei a ele que estava escrevendo um diário. Disse que estava vendo você e o Dr. Nash. Contei o que eu sabia sobre Adam.

Disse que você me entregou a carta que ele escreveu, que eu a havia lido. E então ele me bateu.

— Ele simplesmente bateu em você, do nada?

Pensei em todas as coisas das quais ele havia me chamado, as coisas das quais ele me acusou.

— Ele me chamou de piranha. — Senti um soluço erguer-se no meu peito. — Ele... ele me acusou de dormir com o Dr. Nash. Eu disse que não estava fazendo isso, e então...

— Então?

— Então ele me bateu.

Um silêncio, depois Claire disse:

— Ele já bateu em você antes?

Eu não tinha como saber. Talvez sim, quem sabe? Era possível que o nosso relacionamento sempre tivesse sido abusivo. Minha mente se lembrou de mim e de Claire marchando, segurando cartazes feitos à mão — “Direitos das mulheres. Não à violência doméstica”. Lembrei como eu sempre havia desprezado as mulheres que continuavam casadas com maridos que as espancavam. Eram fracas, eu pensava. Fracas e burras.

Seria possível que eu tivesse caído na mesma armadilha que elas?

— Não sei — respondi.

— É difícil imaginar Ben machucando alguém, mas suponho que não seja impossível. Deus! Ele costumava fazer com que até eu me sentisse culpada, lembra?

— Não — respondi. — Não. Não me lembro de nada.

— Merda — disse ela. — Desculpe. Esqueci. É que é tão difícil imaginar. Foi ele que me convenceu que os peixes têm tanto direito à vida quanto um animal com patas. Ele não matava sequer uma aranha!

O vento agita as cortinas do quarto. Ouço um trem à distância. Gritos vindos do píer. Lá embaixo, na rua, alguém grita “Merda!” e ouço o som de vidro se quebrando. Não quero continuar lendo, mas sei que preciso.

Senti um calafrio.

— Ben era vegetariano?

— Vegan — disse ela, rindo. — Não me diga que você não sabia?

Lembrei da noite em que ele me bateu. “Um pedaço de carne”, eu havia escrito. “Ervilhas flutuando no molho fino.”

Fui até a janela.

— Ben come carne... — falei, devagar. — Ele não é vegetariano... Não agora, pelo menos. Talvez ele tenha mudado, quem sabe?

Houve outro longo silêncio.

— Claire? — Ela não disse nada. — Claire? Alô?

— Certo — disse ela. Soava irritada agora. — Vou ligar para ele.

Vou descobrir o que está acontecendo. Onde ele está?

Respondi sem pensar.

— Deve estar na escola, acho. Ele disse que só voltaria às 5.

— Na escola? — repetiu ela. — Você quer dizer na faculdade?

Ele está dando aulas agora?

O medo começou a se agitar dentro de mim.

— Não — falei. — Ele trabalha numa escola aqui perto. Não consigo me lembrar o nome.

— O que ele faz lá?

— É professor. Chefe do departamento de química, acho que ele disse. — Eu me senti culpada por não saber o que o meu marido faz para ganhar a vida, por não ser capaz de me lembrar de como ele ganha o dinheiro que nos mantém alimentados e vestidos. —

Não lembro.

Olhei para cima e vi meu rosto inchado refletido na janela à minha frente. A culpa se evaporou.

— Que escola? — quis saber ela.

— Não sei. Acho que ele não me disse.

— Como assim, nunca?

— Não esta manhã — eu disse. — Para mim isso pode muito bem ser nunca.

— Desculpe, Chrissy. Não queria irritar você. É que, bem... —

Senti uma mudança de ideia, uma frase abortada. — Será que você poderia descobrir o nome da escola?

Pensei no escritório no andar de cima.

— Acho que sim. Por quê?

— Gostaria de falar com Ben, ter certeza de que ele estará em casa quando eu estiver aí esta tarde. Não quero perder a viagem!

