Costumes Madrilenos
VI a Instrucção Publica
VI
A INSTRUCÇÃO PUBLICA
«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»—dizia Leibnitz.
E assim é, com effeito.
Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha, pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o sympathico auctor da Politica radical, tem consagrado quasi todos os annos da sua{52} vida á solução d'este notavel problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham na vanguarda da civilisação.
É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:
«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente estaria mais perto da liberdade».
E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.
E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia positiva.
Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo, que, onde as escolas escasseiam, ou onde a{53} maioria da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.
Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel, fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;—Emile de Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo, ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser instruido.
Necessaria, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos deviam saber ler, contar e escrever—o que, mutatis mutandis, vinha a dar o mesmo.
Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de 20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias, appareceu pela primeira vez neste paiz.
E, no entretanto, as escolas continuam{54} sem frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo sub-lunar.
O sr. Levasseur, membro da commissão franceza, na ultima exposição internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100 habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.
Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente desfavoravel.
Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria, se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.{55}
Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de familia, nunca a instrucção obrigatoria será levada por deante, na peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas, faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é, creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.
Mas a Hespanha, litterariamente, ao menos, tem uma vida propria, sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.
Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que a vida de Lisboa;{56} e de tal modo que o nosso povo mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época, senão como um facto accessorio da vida portugueza.
E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa viagem—escreve Castelar—tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do Romancero e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses,{57} e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava enthesourada».
Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido foi Lope de Vega.
A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam aproximadamente 60 jornaes. Da Universidade Central, situada na rua de S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem bachareis.{58}
Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.
E posto isto, tratemos d'outro assumpto.{59}