Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 17 de 19 · parte 3/3

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Antes de Dormir

Parte Três | Hoje

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

portanto teríamos de nos ver novamente. Eu disse que o dinheiro não tinha importância, nem me pagar um café, e pedi mais chá e café para nós dois.

Depois disso nós começamos a nos encontrar com bastante frequência.

Comecei a enxergar tudo. Embora eu não tenha memória, de algum modo sei como essas coisas funcionam. O encontro casual, as bebidas. O

interesse que há em conversar — em confidenciar — com um estranho, alguém que não julga nem escolhe um dos lados, porque não pode fazer isso. A aceitação gradual das confissões, que leva a... a quê?

Vi as fotos de nós dois, tiradas anos atrás. Parecemos felizes. É óbvio aonde essas confissões nos levam. Além do mais, ele era atraente. Não como um astro de cinema, porém mais bonito que a maioria dos homens; não é difícil perceber o que me encantou. Em algum momento eu devo ter começado a encarar a porta ansiosamente ao me sentar para trabalhar, a pensar com mais cuidado nas roupas que usaria para ir ao café, se acrescentaria ou não uma borrifada de perfume. E, um dia, um dos dois deve ter sugerido fazer uma caminhada, ou ir a um bar, ou mesmo assistir a um filme, e nossa amizade cruzou a fronteira e virou outra coisa, algo infinitamente mais perigoso.

Fecho os olhos e tento imaginar aquilo, e ao fazê-lo começo a me lembrar. Nós dois na cama, nus. O sêmen secando na minha barriga, no meu cabelo, ele me virando para ele enquanto começa a rir e me beija de novo. “Mike!”, estou dizendo. “Pare! Você precisa ir embora logo. Ben vai voltar mais tarde hoje e preciso apanhar Adam. Pare!” Mas ele não me escuta. Inclina-se para a frente, seu rosto bigodudo em frente ao meu, e nos beijamos de novo, nos esquecendo de tudo, do meu marido, do meu filho. De uma guinada lancinante, percebo que a lembrança desse dia já me ocorreu antes. Naquele dia que estive na cozinha da casa que um dia dividi com meu marido, eu não me lembrei do meu marido, e sim do meu amante. O homem com quem eu estava trepando enquanto o meu marido estava no trabalho. Era por isso que ele precisava ir embora naquele dia.

Não apenas para pegar o trem — mas porque o homem com quem eu estava casada voltaria para casa.

Abro os olhos. Estou de volta ao quarto de hotel e ele continua agachado à minha frente.

— Mike — digo. — Seu nome é Mike.

— Você se lembra! — exclama ele. Está feliz. — Chris! Você se lembra!

O ódio fervilha dentro de mim.

— Eu me lembro do seu nome — digo. — Nada mais. Só do seu nome.

— Você não se lembra do quanto estávamos apaixonados?

— Não — retruco. — Acho que eu nunca amei você, senão com certeza

me lembraria de mais coisas.

Digo isso para feri-lo, mas sua reação me surpreende.

— Mas você não se lembra de Ben também, não é? Não pode tê-lo amado. E nem de Adam.

— Você é doente — falo. — Como se atreve! É claro que eu o amei. Ele era meu filho!

— É. É seu filho. Mas você não o reconheceria se ele entrasse aqui agora, não é? Você acha que isso é amor? E onde ele está? E onde está Ben? Eles abandonaram você, Christine. Os dois. Sou o único que nunca deixou de amar você. Nem mesmo quando você me deixou.

É então que a verdade me atinge, finalmente, apropriadamente. De que outro modo ele poderia saber deste quarto, saber tanto sobre o meu passado?

— Oh, meu Deus — digo. — Foi você! Foi você que fez isso comigo!

Você que me atacou!

Ele se aproxima de mim, então. Envolve meu corpo com seus braços, como se para me abraçar, e começa a afagar meus cabelos.

— Christine, querida — murmura —, não diga isso. Não pense nisso. Só vai servir para perturbar você.

Tento empurrá-lo, mas ele é forte e me aperta ainda mais.

— Me solte! — digo. — Por favor, me solte! — Minhas palavras se perdem nas dobras da sua camisa.

— Meu amor — diz ele. Começa a me balançar, como se estivesse ninando um bebê. — Meu amor. Meu doce, minha querida. Você nunca devia ter me deixado. Não entende? Nada disso teria acontecido se você não tivesse me abandonado.

A lembrança me vem novamente.

Estamos sentados em um carro, à noite. Estou chorando, e ele olha pela janela, completamente mudo.

— Diga alguma coisa — falo. — Qualquer coisa. Mike?

— Você não está falando sério — diz ele. — Não pode estar.

— Desculpe. Eu amo Ben. Temos nossos problemas, sim, mas eu o amo. Ele é a pessoa com quem devo ficar. Desculpe.

Estou ciente de que estou tentando simplificar as coisas para que ele entenda. Eu vim a compreender, depois dos últimos meses com Mike, que é melhor assim. As coisas complicadas o confundem. Ele gosta de ordem.

Rotina. Coisas que se misturam em proporções precisas, com resultados previsíveis. Além disso, não quero me focar demais nos detalhes.

— Foi porque apareci na sua casa, não é? Desculpe, Chris. Não vou fazer mais isso, prometo. Só queria ver você e explicar para o seu marido que...

Eu o interrompo.

— Ben. Pode dizer o nome dele. É Ben.

— Ben — repete ele, como se falasse a palavra pela primeira vez e a achasse desagradável. — Eu queria explicar as coisas para ele. Queria contar a verdade.

— Que verdade?

— Que você não o ama mais. Que você me ama agora. Que quer ficar comigo. Era só isso que eu ia dizer.

Suspiro.

— Você não entende que, mesmo que isso fosse verdade — e não é —, não é você quem deveria dizer isso a ele? Sou eu. Você não tinha nenhum direito de simplesmente dar as caras na minha casa.

Enquanto falo, penso em como tive sorte de escapar daquela situação.

Ben estava no chuveiro e Adam, brincando na sala de jantar, e eu consegui convencer Mike de que ele deveria voltar para casa antes que algum dos dois notasse a sua presença. Foi naquela noite que eu decidi que deveria terminar o meu caso.

