Costumes Madrilenos
VIII a Politica[1]
VIII
A POLITICA[1]
(CONTRASTES)
Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda hontem, humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas nacionaes que não podia ser{68} aquelle o coito das suas devassidões infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre arrogante, ella transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules, por onde jámais lhe seria dado volver ás terras das suas hybridas façanhas e ao solar das suas sabidissimas intrigas.
E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma tempestade eminente.
E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.
Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua divina palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento funebre de uma mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e merecidamente repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre alçava para o céo a sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com os seus e com os estranhos pela{69} victoria da justiça do seu paiz: Sagasta tinha a convicção de uma grande causa conquistada, e persuadia-se ter concluido uma obra meritoria; Prim, o esforçado batalhador de Marrocos, ostentava em pleno dia as alegrias que lhe iam na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no coração; Castelar, emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia, suppozera-se victorioso, e victorioso para sempre.
Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento, todas estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas estas festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um minuto, inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso, que a politica foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas humanas e a mais evidente demonstração de quanto a humanidade é inconstante, leviana e traiçoeira.
A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de Cadiz.{70}
Pouco nos importa que o sr. Sagasta fosse agora o primeiro a cumprimentar a ex-rainha expulsa, acceitando-lhe o retrato e as perfidias; pouco nos importa que o sr. Ayalla abra tambem o cofre dos seus gabos e a cornucopia da sua generosidade. Tudo isso é do mundo, e nós estamos no mundo. Unicamente, nós temos direito a perguntar aos nossos vizinhos qual é actualmente o seu rei.
Quem governa? Isabel II ou Affonso XII?
A abdicação da rainha por ninguem foi ainda reconhecida. Não é ella de facto que occupa o throno, sabemol-o; mas na realidade é ella quem governa, desde o momento que o consentimento lhe foi dado, para de novo residir no palacio del Oriente.
Que diria a isto Prim, o heroe de 1868, se por acaso hoje vivesse? Que dirão a isto os senhores liberaes de Hespanha, que, por suas proprias mãos, acabam de cavar o proprio sepulchro? E que fará o sr. Canovas del Castillo, o amigo duvidoso da ex-rainha?{71}
E a Hespanha, a nobre filha da peninsula, consentirá impunemente n'este attentado contra a sua dignidade? Volverá ao nefasto governo dos Clarets sem um protesto, sem um brado de indignação, sem uma affirmativa do seu brio e do seu pundonor?
Nada temos com personalidades. A politica pessoal é, de todas as politicas, a mais detestavel e a mais perniciosa. Mas se isto nada é, o principio é tudo. É forçoso respeital-o e seguil-o. De outro modo não ha paiz que se sustente, da mesma maneira que sem leme é impossivel a navegação no mar.
Amadeu I, pela sua demasiada simplicidade, não logrou nunca que os hespanhoes o guindassem ao fastigio da gloria. Muito bem. O sr. Zorrilla dispensa-o do seu serviço, e prepara-se para dirigir a politica do seu paiz. Mas, ó incoherencia! o proprio sr. Zorrilla, segundo affirmaram alguns, é o primeiro a divorciar-se dos republicanos, emigrando e dizendo-se apenas radical. E, por incoherencia ainda, é elle hoje o conspirador por excellencia,{72} e, segundo todas as vistas, o chefe do futuro gabinete republicano.
E tão odioso é de facto o seu nome ao actual governo, que, ainda ha pouco, o jornal El Globo, orgão do sr. Castelar, e de que é director o sr. Olías, foi supprimido por apenas lhe ter estampado a photographia na primeira pagina.
E esta suppressão indigna, violação manifesta do direito, da justiça e da propriedade, foi feita sem denuncias, sem accusações fiscaes e sem que os tribunaes fossem, ao menos, ouvidos.
Tal é, em geral, o fructo dos governos restauradores!
Quando Affonso XII subiu ao throno não faltaram, nem as apostas, nem os protestos, nem as indignações.
Mas tudo isso passou. E el niño de su madre, o pequeno authomato dos tempos modernos, convicto de que o seu reinado havia de ser de ouro, sentou-se no throno, com o serenidade de um fingido Bourbon, sem consciencia e sem reflexão.
Agora, porém, falla-se com insistencia numa nova revolução. Madrid agita-se; o{73} exercito divide-se; a fazenda publica está num estado desesperador; a população descrê; tudo isto, aggravado ainda com a vinda da rainha Isabel para Madrid, que a todos inspira odio e antipathia, faz suppôr que o movimento revolucionario se não demorará muito no seu apparecimento.
Ninguem hoje tem o poder de resuscitar cadaveres. A elevação de Affonso XII ao throno nunca passou mesmo de uma mera phantasmagoria politica, especie de entreacto entre o passado e o futuro. Hão de tornal-o a enterrar, estou convencido, e sem grande difficuldade.
Conta-se que num jantar, ultimamente dado em Barcelona, se reuniram seis politicos de vulto. Travada a discussão viu-se que cada um d'elles professava opinião differente ácerca do estado geral da patria. Progrediram assim as cousas; e de tal maneira que, no fim do banquete, os copos voaram pelos ares ao clamor estridulo e confuso de uma contenda infernal. Ninguem se entendia. O meio de persuasão estava já nos punhos arregaçados e{74} nos calices feitos pedaços. Finalmente parece que tão delicioso repasto terminou, sem levar a convicção ao espirito dos convivas, é verdade, mas deixando-lhes, todavia, a liberdade do vinho absorvido, e a gloria dos destroços por cada um operados em favor da sua causa.
E assim é, em quanto a nós, tambem a politica em Hespanha— uma Babylonia!{75}
[1] Este artigo, embora restricto a um facto particular da actual dynastia
reinante em Hespanha, póde, todavia, ampliar-se á politica geral do paiz, e por elle ser criticada.