Auto da Índia

Gil Vicente · Capítulo 2 de 18

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Auto da Índia

Ama

Arreceo al de menos. (Receio que já não parta) Andei na má hora e nela (Andei a trabalhar que nem uma escrava) A amassar e a biscoutar, (a fazer biscoitos) (1*) Para o demo o levar

À sua negra canela, (2*)

E agora dizem que não.

Agasta-se-mo coração,

Que quero sair de mim. (que não me sinto bem)

[(*) 1 - A Ama afirma que andou a fazer biscoitos para o Marido comer durante a viagem. Esta era uma prática comum, preparar biscoitos e carne salgada ou fumada para os marinheiros que embarcavam nas naus, pois eram coisas que não se estragavam. 2 - Negra canela é uma metáfora que designa a Índia. Aqui a Ama refere a canela – uma especiaria da Índia, muito cara na altura – para simbolizar a viagem. O sentido pejorativo “negra” pretende atingir a viagem e não a especiaria]

MOÇA

Eu irei saber sé assim.

AMA

Tens a minha bênção.

Vai Moça e fica a Ama dizendo:

 

AMA

A Santo António rogo eu

Que nunca mo cá depare: (traga; apareça) Não sinto quem não se enfare (Não sei de quem não se enfarte) De um Diabo Zebedeu.

Dormirei, dormirei,

Boas novas acharei. (*)

[(*) Gil Vigente não explicita bem o que acontece nesta cena pois muitos dos seus manuscritos apenas serviam de anotação dos diálogos das personagens e não tinham as respetivas indicações quanto ao comportamento ou que ações as personagens deviam fazer. Disso encarregava-se ele no seu trabalho de encenação. Neste caso, por exemplo, não é explícito, mas existe uma breve pausa no diálogo em que a Ama se deita para dormir esperando sonhar “com boas novas” (boas notícias); ao fim de uns breves momentos acorda e diz o que sonhou, como se pode ver a seguir.]

São João no ermo estava, (sítio longínquo) E a passarinha cantava. (1*)

Deus me cumpra o que sonhei.

Cantando vem ela e leda. (animada) (2*)

[(*) 1 - O sentido geral do “sonho” quer dizer: São João (a moralidade, ou, figurativamente, o marido) andava longe, e a “passarinha” (ela) cantava de alegria; “passarinha” pode também significar o órgão sexual feminino pois era (e ainda é) esse um dos calões usados; assim sendo é também o seu líbido sexual que cantava. 2 – A Ama refere-se à sua criada que se aproxima com novidades.]

MOÇA

Dai-me alvíssaras, Senhora, (recompensa dada a quem traz boa-notícias)

Já vai lá de foz em fora.(*)

[(*) Que “ele”, o amo, já passou a foz do rio para adiante, ou seja, que a frota de naus em que o marido devia ir, já partiu, e atravessou a foz em direção ao mar. De reparar que a Moça apenas conclui que o marido da Ama ia também, sem se realmente confirmar que partira com os barcos.]

AMA

Dou-te uma touca de seda.

MOÇA

Ou, quando ele vier,

Dai-me do que ele vos trouxer.

AMA

Ai muitieramá! (expressão arcaica: “em muito má hora”) Agora há de tornar cá? (então, havia de regressar?) Que chegada e que prazer! (*)

[(*) “Que chegada (indesejada), e que prazer” - dito ironicamente. É uma expressão irónica que se deve reforçar a ideia de ironia no modo como é dita em palco.]

 

A Moça fala só para o espectador

MOÇA

Virtuosa está a minha ama!

Do triste dele tenho dó.