Notei o humor que ela estava tentando injetar em sua voz, mas não disse nada. Me senti fora de controle, não conseguia saber o que era melhor, o que eu deveria fazer, e por isso decidi ceder à minha amiga.

— Vou dar uma olhada — falei.

Subi as escadas. O escritório estava arrumado, pilhas de papéis organizadas sobre a mesa. Não demorei para encontrar um papel com cabeçalho; uma carta sobre uma reunião de pais e mestres que já havia acontecido.

— É St. Anne — eu disse. — Quer o telefone? — Ela disse que ela mesma encontraria.

— Ligo de volta para você — falou. — Certo?

O pânico me atingiu de novo.

— O que você vai dizer a ele?

— Vou descobrir o que está acontecendo — disse ela. — Confie em mim, Chrissy. Deve haver uma explicação. Tá?

— Certo — falei, e desliguei o telefone. Eu me sentei, com as pernas trêmulas. E se minha primeira intuição estivesse certa? E se Claire e Ben ainda estivessem dormindo juntos? Talvez ela agora estivesse ligando para ele, para avisá-lo. “Ela está desconfiada”, talvez estivesse dizendo. “Tome cuidado.”

Eu me lembrei do que li no meu diário antes. O Dr. Nash havia dito que eu certa vez exibi sintomas de paranoia. “Clamando que os médicos estavam conspirando contra você, dissera ele. Tendência a confabular. A inventar coisas.”

E se tudo isso estiver acontecendo de novo? E se eu estiver inventando isso, tudo isso? Tudo em meu diário poderia ser fantasioso. Paranoia.

Pensei no que me disseram na ala psiquiátrica, e na carta de Ben. “Você às vezes era violenta.” Percebi que poderia ter sido eu quem provocou a briga na sexta à noite. Teria eu agredido Ben?

Talvez ele tenha revidado, e então, depois, no banheiro do andar de cima, eu tenha apanhado uma caneta e explicado tudo ficcionalizando.

E se todo este diário significar que estou piorando de novo? Que em breve realmente será hora de eu voltar para Waring House?

Gelei, subitamente convencida de que era por isso que o Dr.

Nash queria me levar lá. Para me preparar para a minha volta.

A única coisa que posso fazer é aguardar que Claire me ligue de volta.

Outro grito sufocado. Seria isso o que está acontecendo agora? Será que Ben vai tentar me levar de volta para Waring House? Olho para a porta do banheiro. Não vou deixar que ele faça isso.

Há uma última entrada, escrita mais tarde no mesmo dia.

Segunda-feira, 26 de novembro, 18h55

Claire me ligou depois de menos de meia hora. E agora a minha mente oscila. Pula de uma coisa para a outra, depois volta à primeira. “Sei o que fazer. Não sei o que fazer. Sei o que fazer .”

Mas há um terceiro pensamento. Estremeço ao perceber a verdade:

“Estou em perigo.”

Viro para a página da frente deste diário, tencionando escrever Não confie em Ben, mas descubro que essas palavras já estão ali.

Não me lembro de tê-las escrito. Mas, enfim, não me lembro de nada.

Pula uma linha, e então continua.

Ela soava hesitante ao telefone.

— Chrissy — disse. — Escute.

O tom dela me amedrontou. Eu me sentei.

— O que foi?

— Liguei para Ben. Na escola.

Tive a sensação avassaladora de estar em uma jornada incontrolável, de estar em águas não navegáveis.

— O que ele disse?

— Não falei com ele. Só queria ter certeza de que ele trabalha lá.

— Por quê? — perguntei. — Você não confia nele?

— Ele mentiu sobre outras coisas.

Tive de concordar.

— Mas por que você acha que ele me contaria que trabalhava em algum lugar se não fosse verdade? — perguntei.

— Só fiquei surpresa por ele estar trabalhando em uma escola.

Você sabia que ele se formou em arquitetura? Da última vez que falei com ele, estava abrindo o próprio escritório. Só achei meio estranho que ele estivesse trabalhando em uma escola.

