Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 1 de 20

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Costumes Madrilenos

I Caracteres e Comparações

O auctor

 

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COSTUMES MADRILENOS

I

 

CARACTERES E COMPARAÇÕES

 

Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da existencia, aprende a viajar.

A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos notaveis.

Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e principalmente,{8} uma fonte inexgotavel de boa e salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou na cidade onde residimos.

E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião—tu irás á Allemanha.

Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida—tu, sem mais trabalhos nem violencias, ficarás em Portugal.

Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia—então procurarás Italia.{9}

Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do coração, o esplendor do ménage—parte para a Hespanha.

Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso, numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar nas outras mulheres do mundo.

Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração chega jámais a desesperar—e se um seculo vivessemos, um seculo tambem consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais amantes do que esposas.

No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo, a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das palavras, a originalidade dos costumes.

Com elles contrastam os inglezes, os{10} quaes, não obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e astuciosos na guerra.

Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares—os povos são um resultado do meio em que se acham mergulhados.

O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer sobre tudo e sobre todos.

E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.

O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico, supersticioso, intolerante—tal qual como as verdades do Alcorão.

Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris, resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.{11}

Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que nos deixem.

Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões, se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico, um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e deixa-te ficar por cá.

Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente, corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha e em correr num trenó num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se gostas da vida, tal como ella deve ser— valorosa, hygienica, e grande, então vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua vontade.

Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta apenas, que no teu viver domestico, no{12} teu gastar quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se—a sciencia da economia.

No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica, vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do mundo, mas ainda os homens e as sociedades.

E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação da natureza e o estudo das cousas em geral.

Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo, excellente marido e cidadão prestante.

E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida e amor—é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.

Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha;{13} e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.

Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.

Cocheiro—açoute nesses cavallos!

Para deante. Para deante é que é o caminho.{14} {15}