— Preciso ir agora — digo. Abro a porta do carro, saio, piso no cascalho.

— Desculpe.

Ele se inclina para o meu lado para me olhar. Penso em como é bonito, que se ele fosse menos maluco meu casamento talvez tivesse corrido um grande risco.

— Vou ver você de novo? — pergunta ele.

— Não — respondo. — Não. Está tudo acabado.

Entretanto, aqui estamos nós, todos esses anos depois. Ele está me abraçando de novo, e entendo que, não importa o quanto eu estivesse com medo dele, nunca estive com medo suficiente. Começo a berrar.

— Querida — diz ele. — Se acalme. — Ele coloca a mão sobre a minha boca e eu berro mais alto. — Se acalme! Alguém vai ouvir você!

Minha cabeça se choca com algo atrás de mim, o aquecedor. Não há mudança na música do clube noturno vizinho — se tem alguma diferença, é que agora está mais alta ainda. “Não vai”, penso. “Ninguém vai me escutar.”

Berro de novo.

— Pare com isso! — exclama ele. Ele me bateu, acho, ou me chacoalhou. Começo a entrar em pânico. — Pare com isso! — Minha cabeça atinge o metal quente mais uma vez e, zonza, fico em silêncio. Começo a soluçar.

— Me solte — imploro. — Por favor... — Ele relaxa de leve seu aperto, embora não o suficiente para que eu me liberte. — Como você me encontrou? Todos esses anos depois? Como me encontrou?

— Encontrar você? — diz ele. — Eu nunca perdi você. — Minha mente começa a trabalhar, tentando entender. — Eu a observei. Sempre. Protegi você.

— Você me visitou? Naqueles lugares? No hospital, Waring House? —

começo a dizer. — Mas...

Ele suspira.

— Nem sempre. Não me deixavam. Mas eu às vezes dizia que estava ali para ver outra pessoa, ou que era um voluntário. Só para poder ver você e ter certeza de que você estava bem. Naquele último lugar foi mais fácil.

Todas aquelas janelas...

Me sinto gelar.

— Você me observava?

— Eu precisava saber se você estava bem, Chris. Precisava proteger você.

— Então voltou para me apanhar? Foi isso? Não foi suficiente o que você fez comigo aqui, neste quarto?

— Quando descobri que aquele canalha tinha largado você, não consegui simplesmente deixá-la ali. Eu sabia que você iria querer ficar comigo. Sabia que era o melhor para você. Precisei esperar um tempo, esperar até ter certeza de que não havia mais ninguém ali para tentar me impedir, mas quem mais teria cuidado de você?

— E eles simplesmente me deixaram ir embora com você? Com certeza não teriam me deixado sair com um estranho!

Imagino que mentiras ele deve ter contado para que o deixassem me tirar dali; depois lembro de ter lido o que o Dr. Nash me contou sobre a mulher em Waring House. “Ela ficou tão feliz quando descobriu que você havia voltado a morar com Ben.” Uma imagem se forma, uma lembrança.

Minha mão segurando a de Mike enquanto ele assina um formulário. Uma mulher atrás de uma mesa sorri para mim. “Vamos sentir sua falta, Christine”, diz ela. “Mas você vai ficar feliz em casa.” Ela olha para Mike.

“Com seu marido.”

Sigo o olhar dela. Não reconheço o homem cuja mão estou segurando, mas sei que é o homem com quem casei. Deve ser. Ele me disse que é.

— Oh, meu Deus! — digo então. — Há quanto tempo você vem fingindo que é Ben?

Ele parece surpreso.

— Fingindo?

— Sim — digo. — Fingindo ser o meu marido.

Ele parece confuso. Fico pensando se ele se esqueceu que não é Ben.

Então a máscara cai. Ele parece chateado.

— Você acha que eu quis fazer isso? Precisei fazer. Era o único jeito.

Seus braços relaxam levemente, e uma coisa estranha acontece. Minha mente para de girar, e, embora eu continue aterrorizada, é como se eu tivesse recebido uma injeção de absoluta calma. Um pensamento surge do nada. “Vou derrotá-lo. Vou escapar. Preciso.”

— Mike? — falo. — Eu entendo, sabe. Deve ter sido difícil.

Ele me olha:

— Entende?

— Sim, é claro. Estou grata por você ter ido me buscar. Por me dar um lar. Por cuidar de mim.

— Sério?

— Sim. Pense só onde eu estaria se não fosse você. Eu não podia aguentar aquilo. — Eu sinto que ele se abranda. A pressão nos meus braços e ombros diminui e é acompanhada por uma sensação sutil, porém bem definida, de afago, que considero quase mais odiosa, mas sei que é mais provável que possa me levar à fuga. Porque fugir é tudo em que consigo pensar. Preciso ir embora. Como fui estúpida, penso agora, de ter me sentado aqui no chão para ler o que ele roubou do meu diário enquanto ele estava no banheiro. Por que não peguei as páginas e saí? Então me lembro de que foi só no fim do diário que tive uma ideia real de quanto perigo estou correndo. A mesma vozinha me vem de novo. “Vou fugir. Tenho um filho de quem não consigo me lembrar de ter conhecido. Vou fugir.” Mexo a cabeça para encará-lo e começo a afagar as costas da sua mão, que está apoiada em meu ombro.

— Por que não me deixa ir embora e depois conversamos sobre o que devemos fazer?

— Mas e Claire? — diz ele. — Ela sabe que não sou Ben. Você contou a ela.

— Ela não vai se lembrar disso — digo, desesperada.

Ele ri, um som vazio e sufocado.

— Você sempre me tratou feito idiota. Eu não sou, sabe. Sei o que vai acontecer! Você contou a ela. Estragou tudo!

— Não — falo rápido. — Posso ligar para ela. Posso dizer que eu estava confusa. Que tinha me esquecido de quem você era. Posso contar que pensei que você era Ben, mas que eu estava errada.

Quase acredito que ele considera isso possível, mas então ele diz:

— Ela nunca iria acreditar em você.