— O que eles disseram?

— Disseram que não podiam incomodá-lo. Ele estava ocupado, em uma aula. — Senti alívio. Pelo menos sobre isso ele não tinha mentido.

— Ele deve ter mudado de ideia — falei. — Quanto à carreira.

— Chrissy? Eu disse a eles que queria enviar alguns documentos para ele. Uma carta. Pedi o seu título oficial.

— E? — perguntei.

— Ele não é chefe do departamento de química. Nem do de ciências. Nem de nada. Eles disseram que ele é assistente de laboratório.

Senti meu corpo se sacudir involuntariamente. Posso ter sufocado um grito; não lembro.

— Tem certeza? — perguntei. Minha mente apressou-se a pensar em um motivo para esta nova mentira. Seria possível que ele estivesse constrangido? Preocupado com o que eu iria achar se soubesse que ele havia passado de arquiteto bem-sucedido a assistente de laboratório numa escola local? Acharia ele realmente que eu era tão superficial a ponto de amá-lo mais ou menos com base no que ele fazia para ganhar a vida?

Tudo fez sentido.

— Oh, meu Deus — falei. — É tudo minha culpa!

— Não! — disse ela. — Não é sua culpa!

— É sim! — exclamei. — É o esforço enorme de ter de cuidar de mim. De ter de lidar comigo, dia sim, dia não. Ele deve estar à beira de um colapso. Talvez nem sequer saiba o que é verdade e o que não é. — Comecei a chorar. — Deve ser insuportável —

continuei. — E ele além disso precisa passar por todo esse sofrimento sozinho, todos os dias.

A linha ficou muda, depois Claire disse:

— Sofrimento? Que sofrimento?

— Adam — respondi. Senti dor ao pronunciar seu nome.

— O que tem Adam?

A compreensão me veio. Selvagem. Sem ser solicitada. “Oh, meu Deus”, pensei. “Ela não sabe. Ben não lhe contou.”

— Ele está morto — falei.

Ela engoliu em seco.

— Morto? Quando? Como?

— Não sei exatamente quando — falei. — Acho que Ben me disse que foi no ano passado. Ele foi morto na guerra.

— Guerra? Que guerra?

— Do Afeganistão.

E então ela disse:

— Chrissy, o que ele estaria fazendo no Afeganistão? — A voz dela tinha um tom estranho. Ela quase parecia contente.

— Ele estava nas forças armadas — falei, mas comecei a duvidar do que eu estava dizendo. Era como se finalmente eu estivesse cara a cara com algo que eu sabia desde o início.

Ouvi Claire dar um riso de deboche, quase como se estivesse achando algo divertido.

— Chrissy — disse ela. — Chrissy, querida. Adam não entrou para as forças armadas. Nunca foi para o Afeganistão. Está morando em Birmingham, com uma moça chamada Helen. Trabalha com computação. Ele não me perdoou, mas eu ainda ligo para ele de vez em quando. Ele provavelmente preferiria que eu não ligasse, mas sou madrinha dele, lembra?

Levei um instante para me dar conta de que ela estava usando o tempo presente, e enquanto isso ela continuou falando.

— Liguei para ele depois que nos encontramos na semana passada. — Agora ela estava quase rindo. — Ele não estava em casa, mas falei com Helen. Ela disse que iria pedir que ele me ligasse de volta. Adam está vivo.

Paro de ler. Me sinto leve. Vazia. Sinto como se pudesse cair para trás, ou então flutuar. Poderia eu ousar acreditar nisso? Será que quero? Eu endireito o corpo contra a penteadeira e continuo lendo, apenas fracamente ciente de que já não escuto o barulho do chuveiro de Ben.

Devo ter tropeçado, me segurado na cadeira.

— Ele está vivo? — Minha barriga revirou, eu me lembro do vômito subindo na garganta e de ter de engoli-lo de volta. — Está mesmo vivo?

— Sim — disse ela. — Sim!

