Auto da Índia
Ama
Ali má hora este é. (O maldito chegou)
- Quem é?
MARIDO
Homem de pé.
AMA
Gracioso se quer fazer. (Está a armar-se em engraçadinho)
- Subi, subi para cima.
MOÇA
É o nosso amo, como rima!
AMA
Teu amo? Jesus, Jesus,
Alvíssaras pedirás tu. (recompensas)
MARIDO
Abraçai-me minha prima.(*)
[(*) Na época era normal o casamento arranjado entre primos.]
AMA
Jesus, tão negro e tostado! (*)
Não vos quero, não vos quero.
[(*) Como todo o marinheiro depois de uma grande viagem o marido vinha bronzeado do Sol, algo que a Ama diz achar feio rejeitando assim o seu abraço.]
MARIDO
E eu a vós a si, porque espero
Serdes mulher de recado. (mulher que cumpre os deveres de esposa.)
AMA
Moça, tu que estás olhando,
Vai muito asinha saltando, (depressa)
Faz fogo, vai por vinho
E a metade de um cabritinho,
Enquanto estamos falando.
Ora como vos foi lá?
MARIDO
Muita fortuna passei.(*)
[(*) Mais uma vez, fortuna, não no contexto de riqueza a que hoje damos à palavra mas no sentido de acontecimento, daquilo que ocorre no dia a dia. Aqui “muita fortuna” quer dizer que passou por muita coisa.]
AMA
E eu, oh quanto chorei,
Quando a armada foi de cá.
E quando vi desferir (levantar a vela ao vento) Que começastes de partir,
Jesus, eu fiquei finada, (morta) Três dias não comi nada,
A alma se me queria sair.
MARIDO
E nós a cem léguas daqui
Saltou tanto sudoeste,
Sudoeste e oés-sudoeste (*)
Que nunca tal tormenta vi.
[(*)O Marido referencia um conjunto de ventos soprando em direções opostas que estiveram na base de uma tempestade marítima.]
AMA
Foi isso à quarta-feira,
Aquela logo primeira?
MARIDO
Sim, e começou na alvorada.
AMA
E eu fui-me de madrugada
A nossa Senhora de Oliveira.
E com a memória da cruz
Fiz-lhe dizer uma missa,
E prometi-vos em camisa (camisa de dormir; antes de adormecer) A Santa Maria da Luz.
E logo à quinta-feira
Fui ao Espírito Santo
Com outra missa também.
Chorei tanto que ninguém
Nunca pensou ver tal pranto. (choro; desespero)
Correstes aquela tormenta? (Passaste) Andar... (Continua…)
MARIDO
Durou três dias.