— Iria sim — retruco, embora saiba que não iria. — Prometo.

— Por que você tinha de ligar para ela? — O rosto dele se nubla de raiva, as mãos começam a me apertar com mais força. — Por quê? Por quê, Chris? Estávamos indo bem até então. Indo bem. — Ele começa a me chacoalhar de novo. — Por quê? — grita. — Por quê?

— Ben — digo. — Você está me machucando.

Então ele me bate. Ouço o som da sua mão contra meu rosto antes de sentir o lampejo de dor. Minha cabeça gira, meu maxilar inferior estala, conectando-se dolorosamente com seu companheiro.

— Nunca mais me chame pelo nome desse merda de novo! — vocifera ele.

— Mike — digo rapidamente, como se pudesse apagar o meu erro. —

Mike...

Ele me ignora.

— Estou cansado de ser Ben — diz ele. — Pode me chamar de Mike a partir de agora. Certo? É Mike. Foi por isso que voltamos para cá. Para podermos superar tudo isso. Você escreveu no seu caderno que se pudesse se lembrar do que aconteceu aqui todos esses anos atrás, então recuperaria a memória. Bom, aqui estamos. Eu tornei isso possível, Chris. Por isso, se lembre!

Estou incrédula:

— Você quer mesmo que eu me lembre?

— Quero! É claro que eu quero! Amo você, Christine. Quero que se lembre do quanto você me ama. Quero que a gente fique junto de novo.

Direito. Como devemos ficar. — Ele faz uma pausa, sua voz cai para um sussurro. — Não quero mais ser Ben.

— Mas...

Ele olha de volta para mim.

— Quando voltarmos para casa amanhã, pode me chamar de Mike. —

Ele me sacode de novo, o rosto a centímetros do meu. — Certo? — Posso sentir um cheiro azedo em seu hálito, e outro cheiro também. Imagino se andou bebendo. — Vamos ficar bem, não é, Christine? Vamos superar isso.

— Superar? — repito. Minha cabeça dói, e tem algo saindo do meu nariz.

Sangue, acho, embora não tenha certeza. A calma desaparece. Levanto a voz, gritando mais o alto que consigo. — Você quer que eu volte para casa?

Superar? Será que você é totalmente maluco? — Ele move a mão para cobrir a minha boca e percebo que deixou meu braço esquerdo livre. Eu o atinjo no lado do rosto, embora não com força. Mesmo assim, aquilo o apanha de surpresa. Ele cai para trás, soltando meu outro braço.

Bamboleio para me pôr de pé.

— Vadia! — diz ele, mas dou um passo para a frente, por cima dele, e vou até a porta.

Consigo dar três passos antes de ele agarrar meu tornozelo. Caio com um estrondo no chão. Há um banquinho embaixo da penteadeira e minha cabeça bate na borda dele quando caio. Tenho sorte; o banquinho é acolchoado e quebra com a minha queda, mas faz com que meu corpo se

torça de um jeito esquisito quando aterrisso. A dor se irradia pelas minhas costas e através do meu pescoço, e tenho medo de haver quebrado algum osso. Começo a engatinhar na direção da porta, mas ele continua segurando meu tornozelo. Me puxa em sua direção com um gemido e então seu peso esmagador está sobre mim, seus lábios a centímetros da minha orelha.

— Mike — soluço. — Mike...

Na minha frente está a foto de Adam e Helen, no chão onde ele a havia deixado cair. Mesmo no meio de tudo, fico pensando em como ele a conseguiu, e então entendo: Adam deve tê-la mandado para mim em Waring House e Mike a apanhou, junto com todas as demais fotografias, quando veio me buscar.

— Idiota, sua vaca idiota — diz ele, cuspindo no meu ouvido. Uma de suas mãos está ao redor da minha garganta, e com a outra ele segura um punhado do meu cabelo. Puxa minha cabeça para trás, projetando meu pescoço para a frente. — Por que tinha de fazer isso?

— Desculpe — digo, aos soluços. Não consigo me mexer. Uma de minhas mãos está presa embaixo do meu corpo, a outra presa entre minhas costas e a perna dele.

— Para onde você achava que estava indo, hein? — diz ele. Agora ele rosna, como um animal. Algo como ódio emana dele.

— Desculpe — repito, porque é tudo que posso pensar em dizer. —

Desculpe. — Eu me lembro dos dias em que aquelas palavras sempre funcionavam, sempre eram o suficiente, o necessário para me tirar de qualquer encrenca em que estivesse metida.

— Pare de dar essas desculpas de merda — diz ele. Minha cabeça é levada com força para trás, depois se choca para a frente. Minha testa, nariz e boca vão de encontro ao chão carpetado. Faz barulho, um estalar medonho, e sinto cheiro de cigarros velhos. Grito. Há sangue na minha boca.

Mordi a língua. — Para onde você achou que iria fugir? Você não sabe dirigir. Não conhece ninguém. Não sabe nem quem você é na maior parte do tempo. Não tem nenhum lugar aonde ir, nenhum. Você é patética.

Começo a chorar, porque ele tem razão. Sou mesmo patética. Claire não veio me buscar; eu não tenho amigos. Estou completamente sozinha, dependo totalmente desse homem que fez isso comigo, e amanhã de manhã, se eu sobreviver, terei esquecido até mesmo disso.

“Se eu sobreviver.” As palavras ecoam por mim quando percebo do que este homem é capaz e que, dessa vez, posso não sair deste quarto viva. O

terror me atinge, mas então ouço a vozinha de novo. “Não é neste lugar que você vai morrer. Não com ele. Não agora. Tudo, menos isso.”

Arqueio as costas dolorosamente e dou um jeito de livrar o meu braço.

Inclino o corpo para a frente e agarro a perna do banquinho. É pesada e o

ângulo do meu corpo está errado, mas consigo girar o banquinho e erguê-lo por cima da minha cabeça, no ponto onde imagino que esteja a cabeça de Mike. Ele atinge algo com um barulho de rachadura satisfatório, e então ouço um grito sufocado no meu ouvido. Ele solta o meu cabelo.

