Auto da Índia

Gil Vicente · Capítulo 4 de 18

Páginas do PDF

Auto da Índia

Ama

Vós sois? Pensei que era alguém.

CASTELHANO

Asegun esso, soy yo nada. (Segundo isso, sou eu, nada)

AMA

Bem, que vinda foi agora esta?

CASTELHANO

Vengo aqui en busca mia, (Venho aqui numa busca minha) Que me perdi en aquel dia (De algo que perdi noutro dia) Que os vi hermosa y honesta (Em que vos vi bela e honesta/singela) Y nunca más me topé. (E nunca mais me reencontrei) Invisible me torné, (Invisível me tornei) Y de mí crudo inimigo; (E inimigo de mim próprio)

El cielo, empero es testigo (O céu, contudo o justificará) Que de mi parte no sé. (Que por minha parte não o sei) (*)

[(*) De notar que na altura em Portugal falava-se português e castelhano, simultaneamente.]

Y ando un cuerpo sin alma, (E ando um corpo sem alma) Un papel que lleva el viento, (Um papel que leva o vento) Un pozo de pensamiento, (Um poço de pensamento) Una fortuna sin calma. (Um estado sem calma) (*) Pese al dia en que nascí; (Desde o dia em que nasci) Vos y Dios sois contra mí, (Vós e Deus são contra mim) Y nunca topo el diablo. (E nunca vejo o diabo) Reís de lo que yo hablo? (Ris do que vos falo)

[(*) Fortuna não no sentido de riqueza. Fortuna era o modo para designar como as coisas ocorriam. “Buena fortuna” ou “boa fortuna” queria antigamente dizer “boa sorte”, uma boa disposição. Etimologicamente a palavra “fortuna” vem do nome da deusa romana Fortuna que era a deusa da sorte (boa ou má) e da esperança que simbolizavam a distribuição de bens e a coordenação da vida dos homens, e geralmente estava cega ou com a vista tapada (como a moderna imagem da justiça), pois distribuía seus desígnios aleatoriamente. A evolução da palavra “fortuna” para sinónimo de riqueza fez-se porque conclui-se que quem tinha “boa fortuna” era quem tinha riqueza.]

AMA

Bem sei eu de que me ri.

 

CASTELHANO

Reívos del mal que padezco, (Ris do mal que padeço) Reívos de mi desconcierto, (Ris do meu desconcerto) Reívos que tenéis por cierto (Ris porque tendes por certo) Que miraros non merezco. (E ver-vos não mereço)