— Mas... — comecei. — Mas... eu vi um jornal. Um recorte.

Dizia que ele havia sido morto.

— Não pode ser de verdade, Chrissy. Não pode ser. Ele está vivo.

Comecei a falar, mas então tudo me atingiu ao mesmo tempo, todas as emoções misturadas. Alegria. Eu me lembro de alegria. Do prazer absoluto de saber que Adam está vivo borbulhando na minha língua, mas misturado a ele estava o gosto amargo e ácido do medo. Pensei nos meus hematomas, na força com que Ben deve ter me batido para provocá-los. Talvez o abuso dele não seja apenas físico, talvez em alguns dias ele se deleite em me dizer que meu filho está morto para poder ver a dor que o pensamento me provoca. Será realmente possível que em outros dias, nos quais eu me lembro da minha gravidez, de ter dado à luz meu filho, ele simplesmente me conte que Adam se mudou, está trabalhando em outro país, morando do outro lado da cidade?

E se for mesmo o caso, então por que eu nunca escrevi nenhuma dessas verdades alternativas que ele forneceu?

O tom dela me incomodou, mas ao mesmo tempo me senti aliviada — e animada ante a ideia de que logo poderia encontrar o meu filho. Eu queria vê-lo, ver sua fotografia, agora mesmo.

Lembrei que nós não tínhamos quase nenhuma em casa, e as que tínhamos estavam trancadas. Um pensamento começou a se formar.

— Claire — falei. — Nós tivemos um incêndio?

Ela soou confusa.

— Um incêndio?

— Sim. Quase não temos fotos de Adam. E quase nenhuma do nosso casamento. Ben disse que as perdemos num incêndio.

— Um incêndio? — repetiu ela. — Que incêndio?

— Ben disse que houve um incêndio na nossa antiga casa. Que perdemos muita coisa.

— Quando?

— Não sei. Anos atrás.

— E vocês não têm fotos de Adam?

Comecei a ficar irritada.

— Temos algumas. Mas não muitas. Quase nenhuma desde a época em que ele era bebê e criança. E nenhuma das férias, nem mesmo da nossa lua de mel. Nenhuma dos Natais. Nada assim.

— Chrissy — disse ela. Sua voz era tranquila, controlada. Achei que eu havia detectado algo ali, alguma emoção nova. Medo. —

Descreva Ben para mim.

— O quê?

— Descreva Ben para mim. Como ele é?

— E o incêndio? — perguntei. — Me conte sobre isso.

— Não houve incêndio — disse ela.

— Mas anotei que eu me lembrei dele — falei. — Uma panela de batatas fritas. O telefone tocou...

— Você deve ter imaginado — disse ela.

— Mas...

Senti a ansiedade dela.

— Chrissy! Não houve incêndio. Pelo menos, não anos atrás.

Ben teria me contado. Agora, descreva Ben. Como ele é? Ele é alto?

— Não exatamente.

— Cabelo preto?

Minha mente fica em branco.

— Sim. Não. Não sei. Está começando a ficar grisalho. Ele tem uma barriguinha, acho. Talvez não. — Eu me levantei. — Preciso ver a foto dele.

Voltei para o primeiro andar. Elas estavam lá, pregadas ao redor do espelho. Eu e meu marido. Felizes. Juntos.

— O cabelo dele é meio castanho — falei. Ouvi um carro estacionar em frente à casa.

— Certeza?

— Sim — falei. O motor foi desligado, a porta bateu. Um bip alto. Baixei a voz. — Acho que Ben chegou.

— Merda — disse Claire. — Rápido. Ele tem uma cicatriz?

— Uma cicatriz? Onde?

— No rosto, Chrissy. Uma cicatriz, ao longo da bochecha. Ele sofreu um acidente. Escalando.

 

Olhei rapidamente pelas fotos, escolhendo uma minha e do meu marido sentados a uma mesa de café da manhã com nossos robes.