Olho. Ele foi arremessado para trás e está com a mão na testa. O

sangue começa a pingar entre seus dedos. Ele olha para mim, sem entender.

Mais tarde pensarei que devia tê-lo atingido de novo. Com o banquinho ou com as mãos nuas. Com qualquer coisa. Eu devia ter tido certeza de que ele estava incapacitado, que eu poderia escapar, descer as escadas, ir longe o bastante pelo menos para abrir a porta e pedir socorro.

Mas não faço isso. Eu me equilibro e me levanto, olhando para ele no chão à minha frente. Não importa o que eu faça agora, penso, ele venceu.

Sempre terá vencido. Arrancou tudo de mim, até mesmo a capacidade de me lembrar exatamente do que ele fez comigo. Eu me viro e começo a me dirigir à porta.

Com um gemido ele se lança sobre mim. Seu corpo inteiro colide com o meu. Juntos batemos com força na penteadeira, tropeçamos na direção da porta.

— Christine! — diz ele. — Chris! Não me abandone!

Estendo a mão. Se eu conseguir simplesmente abrir a porta, então com certeza, apesar do barulho do clube noturno, alguém vai nos ouvir e virá...

não é?

Ele agarra a minha cintura. Como um monstro grotesco de duas cabeças, andamos centímetros para a frente, com ele me arrastando.

— Chris! Eu amo você! — diz ele.

Ele uiva, e isso, além do ridículo de suas palavras, me incita a continuar. Estou quase conseguindo. Logo vou alcançar a porta.

É aí que acontece. Eu me lembro daquela noite, todos aqueles anos atrás. Eu, neste quarto, de pé no mesmo lugar. Estendendo o braço na direção da mesma porta. Feliz, ridiculamente feliz. As paredes rebatem o suave brilho alaranjado das velas acesas que pontilhavam o quarto quando cheguei, o ar continha o doce perfume das rosas no buquê sobre a cama.

“Vou subir por volta das 7 horas, querida”, dizia o bilhete preso a elas, e, embora eu tivesse me perguntado por uma fração de segundo o que Ben estaria fazendo lá embaixo, fiquei feliz pelos minutinhos que teria sozinha antes de ele chegar. Me dariam a oportunidade de reunir meus pensamentos, de refletir sobre como cheguei perto de perdê-lo, sobre o alívio que foi terminar meu caso com Mike, sobre como tive sorte de Ben e eu agora estarmos em uma nova trajetória. Como eu pude pensar que desejava estar com Mike? Mike jamais faria o que Ben fez: organizar uma

noite surpresa em um hotel no litoral para me mostrar o quanto me ama e que, apesar de nossas diferenças recentes, isso jamais mudará. Mike era egocêntrico demais para tanto, eu descobri. Com ele tudo é um teste, o afeto é medido, o que foi dado é pesado em relação ao que foi recebido —

e o saldo quase sempre o desaponta.

Estou tocando a maçaneta da porta, torcendo-a, puxando-a na minha direção. Ben levou Adam para a casa dos avós. Temos um fim de semana inteiro à nossa frente, sem nada com que se preocupar. Só nós dois.

— Querido — começo a dizer, mas a palavra é sufocada em minha garganta. Não é Ben à porta. É Mike. Ele me empurra para o lado, entra no quarto, e enquanto lhe pergunto o que ele acha que está fazendo — que direito ele tem de me enganar para vir até aqui, até este quarto, o que ele acha que pode conseguir com isso —, penso: Seu canalha! Pilantra! Como se atreve a fingir que é meu marido? Você não tem orgulho, não?

Penso em Ben e Adam, em casa. A essa altura Ben deve estar se perguntando onde estou. Provavelmente logo vai chamar a polícia. Que idiota fui de pegar um trem e vir para cá sem falar nada para ninguém.

Que idiota fui de acreditar que um bilhete escrito à máquina, ainda que borrifado com meu perfume preferido, fosse do meu marido.

Mike fala:

— Você teria vindo, se soubesse que era para me encontrar?

Rio.

— É claro que não! Acabou. Eu já lhe disse isso.

Olho para as flores, a garrafa de champanhe que ele ainda segura nas mãos. Tudo cheira a romance, a sedução.

— Meu Deus! — digo. — Você realmente achou que podia simplesmente me atrair até aqui, me dar flores e uma garrafa de champanhe e pronto?

Que eu simplesmente cairia nos seus braços e tudo voltaria a ser como era antes? Você é maluco, Mike. Maluco. Vou embora agora. Vou voltar para o meu marido e para o meu filho.

Não quero me lembrar mais. Suponho que esse deve ser o momento em que ele me desfere o primeiro golpe, mas, depois, não sei o que aconteceu, o que me levou até o hospital. E agora estou aqui mais uma vez, neste quarto. Fizemos um círculo completo, embora para mim os dias no meio tenham sido roubados. É como se eu jamais houvesse saído daqui.

Não consigo alcançar a porta. Ele está se levantando. Começo a berrar:

— Socorro! Socorro!

— Quieta! — diz. — Cale a boca!

Grito ainda mais alto, e ele me faz virar, puxando-me para trás ao mesmo tempo. Caio, e o teto e seu rosto deslizam à minha frente como uma cortina descendo. Meu crânio atinge algo duro e inflexível. Percebo que

 

ele me empurrou para dentro do banheiro. Viro a cabeça e vejo o chão azulejado se estendendo para longe de mim, a parte de baixo do vaso sanitário, a beirada da banheira. Há um sabonete no chão, viscoso e esmigalhado.

— Mike! — digo. — Não... — Mas ele já está se agachando sobre mim, com as mãos ao redor da minha garganta.

— Cale a boca! — repete ele, sem parar, embora agora eu já não esteja dizendo mais nada, esteja apenas chorando. Arfo procurando ar, meus olhos e minha boca estão molhados, de lágrimas ou de sangue e não sei do que mais.

— Mike... — digo, engasgando. Não consigo respirar. Suas mãos apertam minha garganta e não consigo respirar. Minha memória me inunda novamente. Eu me lembro dele segurando minha cabeça embaixo d’água.

