Auto da Índia

Gil Vicente · Capítulo 15 de 18

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Auto da Índia

Ama

Que falas? Que te arreganhas? (*)

[(*) “Arreganhar” é um termo que vêm do “arreganhar os dentes” ou seja, “dizer algo por entre os dentes”, em murmúrio, para gozar com alguém.]

MOÇA

Ando dizendo entre mim

Que agora vai em dois anos

Que eu fui lavar os panos

Além do chão de Alcami; (*)

E logo partiu a armada,

Domingo de madrugada.

Não pode muito tardar

Nova, se há de tornar (depressa há de voltar)

Nosso amo para a pousada. (a sua casa, dito em forma de expressão)

[(*) Pequeno largo da antiga Lisboa. De reparar que esta fala da Moça dá indicação de que vários anos se passaram desde que a armada do marido se partiu, mostrando sinal de avanço no tempo. Diz ela também que o Amo deverá estar a chegar.]

AMA

Asinha? (Tão depressa?)

MOÇA

Três anos há

Que partiu Tristão da Cunha. (nome do Amo)

AMA

Quanto eu ano e meio punha. (pensava, julgava)

MOÇA

Mas três e mais haverá.

AMA

Vai tu comprar de comer.

Tens muito para fazer,

Não tardes.

MOÇA

Não, senhora;

Eu virei logo nessora, (num instante) Se me eu lá não detiver.

 

AMA

Mas que graça, que seria,

Se este negro meu marido,

Tornasse a Lisboa vivo

Pera a minha a companhia!

Mas isto não pode ser,

Que ele havia de morrer

Somente de ver o mar. (*)

[(*) A Ama tem o marido em muita pouca consideração uma vez que o considera um marinheiro tão inapto capaz de morrer só de ver o mar.]

Quero fiar e cantar,

Segura de o nunca ver.

 

MOÇA

Ai, senhora! Venho morta!

Nosso amo é hoje aqui. (Chega hoje)

AMA

Má nova venha por ti (notícia)

Perra, excomungada, torta. (Cadela)

MOÇA

A Garça, em que ele ia, (*)

Vem com muito grande alegria;

Pelo Restelo entra agora.

Pela vida minha, senhora,

Que não falo zombaria. (mentira, gozação) E vi pessoa que o viu

Gordo, que é para espantar.

[(*) Garça é o nome dado ao navio em que o marido embarcou. Pelo nome da nau deduz-se que Gil Vicente se refere à armada de Tristão Vaz da Cunha, comandante de uma das expedições à Índia.]

AMA

Pois, casa, se te eu caiar, (caiar é o equivalente a pintar) Mate-me quem me partiu!

Quebra-me aquelas tigelas

E três ou quatro panelas,

Que não ache que comer.

Que chegada e que prazer! (dito ironicamente) Fecha-me aquelas janelas,

Deita essa carne a esses gatos;

Desfaz toda essa cama. (*)

[(*) A Ama está com isto a dizer que não quer de maneira nenhuma receber o marido com a casa em boas condições. O objetivo é para que ele fique a pensar que ela viveu miseravelmente. A farsa chega a ponto de mandar a carne para os gatos de modo a ter a dispensa vazia.]

MOÇA

De mercês está minha a ama; (de mau humor) Desfeitos estão os tratos. (acabaram-se os namoros)

AMA

Porque não matas o fogo? (*)

[(*) Apagar o fogo no lar significa simbolicamente tristeza. Antigamente dizia-se que uma casa sem fogo é uma casa sem vida. Precisamente a imagem que a Ama quer fazer passar para o marido.]

MOÇA

Raivar, que este é outro jogo. (*)

[(*) Diz a Moça em murmúrio para o público que bem pode a Ama enfurecer-se á vontade que agora as coisas mudaram.]

AMA

Perra, cadela, tinhosa, (diaba; maldita) Que rosmeias, aleivosa? (Que estas a rugir, mal-nascida?)

MOÇA

Digo que o matarei logo.

AMA

Não sei para que é viver.

MARIDO

Olá.