Nela ele sorria feliz e, exceto por uma barba por fazer, suas bochechas não tinham marcas. O medo me tomou na mesma hora.

Ouvi a porta da frente se abrir. Uma voz.

— Christine! Querida! Cheguei!

— Não — respondi. — Não, ele não tem.

Um som. Algo entre um grito sufocado e um suspiro.

— O homem com quem você está morando — disse Claire. —

Não sei quem ele é. Mas não é Ben.

Estou aterrorizada. Ouço o barulho da descarga, mas não há nada que eu possa fazer além de continuar lendo.

Não sei o que aconteceu depois. Não consigo juntar as partes. Claire começou a dizer, quase gritando, “Merda!”, sem parar. Minha mente girava em pânico. Ouvi a porta da frente se fechar, o clique da fechadura.

— Estou no banheiro — gritei para o homem que eu havia acreditado ser o meu marido. Minha voz saiu falhada. Desesperada.

— Desço daqui a um minuto.

— Vou até aí — disse Claire. — Vou tirar você daí.

— Está tudo bem, querida? — gritou o homem que não é Ben.

Ouvi seus passos nas escadas e percebi que não havia trancado a porta do banheiro. Baixei a voz.

— Ele chegou — eu disse. — Venha amanhã. Quando ele estiver no trabalho. Vou fazer as malas. Ligo para você.

— Merda — disse ela. — Certo. Mas escreva isso no seu diário.

Escreva assim que puder. Não esqueça.

Pensei no meu diário, escondido no armário. Preciso ficar calma, pensei. Preciso fingir que não há nada de errado, pelo menos até eu conseguir chegar até ele e anotar o perigo que estou correndo.

— Me ajude — falei. — Me ajude.

Encerrei o telefonema enquanto ele abria a porta do banheiro.

Termina aí. Frenética, folheio as últimas páginas, mas elas estão em branco, marcadas apenas por linhas azul-claras. Aguardando o resto da história. Mas não há mais nada. Ben encontrara o diário, retirara as páginas e Claire não tinha vindo me buscar. Quando o Dr. Nash veio buscar o diário

— na terça, dia 27, provavelmente —, eu não sabia que havia algo errado.

De uma única tacada entendo tudo, entendo por que o quadro de avisos da cozinha me incomodava tanto. A letra. É bem-feita, maiúsculas organizadas, que pareciam completamente diferentes das garatujas da carta que Claire me deu. Em algum lugar, no fundo, eu sabia que essas coisas não haviam sido escritas pela mesma pessoa.

Olho para cima. Ben, ou o homem que finge ser Ben, saiu do chuveiro.

Está de pé à porta, vestido como antes, olhando para mim. Não sei há quanto tempo ele está aí, observando-me ler. Seus olhos não exibem nada além de uma espécie de vazio, como se ele mal estivesse interessado no que está vendo, como se não lhe dissesse respeito.

Eu me ouço sufocar um grito. Deixo cair os papéis. Soltos, eles deslizam para o chão.

— Você! — exclamo. — Quem é você? — Ele nada diz. Está olhando os papéis à minha frente. — Responda! — digo. Minha voz tem autoridade, mas uma autoridade que não sinto.

Minha mente gira enquanto tento entender quem ele pode ser. Alguém de Waring House, talvez. Um paciente? Nada faz sentido nenhum. Sinto as reviravoltas do pânico enquanto outro pensamento começa a se formar e depois some.

Ele me olha então.

— Sou o Ben — diz ele. Fala devagar, como se tentasse me fazer entender o óbvio. — Ben. Seu marido.

Eu me arrasto recuando pelo chão, me afastando dele, enquanto luto para me lembrar do que li, do que sei.

— Não — retruco, e depois, de novo, mais alto: — Não!

Ele anda para a frente.

— Sou sim, Christine. Você sabe que sou.