Lembro de acordar em uma cama branca, com camisola hospitalar, e de Ben sentado ao meu lado, o verdadeiro Ben, aquele com quem me casei.

Lembro de uma policial me fazendo perguntas que eu não posso responder.

De um homem de pijama azul-claro sentado na beirada da minha cama de hospital, rindo comigo enquanto me diz que eu o cumprimento todos os dias como se nunca o tivesse visto antes. De um menininho loiro sem um dente me chamando de mamãe. Uma após a outra, as imagens vêm. Me inundam, e o efeito é violento. Balanço a cabeça na tentativa de esvaziá-la, mas Mike me aperta com ainda mais força. Sua cabeça paira acima da minha, os olhos ensandecidos não piscam enquanto ele aperta a minha garganta, e eu me lembro que estive exatamente assim um dia, bem aqui, neste quarto.

Fecho os olhos.

— Como se atreve! — Ele está dizendo, e não consigo descobrir qual Mike diz isso, se o que está aqui e agora ou se aquele que existe apenas na minha memória. — Como se atreve! — repete ele. — Como se atreve a me tirar o meu filho!

É então que me lembro. Quando ele me atacou todos esses anos atrás, eu carregava um filho no ventre. Não de Mike, mas de Ben. Esse filho seria nosso recomeço juntos.

Nenhum de nós dois sobreviveu.

Eu devo ter apagado. Quando recupero a consciência, estou sentada em uma cadeira. Não consigo mexer as mãos, o interior da minha boca tem gosto de pelo. Abro os olhos. O quarto está a meia-luz, iluminado apenas pelo luar que atravessa as cortinas abertas e pelas lâmpadas amarelas dos postes. Mike está sentado diante de mim, na beira da cama, segurando

algo.

Tento falar, mas não consigo. Percebo que há algo na minha boca. Uma meia, quem sabe. Ela está presa de alguma maneira, e meus pulsos amarrados juntos, além dos meus tornozelos.

Isso é o que ele queria o tempo todo, penso. Eu, em silêncio e imóvel.

Luto para me libertar e ele percebe que acordei. Me olha, seu rosto uma máscara de dor e tristeza, e me encara fundo nos olhos. Não sinto nada além de ódio.

— Você acordou. — Imagino se ele tenciona dizer mais alguma coisa, se é capaz de dizer mais alguma coisa. — Não era isso o que eu queria.

Achei que vir até aqui pudesse ajudar você a se lembrar. Lembrar como as coisas eram entre nós. Então a gente conversaria e eu poderia explicar o que aconteceu aqui, todos esses anos atrás. Nunca quis que isso acontecesse, Chris. É que eu às vezes fico bravo. Não consigo me controlar.

Desculpe. Nunca quis machucar você, nunca. Estraguei tudo.

Ele olha para baixo, para o seu colo. Há tanta coisa que eu antes desejava saber, porém agora estou exausta e é tarde demais. Sinto como se eu pudesse fechar os olhos e me entregar ao esquecimento, apagar tudo.

E, contudo, não quero dormir esta noite. E se precisar dormir, então não desejo acordar amanhã.

— Foi quando você me disse que estava grávida. — Ele não levanta a cabeça. Em vez disso, fala baixinho na direção das dobras de suas roupas e tenho de me esforçar para ouvir o que ele está dizendo. — Nunca achei que eu teria um filho. Nunca. Todos eles diziam que... — Ele hesita, como se mudasse de ideia, resolvendo que era melhor não compartilhar certas coisas. — Você disse que o filho não era meu, mas eu sabia que era. E não consegui aceitar que mesmo assim você iria me deixar, iria arrancar o meu filho de mim, que talvez eu nunca o visse. Não consegui aceitar, Chris.

Ainda não sei o que ele quer de mim.

— Você acha que não me arrependo? Do que eu fiz? Todos os dias. Vejo você tão confusa, perdida, infeliz. Às vezes fico ali deitado na cama ouvindo você acordar. E você me olha, e eu sei que você não sabe quem eu sou, e sinto a decepção e a vergonha que emanam de você como ondas. Isso machuca. Saber que você jamais dormiria comigo agora, se pudesse escolher. E então você se levanta da cama e entra no banheiro, e sei que dali a alguns minutos vai voltar e estará toda confusa e infeliz, e sentindo muita dor.

Ele faz uma pausa.

— E agora eu sei que até mesmo isso em breve vai acabar. Li seu diário. Sei que o seu médico a essa altura já deve ter descoberto tudo. Ou vai descobrir daqui a pouco. Claire também. Sei que eles virão atrás de

mim. — Ele me encara. — E vão tentar arrancar você de mim. Mas Ben não quer você. Eu é que quero. Quero cuidar de você. Por favor, Chris. Por favor, lembre o quanto você me amava. Aí você vai poder contar a eles que quer ficar comigo. — Ele aponta para as últimas páginas do meu diário, espalhadas pelo chão. — Você vai poder contar a eles que me perdoa. Por isso. E então poderemos ficar juntos.

Balanço a cabeça. Não posso acreditar que ele quer que eu me lembre.

Ele quer que eu saiba o que ele fez.

Ele sorri.

— Sabe, às vezes acho que teria sido melhor se você tivesse morrido naquela noite. Melhor para nós dois. — Ele olha pela janela. — Eu me juntaria a você, Chris. Se fosse a sua vontade. — Ele olha novamente para baixo. — Seria fácil. Você iria na frente. E prometo que eu iria logo depois.

Você confia em mim, não é?

Ele olha para mim, na expectativa.

— Você gostaria disso? — pergunta ele. — Seria indolor.

Balanço a cabeça, tento falar, não consigo. Meus olhos estão ardendo e eu mal consigo respirar.

— Não? — Ele parece desapontado. — Não. Suponho que qualquer vida é melhor que nenhuma. Muito bem. Provavelmente você tem razão. —

Começo a chorar. Ele balança a cabeça. — Chris. Vai ficar tudo bem.

