Auto da Índia
Ama
Que falas? Que te arreganhas? (*)
[(*) “Arreganhar” é um termo que vêm do “arreganhar os dentes” ou seja, “dizer algo por entre os dentes”, em murmúrio, para gozar com alguém.]
MOÇA
Ando dizendo entre mim
Que agora vai em dois anos
Que eu fui lavar os panos
Além do chão de Alcami; (*)
E logo partiu a armada,
Domingo de madrugada.
Não pode muito tardar
Nova, se há de tornar (depressa há de voltar)
Nosso amo para a pousada. (a sua casa, dito em forma de expressão)
[(*) Pequeno largo da antiga Lisboa. De reparar que esta fala da Moça dá indicação de que vários anos se passaram desde que a armada do marido se partiu, mostrando sinal de avanço no tempo. Diz ela também que o Amo deverá estar a chegar.]
AMA
Asinha? (Tão depressa?)
MOÇA
Três anos há
Que partiu Tristão da Cunha. (nome do Amo)
AMA
Quanto eu ano e meio punha. (pensava, julgava)
MOÇA
Mas três e mais haverá.
AMA
Vai tu comprar de comer.
Tens muito para fazer,
Não tardes.
MOÇA
Não, senhora;
Eu virei logo nessora, (num instante) Se me eu lá não detiver.
AMA
Mas que graça, que seria,
Se este negro meu marido,
Tornasse a Lisboa vivo
Pera a minha a companhia!
Mas isto não pode ser,
Que ele havia de morrer
Somente de ver o mar. (*)
[(*) A Ama tem o marido em muita pouca consideração uma vez que o considera um marinheiro tão inapto capaz de morrer só de ver o mar.]
Quero fiar e cantar,
Segura de o nunca ver.
MOÇA
Ai, senhora! Venho morta!
Nosso amo é hoje aqui. (Chega hoje)
AMA
Má nova venha por ti (notícia)
Perra, excomungada, torta. (Cadela)
MOÇA
A Garça, em que ele ia, (*)
Vem com muito grande alegria;
Pelo Restelo entra agora.
Pela vida minha, senhora,
Que não falo zombaria. (mentira, gozação) E vi pessoa que o viu
Gordo, que é para espantar.
[(*) Garça é o nome dado ao navio em que o marido embarcou. Pelo nome da nau deduz-se que Gil Vicente se refere à armada de Tristão Vaz da Cunha, comandante de uma das expedições à Índia.]
AMA
Pois, casa, se te eu caiar, (caiar é o equivalente a pintar) Mate-me quem me partiu!
Quebra-me aquelas tigelas
E três ou quatro panelas,
Que não ache que comer.
Que chegada e que prazer! (dito ironicamente) Fecha-me aquelas janelas,
Deita essa carne a esses gatos;
Desfaz toda essa cama. (*)
[(*) A Ama está com isto a dizer que não quer de maneira nenhuma receber o marido com a casa em boas condições. O objetivo é para que ele fique a pensar que ela viveu miseravelmente. A farsa chega a ponto de mandar a carne para os gatos de modo a ter a dispensa vazia.]
MOÇA
De mercês está minha a ama; (de mau humor) Desfeitos estão os tratos. (acabaram-se os namoros)
AMA
Porque não matas o fogo? (*)
[(*) Apagar o fogo no lar significa simbolicamente tristeza. Antigamente dizia-se que uma casa sem fogo é uma casa sem vida. Precisamente a imagem que a Ama quer fazer passar para o marido.]
MOÇA
Raivar, que este é outro jogo. (*)
[(*) Diz a Moça em murmúrio para o público que bem pode a Ama enfurecer-se á vontade que agora as coisas mudaram.]
AMA
Perra, cadela, tinhosa, (diaba; maldita) Que rosmeias, aleivosa? (Que estas a rugir, mal-nascida?)
MOÇA
Digo que o matarei logo.
AMA
Não sei para que é viver.
MARIDO
Olá.