O medo me toma. O terror. Ele me levanta, me suspende e depois me esmaga de volta para seu próprio horror. As palavras de Claire voltam:

“Mas não é Ben.” Uma coisa estranha acontece então. Percebo que não estou me lembrando de ter lido ela dizer essas palavras, estou me lembrando do acontecimento em si. Posso me recordar do pânico na voz dela, da maneira como ela disse “merda” antes de me dizer do que ela havia se dado conta, e como repetiu as palavras “Não é Ben”.

Estou me lembrando.

— Não, não é — retruco. — Você não é o Ben. Claire me disse! Quem é você?

— Mas você não se lembra das fotos, Christine? As que estão em volta do espelho do banheiro? Olhe, eu as trouxe para você ver.

Ele dá um passo na minha direção, depois estica o braço para apanhar

sua mala no chão ao lado da cama. Retira umas poucas fotos com as pontas curvadas.

— Olhe! — diz ele, e quando balanço a cabeça ele apanha a primeira e, olhando para ela, estendendo-a para que eu a veja. — Somos nós. Eu e você.

— A foto nos mostra sentados em alguma espécie de barco, em um rio ou canal. Atrás de nós estão águas escuras e lamacentas, com juncos desfocados. Nós dois parecemos jovens, nossa pele esticada onde hoje é flácida, os olhos sem rugas e arregalados de alegria. — Não vê? — diz ele.

— Olhe! Somos nós. Eu e você. Anos atrás. Estamos juntos há anos, Chris.

Anos e anos.

Eu me concentro na foto. Imagens me vêm; nós dois, uma tarde ensolarada. Tínhamos alugado um barco em algum lugar. Não sei onde.

Ele ergue outra foto. Estamos bem mais velhos agora. Parece recente.

Estamos de pé na frente de uma igreja. O dia está nublado, e ele está de terno e aperta a mão de um homem também de terno. Eu estou usando um chapéu com o qual pareço ter dificuldades; eu o seguro como se ele estivesse prestes a voar pelos ares. Não estou olhando para a câmera.

— Isso foi há poucas semanas — diz ele. — Uns amigos nossos nos convidaram para o casamento da filha. Você lembra?

— Não — respondo, com raiva. — Não, eu não me lembro!

— Foi um dia maravilhoso — diz ele, virando a foto para si para olhá-la.

— Maravilhoso...

Eu me lembro de ler o que Claire disse quando lhe contei que havia encontrado um recorte de jornal sobre a morte de Adam. “Não pode ser verdade.”

— Mostre uma de Adam — desafio. — Ande! Mostre uma só foto dele.

— Adam morreu — diz ele. — Uma morte de soldado. Nobre. Ele morreu como herói...

Grito:

— Mesmo assim você deveria ter uma foto dele! Mostre!

Ele retira a foto de Adam com Helen. Aquela que eu já vi. A fúria se agiganta dentro de mim.

— Mostre uma só foto sua com Adam. Só uma. Você deve ter algumas, não é? Se é o pai dele?

Ele olha as fotografias em sua mão e eu penso que ele irá sacar uma foto dos dois, mas ele não o faz. Seus braços pendem ao lado do corpo.

— Não tenho aqui comigo — diz ele. — Devem estar em casa.

— Você não é o pai dele, é? — digo. — Que pai não teria fotos de si mesmo com seu filho? — Os olhos dele se estreitam, como se cheios de ira, mas eu não consigo parar. — E que tipo de pai contaria à esposa que seu filho está morto quando ele não está? Admita! Você não é o pai de

Adam! O pai dele é o Ben. — Ao dizer o nome, uma imagem me ocorreu.

Um homem com óculos de armação estreita e escura e cabelo preto. “Ben.”

Repito o seu nome, como se para trancar a imagem na minha mente.

— Ben.

O nome exerce um efeito sobre o homem de pé na minha frente. Ele diz algo, mas baixo demais para eu ouvir, portanto lhe peço que repita.

— Você não precisa de Adam — diz ele.

— O quê? — digo, e ele fala com mais firmeza, olhando nos meus olhos:

— Você não precisa de Adam. Você tem a mim agora. Estamos juntos.