Entende? Este caderno é que é o problema. — Ele levanta meu diário. —

Nós dois éramos felizes antes de você começar a escrever isso. Ou, pelo menos, tão felizes quanto possível. E era felicidade suficiente, não é? A gente devia simplesmente se livrar disso, daí talvez você possa contar a eles que estava confusa e nós podemos voltar a viver como antes. Por algum tempo, pelo menos.

Ele se levanta, puxa a lixeira metálica que está embaixo da penteadeira, retira o saco de lixo e o descarta.

— Vai ser fácil, então — diz. Coloca a lata no chão entre as suas pernas. — Fácil. — Joga o meu diário no lixo, reúne as últimas páginas que ainda estão espalhadas pelo chão e as acrescenta também. — Precisamos nos livrar disso — diz ele. — De tudo isso. De uma vez por todas.

Ele retira uma caixa de fósforos do bolso, acende um deles e retira uma única página da lata de lixo.

Olho para ele horrorizada.

— Não! — Tento dizer; nada sai além de um grunhido abafado. Ele não olha para mim enquanto põe fogo naquela única página e depois a solta dentro do lixo. — Não! — repito, mas dessa vez é um grito silencioso dentro da minha cabeça. Observo a minha história começar a virar cinzas, minhas memórias serem reduzidas a cinzas. Meu diário, a carta de Ben,

 

tudo. Não sou nada sem meu diário, penso. Nada. E ele venceu.

Não planejo o que fazer em seguida. É instintivo. Lanço meu corpo na direção da lata de lixo. Com minhas mãos amarradas não consigo aparar a minha queda e atinjo a lata de um jeito estranho, ouvindo algo estalar enquanto caio. Sinto a dor se irradiar do meu braço e acho que vou desmaiar, mas não desmaio. A lata cai no chão, espalhando papéis em chamas por toda parte.

Mike grita — um guincho agudo — e cai de joelhos, batendo no chão, tentando apagar o fogo. Vejo que um resíduo incandescente foi parar embaixo da cama sem ser notado por Mike. As chamas estão começando a lamber a borda da colcha, mas não consigo nem ir até lá nem gritar, por isso simplesmente fico ali deitada, observando a colcha pegar fogo. Ela começa a fumegar, e fecho os olhos. O quarto vai se incendiar, penso, e Mike vai se incendiar, e eu vou me incendiar, e ninguém jamais saberá ao certo o que aconteceu aqui neste quarto, assim como ninguém jamais saberá o que aconteceu aqui todos esses anos atrás, e a história vai virar cinzas e ser substituída por conjecturas.

Emito uma tosse seca e sinto ânsia de vômito, mas ele é contido pela meia enrolada na minha garganta. Começo a sufocar. Penso no meu filho.

Nunca mais o verei de novo agora, embora ao menos morra sabendo que tive um filho e que ele está vivo e feliz. Por conta disso fico feliz. Penso em Ben. O homem com quem me casei e que depois esqueci. Quero vê-lo.

Quero lhe dizer que agora, no fim, eu me lembro dele. Que me lembro de tê-lo conhecido na festa no terraço, e dele me pedindo em casamento em um morro com vista para uma cidade, e que me lembro de ter me casado com ele em uma igreja em Manchester, de termos tirado fotos em meio à chuva.

E sim, me lembro de amá-lo. Sei que eu o amo, e que sempre o amei.

Tudo fica escuro. Não consigo respirar. Ouço o rugir das chamas e sinto seu calor sobre meus lábios e olhos.

Nunca haveria nenhum final feliz para mim. Sei disso agora. Mas tudo bem.

Tudo bem.

Estou deitada agora. Estive desacordada, mas não por muito tempo. Me lembro de quem eu sou, de onde estive. Ouço barulhos, o som do trânsito, uma sirene cujo tom nem aumenta nem diminui, e sim permanece constante. Algo cobre a minha boca — penso em uma meia enrolada —,

 

entretanto descubro que consigo respirar. Estou com muito medo de abrir os olhos. Não sei o que verei.

Mas preciso abri-los. Não tenho escolha senão enfrentar seja lá o que a minha realidade se tornou.

A luz é clara. Vejo um tubo fluorescente no teto baixo e duas barras de metal paralelas a ele. As paredes estão próximas dos dois lados e são duras, cintilantes de metal e acrílico. Consigo distinguir gavetas e prateleiras atulhadas de garrafas e pacotes, e há máquinas piscando. Tudo se move ligeiramente, vibrando, inclusive, percebo, a cama onde estou deitada.

O rosto de um homem surge de algum ponto atrás de mim, sobre a minha cabeça. Ele usa uma camisa verde e eu não o reconheço.

— Ela acordou, gente — diz ele, e então mais rostos surgem. Olho-os rapidamente. Mike não está entre eles e eu relaxo um pouco.

— Christine. — Ouço uma voz. — Chrissy. Sou eu. — É uma voz feminina que eu reconheço. — Estamos a caminho do hospital. Você quebrou a clavícula, mas vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Ele morreu.

Aquele homem morreu. Não pode mais machucar você.

Vejo então a pessoa que fala comigo. Ela está sorrindo e segurando a minha mão. É Claire. A mesma Claire que vi outro dia, não a jovem Claire que eu poderia esperar ver depois de acabar de acordar, e noto que ela está com o mesmo par de brincos que estava usando da última vez que nos vimos.

— Claire... — digo, mas ela me interrompe.

— Não fale nada — diz ela. — Tente apenas relaxar. — Ela se inclina para a frente, afaga o meu cabelo e sussurra algo em meu ouvido, mas não ouço o quê. Parece ser desculpe.

— Eu me lembro — digo. — Eu me lembro.

Ela sorri, e então dá um passo para trás e um jovem assume seu lugar.

Seu rosto é estreito e ele usa óculos com armação grossa. Por um instante acho que é Ben, até perceber que Ben deve ter minha idade hoje.

— Mãe? — diz ele. — Mãe?

Ele parece exatamente igual à foto dele com Helen, e percebo que me lembro dele também.

— Adam? — pergunto. As palavras sufocam na minha garganta quando ele me abraça.

— Mãe — diz ele. — Papai está vindo. Vai chegar logo.

