Costumes Madrilenos
X a Musica
X
A MUSICA
Poucas cidades ha já hoje na Europa que não tenham o seu theatro lyrico. A musica não é apenas um entretenimento agradavel; é ainda mais, uma necessidade impreterivel.
Aos domingos e dias santificados, aquelles que, por falta de meios, não podem concorrer a espectaculos pagos, procuram naturalmente os jardins publicos, onde, gratuitamente, lhes é dado ouvir uma orchestra ou uma banda musical. E assim, este simples divertimento faz com que muitas vezes se afastem da taberna muitos{84} centenares de operarios. É que a attracção de uma boa musica traz-nos frequentemente o esquecimento das proprias dôres e dos proprios soffrimentos.
Tres escólas se disputam a palma no campo da lucta.
Uma (a escóla allemã) é a harmonia: raciocina, descreve as lendas do seu paiz, e obriga á reflexão; outra (a escóla italiana) é a melodia: corre atraz da sua imaginação, queda-se com um sentimento triste, expande-se com a dôr, e recolhe-se com o amor. A primeira é grave, solemne, austera, e pertence naturalmente aos povos do norte; a segunda é meiga como uma mulher portugueza, leviana como a natureza em que vivemos, doce como os costumes da Italia, e a sua vida está subordinada aos povos do meio dia.
Na Africana, por exemplo, ha gritos selvagens, notas lancinantes, harmonias plangentes; mas tudo isto com a inexcedivel pericia de um maestro consciencioso, e, sobretudo, pensador.
Beethoven tem o condão maravilhoso de nos compellir ao estudo, á concentração{85} intima, ao seguimento de uma idéa, que é como que o desabroxar do espirito para um mundo novo.
Grottschalk e Mendelssohn têm nas suas composições o cunho indelevel da tristeza, prevêem a morte, e cantam-n'a. Não têm horror ao mysterio, e por isso as suas partituras avivam em nós um não sei quê de vago, de indefinido, que involuntariamente nos obriga a interrogar os arcanos da consciencia.
Mozart tem uma certa vivacidade que seduz; em meio das suas lucubrações pára, e, espraiando a vista pelos horisontes além, sente-se feliz, e sorri; e tão formosos são os seus sorrisos, que d'elles, como se fossem um sol, partem os raios animadores das suas obras monumentaes.
Ricardo Wagner, hoje o maior vulto musical da Allemanha, tem nas suas obras, a par do rythmo, profundamente cadenciado e harmonico, uma feição notavelmente litteraria e artistica; estudando as lendas do seu paiz, conta-as com a superioridade de uma grande potencia, a quem não escasseia nem o genio nem a phantasia.{86}
A terceira escóla é a franceza, sem ideal definido, portentosa umas vezes, com os arrojos de Meyerbeer, e suavemente deliciosa n'outras occasiões, com as meigas melodias de Bellini ou Donizetti. E no entretanto uma coisa distingue esta escóla: é a verve, o frescôr animadissimo, transparente, que se exhala de todas as notas; a harmonia que nos leva á meditação; a melodia que nos arrasta os sentidos, á selhança de quem vive numa atmosphera impregnada de vapores e de perfumes.
A escóla franceza tem, é verdade, muito de condemnavel como escóla ecletica; mas ainda assim não devemos nunca esquecer que a ella pertencem talentos soberbos, como o de Gounod, compositor do Fausto, e o de Berlioz, auctor do Manfredo, que para muitos foi o predecessor de Ricardo Wagner, e o de Auber, e o de Herold e o de muitos outros.
A escóla franceza é, pois, uma intermediaria entre a escola allemã, toda subjectiva, inspirando-se nos grandes arrebatamentos da consciencia humana, cheia de gravidade, como a justiça, rodeada de{87} esplendores, como a verdade e infiltrada de meditações, como o espirito da humanidade, e a escóla italiana, toda objectiva, obedecendo mais ás impressões dos sentidos, tendo por norma de vida o ideal da natureza, cercada de flôres, de primaveras e de aves, e cantando o paraizo ao som das intimas alegrias e dos intimos prazeres.
Os dilletanti do nosso theatro lyrico quasi que chegam a menosprezar hoje a musica italiana, por obnoxia e anachronica.
Não nos parece razoavel semilhante proposito. A não ser a moda, não sabemos que outros factos possam abonar tão disparatada opinião.
Portugal não tem uma educação musical verdadeiramente avigorada. Está longe ainda de poder attingir o classicismo allemão.
Depois, nós somos um povo peninsular. Vivemos com as impressões exteriores da natureza; o nosso espirito segue as oscillações da temperatura atmospherica; somos frouxos, levianos, sem o vigor que dá a consciencia nem a elevação que nos{88} traz a idéa: a nossa escóla ainda ha de ser por muitos annos a escola italiana.
A musica constitue, como a litterutura, a genuina expressão dos sentimentos de um povo. A França, que ri sempre e a proposito de tudo e de todos, não podia deixar de ser a patria da comedia moderna; por eguaes razões a Inglaterra, que se alimenta de fumo e de spleen, se não possuisse Shakespeare, o sublime tragico, possuiria de certo qualquer outro que lhe interpretasse os sentimentos e as paixões, com a mesma eloquencia com que o soube fazer aquelle divino artista; a Allemanha, á semelhança de quasi todos os paizes do norte, é mais inclinada ao drama symbolico, de que o Fausto é um exemplo maravilhoso, do que ao drama de paixão, que pertence naturalmente á raça latina.
O genero musical mais favorito, em Hespanha, é o tango, a habañera, a malagueña, a seguidilla, n'uma palavra a—zarzuella, com feição especial e caracteristica, podendo tomar-se como mais uma affirmação do genio bandoleiro hespanhol,{89} e do espirito aspero, violento e contradictorio d'aquelle esplendido paiz.
Que a musica entre os hespanhoes é originalissima, sabem-n'o todos. E por tal fórma é isto verdade que jámais povo algum do mundo foi capaz de assimilar-lhe a inspiração, o rythmo e o cadenciado da phrase.
A Hespanha ficaria incompleta se porventura lhe subtrahissem este genero de musica, de todos os generos o mais monotono, talvez, mas com certeza o mais espontaneo, porque é a expressão das suas tradições e da sua nacionalidade.
Rara é a mulher em Madrid que não sabe cantar. O proprio amor madrileno é um tango, em que a amada ou a amante ora quer, ora não quer, ora solluça e ora ri, ora finge e ora pensa.
D'este modo vê-se que a musica em Hespanha, producto natural d'aquelle paiz é como tudo o que alli existe—uma contradicção agradabillissima, e talvez mesmo que um sonho encantador.
Mais adeante, porém, voltaremos a este assumpto.{90} {91}