Auto da Índia
Ama
E que falas tu lá só? (aí sozinha)
MOÇA
Falo cá com esta cama.
AMA
E essa cama, bem, que há? (que diz?) Mostra-me essa roca cá. (uma roca de fiar linho) Siquer fiarei um fio. (Procurarei fiar) Deixou-me aquele fastio (aquele cuja presença provoca enjoo) Sem ceitil.(*)
[(*) O ceitil era a moeda portuguesa, criada no reinado de D. Afonso V, no século XV. A Ama pede a roca para fiar com a justificação de que assim poderá ganhar algum dinheiro pois queixa-se que o marido a deixou na miséria]
A Moça fala só para o espectador
MOÇA
Ali, eramá! (“em má hora o diga”)
Todas ficassem assim.
Deixou-lhe para três anos
Trigo, azeite, mel e panos.
AMA
Mau pesar veja eu de ti! (que eu te dê mau olhado) Pensas tu que não te entendo?
MOÇA
Que entendeis? Ando dizendo
Que quem assim fica sem nada, Como vós, que é obrigada...
Já me vós és entendendo. (já me está a entender; se é que me entende) (*)
[(*) Diz a Moça em tom de ironia/gozação/provocação, que as mulheres cujos maridos partem para longe sem lhes deixar nada - o que neste caso, não era verdade – teriam que recorrer a métodos menos ortodoxos para sobreviver, ou seja, vender o corpo. A Moça ironiza a situação pois sabe que a Ama não passa necessidades e que quer apenas usar esse pretexto para se atirar para os braços de outros homens. Tal provocação provoca na Ama um certo embaraço que a leva a proferir num longo discurso, como se pode ver a seguir. De reparar que esse discurso seguinte da Ama tem, no palco, momentos de pausa em que esta pára para refletir, mudando frequentemente de tom e entoação.]
AMA
Ha ah ah ah ah ah!
Estará bem graciosa,
Quem se vê moça e formosa (nova, jovem)
Esperar pela iramá. (pela má hora) (*)
[(*) Frase dita com ironia, ou seja: que estaria bem arranjada a mulher nova e jovem que tivesse que ficar à espera pelo “iramá” (o marido) para ser satisfeita; sexualmente falando.]
E se vai ele a pescar
Meia légua pelo mar,
Isto bem o sabes tu,
Quanto mais a Calecu! (cidade de Calcutá, na India) Quem há tanto de esperar?(*)
[(*) Admite a Ama depois de um momento: “já sabes como ele demora quanto vai pescar “meia légua pelo mar”, quanto mais a Calcutá! Quem tem havia de tanto esperar?, ou seja, quem tem paciência para ficar à espera tanto tempo? Está essencialmente a defender-se dizendo as mulheres também têm necessidades sexuais.]
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora da minha morte,
Que eu faça tão pouca sorte.
Guarde-me Deus de tal perigo.(*)
[(*) Diz a Ama, dirigindo-se a Deus, pedindo-lhe que ele não a deixe à espera para a levar para o Paraíso, tal como o marido a deixa sozinha e abandonada durante tanto tempo. Há aqui um tom humorístico pois, de acordo com a moralidade da época, ela estaria a condenar-se ao ser infiel; coisa que ela ignora e pondo-se no papel de vítima.]
O certo é dar a prazer.
Para que é envelhecer
Esperando pelo vento?
Quanto eu por muito nécia sento (tola, estúpida) A que o contrário fizer. (*)
[Os versos querem dizer que a Ama toma por muito tola ou estúpida aquela que fica à espera do vento.]
Partem em Maio(*) daqui,
Quando o sangue novo atiça:
Parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
E eu contigo também.
[(*) Maio, mês ligado ao ponto alto da Primavera.]
Quem sobe por essa escada?
CASTELHANO
Paz sea nesta posada. (Paz seja nesta casa)