Eu o puxo para mim, sinto o cheiro do meu menino, e fico feliz.

Não posso esperar mais. É hora. Preciso dormir. Tenho um quarto particular e por isso não há necessidade de observar as rotinas rígidas do hospital, mas estou exausta, meus olhos já estão começando a fechar. É hora.

Falei com Ben. Com o homem com quem realmente me casei.

Conversamos durante horas, tenho a impressão, embora talvez tenham sido apenas alguns minutos. Ele me contou que pegou o avião assim que a polícia entrou em contato com ele.

— A polícia?

— Sim. Quando perceberam que você não estava morando com quem Waring House achava que estava, eles me localizaram. Não sei bem como.

Acho que tinham meu antigo endereço e partiram daí.

— Então onde você estava?

Ele empurrou os óculos para cima do nariz.

— Estou na Itália há alguns meses — disse ele. — Estou trabalhando lá.

— Fez uma pausa. — Achei que você estivesse bem. — Ele segurou a minha mão. — Desculpe...

— Você não tinha como saber.

Ele afastou o olhar.

— Eu abandonei você, Chrissy.

— Eu sei. Eu sei de tudo. Claire me contou. Li a sua carta.

— Achei que era melhor — explicou ele. — Achei mesmo. Achei que isso iria ajudar. Ajudar você. Ajudar Adam. Tentei seguir minha vida. Tentei mesmo. — Ele hesitou. — Achei que só conseguiria fazer isso se eu me divorciasse de você. Achei que isso iria me libertar. Adam não entendeu, nem mesmo quando expliquei a ele que você nem sequer teria consciência disso, nem sequer se lembraria de um dia ter se casado comigo.

— E isso ajudou? — perguntei. — Ajudou você a seguir adiante?

Ele se virou para mim:

— Não vou mentir para você, Chrissy. Houve outras mulheres. Não muitas, mas algumas. Muito tempo se passou, anos e anos. No começo nada sério, mas então conheci alguém dois anos atrás. Fomos morar juntos.

Mas...

— Mas?

— Bom, acabou. Ela disse que eu não a amava. Que nunca havia deixado de amar você...

— E ela tinha razão?

Ele não respondeu, e então, com medo de sua resposta, eu disse:

— E agora, o que vai ser? Amanhã? Você vai me levar de volta para Waring House?

Ele me olhou.

— Não — respondeu ele. — Ela tinha razão. Nunca deixei de amar você.

E não vou levar você de volta para lá. Amanhã, quero que você volte para casa.

Agora olho para ele. Está sentado em uma cadeira ao meu lado, e embora já esteja roncando, com a cabeça inclinada para a frente num ângulo estranho, continua segurando a minha mão. Só consigo ver seus óculos, a cicatriz na lateral do rosto. Meu filho saiu do quarto para telefonar para a namorada e sussurrar boa-noite para sua filha ainda na barriga e minha melhor amiga está lá fora no estacionamento, fumando um cigarro. Não importa o que aconteça, estou rodeada pelas pessoas que amo.

Antes disso, conversei com o Dr. Nash. Ele me disse que saí da casa de repouso há quatro meses, pouco depois de Mike começar a me visitar dizendo ser Ben. Eu mesma assinara os papéis da alta. Saí voluntariamente.

Eles não poderiam me impedir, mesmo se acreditassem que havia motivos para tentar fazer isso. Quando parti, levei comigo as poucas fotos e objetos pessoais que ainda tinha.

— É por isso que Mike tinha todas aquelas fotos? — perguntei. —

Minhas e de Adam. É por isso que ele tinha a carta que Adam escreveu para o Papai Noel? Sua certidão de nascimento?

— Sim — disse o Dr. Nash. — Isso tudo estava com você em Waring House, e foi junto quando você saiu. Em algum momento Mike deve ter destruído todas as fotos que mostravam você com Ben. Provavelmente antes mesmo de você receber alta de Waring House... há certa rotatividade dos funcionários ali, e eles não tinham ideia de qual era a aparência do seu marido.

— Mas como ele teve acesso às fotografias?

— Elas estavam em um álbum numa gaveta do seu quarto. Deve ter sido fácil para ele apanhá-las depois que começou a visitar você. Ele pode até ter enfiado algumas fotos dele mesmo. Devia ter algumas de vocês dois tiradas quando... bom, quando vocês estavam juntos, anos atrás. Os funcionários de Waring House tinham certeza de que o homem que estava visitando você era o mesmo do álbum de fotografias.

— Então eu levei minhas fotos para a casa de Mike e ele as escondeu numa caixa de metal? E depois inventou um incêndio, para explicar por que havia tão poucas?

— Sim — respondeu ele.

Parecia cansado e culpado. Fiquei pensando se ele se culpava pelo que havia acontecido, e esperava que não. Ele havia me ajudado, no fim das contas. Ele me resgatou. Esperava que ele pudesse escrever seu artigo e apresentar meu caso. Esperava que ele fosse reconhecido pelo que fez por mim. Afinal, sem ele eu...

Não quero pensar onde eu estaria.

— Como você me encontrou? — perguntei. Ele explicou que Claire tinha ficado louca de preocupação depois da nossa conversa, mas esperou que eu ligasse para ela no dia seguinte.

— Mike deve ter retirado as páginas do seu diário naquela noite. Foi por isso que você não achou que havia nada de errado quando me entregou seu diário na terça-feira, e nem eu. Quando você não ligou para Claire, ela tentou ligar para você, mas só tinha o número do celular que eu tinha lhe dado, e Mike o havia confiscado também. Eu devia ter percebido que havia algo de errado quando liguei para você naquele número e você não atendeu.

Mas não pensei. Simplesmente liguei para o outro telefone... — Ele meneou a cabeça.

— Está tudo bem — falei. — Continue.

— Acho possível supor que ele estivesse lendo o seu diário há no mínimo uma semana, provavelmente até mais. Claire não conseguiu entrar em contato com Adam e não tinha o telefone de Ben, por isso ligou para Waring House. Eles só tinham um número que achavam ser o de Ben, mas que na verdade era de Mike. Claire não tinha meu telefone. Ela ligou para a escola onde ele trabalhava e os convenceu a lhe darem o endereço e o telefone de Mike, mas ambos eram falsos. Então esbarrou num beco sem saída.

