Auto da Índia
Ama
As minha três romarias
Com outras mais de quarenta. (*)
[(*)Ou seja, está a Ama a tentar ligar os três dias de tempestade com os seus três dias de rezas. A estratégia da Ama é fazer crer ao Marido que ele se salvou das tempestades porque ela passou o tempo nas igrejas a rezar pela sua salvação.]
MARIDO
Fomos na volta do mar (o mesmo que dizer, afastamo-nos da terra) Quase a quartelar (a mudar de rumo ao sabor dos ventos) A nossa Garça voava
Que o mar se espedaçava.
Fomos ao rio de Meca,
Pelejámos e roubámos (lutamos) (1*) E muito risco passámos:
A vela, árvore seca. (2*)
[(*) 1- Há aqui uma óbvia crítica de Gil Vicente a muitos dos acontecimentos que ocorriam durante as navegações. A imagem que os órgão e as instituições de poder procuravam passar da imagem dos navegadores heróis que iam espalhar a cristandade pelo mundo fora é aqui claramente exposta tal como isso ocorria na verdade – combatendo e saqueando. 2 - A expressão significa que a Armada chegou sem velas, ou com parte do velame desfeito pelas tempestades e lutas.]
AMA
E eu cá a esmorecer, (definhando, desfalecendo) Fazendo mil devoções,
Mil choros, mil orações.
MARIDO
Assim havia de ser.
AMA
Juro-vos que de saudade
Tanto de pão não comia
A triste de mim cada dia
Doente, era uma piedade.
Já carne nunca a comi,
Esta camisa que trago
Em vossa dita a vesti (*)
Porque vinha bom mandado.
[(*) A Ama diz que apenas vestira aquela roupa porque recebera noticias de que vinha aí o marido. É uma forma de justificar o porquê da sua boa roupa, tentando passar a ideia ao marido que se não fosse isso ele iria encontrá-la em farrapos.]
Onde não há marido
Cuidai que tudo é tristura,
Não há prazer nem folgura, (festa) Sabei que é viver perdido.
Alembrava-vos eu lá? (Lembrava-se lá de mim?)
MARIDO
E como!
AMA
Agora, aramá! (Qual quê!)
Lá há índias muito formosas,
Lá faríeis vós das vossas
E a triste de mim cá,
Encerrada nesta casa,
Sem consentir que vizinha
Entrasse por uma brasa,
Por honestidade minha.