Auto da Índia

Gil Vicente · Capítulo 12 de 18

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Auto da Índia

Lemos

Se valerem caras, não. (se forem caras) Antes traz mais um pão

E o vinho das Estrelas.

MOÇA

Quanto trazerei de vinho?

LEMOS

Três pichéis deste caminho. (*)

[(*) Um pinchel era um pequeno vaso de cobre que servia para beber, pouco maior que uma taça.]

MOÇA

Dais-me um cinquinho, não mais? (*)

[(*) Cinquinho era uma moeda de pouco valor, o equivalente aos cêntimos de hoje.]

LEMOS

Toma aí mais dois reais.

Vai e vem muito improviso (depressa) «Quem vos anojou, meu bem, (aborreceu) «bem anojado me tem.» (*)

[(*) Como se pode ver pelo diálogo entre o Lemos e a Moça, o discurso dele de querer a feira toda era uma gabarolice desmedida pois na verdade às perguntas da Moça sobre que devia trazer, vê-se que o Lemos é um enorme forreta. O pequeno verso que diz a maldizer da Moça mostra também o quanto ele ficou chateado com ela por ela o ter desmascarado com as suas perguntas.]

AMA

Vós cantais em vosso siso? (juízo) (*)

[(*) Por outras palavras: estás bem da cabeça para te pores a cantar?]

LEMOS

Deixai-me cantar, senhora.

AMA

A vizinhança que dirá,

Se o meu marido aqui não está,

E vos ouvirem cantar?

Que razão lhe posso eu dar,

Que não seja muito má?

CASTELHANO

Reniego de Marenilla: (Mentirosa de Marenilla) (*)

Esto es burla, o es burleta? (Isto é burla, ou és burleta/charlatã) Queríeis que me haga trompeta, (Quereis que faça barulho) Qué me oiga toda la villa? (Que me ouça toda a cidade?)

[(*) expressão da época, desconhece-se o fundamento histórico por detrás da mesma. Presume-se que Marenilla seria uma vila de Castela.]

AMA

Entrai vós, ali, senhor,

Que ouço o corregedor;

Temo tanto esta devassa! (*)

Entrai vós nessa outra casa

Que sinto grande rumor. (barulho/agitação)

Chega à janela.

Falai vós passo, micer. (falai mais baixo, mister/senhor)

[(*) O corregedor era o magistrado administrativo e judicial que representava a Coroa em cada uma das comarcas de Portugal; eram também apelidados de corregedores a guarda que em nome do corregedor fazia o trabalho que hoje compete à polícia. Uma “devassa” era uma busca em casa das pessoas feitas por razões de suspeita criminal. De reparar que o termo “devassa” ou “devasso” evoluiu de modo pejorativo, precisamente por ser usado para injuriar aqueles que eram apanhados, em flagrante, numa devassa, ou seja, “devasso” passou a ser alguém que não respeita a lei.]

CASTELHANO

Pesar ora de San Palo, (expressão equivalente: “Que se lixe o silêncio”)

Esto es burla o es diablo? (Isto é burla ou és o diabo)

AMA

Que vos posso eu mais fazer?