Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 11 de 20

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Costumes Madrilenos

XI o Chocolate e o Café

XI

 

O CHOCOLATE E O CAFÉ

 

Eu havia realmente feito uma idéa da minha querida señorita; mas, por Deus, ella, a caprichosa, está muito acima da minha pobre imaginação.

Madrid já não é simplesmente a mulher formosa, que ao sopro da ventarola agita os olhos avidos e curiosos, inflammada na eterna chamma do amor e docemente embriagada pelo Xerez do sentimentalismo peninsular. Não. Madrid é mais alguma coisa do que isso—Madrid resume em si a altissima idéa industrial{92} do chocolate e o singularissimo pensamento politico do café.

Peço perdão, minha senhora, se porventura fui menos claro no modo de exprimir a minha idéa. Eu me explico. O chocolate é aqui o nosso companheiro inseparavel, o nosso bâton da manha e a nossa badine da noite.

Pela madrugada, ao descerrar a palpebra, ainda meio adormecida pelo vivido enthusiasmo d'este magasin pittoresco—a leitora será mansamente despertada no seu leito, não por um formosissimo sol de abril, mas sim por um mysterioso toque symbolico na porta do quarto, o que lhe indicará muito claramente que, não longe d'ali, a está esperando uma gentil creadinha com uma simples chavena de chocolate.

E, ou queira, ou não queira, ha de tomar o chocolate; do mesmo modo que, se estivesse no Brazil, havia de tomar café sempre que visitasse um amigo, e na China havia de aturar o chá vinte vezes por dia.

Ora, em caso de luta, eu prefiro o{93} chocolate, porque, emfim, nem nos torna nervosos, como o café, nem anemicos como o chá; que a fallar a verdade elle—que para a Hespanha é o caracter, o amor, a vida, a poesia, o commercio, a industria, a politica, a arte— elle, o chocolate, é sobretudo nutriente e impregnado de substancias vivificadoras.

Pobre Hespanha! Alegre filha do estreito Manzanares, eu, em ti, não canto as mulheres, nem as mantilhas de Sevilha, nem os teus risos infernaes—eu, em ti, formosa, canto, apenas, o chocolate e o café, isto é, a revolução e o futuro.

Pois julgam que não? Não acreditam na efficacia do chocolate, o escuro semsaborão? Perguntem a s. s.ª, o dono da fabrica de la Saragoza. Perguntem-lh'o. Tenham a bondade de perguntar-lhe qual é o seu consumo diariamente.

Os hespanhoes são alegres, cheios de vida, dormindo pouco, saindo muito, falladores, enthusiastas. E sabem porquê? Por causa do chocolate, o mysterioso, que traz sempre estes ventres bem fartos, e, portanto, orgulhosos de si mesmo.{94}

A Hespanha passeia muito, é ligeira nos seus affectos, caprichosa na sua politica, sonhadora, aventureira, risonha. E sabem porquê? É porque ella precisa de fazer a digestão do seu chocolate. E por isso ella, a olympica, faz duas ou tres corridas por anno por politicas differentes, e inventa revoluções, que, por causa do chocolate, apenas poderão durar poucos mezes.

As mulheres voam como andorinhas; correm de coração em coração, são seductoras, amaveis, familiares, intimamente affectuosas, mas tudo isto com azas, e portanto, com perigo.

Ora é por isso que eu ouso dar um conselho a s. s.as os srs. maridos de Hespanha—não dêem chocolate a suas esposas, se é que realmente amam mais o seu mènage do que o boulevard.

Agora o café.

É um pendant ao primeiro: ambos são negros, como suas reverendissimas os senhores jesuitas que por aqui caminham aos centos.

O café é o complemento do chocolate.{95} Vive-se n'elle, e n'elle se apura a linguagem, a toilette e o bem-senso.

As mulheres conciliam no seu coração o amor do profano e o amor do sagrado. Entram no templo catholico com o mesmo sans façon com que entram no templo social. Porque o café—talvez a leitora o ignorasse—o café é tambem um templo.

E que templo, minha querida marqueza! De tudo se encontra ali desde o fidalgo da regencia ci-devant até ao maratista sans-cullote.

Venha v. ex.ª a Madrid aprender a egualdade humana. Venha tomar aqui uma chavena de café, e verá como, embora desconheça a liberdade, v. ex.ª fallará na egualdade. Venha, minha senhora. Não se arreceie dos carlistas, que esses bandidos já hoje não vivem, e pertencem á historia.

Quando S. M., o sr. D. Affonso XII, houve por bem entrar em Madrid, depois de concluida a guerra carlista, a cidade embandeirou-se, illuminou-se, gritou, exclamou, abriu a bôcca. E sabem tudo porquê? Porque a cidade havia tomado{96} muito chocolate. Sem blague. Estavam todos fartos de chocolate, e a vingança foi digerir o patriotismo, abertamente, rasgadamente, como qualquer leão do deserto.

Só a tropa não havia tomado a sympathica droga, e, por isso, ella entrou na cidade esfarrapada, com as faces crestadas pelo sol das montanhas, que não pelo sol das batalhas, e olhos encovados e lobregos. Por isso o primeiro dever de sua magestade o sr. D. Affonso XII será mandar vestir os que estão nús e dar chocolate a quem tem fome.

Que sua magestade seja misericordioso. Que sua magestade se inspire no amor do proximo e no bem da humanidade!

Sua magestade é rapaz, que não prima pela formosura, mas que poderá, de certo, primar pelo espirito. Eu não tenho a honra de conhecer sua magestade. Sei que entrou em Madrid, e que a estas horas—tres da tarde—já terá tomado chocolate no seu palacio de la Plaza de Oriente.

Deve ser-lhe de bom proveito, porque,{97} emfim, sua magestade como primeiro cidadão do seu paiz, tem de andar sempre bem alimentado, porque muito tem que trabalhar.

Que sua magestade, portanto, haja por bem engordar e deitar fóra a magreza que o devora, e tornar-se rijo, como qualquer dos seus soldados.

Que sua magestade, como bom catholico, se digne implorar da providencia tão alta mercê.

Que sua magestade, reinando por graça de Deus, não seja frouxo nem anemico.

Que sua magestade, emfim, tome muito chocolate, para assim angariar a estima de seus subditos e o amor do proximo!

Que sua magestade não tenha pejo de entrar no café; que entre no café, que questione, que se torne hespanhol, tomando a sua capa, e passeiando pelas ruas da cidade, como qualquer humilde mortal.

Posto isto nós não temos mais que dizer a sua magestade.

E, portanto, que sua magestade passe muito bem, e me honre com as suas ordens sempre que assim lhe aprouver.{98}

 

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Entre os muitos e notaveis cafés de Madrid, avultam, principalmente, o Imperial, o Oriental, o das Columnas e o de Levante, na Puerta del Sol, o Suisso, na rua de Sevilla, o da Iberia, na Carrera de S. Jeronymo e o Fornos na rua de Alcalá.

O viajante que escolha á sua vontade; na certeza de que em todos elles encontrará vida, apetite e enthusiasmo.

Portanto—à l'aventure!{99}