Você não precisa de Adam. Você não precisa de Ben.

Ante as palavras dele, sinto toda a força que eu tinha dentro de mim desaparecer e, ao mesmo tempo, ele parece se recuperar. Afundo no chão.

Ele sorri.

— Não fique chateada — diz ele, alegremente. — Que importa? Eu amo você. Isso é só o que importa, com certeza. Eu a amo e você me ama.

Ele se agacha, estendendo as mãos na minha direção. Ele sorri, como se eu fosse um animal que ele estivesse tentando atrair para fora do buraco onde se escondeu.

— Venha — fala ele. — Venha para mim.

Eu recuo ainda mais, deslizando sobre os calcanhares. Bato em alguma coisa dura e sinto o aquecedor quente e pegajoso atrás de mim. Percebo que estou embaixo da janela na extremidade do quarto. Ele avança devagar.

— Quem é você? — digo mais uma vez, tentando não alterar o tom da minha voz, tentando manter o tom calmo. — O que você quer?

Ele para de andar. Está agachado na minha frente. Se ele esticasse o braço, conseguiria tocar meu pé, meu joelho. Se ele se aproximasse, eu poderia chutá-lo, caso fosse preciso, embora eu não tenha certeza se seria capaz de alcançá-lo e, seja como for, estou descalça.

— O que eu quero? — diz ele. — Não quero nada. Só quero que a gente seja feliz, Chris. Como antes. Lembra?

Aquela palavra novamente. Lembra. Por um momento acho que talvez ele esteja sendo sarcástico.

— Não me lembro de quem você é — exclamo, quase histérica. —

Como posso me lembrar? Se eu nunca vi você antes!

O sorriso dele então desaparece. Vejo seu rosto se desmanchar em dor.

Há um momento de limbo, como se o equilíbrio do poder estivesse se movimentando dele para mim e por uma fração de segundo fiquemos em pé de igualdade.

Ele se anima de novo.

— Mas você me ama — diz ele. — Eu li isso, no seu diário. Você disse

que me ama. Sei que quer que a gente fique junto. Por que não pode se lembrar disso?

— Meu diário! — exclamo. Sei que ele devia saber sobre o diário... de que outra forma ele removeria aquelas páginas vitais? Mas agora me dou conta de que ele devia estar lendo-o há algum tempo, no mínimo desde que eu lhe falei a respeito, mais ou menos há uma semana. — Há quanto tempo você está lendo o meu diário?

Ele não parece ter me escutado. Levanta a voz, como se em triunfo.

— Diga que não me ama — diz. Eu fico quieta. — Viu? Não consegue, não é? Não consegue dizer isso. Porque você me ama. Sempre me amou, Chris. Sempre.

Ele recua o corpo e nós dois ficamos sentados no chão, um de frente para o outro.

— Eu me lembro de quando nos conhecemos — diz ele. Penso no que ele me contou, o café derramado na biblioteca de uma universidade, e imagino o que estaria por vir agora. — Você estava trabalhando em alguma coisa. Sempre escrevendo. Costumava ir ao mesmo café todos os dias.

Sempre se sentava perto da janela, no mesmo lugar. Às vezes trazia um bebê, mas, em geral, não. Você se sentava com um caderno aberto à sua frente e ficava escrevendo, ou às vezes apenas olhando pela janela. Achei você tão linda. Costumava passar por você todos os dias, a caminho do ponto de ônibus, e comecei a esperar com ansiedade o momento da minha caminhada de volta para casa, para poder olhar para você. Costumava tentar adivinhar o que você estaria vestindo, ou se seu cabelo estaria preso ou solto, ou se você iria fazer um lanche, uma fatia de bolo ou um sanduíche. Às vezes você tinha uma panqueca inteira na sua frente, às vezes apenas um prato de migalhas ou mesmo nada, apenas chá.

Ele ri, balançando a cabeça com tristeza. Eu me lembro de Claire ter me contado sobre esse café e sei que ele está falando a verdade.