Penso naquele homem descobrindo meu diário, lendo-o todos os dias.

Por que ele não o destruiu?

Porque eu havia escrito que o amava. E porque era nisso que ele queria que eu continuasse acreditando.

Ou talvez eu esteja sendo boa demais com ele. Talvez ele simplesmente quisesse que eu o visse ser incendiado.

— Claire não ligou para a polícia?

— Ligou. — Ele assentiu. — Mas demorou alguns dias para eles realmente levarem a coisa a sério. Nesse meio-tempo, ela conseguiu entrar em contato com Adam, que contou que Ben estava fora do país há algum tempo e que, pelo que ele sabia, você continuava em Waring House. Claire entrou em contato com eles e, embora eles não quisessem fornecer o seu endereço, por fim cederam e deram meu número de telefone a Adam.

Devem ter achado que era um bom acordo, afinal sou médico. Claire só conseguiu falar comigo esta tarde.

— Esta tarde?

— Sim. Claire me convenceu de que havia algo de errado, e descobrir que Adam estava vivo confirmava isso. Fomos até a sua casa, mas a essa altura vocês já haviam partido para Brighton.

— Como vocês me encontraram lá?

— Você me disse hoje de manhã que Ben, desculpe, Mike, lhe contou que vocês iriam passar o fim de semana fora. Que vocês iam para o litoral.

Depois que Claire me contou o que estava acontecendo, adivinhei para onde ele iria levar você.

Eu me inclinei para trás. Me sentia cansada. Exausta. Só queria dormir, mas tinha medo de fazer isso. Medo do que poderia esquecer.

— Mas você me disse que Adam tinha morrido — falei. — Que ele tinha sido morto. Quando estávamos no estacionamento. E o incêndio... você me disse que houve um incêndio.

Ele sorriu, com tristeza.

— Porque foi isso o que você me contou. — Eu expliquei que não entendia o que ele queria dizer. — Um dia, umas duas semanas depois de a gente se conhecer, você me contou que Adam estava morto. Evidentemente Mike lhe disse isso, e você acreditou e me contou. Quando me perguntou no estacionamento, eu lhe disse aquilo que achava ser verdade. A mesma coisa com o incêndio. Acreditei que tinha havido um, porque você me disse.

— Mas eu me lembrei do funeral de Adam — retruquei. — Seu caixão...

Novamente o sorriso triste.

— Sua imaginação...

— Mas eu vi fotos — eu disse. — Aquele homem — eu achava impossível dizer o nome de Mike — me mostrou fotos de nós dois juntos, de nós dois nos casando. Encontrei uma foto de uma lápide, com o nome de Adam...

— Ele deve ter forjado tudo isso — explicou o Dr. Nash.

— Forjado?

— Sim. No computador. É bem fácil, na verdade, forjar fotos hoje em dia. Ele deve ter suspeitado que você estava desconfiando da verdade e deixou as fotos onde sabia que você as iria encontrar. É muito provável que algumas daquelas que você achava serem de vocês dois também fossem falsas.

Pensei em todas as vezes que eu tinha escrito que Mike estava no escritório. Trabalhando. Era isso o que ele estava fazendo? Com que amplitude ele havia me traído.

— Você está bem? — perguntou o Dr. Nash.

Sorri.

— Sim. Acho que sim. — Olhei para ele e me dei conta de que conseguia imaginá-lo com outro terno e com o cabelo bem mais curto. —

Consigo me lembrar das coisas — falei.

A expressão dele não se alterou.

— Que coisas?

— Eu me lembro de você com um terno diferente. E reconheci Ben

também. E Adam e Claire, na ambulância. E me lembrei de tê-la visto outro dia. Nós fomos a um café no Alexandra Palace. Tomamos café. Ela tem um filho chamado Toby.

Os olhos dele se entristeceram.

— Você leu seu diário hoje? — perguntou ele.

— Sim — respondi. — Mas não está vendo? Estou me lembrando de coisas que não anotei. Dos brincos que ela estava usando. São os mesmos que está usando hoje. Eu perguntei a ela, e ela disse que eu estava certa. E

me lembro que Toby estava usando uma parca azul e que suas meias tinham personagens de desenho animado, e lembro que ele ficou chateado porque queria suco de maçã e lá só tinha de laranja e groselha. Não está vendo? Eu não anotei nada disso. E me lembro.

Ele pareceu satisfeito, então, embora continuasse cauteloso.

— O Dr. Paxton disse mesmo que não conseguia encontrar nenhuma causa orgânica óbvia para sua amnésia. Que parecia provável que ela tivesse sido, pelo menos em parte, provocada pelo trauma emocional do que aconteceu com você, além do trauma físico. Suponho que seja possível que outro trauma tenha revertido isso, ao menos em certo grau.

Acatei avidamente a sugestão dele.

— Então talvez eu esteja curada? — perguntei.

Ele me olhou fixamente. Tive a sensação de que ele estava pesando o que iria me dizer, pensando em qual fração da verdade eu poderia suportar.

— Devo dizer que é improvável — disse ele. — Houve um grau de melhora ao longo das últimas semanas, mas nada parecido com um retorno completo da memória. Mas é possível.

Senti uma onda de alegria.

— O fato de eu me lembrar do que aconteceu uma semana atrás significa que consigo formar novas lembranças de novo? E conservá-las?

Ele falou com hesitação.

— Eu sugeriria isso, sim. Mas, Christine, quero que você esteja preparada para o fato de que este efeito talvez seja temporário. Só saberemos de fato amanhã.

— Quando eu acordar?

— Sim. É inteiramente possível que depois que você durma esta noite, todas as lembranças que você tem hoje desapareçam. As novas e as velhas.

— Posso acordar exatamente igual a quando acordei esta manhã?

— Sim — respondeu ele. — Pode ser.

A perspectiva de acordar e me esquecer de Adam e Ben parecia demais para ser contemplada. Seria como uma morte em vida.

— Mas... — comecei.