Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 12 de 20

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Costumes Madrilenos

XII o Salero

XII

 

 

O SALERO

 

Por Deus, que se tivesse agora de fallar numa mulher franceza, eu, á semelhança de um prégador d'aldeia, invocaria em meu auxilio, não a virgem pura dos altares, mas sim a orgulhosa modista de sua magestade a rainha—a sr.ª D. Cecilia Fernandes.

Mas o caso é outro. Trata-se de uma cousa engraçada, de uma cousa extraordinaria, singular, de uma cousa perfeitamente real, e que não deve a sua existencia neste mundo nem a Marsoo, a modista, nem a Stellpflug, o sapateiro.{100}

Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande dama d'honor de todos os paços, do grande, do supremo Bobeche de todos os ministerios, do grande Pierrot de todos os tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do salero.

O salero! Caramba! Sabe a marqueza o que é o salero? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou Mabille; nunca dançou um can-can simples, um d'estes can-cans que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não fingia, não brincava?{101}

Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha salero, e era hespanhola.

Mas, perdoe-me a leitora, para se ter salero não basta só conhecer o Terreiro do Paço e o Rocio, ir de quando em quando a S. Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o Passeio publico, como qualquer simples burguez.

Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter salero saia de Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de andaluza, frequente todos os dias o Prado e o Retiro, entre no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo —emfim, minha querida senhora, se quizer ter salero seja hespanhola.

Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques—nós, os portuguezes, nem temos a coquetterie franceza nem a seriedade britanica; de modo, que, imitando{102} a todos, ficamos sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.

Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena lacuna deselegante, rotunda e burguesa—tal deve ser a missão da nossa mulher.

Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é que somos a riqueza, o credito e a virilidade. Nos quoque gem sumus....»

E dito isto—que mylady, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar vir uma boa carroagem Daumont; que mylord, o sr. duque, mande preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o demi-monde procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, adquirindo assim, em virtude da thesoura, o chic e a pose de quem muito viajou.

Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma unica{103} condição se requer—pagar aquillo que se deve.

Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse salero—que o comprasse nos cafés, nas calles, na Puerta del Sol, que o adquirisse no Prado e no Retiro, onde diariamente apparecem de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje 60 libras, e appareça um dia no Bois de Boulogne; decore dois ou tres bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com verve, avec de l'esprit—numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a Inglaterra.

E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do coração.{104}

Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de ardor verdadeiramente meridional—alguma cousa do facetado do crystal e da delicadeza da porcellana; nem possue o coquettismo da franceza, porque lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, nem a mènagerie da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a negação d'esse viver intimo e famillar.

Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter—ella tem o salero, isto é, o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce laisser-aller da arte, que é luz, e magnetismo—luz, que abrasa em sua chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real, selvagem como o matar de{105} um touro, o esfaquear de uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia—ella, a hespanhola, ella não é verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:—ella é um rapaz de saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade, pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as reveste.

Oh! as hespanholas! as originaes!...

As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas ella—por Deus!—ella é o que é—só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica, originalissima.

Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á propôs e tão seu, aquelle salero, e, sobre tudo isto, fazem com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e extraordinarios—a energia e o salero, isto é, o chocolate na sua consequencia digestiva{106} e physiologica—o movimento e a graça.

Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas—tomemos o chocolate e tenhamos salero.

Caramba! que salero!...{107}