Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 20 de 20

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Costumes Madrilenos

XX em Retirada

XX

 

 

EM RETIRADA

 

Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho ha spleen.

São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos acudiram ao espirito, em relação ao caso presente.

Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro para as tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi sempre, um distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão intellectual.

O fumo está para o cerebro na mesma{182} proporção em que o café está para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios ao homem; com a simples differença de que o café nos excita, por vezes, demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em nós um salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.

Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,— ai de nós! que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é —ao spleen.

A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa ver uma formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as nossas impressões e o nosso juizo de momento?

E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto é certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular nostalgia por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando regressamos á patria, nos assalta uma terrivel hypocondria{183} por tudo o que é estranho e nos assombra.

D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar, tenha paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a uma das suas intimas confidentes para a acompanhar.

E verá que a não engano!

 

*

* *

 

Ora a retirada é quasi que uma recapitulação de tudo o que se fez pelas terras onde se esteve.

—Que te pareceu esta gente?—perguntava-me o meu companheiro e velho condiscipulo—amigo José Trigueiros Martel.

—Esta gente!... pois que diabo me havia de parecer, senão unica e originalissima!... retorqui.

E começamos a enumerar os principaes partidos politicos em que se dividia a familia{184} hespanhola, que eram pouco mais ou menos os seguintes:

Absolutistas de qualquer rei.

Carlistas clericaes.

Carlistas militares.

Carlistas constitucionaes.

Cabreiristas.

Neo-dynasticos absolutistas.

Dynasticos tolerantes.

Moderados unitarios.

Moderados conservadores.

Conservadores da conciliação.

Heterogeneos.

Homogeneos canovistas puros.

Santa-crucistas.

Sagastinos.

Neo-constitucionaes democraticos.

Radicaes puros.

Radicaes do X.

Radicaes republicanos.

Democratas monarchicos.

Democratas puros.

Republicanos catholicos.

Confederados.

Separatistas.

Communistas.{185}

E não queria Amadée Achard que a Hespanha fosse alcunhada de bandoleira! Ninguem lhe desconhece os feitos de Numancia, de Sagunto, de Madrid, e de Zaragoza. Certamente que a Hespanha tem na sua historia paginas sagradas, como por exemplo as que resam das santas guerras das communidades de Castilla. Mas a par de tudo isto, ahi estão os factos da Andaluzia a fallar mais alto do que os patriotismos exagerados; e ahi estão tambem os acontecimentos dos ultimos vinte annos a affirmar-nos eloquentemente que esse paiz, embora cheio de vida e dotado de enthusiasmos respeitaveis, ha de ser sempre uma contradicção viva a tudo o que existe e um especialissimo parenthese na vida das nações.

E provirá isto de uma simples questão de raça, de clima, de religião, de lingua, de costumes, de civilisação ou de meio?

Que o digam os srs. philosophos historiadores.

Nos costumes reside, principalmente, a expressão de uma nacionalidade.

Porque hoje, francamente, não se póde{186} viajar apenas, como um simples brazileiro endinheirado—em trem especial de exclamações.

Não basta só dizer, admiravel! magnifico! explendido! como aliás parece fazer a maioria dos nossos viajantes.

—Então que me diz o amigo de Pariz?

—Ah!

—E de Londres?

—Eh!

—E da Suissa?

—Uh!

E assim ficamos, sem passar das cinco vogaes exclamativas; sem uma unica noção da justiça do povo que visitamos, como ella era administrada e repartida, sem uma unica idéa da sua arte, da sua politica, da sua religião e dos seus progressos.

A isto podia, quando muito chamar-se-lhe uma ostentação, mas nunca uma viagem.{187}

 

*

* *

 

Resumindo:

A Hespanha possue um vicio inicial de que difficilmente se libertará—a religião catholica-apostolica-romana guindada ás alturas de fanatismo.

Na sua politica, como na sua justiça, reflecte-se tristemente a contradicção, junto a um continuo mal estar de quem não tem uma noção clara da evolução que a deveria reger, e das leis que deveriam presidir ao seu desenvolvimento moral e material.

A sua arte afigurou-se-nos estar em perfeita harmonia com as suas mulheres: mais brilhante talvez, na fórma do que na concepção e no sentimento.

Entretanto, forçoso é confessar que poucos paizes ha de tão vastos recursos como a Hespanha, e porventura mesmo poucos existirão com futuro tão promettedor como ella.

Os casos das Baldomeras têem-lhe ultimamente{188} aberto os olhos para as grandes luctas da civilisação moderna, apurando-lhe o raciocinio para os insignes debates do espirito e da critica positiva.

Que tudo isso lhe seja de bom proveito, assim como Sédan o foi para a França.

 

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Mas perdão! 6 horas da madrugada. Devemos estar perto de Lisboa.

—Lisboa! Lisboa! exclama um guarda de fóra.

Assim, pois, leitor amigo, permitta-me que lhe aperte a mão, e que com tristeza me despeça da sua extrema amabilidade.

Um seu creado!

 

FIM{189}

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