Costumes Madrilenos
XIII Theatros
XIII
THEATROS
A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio de colera ou por uma faisca de trovoada—é o theatro.
Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na mise-en-scene de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...
Ao ouvir as doces malagueñas e as ternas seguidilhas, desferidas por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se{108} são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de bailadeiras que seduzem, e de amores que fervem.
Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes, aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se, à la belle etoile, e a occultas da parentella, intentasse o rapto d'uma d'aquellas formosas sabinas, mais diabos que o proprio Diabo e ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...
Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol—é a zarzuella, especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de Satanaz.
Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do demi-monde;{109} creação necessaria no meio das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até á ultima grisette, que, por causa de um estudante do bairro latino, tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a zarzuella não succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.
Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica—o riso, a ironia, o sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas zarzuellas notaveis, possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o dulcifica.
A Grã-Duqueza é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia estonteada, um quadro fiel das cocottes, arvoradas em mandadeiras de exercitos,{110} uma photographia de costumes pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um monarcha infame; o Jogar com fogo é um entre-acto agradavel ás acenas da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.
E é o que tem a zarzuella: não cança nunca, porque foi um producto natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o salero; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.
A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da zarzuella nem a elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto, passageiro e ephemero.
Numa palavra, a zarzuella tem as suas raizes nas immutaveis oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a opera-buffa originou-se{111} numa sociedade de transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas positivas e scientificamente organisadas.
Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a zarzuella, e em quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só os hespanhoes a sabem cantar.
Quando, pela primeira vez, entrei no Theatro Real, situado no largo de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.
E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso, açoutado pelo simuon e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente transportada{112} a um paraiso, onde adejam os cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces louras.
Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá, onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente chamado—Romeu e Julietta.
Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa do Theatro real não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus habitués.
Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da zarzuella. De zarzuella... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão harmonicamente produzidas!
Representava-se então uma velha zarzuella, muito velha e muito ouvida, mas{113} sempre fresca no rhythmo e no pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos fallar de Pan y toros.
—Panem et circenses, gritavam os romanos; Pan y toros, exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de facto, existe entre um e outro paiz. Mas—cousa singular! a França tambem é de origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente—ou pão ou chumbo.
E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos milliarios da humanidade trabalhadora.
Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia. Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece{114} haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o caso nada era.
—«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um homem morto. Apenas um homem morto!»
E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.
Ora nesta zarzuella transparece perfeitamente o caracter hespanhol, irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas labyrinticas phantasias de occasião.
Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos outros, e entre elles o theatro da Comedia, theatro muito moderno, lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do Circo, na praça del Rey; o theatro de D. Affonso, proximo da Porta de Alcalá; o theatro das Variedades, o theatro das Novidades, etc., etc.
E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições, de musicas,{115} de alegrias ferozes e de mulheres encantadoras.
É verdade, e os patinadores?
Fallemos dos patinadores.{116} {117}