Auto da Índia
Marido
Lá vos digo que há fadigas,
Tantas mortes, tantas brigas
E perigos descompassados,
Que assim vimos destroçados
Pelados com as formigas. (Nús)
AMA
Porém vindes vós muito rico...
MARIDO
Se não fosse o capitão,
Eu trouxera, o meu quinhão,
Um milhão vos certifico.
Calai-vos que vós vereis Quão louçã haveis de sair. (bela) (*)
[(*)Gil Vicente coloca na boca do Marido uma queixa que era comum à maioria dos embarcados, ou seja, os capitães das armada apoderavam-se da maior parte das riquezas que os marinheiros tinham roubado. No entanto, o marido ao dizer que a mulher havia de sair à rua bonita, dá a entender que tinha o suficiente para lhe comprar o que ela quisesse.]
AMA
Agora me quero eu rir
Disso que me vós dizeis.
Pois que vós vivo viestes,
Que quero eu de mais riqueza?
Louvado seja a grandeza
De vós, Senhor que mo trouxestes.
A nau vem bem carregada?
MARIDO
Vem tão doce embandeirada. (Com a bandeira hasteada)
AMA
Vamo-la, rogo-vo-lo, ver. (Vamos vê-la, peço-vos)
MARIDO
Far-vos-ei nisso prazer?
AMA
Sim que estou muito enfadada. (enfadada)
Vão ver a nau e fenece esta farsa. (acaba)
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Gil Vicente