— Eu passava por ali exatamente no mesmo horário todos os dias —

continua ele —, mas não importa o quanto eu me esforçasse, simplesmente não conseguia descobrir como você decidia quando fazer o lanche. Primeiro achei que talvez dependesse do dia da semana, mas não parecia haver nenhum padrão, por isso achei que talvez fosse algo relacionado à data.

Mas isso também não funcionou. Comecei a pensar que horas você pedia de fato o lanche. Achei que talvez isso estivesse relacionado com o horário que você ia para o café, por isso comecei a sair mais cedo do trabalho e correr para quem sabe ver você chegando. E então, um dia, você não estava lá. Esperei até ver você descendo a rua. Você empurrava um carrinho de bebê e teve dificuldades para fazê-lo passar pela porta do café. Parecia tão desamparada, que, sem pensar, eu atravessei a rua e segurei a porta para você. E você sorriu para mim e disse: “Muito obrigada.” Estava tão linda, Christine. Tive vontade de beijar você ali mesmo, mas não podia, e como não queria que você achasse que eu tinha atravessado a rua só para ajudá-la, entrei no café também e fiquei atrás de você na fila. Você falou comigo enquanto esperávamos. “Está cheio hoje, não é?”, disse, e eu respondi:

“Está”, muito embora o café não estivesse particularmente cheio para aquele horário. Eu só queria continuar conversando. Pedi algo para beber e o mesmo bolo que você, e fiquei imaginando se deveria lhe perguntar se estava tudo bem se eu me sentasse com você, mas quando peguei o meu chá você estava conversando com alguém, um dos donos do café, creio, e então eu me sentei sozinho num canto. Depois disso eu comecei a ir ao café quase todo dia. É sempre mais fácil fazer alguma coisa depois da primeira vez. Às vezes eu esperava você chegar ou esperava que você já estivesse lá antes de eu entrar, mas às vezes eu simplesmente entrava e pronto. E você me notava. Sei que sim. Começou a me cumprimentar ou comentar sobre o tempo. E então uma vez eu me atrasei e, quando cheguei, você disse: “Você está atrasado hoje!” quando passei por você com meu chá e minha panqueca. Quando você viu que não havia mesas livres, disse:

“Por que não se senta aqui?” e apontou para a cadeira na sua mesa, à sua frente. O bebê não estava lá nesse dia, portanto eu disse: “Tem certeza de que não se importa? Não vou incomodar?” e então me senti mal por dizer isso e tive medo de que você respondesse que sim, na verdade, pensando que eu iria perturbá-la. Mas você não disse nada disso, e sim: “Não! De jeito nenhum! Para ser sincera, meu dia não está indo muito bem mesmo.

Vou ficar feliz com uma distração!” e foi assim que eu soube que você queria que eu conversasse com você, em vez de apenas comer minha panqueca e tomar meu chá em silêncio. Você se lembra?

Balancei a cabeça em negativa. Decidi deixá-lo falar. Quero descobrir tudo o que ele tem a dizer.

— Portanto eu me sentei, e nós conversamos. Você me contou que era escritora. Disse que havia publicado um livro, mas estava lutando com o segundo. Perguntei sobre o que era, mas você não quis me contar. “É

ficção”, falou, e depois disse: “Em teoria”, e então de repente pareceu muito triste, por isso me ofereci para lhe pagar outro café. Você disse que isso seria ótimo, mas que não tinha mais dinheiro para me pagar um. “Não trago a minha bolsa quando venho aqui”, explicou. “Trago só o dinheiro necessário para comprar algo para beber e um lanche. Assim não fico tentada a me esbaldar!” Achei que era algo esquisito de se dizer. Você não parecia precisar se preocupar muito com o que comia. Sempre foi tão magra. Mas enfim, fiquei feliz, porque isso queria dizer que você devia estar gostando de conversar comigo e que ficaria me devendo uma bebida,

Continuar: parte 3 de 3